Terceira Lua

4 Capítulo IV - Problemas Psiquiátricos


Notas iniciais
Desculpe pelo trocadilho do nome (que provavelmente só vai entender quando terminar de ler o capítulo), não tive ideia melhor. Boa leitura :3

Agnes corria no mesmo ritmo que sua respiração acelerada, tomada pela adrenalina, então parou repentinamente diante da piscina por puro reflexo. Foi quando reparou que havia dado quase uma volta inteira na casa e nem sequer estava ofegante. Um barulho perto dos arbustos não lhe deu tempo para pensar sobre o assunto, viu mais uma vez um vulto escuro muito rápido passeando pelo lado oposto. Mesmo com a visão aguçada, sentiu dificuldade em identificar o que era, semicerrou os olhos tentando enxergar alguma coisa quando de repente sentiu um toque quente em seu ombro. Ela se virou tão rápido que a mão foi obrigada a se afastar.

— Você me assustou, Selina! — disse Agnes com um suspiro.

— Desculpe, eu só queria saber se estava bem.

— Você... Não deveria estar lá dentro?

Por um momento a moça assumiu um olhar confuso como se nem ela própria soubesse por que estava ali, então baixou os olhos para as mãos e uma delas estava sangrando.

— Eu acho que me machuquei e...

— Não se aproxime de mim — a garota interrompeu-a num tom desesperado e Selina a obedeceu imediatamente.

Agnes se afastou o mais rápido que pôde, antes que provocasse uma tragédia. Agora o P.S. do bilhete fazia todo sentido para ela. Com os olhos marejados e o coração pulando, resolveu voltar para dentro. Ela procurou por Marco e não o encontrou, percebeu também que alguns convidados já haviam ido embora. Agnes viu Ana se aproximando e disfarçou pegando um coquetel na bancada de bebidas.

— O que aconteceu? — perguntou Ana indecisa entre animação e preocupação — Marco acabou de sair.

— Como ele estava?

A amiga pareceu não entender a pergunta.

— Digo... — continuou Agnes — Ele estava tipo, nervoso?

— Não — Ana respondeu desconfiada — Ele foi simpático como sempre, mas me parecia um pouco desconfortável.

Só então Agnes percebeu que ele poderia não ter desconfiado de nada. Imaginou o quão constrangedor deve ter sido vê-la fugindo daquela maneira. Como ela poderia explicar sobre aquilo para Marco sem que ele próprio fugisse dela?

— Ai, droga... — sussurrou para si mesma.

— Agnes Guimarães Alencar, o que você aprontou?

— Posso te explicar depois? — "Assim que eu conseguir assimilar melhor o que aconteceu", ela quis acrescentar, mas achou melhor ficar quieta.

— Não! — respondeu Ana indignada.

— Eu sabia que você iria me entender — Agnes beijou-a brevemente e saiu apressada até Sara.

— Ei, Sa! Estou um pouco cansada, será que eu posso deixar os outros convidados por sua conta?

— O que você...?

— Valeu!

Agnes subiu para o primeiro andar sem falar mais nada ou cumprimentar ninguém. Trancou-se, tirou os sapatos e buscou pelo baú na escrivaninha. Avaliou mais uma vez a carta e refletiu sobre cada palavra. "O endereço do remetente"... Agnes pulou procurando pela embalagem da encomenda, encontrou amassada entre os papéis da gaveta e anotou o endereço em um caderninho. Pegou o notebook e sentou na cama pesquisando o trajeto da escola até o remetente. Santo Google Maps! Logo depois ouviu alguém vindo em direção à porta. Juntou tudo o mais depressa que pôde e enfiou em baixo do travesseiro deitando-se sobre ele.

— Agnes? — Chamou Sara abrindo a porta devagar.

A garota fingiu estar dormindo e em seguida ouviu a porta se fechar novamente. Ela se sentou suspirando. Enfiou o endereço do caderninho e a adaga na mochila do colégio, jogou qualquer vestígio de embalagem na lixeira e vestiu uma roupa mais confortável para dormir, afinal teria aula no dia seguinte. Já estava decidida a visitar seu Garoto Pesadelo depois da escola.

Agnes quase não dormiu durante a noite. A ansiedade não a deixou relaxar e acordou mais cedo do que o de costume. Tomou um banho e se vestiu. Agnes nunca se importara muito em estar com uma boa aparência, agora que isso era algo natural nela, nem se deu o trabalho de se olhar no espelho. Checou a mochila, tudo ok. Desceu as escadas com o celular nas mãos, lendo milhares de mensagens dramáticas que Ana havia deixado para ela. Nada de Marco. Continuou distraída até chegar perto da copa quando começou a escutar uma conversa esquisita.

—... Ela não parece muito bem — disse Eric.

— Eu tenho percebido isso também — comentou a cunhada — Nos últimos dias anda retomando manias antigas e tendo atitudes estranhas.

— Ontem me perguntou sobre seus pais, ela nunca faz isso! — retrucou a voz de Marta.

Mas o que é isso, Agnes pensou, um complô contra a pobre garota com problemas psicológicos aqui?!

— Temos que fazer alguma coisa — falou Sara.

— Já fiz — disse Eric — Marquei com o analista dela hoje à tarde, depois do colégio.

Droga!. Aquilo estragaria completamente o seu plano. A não ser que...

— Bom dia — pigarreou Agnes entrando no cômodo.

— Bom dia, minha linda — Marta foi a primeira a responder.

Ela estava afobada e enrubesceu, baixando os olhos, quando Agnes a mandou um olhar suspeito.

— Bom dia — Sara respondeu quando Agnes se sentou à mesa e jogou a bolsa na cadeira ao lado.

Pegou uma torrada na cesta de palha em silêncio e passou um pouco de geleia enquanto todos a observavam.

— Tem algum compromisso para hoje à tarde? — perguntou Eric sem cerimônia.

Agnes não conseguiu pensar em nenhuma mentira.

— Não. — respondeu ainda sem olhar para o irmão.

— Ótimo, iremos até o Doutor Bastos.

Ela despencou a mão com a torrada no prato provocando um pequeno estrondo do choque da louça contra a mesa de mármore e levantou o olhar para Eric fingindo surpresa, ele se manteve impassível, então ela se virou para Sara que desviou os olhos e levou o copo de suco à boca. Voltou a olhar para o irmão indignada.

— Por que isso agora?

— É só uma visita costumeira ao analista, o que há de errado? — respondeu ele.

— Costumeira?! Faz três meses que eu não o vejo.

— Mais um motivo para que o faça.

— Saco...

— Agnes!

— Tudo bem, o Mendes me leva.

— O quê?

— Ele é o nosso motorista — Ela repetiu em um tom de deboche — "O que há de errado?"

— Tanto faz — Eric respondeu derrotado.

Sara revirou os olhos.

— Parecem duas crianças... Não está na hora da sua aula, Agnes?

— Você está certíssima, cunhadinha — Agnes levantou da cadeira, pegou a mochila e saiu em direção à garagem.

Ouviu Eric murmurar alguma coisa e a seguiu junto com Sara.

A viagem foi silenciosa.

Agnes chegou antes do início da aula, o que geralmente não acontecia. Apesar de ter um motorista e um irmão cricri, nada a fazia acordar cedo e se arrumar no tempo certo, consequentemente chegando atrasada quase todos os dias.

A sala estava dispersa, mas todos pararam repentinamente olhando para Agnes quando abriu a porta bruscamente e entrou na sala. A maioria com uma expressão surpresa ou abobada. Ela não sabia se aquela reação era pela maneira como quase quebrou a porta, por ter chegado mais cedo que o habitual, ou por outra coisa que talvez ela soubesse do que se tratava. Olhou o seu reflexo na janela da parede oposta para saber se sua terceira teoria era considerável. Sim, era. Procurou algum lugar para sentar antes que alguém percebesse que estava corando. Não funcionou. Todos a seguiram com o olhar até sentar na primeira cadeira vazia, que por sorte – ou azar – estava bem na frente.

Começaram uns murmúrios e Agnes quis acreditar que não falavam dela, mas querer não foi suficiente.

Ana, que estava entre os garotos do fundo, saiu e sentou-se à frente dela.

— Agnes, você me largou sozinha ontem sem dar explicações, não respondeu minhas mensagens e agora está me ignorando, o que aconteceu?

— Desculpa tá? Eu não estou te ignorando, eu só não quero passar por esse bando de gente me encarando como se eu fosse uma atração alegórica... O que eles têm?

— Eles? – Ana riu debochando – A pergunta certa seria o que você tem.

Agnes se virou e todos continuavam a conversar entre si olhando para ela. Tadeu, um garoto idiota que adorava atormentar aquela escola, abriu um sorriso malicioso. Aquele nem chegava perto do sorriso do Garoto Pesadelo... Mas por que diabos Agnes estava pensando nele? Ela revirou os olhos e voltou-se para Ana.

— Ninguém merece.

— Você não vai me falar o que tá rolando?

— Ana... É complicado, eu não posso falar aqui assim, eu...

— Turma sentem-se em seus lugares, por favor.

A chegada da professora interrompeu-a.

Ana soltou um suspiro pendendo a cabeça para trás.

— Depois da aula — disse ela e voltou para a sua cadeira.

Agnes quis dizer que não poderia falar com ela depois, mas logo, é claro, alguém se encarregou de impedi-la.

— Alencar, vire-se para frente. Acha que pode fazer bagunça porque chegou mais cedo?

Agnes definitivamente considerou o risco de perder uma melhor amiga.

A manhã fora realmente uma tortura. Agnes detestava chamar atenção, e estava impossível de evitar isso naquela escola. A bênção de beleza parecia não ser apenas uma mudança física, mas também uma magia para enfeitiçar qualquer um que chegasse perto. Ela não teve um só momento de sossego dos olhares. Para a sua sorte, Mendes já estava esperando na saída do colégio.

— Quer que eu a espere? – Ele perguntou ao chegar ao consultório.

— Não precisa, eu acho que vou demorar.

— Tem certeza, senhorita? Eu também posso sair e voltar quando tiver terminado, se preferir.

— Deixa disso, Mendes, me chama de Agnes. Pode ficar tranquilo, dar uma volta... Eu volto de táxi.

— De jeito nenhum! Se o patrão ficar sabendo...

O motorista continuou a falar, mas Agnes não prestou atenção. Tirou a mochila das costas, arrancou o endereço do caderninho enfiou no bolso e alojou disfarçadamente a adaga no quadril escondendo-a debaixo da jaqueta. Nunca se sabe.

— Relaxa, meu irmão não vai saber de nada – Ela deu um tapinha no ombro do homem grisalho e saiu porta afora para dentro do prédio.

O Dr. Bastos não demorou muito até que a atendesse.

— Então Agnes, quanto tempo, não?

— Sim... – Respondeu a garota desanimada se sentando no pequeno sofá ao lado da cadeira do doutor absurdamente jovem para o cargo.

— Como tem passado?

— No tédio, como sempre.

— Hum... Diga, o que aconteceu ultimamente para que esteja aqui? – A voz dele saiu estranhamente imperativa.

— Nada, oras. Eric é um exagerado – respondeu rapidamente.

O rapaz levantou os olhos abruptamente, pela primeira vez, para a garota. Seu olhar estava confuso e atento.

— Nada de pesadelos, sonambulismo, qualquer coisa que possa parecer estranha?

— Nada.

“Além é claro de eu ter recebido a visita de um Garoto pesadelo que se diz anjo, descoberto que gosto muito de sangue e quase ter matado o cara que eu gosto por causa disso”, pensou, mas achou melhor não dizer. Bastos poderia achar que ela ficara louca.

— Tem certeza do que está falando, Alencar? – Ele fixou os olhos nos da garota.

— Absolutamente — ela tentou dizer firme.

Aparentemente não saiu como queria, já que o médico pareceu perceber que estava mentindo. E pareceu perceber também que ela havia ficado mais... Atraente, agora percorrendo o olhar pelo seu corpo. Ele não a olhou maliciosamente e menos ainda ficou agradado com a visão, muito pelo contrário, ele assumiu uma expressão preocupada e encarou-a desacreditado balançando a cabeça devagar como querendo negar um pensamento que se iniciava em sua cabeça.

— Agnes... – ele hesitou um pouco, mas logo continuou – Quantos anos você tem?

Agnes estranhou a pergunta, mas respondeu sem questionar.

— Completei dezesseis ontem, mas eu não entendi o que isso tem a...

Ela parou de falar quando Bastos se levantou repentinamente espantado e caminhou até a porta trancando-a, depois para um dos armários pegando uma seringa prateada esquisita se mostrando extremamente habilidoso em enfiar uma agulha nela!

— O que você tá fazendo, Artur?! – Agnes se levantou se prostrando atrás do sofá.

— Não se preocupe, só vai doer um pouco.

— Doer um pouco? – Ela gritou – Ficou maluco?!

Ele se aproximou com a seringa na mão e expressão determinada.

Agnes agiu mais rápido e retirou a adaga encravando-a no braço de Artur. Ele não esperava por aquilo e caiu de joelhos no chão se contorcendo de dor quando a agulha escapou de sua mão. Agnes puxou a adaga do seu braço e chutou a seringa para longe correndo para a porta. Estava trancada. “Droga!”, praguejou e correu para a janela abrindo-a. Três andares separavam-na do chão.

— Eu não tô acreditando que eu vou fazer isso...

Ela se virou e Artur já conseguia se recuperar se arrastando até a seringa.

— Seja o que Deus quiser – falou antes de subir no peitoril da janela e caminhar pelo pequeno batente para fora do alcance do psiquiatra maluco.

A sua respiração começou a ficar desordenada e a tontura quase a atingiu, mas ela conseguiu se segurar rente à parede e tentou acelerar o passo até a janela seguinte. Pareceu uma eternidade, mas finalmente conseguiu adentrar outra sala se jogando no chão e beijando-o desesperadamente agradecendo por tê-lo embaixo dos pés.

O grito agudo e ensurdecedor da secretária atingiu os seus ouvidos e ela levantou a cabeça tapando as orelhas quando, ops... Ela percebeu que ainda estava com a adaga na mão. Correu para o elevador enquanto a moça apavorada pegava o telefone.

— Socorro segurança! Uma garota descendo pelo elevad... – foi tudo o que Agnes conseguiu ouvir antes da porta se fechar.

— Pelo amor de Deus, era só o que me faltava!

Ela enfiou a adaga de volta e apertou os passos quando a porta se abriu novamente no andar térreo.

Um cara enorme apontou para ela correndo em sua direção e outro maior ainda o seguiu.

— Ferrou – sussurrou para si mesma e disparou para saída o mais rápido que conseguiu.

Quando chegou do lado de fora procurou por todos os lados e enxergou um táxi desocupado há dez metros. Suas preces foram ouvidas. Correu até o carro e entrou sem cerimônia assustando o motorista distraído com o celular.

— Pisa o pé no acelerador e dá o fora daqui o mais rápido possível!

Notas finais
Obrigada por ler, espero que tenham gostado! Próxima parada: Casa do garoto pesadelo :v