Terceiros
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Eu estava tomando sol e começando a ler "Cidades de Papel", do John Green, na beira da praia. Realmente era uma praia meio vazia, e como não era fim de semana nem nada, estava praticamente deserta. Às únicas pessoas eram eu, o salva vidas e alguns pescadores com suas famílias. Cath tinha ficado em casa para arrumar as coisas e me dar um tempo. Eu não sabia que a família dela tinha morrido, mas eu deveria, até por que conheço ela à muito tempo. Uma coisa que me deixou intrigada foi porque ela não tentou recomeçar. Cath tinha 34 anos, e não era feia. Uma resposta que passou pela minha cabeça foi o amor. Será que o amor é mesmo tão forte à ponto de prender uma pessoa a outra mesmo depois da morte? Porque meu pai se apaixonou por outra pessoa tão rápido? Porque ele não amava ela. É a única explicação lógica.
Alguém fez sombra em cima de mim:
–-- Com licença, estou tentando me bronzear um pouco...
O sujeito riu, e reconheci a risada debochada na mesma hora. Me virei e vi Leo com um sorriso safado, confirmando o que eu desconfiava.
–-- O que você está fazendo aqui?
Falei guardando meu livro na bolsa, mas continuei deitada de barriga pra baixo na cadeira de praia.
–-- Estou fazendo o que protetores fazem ué. Porque? Não gostou de me ver?
Encarei ele. Na verdade parei pra ver como ele estava: usava uma Bermuda de banho até os joelhos que tinha uma estampa do por do sol, e óculos. Admito que não imaginava o corpo dele da forma que realmente era: musculoso, alto, e não tão branquelo como eu pensava.
–-- Na verdade achei sua visita ótima.
Estavamos caminhando pela beira da praia à um tempo. Claro que antes liguei pra Cath avisando que eu tinha encontrado um amigo e que ìamos caminhar, o que ela respondeu com um forte "Quando você voltar vamos ter uma longa conversa sobre esse amigo" .
–-- Como é essa coisa de protetor? Tipo, você recebe uma lista sobre mim todo ano e tem um tipo de localizador estranho dentro de mim pra você saber onde eu estou?
Ele riu alto e balançou a cabeça:
–-- Não e não. Você quer mesmo saber tudo isso?
–-- Quero ué. Tipo, eu preciso saber. É caso de sobrevivencia. Literalmente.
Eu ri enquanto ele estendia uma esteira na areia, e depois fez sinal para eu me sentar. Nos sentamos, e ele suspirou fundo, exatamente do jeito naquele dia na escola, antes de ele me dizer sobre os super soldados e tal. Eu estava virada de frente para o mar, e ele estava de perna cruzada de frente para meu lado esquerdo. O que foi estranho é que nunca me senti tão a vontade e tão estranha perto de um garoto. A esteira era pequena, então o ar da respiração dele batia no meu ombro, enquanto ele bricava com meu cabelo.
–-- As informações vem como pensamento. Por exemplo, se hoje à noite você mudar sua cor favorita, eu provavelmente vou sonhar com isso, ou sei lá. É estranho, mas prático. Assim eu posso saber tudo sobre você antes mesmo de saber seu nome.
Vi por canto de olho que ele estava com um sorriso estranho.
–-- Que esquisito.
–-- Pois é... E sobre saber onde você está, é tipo um GPS. Daqui um tempo você também vai saber se eu estou perto e tal. A marca... Ela meio que avisa.
–-- Quer dizer que você sabe tudo sobre mim?
Perguntei de um jeito desafiador:
–-- Pode começar a perguntar, sei tudinho.
Então começei com perguntas como comida favorita, cor, e coisas de quando eu era pequena, tipo: "quantas festas de aniversario eu tive em toda a minha vida", e todas ele respondia perfeitamente.
–-- Ta, essas foram nivel facil. Quero que você me fale alguma coisa sem eu falar nada. Alguma coisa que ninguem saiba.
Ele me encarou com uma pergunta silenciosa: "tem certeza?" Ergui os olhos, esperando minha resposta, então ele suspirou:
–-- Sei que sempre que você vai ao Subway você pede cookies de gotas coloridas. Sei que você odeia a sua vida destacando a parte que seu pai nao amava você e sua mãe. Sei que você detesta seu cabelo, seu corpo, seu rosto, seu nariz. Detesta tudo em você. Sei que você não se lembra da sua mãe, e sei que quando você tinha cinco anos, você pediu uma foto da sua mãe de natal, e foi quando seu pai te falou da maneira mais grossa possivel que o papai noel não existe. Sei que você passa o ano novo sozinha, e o natal depende do humor do seu pai. Eu sei que você chora no seu aniversário e odeia ele por causa da sua mãe. Sei que você queria saber como ela morreu, e sei que seu pai expulsou seu cachorro de casa por que a Ashley disse que ele quebrou um vaso, o que não foi verdade.
Fiquei pasma. Aqui estavam uma série de coisas sobre mim que ficavam no canto mais escuro do meu coração. Tentei não parecer tão surpresa:
–-- Qual era o nome do meu cachorro?
Ele riu:
–-- Muffin. E ele era um beagle. Você colocou esse nome nele por ele ser "fofinho por dentro e por fora".
Alguns minutos de silencio se passaram quando ele olhou para mim com um sorriso.
–-- Eu também sei que você esconde seus sentimentos, por que algumas pessoas mostraram que nao se importam, mas eu me importo Zoe. Eu preciso saber. Além de isso dificultar meu trabalho, é uma grande mentira.
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