Teria sido maravilhoso
1 Capítulo I - Sobreviver
4 anos atrás
Catherine estava nervosa. Ela olhava para cima enquanto suas mãos descansavam na barriga, provavelmente estava pensando o por quê dos hospitais serem tão brancos, ou o por quê dele cheirar tão mal, ou talvez, estivesse pensando o que ela tinha de tão mal para estar num local como esse. Uma enfermeira já tinha vindo pegar amostras de sangue duas vezes nesse dia, havia uma bolsa de sangue próxima de si para o caso de alguma emergência, estava tomando soro da veia, e sentia a mão de sua mãe apertar a sua sua cada vez mais forte conforme ela voltava de suas conversas com o médico. Então, olhando para o teto branco, imaginou com sua criatividade fértil de treze anos um anjo. Não do tipo que se vê em pinturas renascentistas, mas sim do tipo que a nossa própria cabeça cria, com uma aparência e personalidade específica. Ela criou o seu próprio anjo da guarda, pois já sentia que algo não estava certo.
— Boa tarde, Catherine Thompson?
Ela mudou a direção de seu olhar do teto para a porta, nela, uma médica jovem, loira de olhos castanhos e pequenas sardas na bochecha, carregava uma prancheta e um sorriso que já mostrava que algo estava errado com a paciente. Fazendo um sinal de afirmação, a médica de aproxima da garota de cabelos negros e de aparência um pouco pálida e após ela sorrir para a mãe da mesma, que sentava na poltrona ao lado da cama, e ela teve a confirmação que algo estava muito errado mesmo.
— Bem, nós temos o resultado dos seus exames. – a médica fala para Catherine – Logo o doutor O'Neil chegará e manterá vocês a par da situação.
— Vamos, diga. Não precisamos esperar por ele.
— Catherine! Tenha respeito pela doutora, seja paciente. – reprova Sarah, sua mãe. Logo, a mesma se volta a mulher de jaleco branco – Nos perdoe por isso.
— Eu só quero ir para casa – diz ela arrancando assim um suspiro sôfrego da mulher loira.
— Olha, o doutor...
— Cheguei muito atrasado?
O tom de voz levemente brincalhão se fez presente, um homem de cerca de 38 anos de cabelos negros entrou na sala com o melhor sorriso motivador que podia dar, pois ele sabia que veria aquela paciente por muito mais tempo. Ele se aproxima da cama hospitalar e coloca as mãos na cintura, Sarah se levanta com a típica expressão materna de mãe preocupada, não se pode culpá-la, ver a própria filha numa situação como essa não era a coisa mais fácil de se lidar.
— Então... Catherine não é? – começa o homem tentando puxar papo furado.
— Prefiro Catty, quando eles falam Catherine parece que estão bravos comigo. – responde a paciente fazendo um leve sinal para sua mãe quando citou o último termo.
— Oh sim, então, Catty – a tão temida expressão de seriedade se faz presente no rosto do doutor – Há quanto tempo você sentia essas dores de cabeça mesmo?
— Umas três semanas, se acentuaram de ontem para hoje – responde Sarah recebendo um olhar feio da filha.
— Eu vi a cor do meu sangue quando a enfermeira o tirou hoje, tem algo errado não é? – pergunta Catty olhando para ambos os médicos ao seu lado.
Não que ela fosse uma aluna exemplar em biologia, mas como toda pessoa normal, ela se assustou quando viu a seringa da enfermeira retirar de si um líquido que ao seu ver não se parecia nada com sangue, só de ver a olho nu era possível perceber o aspecto leitoso e um tanto clareado, parecia que faltava aquele tom vermelho descrito nos livros de romance policial.
— Catty, eu me chamo Karoline Jones, sou a pediatra que irá te explicar a sua situação atual por ter bastante experiência nela.
— Desculpe, eu não estou entendendo. – diz a Thompson se remexendo na cama enquanto olhava um tanto assustada para ambos.
— Infelizmente, no seu exame, foram detectados linfócitos anômalos no seu sangue, sem contar que o nível de glóbulos vermelhos está muito baixo.
— Com anômalos você quer dizer... – a voz da mãe da jovem de treze anos falha.
— Ela quer dizer que, os glóbulos brancos da Catty sofreram uma mutação se transformando em células cancerosas. – esclarece o homem de cabelos morenos por fim.
Ah sim, o câncer. O mal do grande século XXI, avançamos tanto mas não conseguimos conter um mal como esse que se estende por milênios, ele sempre esteve lá, só que antes, as pessoas morriam por tuberculose, varíola ou coisas assim, não tinham tempo para o câncer, ou melhor, não conseguiam acreditar que ele existia. Mas ele existia, ele sempre existiu.
— Devido a essa mutação, ao invés dos glóbulos brancos fazerem o seu papel de te proteger contra outras doenças ele mata as suas hemácias, causando uma baixa redução delas interferindo assim na distribuição de oxigênio pelo seu organismo. – como doutora, ela era obrigada a explicar passo a passo o que estava acontecendo na saúde do paciente – Catty... você foi diagnosticada com leucemia. Sinto muito.
Também conhecida como câncer do sangue, a leucemia é considerada por muitos oncologistas o câncer em sua forma mais violenta, fazendo que até mesmo o singelo corte com papel seja motivo de um risco a própria vida. Catherine não era formada em medicina, mas sabia que o câncer era uma doença catastrófica, que ia se tornando mais poderoso com o tempo. E também sabia que eram poucas as pessoas que venciam isso com vida.
— Por sorte, ele ainda não está tão avançado – continua o doutor O'Neil – O recomendável seria começar o quanto antes a quimioterapia.
Por sorte? Pensou Catherine. Não existe nenhuma sorte nisso, estática com a notícia ela não sabia como reagir, no final desse anos ela iria para um acampamento com os amigos, faria alguma loucura, teria o seu primeiro beijo, essa era sua expectativa para os seus tão sonhados treze anos. Não havia nada semelhante a rotina que agora se instalaria em sua vida. Ela respirou fundo, olhou para o lado e viu sua mãe desabando em lágrimas, olhou para o outro e viu o olhar tristinho dos médicos, nunca fora algo otimista, mas não havia outra opção a não ser embarcar nessa pensando no melhor.
— Qual é a chance? – Karoline arqueou a sobrancelha ao ver a jovem se dirigindo até si – Qual a chance de cura?
— O seu tipo de doença é o que chamamos de leucemia linfóide aguda, ela se desenvolve muito rapidamente, por isso devemos agir assim também para prevenir maiores danos como a metástase. Todavia, ela geralmente, é curável. Uma chance de aproximadamente 30%.
30%. Supomos que existam 10 pessoas com leucemia, apenas 3 delas irão sobreviver, isso se não houver nenhuma complicação obviamente. Não era a melhor chance, mas ainda assim, era a sua única chance. E Catty iria agarrá-la com toda a sua força, ela não iria morrer ali. Ela não queria morrer ali.
— O que eu preciso fazer?
Atualmente
— Kelly sua safada! Eu não acredito que você ficou com o doutor Brown!
— Quer um megafone? Acho que a área de pediatria ainda não ouviu.
Lá estava ela, Catherine Thompson, novamente no hospital. Na verdade, já fazia um ano que saiu definitivamente da internação após os médicos darem a si a brilhante notícia que a leucemia aparentemente havia desaparecido, mas ainda vinha ao hospital de dois em dois meses para fazer exames de check up, a fim de garantir que estava tudo certo. Agora, não existia mais uma garotinha com medo de morrer, agora, ela era uma jovem de 17 anos com os cabelos morenos curtos que iam até um pouco depois dos ombros, as unhas pintadas uma de cada cor e um sorriso alegre em seu rosto. A mulher em sua frente, um pouco mais velha que si, era uma das enfermeiras que mais a visitava durante sua estadia na instituição, e o assunto preferido delas sempre foi a vida sexual de Kelly.
— Isso é um absurdo. Ele é muito velho para você – ri Catherine da cara fechada, todavia, sente uma picada sem aviso algum – Ai!
— Ainda não aprendeu? Não ria de quem está tirando o seu sangue, eu posso ser bem sádica. – responde ela num tom irônico enquanto puxava a seringa – Mas e aí? Arrumou algum namorado?
— Ainda não, para muitos eu ainda sou a garota com câncer. Eles me tratam como se eu fosse quebrar a qualquer momento sabe? – Catty dá uma bufada de ar gesticulando com a mão direita – Eu quero alguém com pegada sabe?
— Você tem quantos anos mesmo mocinha?
O sangue dela gelou ao ouvir a voz de sua mãe atrás de si, o sorriso forçado se fez presente no rosto da menor. Enquanto Kelly, que terminou de tirar o sangue dela, deu uma de fugitiva.
Traidora, pensou ela.
— Mãe, já tivemos essa conversa. – explica ela se sentando na maca.
— Eu sei, mas ainda acho você muito nova para essa coisas filha.
Esqueci de dizer que Sarah é o tipo de mãe superprotetora, do tipo que quando descobriu o diagnóstico da filha passou noites em claro pesquisando sobre a doença e chegando a comprar livros sobre a mesma, ela é o tipo de mãe que moveria os céus se fosse preciso para salvar Catherine. É uma mãe solteira, o marido a abandonou quando a filha tinha apenas dois anos, ela o amava, mas precisava seguir em frente, pelo bem daquela criança. No início foi difícil, havia acabado de se formar em arquitetura e encontrar um trabalho não foi fácil, teve que contar com a ajuda da vizinha para cuidar de Catty enquanto saia em entrevistas. Também houve problemas com a creche, a garotinha era muito apegada a sua mãe e por isso foi complicado a sua adaptação em um local como aquele. Sarah era uma mãe leoa, e com o tempo, conseguiu uma boa condição financeira e um apartamento decente onde criou sua filha com muito amor e carinho.
— Eu tenho dezessete anos.
— Vamos encerrar o assunto? – diz Sarah colocando um ponto final – O Ethan diz que está "exigindo" sua presença no quarto dele. Vá dar um oi enquanto eu vejo se está tudo terminado por hoje.
— Aquele idiota. – sorri dando um pulo da maca ao chão enquanto corria pelos corredores do local.
— Isso é um hospital, não corra Catherine.
Deixando a voz da sua mãe para trás, ela rapidamente pega o elevador subindo para o terceiro andar, já sabia onde era o quarto dele. Saltitando alegremente pelos corredores, as pessoas a olhavam e a cumprimentavam, ela já conhecia quase todos no lugar. Sempre que um paciente com leucemia chega num hospital é uma agitação que só, exames para cá e para lá, verificação dos sinais vitais a cada meia hora ou coisas assim. Chegando no quarto 349, ela nem ao menos bateu a porta e já foi entrando como se fosse dona do lugar.
— E o que temos aqui? Oh sim, uma Catherine Thompson entrando normalmente depois de ignorar seu melhor amigo por uma semana.
Ethan Foster, o melhor amigo da jovem. Eles se conheceram um pouco após dela receber o seu diagnóstico sobre a leucemia, o humor inconsequente dele a conquistou e deu luz para aquele momento de trevas. Ethan tinha um tumor no cérebro, ele não teve o devido tratamento pois seus pais não tinham uma boa condição financeira, o que contribuiu para que ele aumentasse e se tornasse câncer. Ambos se tornaram amigos, faziam piadas de suas próprias desgraças, pregavam peças nas enfermeiras que quase morrerem de susto, entre outras coisas que os faziam esquecer daquela situação.
— Eu já falei Ethan! Semana de prova, minha mãe nem deixava eu olhar para o meu celular e muito menos sair de casa.
— Sei, eu te perdoo já que você insiste. – diz ele dando um sorriso ladino.
— Mas me diga, o que eu perdi por aqui? – Catty se senta nos pés da cama hospitalar.
— O de sempre, gente morrendo, pessoas hipocondríacas acabando que tem fibrose cística ou coisa assim. – a expressão de animação veio de repente no rosto do Foster – Sabe aquele velhote que ficava no lado do seu quarto que xingava a gente todo dia falando que esses adolescentes são um bando de safdos?
— Como eu poderia esquecer? Ele quase fez minha mãe pirar.
— Então, eu tava andando por aí com a Kelly e a porta do quarto dele estava aberta. A esposa dele havia pegado ele em flagrante assistindo pornografia, pensa numa treta, ela jogou que ele é ruim de cama, dizendo que até mesmo uma banana a satisfazia melhor que ele! Uma banana!
E ambos caíram na risada como nos velhos tempos, e ficaram assim por algum tempo, conversando sobre as reviravoltas da vida e rindo na cara do perigo. Poderiam passar horas conversando, se não fosse o celular de Catherine notificando uma nova mensagem.
— Droga.
— O que foi?
— Parecem que querem fazer uma tomografia em mim, só para terem certeza que não há nada de errado comigo.
— Médicos são estraga prazeres mesmo.
— Bom, eu tenho que ir. – suspira ela se levantando e dando um peteleco na bochecha de Ethan – Me avise quando marcar a cirurgia ein.
— Não prometo nada.
— Até depois Big Mac – se depende ela usando o seu apelido rindo enquanto fechava a porta.
— Vai se ferrar Catherine!
Ela sorriu ao sair do quarto, suspirou fundo. Ethan estava numa situação triste, sua família batalhava duro pelo dinheiro e não possuía tempo, por mais que quisessem, para passar toda essa trama ao lado dele. Não que ele não fosse grato por isso, o mesmo amava os pais e tinha orgulho da batalha que eles travavam por si, mas se sentir solitário era algo que não se podia controlar, ainda mais que eles iriam fazer uma cirurgia para retirar parte do tumor.
Ela afastou esses pensamentos e seguiu em direção ao elevador novamente, não precisou perguntar onde era a sala de tomografia, já conhecia o hospital pela palma de sua mão, afinal, não há quem aguente ficar deitada numa cama durante dois anos. Enquanto cantarolava uma das músicas da Ariana Grande ela entrou no elevador e apertou um dos botões, a porta estava se fechando mas uma mão a impede. Catherine sorri ao ver que era Kelly.
— Que pressa ein…
— São seus exames garota, iremos juntas para a sua tomografia. – diz a mulher de cabelos cacheados.
— Vai me dizer o que eu tenho então? – questiona curiosa.
— Você acha que eu tenho tempo de abrir os exames dos pacientes para saber a doença que eles têm?
— Acho.
— Você é insuportável. – resmunga Kelly.
— Eu sei que você me ama – responde dando uma piscadela.
— Convencida.
A porta se abre e ambas sorriem enquanto andam pelo corredor. Não demora muito para que elas cheguem na sala de tomografia onde os doutores Robert O'Neil e Karoline Jones os esperavam. Embora Karoline não fosse exatamente quem cuidava da sua doença, ela comparecia as cirurgias caso houvesse alguma complicação, afinal, ela era a cirurgiã pediátrica, além de também levantar o humor da Thompson é claro. E o O'Neil? Bem, ele era um verdadeiro palhaço, ele é aquele tipo de tio que faz a piada do pavê no Natal, ela gostava dele, o achava engraçado mas ainda sim, competente.
— Catty! Minha paciente predileta! – comprimenta o doutor O'Neil – Como está?
— Bem melhor do que antes eu acho. – o seu olhar vai para a médica loira – Olá doutora Jones!
— Muito bom ver você querida, vim ver a sua provável última tomografia! – diz animada. Ah sim, havia chances dessa ser a última vez que ela viria no hospital para fazer esse tipo de exames, não poderia estar mais ansiosa – Venha, irei te ajudar a se ajeitar no aparelho.
Depois de um tempo, Catherine já estava deitada, imóvel e pronta para entrar em um dos locais mais temidos dos claustrofóbicos. Demorava cerca de uns vinte minutos para o resultado sair, em meio disso ela ficava deitada, olhando para o teto branco enquanto pensava em coisas aleatórias. Dessa vez, ela olhou para cima e viu o seu anjo, como na primeira vez que viu o teto branco com a notícia que poderia ter destruído a sua vida, ela sorriu, e ele também. Não conseguia ver os médicos, mas sabia que nesse momento Kelly já havia entregado os exames e saído dali, sua mãe também estaria ali provavelmente, de acordo com Karoline ela estava pegando um café antes. O tempo passou, e sentiu a máquina se mover a trazendo de volta, a loira rapidamente foi ao seu lado caso precisasse se auxiliar em algo, Catherine percebeu que ela nos lhe olhava nos olhos, estranhou isso.
— Hey, e então? Tudo certo? – perguntou sorridente saindo do local tomográfico.
— Catty… – o tom de voz dele denunciava algo errado – Não há maneira fácil de dizer isso. Mas pelos os seus exames... é possível que a leucemia tenha voltado.
— Além disso – continua Karoline com um olhar tristonho – Pelo o que vimos aqui, existe um tumor pequeno localizado no seu pulmão direito. Possível metástase. Nosso medo atualmente é que ele atinga outras áreas e órgãos vitais.
O chão da Thompson caiu. Esses dois anos de luta não significaram nada? Ela tomou todos aqueles remédios diários, realizou cirurgias e implantações na medula óssea por nada? Viu sua mãe chorar compulsivamente todas as noites, fez a quimioterapia a risca e torcer para que alguém compatível quisesse doar uma parte de si para ela por nada? Isso não era justo! As lágrimas invadiram os seus olhos, ela já sabia o que vinha pela frente, se o câncer havia sobrevivido a tudo aquilo é porque ele estava mais forte, e consequentemente, ela teria que ser mais forte para bater de frente com ele. Teve vontade de desistir, mas pensou em todas as pessoas em sua volta com o intuito de afastar esse pensamento. Kelly, a enfermeira que sempre que podia ia lhe contar as fofocas sobre o hospital, Ethan, que lutava bravamente pela sua vida sem os seus pais ao seu lado mas ainda sim lutava, os doutores em sua frente que sempre lhe apoiaram e fizeram todo o possível para ajudá-la em sua recuperação, e pensou em Sarah, sua mãe, aquela que nunca desistiu de si, ela não podia fazer isso com ela.
— Sentimos muito Catty. – se pronuncia o doutor O'Neil.
— O que eu preciso fazer? – perguntou ela sentindo um bolo se formar na sua garganta ao receber a mesma resposta de quatro anos atrás.
— Você precisa sobreviver.
Notas finais
De qualquer forma, espero que tenham gostado do capítulo, eu me esforcei muito para deixá-lo agradável. Beijos de álcool em gel.
Fale com o autor