Terra 2
1 Horror vacui
Seu quarto permaneceu exatamente como ele o deixou.
Com a poeira assentada em camadas, Geno não podia afastar a sensação de que estava de pé sob uma peça de museu, olhando para os restos de alguma forma paleolítica, insondável e estranha.
Seus computadores eram a maior característica do quarto: um bando de discos rígidos empilhados precariamente uns sob os outros, fios nus e entrelaçados, e dois monitores conectados um ao outro. Foi o lugar mais confortável do mundo para ele.
Lá na estante sua coleção de livros de Isaac Asimov desgastada e uma dúzia de brindes do McDonalds que Tatiana tentava trocar sem que ele percebesse, até que Geno usou seu marcador preto para escrever E.M. em cada um dos brinquedos.
Adesivos decorativos em forma de planeta enquadravam a janela; um presente de Natalia, que trabalhava na loja de dez rublos há duas quadras e colecionava essas coisas porque a fascinava. Natalia fascinava Geno, por isso as coisas entre eles funcionaram bem. As paredes brancas eram nuas de coisas como cartazes, a não ser pela sua carta de aceitação na Universidade de Moscou, presa orgulhosamente no gesso acima da cama. O texto já estava quase desaparecendo, amarelado pela exposição solar.
Ele puxou a cadeira para longe da mesa de computadores e afundou nela.
— Zhenya – sua mãe o chamou da porta – Está tudo bem?
Geno acenou sem olhar para cima. Debaixo do teclado ainda se encontravam envelopes rasgados e um quebra-cabeça faltando uma peça para terminá-lo.
- Eu não toquei em nada desde que você se foi – sua mãe continuou, como se ele tivesse dito alguma coisa. Ela suspirou lentamente – É tão bom ver você sentado aqui de novo. Parece até que o tempo não passou.
Geno acenou mais uma vez, com as mãos cuidadosamente sobre seu colo.
O silencio entre eles se estendeu, estranho, por um momento até que Tatiana veio subindo as escadas e se enfiou por baixo do braço da mãe – Ei Zhenya a mãe já te mostrou o que fizemos com o banheiro?
Ela não esperou resposta antes de acenar imperiosamente – Vem comigo!
Sua irmã mais nova ficara mais alta desde a última vez que Geno a vira; ele só tinha dezessete anos quando ela, sem a menor cerimônia, o ultrapassou em altura, e agora era ainda pior. Ela estava vestindo uma camisa do time de basquete do colégio, e óculos que Geno nem sabia que ela precisava.
Assim que Geno saiu do quarto, sua irmã o pegou em uma chave de braço e o arrastou pelo corredor.
- E agora – ela continuou alegremente enquanto eles tropeçavam juntos, tentando manter o equilíbrio – Eu quero ver todas as tatuagens que você tem. Alguém tentou recrutá-lo para uma gangue? Será que você era dono de uma gangue? Por favor, me diga que você tem uma gangue.
xTerra 2x
O horário de ônibus mudou por isso Geno conseguiu chegar milagrosos vinte minutos adiantados para sua reunião. Ele sentou nas escadas no edifício e tirou sua lata de atum em conserva do bolso, espremendo ketchup de pacote por cima e comendo com os dedos.
Havia uma mulher de meia idade mais ao canto, sentada em um banquinho com as pernas dobradas sob o corpo. Ela estava pintando, misturando suas tintas na palheta de madeira, e ele obteve um vislumbre de sua tela. As árvores e edifícios ainda são esboços em sua tela, mas o céu é de um azul impressionante, com a borda pesada e pouco visível que é a curva da Terra 2.
É um bom local para pintá-la, ele reconheceu. Com a forma que os edifícios são dispostos, Terra 2 se abre como uma bola gigante e embaçada contra o céu.
Geno levantou a cabeça para olhar a paisagem real.
Havia um cara na quadra que costumava ler jornal e sempre lhes dava informações da Terra 2, mesmo antes dos cientistas saberem. Ele dizia que a Terra e a Terra 2 eram completamente síncronas em sua órbita de rotação, por isso você só era capaz de enxergar um lado do globo, dependendo da sua localização no planeta.
Usando a lata de atum para proteger os olhos, Geno estreitou os olhos para a Terra 2. Ele podia enxergar a rica cor escura da Península Arábica daqui, mas um grande manto de nuvens obscurecia a maior parte da Índia e do Himalaia.
- Não é incrível? Já se passaram quatro anos desde que nós vimos essa coisa pela primeira vez no céu – uma voz veio de trás.
Geno virou a cabeça para ver uma jovem profissional com calças de nylon pretas. Usava um casaco verde oliva, com um café expresso na mão para afastar o frio. Ela também olhava para o céu.
- Sim – ele respondeu brevemente.
Os olhos dela se desviam para ele, registrando seu casaco de inverno que ele tinha desde os quinze anos, com calças de pijama azuis manchadas e a lata de atum com ketchup em sua mão.
- Lembra? – ela disse então, sem comentar nada – Eles anunciaram em uma hora bizarra da noite, mas naquela época era só uma estrela pequena no céu. Você lembra o que estava fazendo?
Ela sorriu, mostrando os dentes em torno da borda de isopor do copo – Eu estava voltando para casa de uma despedida de solteiro, e um cara bêbado estava falando sobre como esse novo planeta poderia comportar vida. Será que é verdade?
Você lembra o que estava fazendo?
Geno endureceu; ele nunca iria esquecer o que estava fazendo quando descobriram Terra 2: ficou sob custódia da polícia até o amanhecer. Eles estavam tentando obter uma declaração, mas tudo o que Geno poderia dizer era, A família... Eles estão bem? Será que eles sobreviveram?
- Sim – ele disse de novo e ergueu-se dos degraus, passando sem olhar para ela.
O encontro com seu conselheiro do serviço social correu bem até que Sergei trouxe à tona o assunto de um possível emprego.
- Não – Geno disse imediatamente.
Sergei deu-lhe um olhar paciente. Havia uma pequena réplica do sistema solar ao lado da foto de sua família, com uma cuia de cachimbo presa ao arame, suspendida em frente à Terra e ao lado da Lua.
Geno estendeu a mão e girou o sistema para não ter de olhar para Sergei.
- Não? – Sergei ecoou divertido. – Então você está me dizendo que está perfeitamente satisfeito em viver em cima das costas de seus pais?
- Não – Geno respondeu – Mas não quero o que você estava sugerindo também. – ele se afunda em sua cadeira estofada e murmura – Eu não quero voltar para a faculdade.
Isso pareceu ser demais para Sergei.
- Sr. Malkin – ele disse incrédulo – Você é um dos únicos na história que gabaritou uma prova de vestibular, seu QI é francamente formidável, e você foi aceito na faculdade de maior prestígio do país. Você não quer voltar a estudar?
Geno não respondeu e Sergei pôs as mãos sobre a mesa – Eu não estou nem falando em voltar para Moscovo ou qualquer outra universidade em que você conheça alguém. Já existem programas em vigor de faculdades comunitárias para ajudar jovens como você a retornar a sociedade. Não obter um diploma iria desperdiçar um cérebro como o seu.
Geno deu mais um impulso no modelo do sistema solar, vendo os dez planetas mais a lua girarem.
Sergei suspirou e deslizou seus óculos bifocais, virando-se para o computador – Bom, vamos listar seus pontos fortes então? Que tipo de emprego você gostaria?
- Algo que eu não tenha que trabalhar com pessoas – Geno respondeu – Eu sou bom com...
Com computadores, ele quase disse, mas se deteve; o Geno que vivia em seu quarto com seus livros do Asimov era o Geno bom em computadores, e não o sentado aqui nessa cadeira.
-... Com as minhas mãos. Eu sou bom com as minhas mãos. Eu gosto de construir coisas.
Sergei clicou sobre a tela.
- Bom – ele disse depois de uma longa pausa – O melhor que eu posso lhe oferecer é um emprego de zelador na St. Basil.
Geno levantou os olhos no nome familiar – O ensino médio?
- Sim.
Ele pensou sobre isso, mas não por muito tempo – Claro. Eu vou fazer isso.
xTerra 2x
Mike e Ksenia Gonchar têm sido responsáveis pela manutenção de St. Basil praticamente desde que Geno nasceu. Eles estavam pensando em se aposentar no ano que vem, então estavam à procura de alguém para substituí-los.
- Eu não achei que eles iriam contratar alguém tão jovem – Ksenia vestiu um uniforme azul desbotado pela cabeça de Geno. Era grande e ele iria ter que dobrar as mangas – Quantos anos você tem?
- Vinte e um – respondeu Geno.
Ksenia fez um som de concordância com a garganta. Ela tinha o cabelo volumoso em cachos rebeldes que pareciam pertencer a alguém vinte anos mais novo.
- Você parece um bebê para mim – ela disse, virando-se e colocando o uniforme de reposição na bancada. Ela puxou uma fita métrica e se voltou para ele – Porque não está estudando?
Geno simplesmente deu de ombros.
- Alguma vez você já trabalhou em manutenção?
Ele deu de ombros novamente e ela o estudou por cima do óculos.
St. Basil era uma escola velha, do tipo que Sania costumava tirar sarro. Um prédio de três andares enfiado no topo de um longo caminho de cascalho, com um brasão de armas incrustado em bronze no hall. O gramado rastejava até o topo, verdejante e novo, apenas para completar o quadro de grandeza. Sania costumava dizer que havia homens de jaleco e monóculos, bufando em volta de seus charutos e dizendo "pois muito bem" periodicamente. Ao invés disso há adolescentes pequenos cheios de espinhas em uniformes engomados sentados todos em grupos seletos, curvados sobre seus celulares e tablets.
Há cem anos costumava ser uma instituição mental, por isso o prédio era cheio de recantos e escadas secretas, que tornava fácil para Mike ou Ksenia desaparecerem em um lugar e aparecerem em outro misteriosamente. A chave mestra era um dos melhores benefícios de se pertencer a zeladoria.
Geno passou seu primeiro almoço do dia em um recanto atrás dos fornos, comendo restos de arroz emcharcados de molho de soja.
Ele passou cerca de dez minutos dessa maneira até que Ksenia o encontrou, com as mãos nos quadris e um sorriso compreensivo no rosto. Ela o escoltou de volta até o refeitório vazio para comer com ela e seu marido.
- Vamos lá garoto – Mike disse quando eles terminaram de comer – Eu preciso de um novo par de olhos.
Mike era quase careca (com exceção de alguns tufos brancos em torno de suas orelhas, que Ksenia dizia que ele mantinha para poder fingir não ouvi-la de vez em quando) e caminhava mancando por conta de um acidente na fabrica em que trabalhava mais jovem.
Eles perambularam pelos cantos escuros do edifício, subindo e descendo as escadas rangendo, levantando a lâmpada de óleo para pegar os pequenos morcegos que tentavam criar ninho sobre as vigas. Mike lhe mostrou como matá-los com um apertão certeiro na parte mole de seus cérebros por trás das orelhas.
Tatiana estava em frente a casa naquela noite, com uma bola de basquete e praticando arremessos com as mãos e rosto vermelhos de frio.
- Ei! – ela sorriu – Então, como foi a limpeza com os idiotas do ensino médio?
- Você está no ensino médio também – ele apontou, desviando-se dela para entrar em casa.
- Como eu disse: idiotas.
Ele parou no degrau, inclinando a cabeça e fingiu pensar sobre isso – Eu costumava trocar suas fraudas também, lembra? Não é tão diferente disso. Menos mau cheiro.
Tatiana gritou em protesto e arremessou a bola contra ele.
xTerra 2x
Para o resto do mês Magnitogorsk pareceu entrar em um congelador.
Disseram-lhe que a melhor coisa para ele fazer era estabelecer uma rotina, da mesma forma quando um ente querido morre ou quando você se muda para outro lugar no planeta: algo para manter-se ocupado, de modo que você não tinha tempo para se perder em sua própria cabeça.
Intencionalmente ou não, foi uma rotina que Geno formou. Ele levantava antes do amanhecer, de segunda a sexta, porque era uma caminhada de meia hora até o ponto de ônibus e mais vinte minutos para a escola, para ele chegar lá antes do sino de 07:55.
Na varanda ele subiu o capuz sobre a cabeça, com a névoa congelando a frente de seu rosto, angulando os ombros contra o frio. Nada se mexia de manhã, não havia nenhum som ali. Sem carros funcionando ou pessoas limpando a neve do para-brisa. Apenas as botas de Geno esmagando as crostas duras de neve.
Ele se lembrou de quando tinha dezesseis, pulando sobre as muretas para chegar até a avenida, onde Sania já estava parado no meio-fio com a caminhonete velha de seu pai.
Caralho Geno, você não tem outro sapato?, Sania costumava exigir de vez em quando, e Geno iria verificar seus pés para determinar o que estava usando: um par de chinelos adidas, geralmente cobertos por cristais de gelo.
Era o que eu tinha mais perto da cama, ele iria responder na defensiva, brincando com os botões do radio e tentando não tornar óbvio que ele estava redirecionando a entrada de ar quente para si mesmo.
Está tudo bem, Sania o tranquilizava, tão democrático quanto possível.
Geno sentia falta de Alexander, assim como você sente falta sempre que seus melhores amigos deixam de ser melhores amigos, da mesma forma quando você perde um órgão interno menor, ou um programa de TV que passava no mesmo horário desde quando você nasceu.
Eles haviam solicitado um dormitório juntos na Universidade de Moscou. Melhor alguém que eu conheço e posso gritar do que um desconhecido folgado, Sania brincava na época e Geno se perguntou se a universidade ficou sabendo do que aconteceu com ele ou se eles deram um quarto inteiro só para Sania.
Quando ele chegou ao ponto de ônibus, o nevoeiro já havia recuado o bastante para somente iluminar o céu com pérolas submarinas. Havia uma mulher na casa da esquina, em que sempre havia luz no quarto do andar de cima. As cortinas estavam puxadas e, tanto quanto Geno sabia, ela era a única pessoa acordada do bairro, enrolada em sua poltrona com um livro aberto no colo e as mãos envolvidas em uma caneca cheia de vapores, enrolando mechas do seu cabelo sob os templos.
Às vezes ela chorava, com o rosto coberto sob uma mão, e Geno assistia a linha tremula de suas costas do ponto de ônibus, sem saber o que fazer. Ela nunca olhava para rua e nunca o via, por isso era quase como se ambos habitassem mundos completamente distintos.
Uma vez, sentado no ponto e observando-a ler, Geno acabou caindo no sono.
Ele teve um sonho, um amontoado inquietante de detalhes pululando por trás das pálpebras, de estar agachado por trás do balcão da Korbaiov, com as luzes do teto brilhantes; deixando tudo parecer estranhamente como papel machê. Seus ombros e cotovelos doeram da memória fantasma, embora quando ele olhou para baixo, suas mãos estavam vazias.
Nunca soube o que fizera com a arma.
Havia sangue também, é claro que havia, até mesmo nas dobras das suas pálpebras havia sangue (ninguém nunca disse como o ser humano pode espalhar sangue tão facilmente), a propagação tranquila e constante de poças sob o linóleo à sua frente, levando consigo pedaços escuros e embebidos de carne não identificável, pedacinhos presos sob as prateleiras...
Uma memória que ele tem visitado tantas vezes que se, alguém um dia desvendasse o seu código genético, provavelmente encontraria isso bem no meio; sujeira, poeira e sangue.
A máquina de gelo ainda estava funcionando no fundo, mas não foi seu barulho engasgado ou sacudidela que acordou Geno de seu sono e sim o motor do ônibus, roncando até o meio-fio.
A propaganda na lateral dizia que eles estão utilizando energia 25% mais eficiente, com uma nova fórmula de etanol brasileiro, graças à política externa amigável do BRIC. Natalia e Sania costumavam desprezar anúncios assim e declaravam ser alérgicos a mentiras. Geno olhou para o lado por hábito, mas é claro que eles não estavam mais lá.
Então ele respirou fundo o ar pesado, sentindo a ardência do frio, e disse a si mesmo que estava imaginando o cheiro forte de cobre.
Ele não adormeceu mais na parada de ônibus.
xTerra 2x
Sua mãe tentou entrar em seu quarto um dia para dizer-lhe que ela e seu pai estão saindo para ver as luzes de natal no palácio de Moscou, mas a porta estava trancada. Isso a assustou, porque em todos os anos de existência, Geno nunca trancou a porta, nem mesmo nas brigas particularmente ruins durante sua puberdade, nem quando ele precisava se masturbar.
Ele ouviu a voz dela chamá-lo com um tom assustador e rola para fora da cama, puxando a porta para o sótão.
- Mãe – ele chamou de cima, e ela o olhou com os olhos arregalados.
- Geno – ela suspirou, piscando como se estivesse contra um vento forte – Por que você está no sótão?
Ao invés de responder, ele puxou a porta e desenroscou a escada até o tapete do corredor.
- Ah – sua mãe disse tranquilamente quando sobiu para o lado dele – Isso é... Eu gosto do que você fez aqui.
Tudo o que eles tinham no sótão era poeira acumulada, algumas caixas de documentos e uma séria infestação de aranhas. As caixas ainda estavam lá, mas foram empilhadas para um lado, deixando a maior parte do sótão livre, em que Geno jogou um colchão e sua mala de roupas em frente ao beiral.
A única coisa que o seguiu para o sótão foi a coleção adesiva de planetas de Natalia, seu laptop, uma lâmpada comprida de leitura em que ele pendurou seu macacão de trabalho e outras ferramentas aos pés.
- É bem... rústico – sua mãe decidiu e Geno quase riu de sua escolha de palavras – Eu vou lavar outro conjunto de lençóis para você.
Geno acenou, sem se preocupar em dizer a ela que ele já tinha lavado seus lençóis. O antigo Geno não iria se preocupar em lavar suas próprias roupas quando seus pais faziam isso por ele, mas Geno não é mais aquele menino de olhos arregalados. Seus pais gostavam de esquecer, ele supunha.
Ela fez um som melancólico, alisando os cobertores de Geno – Acho que é melhor... Um novo começo, não é?
Geno acenou novamente, feliz que não tinha que explicar a ela o quanto seu quarto parecia como um túmulo de alguém falecido, o quanto era impossível andar por lá sem se sentir como se estivesse perturbando algo atemporal e preso no âmbar, um memorial.
- Geno, o que você fez com as mãos?
Seu tom mudou completamente e ela capturou seus pulsos, segurando suas mãos contra a luz para examiná-las. As lesões eram parecidas nos dois lados, vergões vermelhos que se abriam sob seus dedos e polegares.
- Trabalho – Geno deu de ombros.
Os adolescentes de St. Basil gostavam de usar as portas do banheiro como uma espécie de fórum e, antes de ir para casa na sexta, Geno tinha que esfregar água sanitária para limpar conversas inteiras feitas com grafite e linhas ásperas de caneta esferográfica. Era mais fácil fazer sem luva, porque assim ele podia sentir o que estava fazendo, mas deixava suas mãos machucadas e doloridas.
Sua mãe faz uma expressão horrível e Geno encosta a bochecha em seu ombro, num pedido de desculpas.
- O festival de luzes – disse Geno – Tatiana vai?
- Eu acho que ela vai com o namorado – ela responde, e fixa espantada com a expressão no rosto dele – O quê?
- Eu não gosto dele – disse Geno imediatamente, embora ele nunca conheceu o cara.
Era estranho, especialmente sabendo que quando ele foi embora Tatiana era uma criança desengonçada de treze anos, e agora ela já está fazendo coisas que Geno nunca esperava em sua irmã mais nova, como desenvolver relacionamentos com pessoas de cromossomo Y.
- Ele quer ir para Petersburg – elaborou Geno – Ele tem que ser um perdedor.
Funcionou. Sua mãe soltou um riso e deu-lhe um abraço.
xTerra 2x
O festival de luzes era exatamente como ele se lembrava: inesperadamente bonito e um pouco assustador, com lâmpadas fluorescentes em branco, azul e verde, espirais suspensas por arames sobre suas cabeças, coloridas em vários tons das três cores principais.
Geno não precisa perguntar de onde a inspiração vem, não com a curva de meia-lua da Terra 2 claramente visível por entre os prédios históricos.
Ele ainda não sabe como digerir a experiência de acordar todos os dias para ver um novo planeta pendurado no céu como uma lanterna de papel.
Supostamente, no inicio, era apenas uma pequena estrela azul-verde no céu, não maior que um avião em movimento, mas que tinha ultrapassado todos os conceitos da física, golpeando astrônomos, astrofísicos e cientistas, deixando-os estupefatos, porque, de onde diabos aquilo veio?
Estava muito mais perto agora, quatro anos mais tarde da descoberta. Era até mesmo maior que o sol, uma curva esfumaçada enorme no céu, visível mesmo através das nuvens.
Muitas pessoas acreditavam que Terra 2 iria destruí-los. É um pensamento lógico, quando você considera que Terra 2 estava ficando mais perto, ao invés da maioria dos objetos que estavam ficando mais longe da Terra.
Ambos os planetas tinham massa, rotação e gravidade. O que aconteceria se eles colidissem? Naquele ritmo, uma colisão estava se tornando um destino certo.
Geno via as pessoas de pé sobre suas lojas, escritórios e casas, parando na calçada para observar o enorme planeta acima deles, pensando talvez nas medidas para garantir redenção em face da destruição catastrófica.
Era engraçado, de certo modo.
Todo mundo esperava que o apocalipse acontecesse com muito mais gritos. Arrependei-vos, arrependei-vos em nome de Jesus Cristo. Essa opressão, esse silêncio de olhos arregalados era muito mais apavorante que gritos.
Geno não sabe mais no que acreditar.
xTerra 2x
- Você já ouviu falar sobre o PIET?
- PIET – ele repetiu, tirando a bateria do laptop.
Geno olha do Mac Os em suas mãos para Tatiana, sentada ao seu lado no colchão. Ela lhe passa a chave de fenda obedientemente e ele começa a trabalhar para verificar seu computador portátil. Geno não conhecia esse modelo, mas tinha o cérebro de um gênio, por isso era tudo uma questão de tempo.
- PIET – disse novamente – O Programa de Inteligência Extra-Terrestre, ou SETI, sua sigla correta em inglês.
- Sim, a do observatório na América Central.
- Eu sei o que é. Eles captam as ondas de rádio do espaço, uma vez que a matemática e o espectro de ondas são modos universais de comunicação.
- Sim – ela concordou – Você realmente precisa de um corte de cabelo. Não cortou enquanto estava lá dentro?
- Não – ele respondeu – O cabelo só cresce durante um determinado tempo. Cada folículo tem um comprimento máximo para crescer antes que ele caia. Eu estava disposto a ficar com uma juba como você, mas assim como o resto de mim, meu cabelo fracassou.
A boca de Tatiana se abriu para protestar que Geno nunca foi um fracasso na vida, mas ele continuou rapidamente – E quanto ao PIET?
Ela se deixou distrair – Eles pegaram as ondas de rádio de Terra 2. Não conseguiram codificar tudo ainda, mas...
Suas mãos pararam e ela ficou imóvel.
- Mas há pessoas lá – ele terminou por ela.
Tatiana acenou com a cabeça.
Ele se inclinou contra a parede – Há vida naquele planeta, nós não somos os únicos...
- Eu sei – ela disse – Quero dizer, nós já pensávamos nisso uma vez que a formação terrestre deles parece muito com a nossa, mas Geno. Geno, poderíamos entrar em contato com eles!
xTerra 2x
Na segunda-feira tudo o que se falava era sobre Terra 2, e o tempo estava bizarro, sem conseguir se decidir se era inverno ou não. As temperaturas variavam tentadoramente perto do zero e Ksenia passou o dia esfregando os joelhos.
No radio, um talk-show crepita com um pouco de estática e o convidado do dia vocifera sobre a impossibilidade astronômica de mandar uma nave para Terra 2, sendo que o planeta estava compartilhando a lua, na mesma esfera orbital e ostentando uma atmosfera compatível. O quão bizarro o planeta era uma réplica exata da Terra, contendo até mesmo cidades e uma civilização desenvolvida.
- Eu sempre esqueço que você perdeu um monte dessa informações – disse Ksenia para ele enquanto eles lidavam com um banheiro no segundo andar.
Os Gonchar sabiam que ele era um criminoso, é claro. Seria meio difícil não saber, já que Geno teve de preencher o dobro de papelada do que provavelmente era necessário para liderar um pequeno país na Europa.
O registro estava selado, porque ele tinha apenas dezessete anos quando o suposto crime aconteceu, então eles não tinham ideia do porquê Geno foi para a prisão.
Geno não ofereceu explicação. Ele achava que "Atirei à queima roupa em um casal de meia idade e seu filho" não era o tipo de coisa que você podia dizer em uma frase só.
Ele têm sonhos agitados e sangrentos. Nunca esqueceu o que foi conviver com aqueles jovens violentos e fodidos, a maioria deles sob acusação de porte de drogas, armas ou furto.
Havia o cara enorme com mau-hálito que sempre exigia: E quanto a você, cachinhos dourados? O que vai fazer quando vai sair?
E Geno tinha lhe dado um olhar odioso e pensado, Não matar pessoas, senhor. Mas ele nunca disse nada.
O objetivo da prisão era endurecer você. Mas tudo o que fez foi silenciar Geno.
Você também não recebia muitas notícias do mundo lá fora, por isso você vai desculpar Geno se ele não sabia muito sobre Terra 2 enquanto sobrevivia por quatro anos em uma cela de três por quatro metros.
xTerra 2x
Notas finais
Evgeni = Geno ou Zhenya
Alexander = Sania ou Sasha
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