Terceira Lua

1 Capítulo I - Reencontro


Notas iniciais
Se você gosta de mistério, então com certeza você vai gostar desse capítulo, porque é praticamente só o que tem nele :v

Já era o quarto vestido que Sara fizera Agnes vestir só naquela loja e a única coisa que ela queria fazer era ir para casa e se jogar em sua cama. Agnes deu mais uma olhada no espelho do provador. Ela parecia um grande bolo de aniversário amarelo. Estava em um vestido justo, com camadas de franjas e pregas da alça até a barra. Suspirou e saiu mais uma vez.

— Perfeito — começou ela — Se a sua intenção é me fazer de bolo.

— Definitivamente não — disse Sara — próximo.

— Isso é mesmo necessário? — perguntou Agnes exausta — Já estamos na sexta loja.

— Agnes, quantas vezes eu vou ter que te explicar? — Sara se levantou e foi até os cabides remexendo os vestidos — Amanhã é a sua festa de dezesseis anos e o boy vai estar lá. Além disso não posso fazer nada se você não gostou de nenhum.

— Vestidos não são muito minha praia!

— Toma — Sara puxou um vestido e entregou à Agnes — experimenta.

Agnes realmente não estava habituada a usar vestidos, não se lembrava da última vez que usara algum, mas não se atrevia mais a discutir, afinal era a Sara. Ela revirou os olhos, pegou o vestido e girou nos calcanhares seguindo até o provador.

Pela primeira vez, o vestido que Sara escolheu caiu bem. Ele era branco estampado com pequenos pássaros negros que assemelhavam-se à respingos regulares de tinta, tomara que caia, justo na cintura e volumoso em seu comprimento, com três camadas de babados que caia até acima do joelho. Agnes saiu confiante.

— Acho que agora vai.

Sara a olhou de cima a baixo e sorriu satisfeita.

— Perfeito!

O telefone na bolsa de Sara começou a tocar. Ela atendeu e foi até um canto da loja.

— Ooi amor. Acabamos de escolher o vestido da sua irmã...

Agnes riu balançando a cabeça e foi até os cabides devolver o vestido amarelo quando viu a figura do outro lado da rua através da vitrine encarando-a com um sorriso maquiavélico no rosto e quase caiu num susto. Não, não pode ser. Agnes não podia estar vendo aquele cara ali e depois de tanto tempo. Antes que ela pudesse conter, o maldito devaneio a arrastou para onze anos atrás.

"Agnes tinha cinco anos novamente. Lá estava a garotinha rosada dos negros cabelos, correndo abraçada a seu pequeno urso de pelúcia para encontrar um esconderijo.

— Um... Dois... Três... Quatro... Melhor correr, hein? Já vou te achar! — ouvia-se a voz da sua mãe ecoando pelos corredores.

Ela alcançou as escadas e se enfiou debaixo dela. Levou um susto ao ver que havia alguém sentado à sua frente. Apesar de aparentar não ter mais de dezoito anos, o garoto usava um formal terno preto, seu cabelo loiro caia sobre a testa e seu olhar penetrante observava a garota curioso.

— Está com medo, criança? — a sua voz soava doce e ao mesmo tempo venenosa.

A pequena Agnes balançou a cabeça com seus olhinhos fixos no rapaz.

— Por que está aqui? — perguntou a menina.

— Eu sou o seu anjo da guarda, estou aqui para te proteger, pequena.

— Um anjo? — ela perguntou confusa e ele assentiu com a cabeça — Mas você não tem asas.

Ele riu. Um riso curto, gélido e cortante que fez Agnes se arrepiar. Se inclinou para mais perto da garotinha e sussurrou em seu ouvido.

— E quem disse que anjos precisam de asas?

Ele se afastou e a menina pôde ver o brilho sinistro em seus olhos azuis escuros.

— Do que precisa me proteger? — perguntou a garota inocentemente.

Ele começou a recitar.

"Nas trevas tua parte mais faminta despertará,

Onde o sangue impera e a beleza engana por um longo ano viverá,

Se suportares o martírio, estará livre da eterna maldição,

Mas se em teu domínio falhar, terás em troca a condenação".

A menina mais confusa do que nunca começou a falar, mas foi interrompida pela voz da mãe.

— Onde será que se meteu essa menina?

O garoto levou o dedo indicador à boca pedindo silêncio.

— Te vejo no décimo sexto ano, meu anjo — sussurrou.

Agnes espiou para fora e viu as pantufas da mãe se aproximando. Voltou a olhar para o garoto, mas não havia mais ninguém ali.

— Agnes...?"

— Agnes?! — Sara chamou fazendo-a acordar — Você está bem? Está pálida... Digo, mais do que o normal.

Agnes olhou para onde o sujeito estava instantes mais cedo, mas ele havia sumido. Novamente.

— Sim, é... Estou — disse ela finalmente — Só vou... vestir minha roupa.

— Tem certeza que está bem?

Agnes apenas assentiu com a cabeça com medo de gaguejar novamente e pulou para o provador deixando uma Sara preocupada do lado de fora.

Ele é só uma alucinação, ela tentou se convencer encarando seu reflexo no espelho, não pode ser verdade. Afastou a ideia da cabeça e vestiu sua jaqueta por fim. Deu uma última olhada através da vitrine e entregou o vestido a Sara.

— Volte sempre — disse a vendedora ao entregar a sacola.

Saíram da loja e o seu irmão as estava esperando encostado na lateral do carro esporte branco, que ele tanto amava dirigir. Agnes o abraçou em um gesto quase automático e entrou no banco traseiro do carro. Como de costume, o casal trocou um beijo antes de entrarem.

— Então, como foi? — perguntou Eric sem tirar os olhos do trânsito.

— Exaustivo — Agnes adiantou-se a falar antes que Sara se lembrasse de contar do último acontecido.

— Sim — a cunhada a mandou um olhar convencido — e valeu à pena.

— Claro — disse a garota entediada.

— Amanhã iremos deixar seu cabelo magnífico.

— Se alguém conseguir deixar o meu ninho de rato ao menos olhável, terei que aplaudir.

— Tão otimista!

Chegaram em casa, o sol já havia se posto. Agnes subiu para o seu quarto sem falar nada, como sempre fazia. Quando abriu a porta quase caiu para trás. A sua alucinação estava bem diante dela sentado no sofá abaixo da janela, usando um blazer preto sobre uma camisa branca e calças jeans. Exceto pelo seu corte de cabelo mais moderno e o pouco de barba que havia crescido em seu rosto, ele mantinha a mesma aparência jovem de anos atrás.

— Está assustada, meu anjo? — Agnes escutou mais uma vez aquela voz e imediatamente sentiu um arrepio subindo pela espinha.

Ela fechou a porta rapidamente e pressionou o corpo contra a mesma.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou ela pausadamente.

— Ora, estou cumprindo o que te disse há onze anos — disse ele se levantando — ou você achou que eu fosse mesmo só uma coisa da sua cabeça como todos aqueles psicólogos te fizeram acreditar?

— Talvez se eu tivesse alguma razão para acreditar o contrário, eu pensaria que você é real.

Ele andou até Agnes e a tocou levemente no seu pulso esquerdo, fazendo-a gelar. Ela engoliu em seco olhando para a mão pálida do rapaz.

— Sou tão real que estou aqui para te ajudar.

— Me ajudar?! — A garota se afastou — O que pretende fazer? Consertar uma unha quebrada?

— "Nas trevas tua parte mais faminta despertará,

Onde o sangue impera e a beleza engana, por um longo ano viverá,

Se suportares o martírio, estará livre da eterna maldição,

Mas se em teu domínio falhar, terás em troca a condenação". Você achou que eu não estava falando sério?

— O quê que é, vai me dizer agora que é um vampiro? — Agnes riu sem humor.

Ele sorriu.

— Não exatamente. Os humanos criaram isso, assim como a história dos lobisomens. Posso dizer que somos quase uma combinação dos dois. A única coisa que eu não entendo é... — ele riu deixando a cabeça cair levemente e em seguida voltou a encará-la — Porquê nos compararam a criaturas tão dóceis quanto lobos.

— Você. Tem. Problemas? — perguntou Agnes já pensando em tacar seu abajur na cabeça daquele cara e o mandar num manicômio.

— Muitos — disse ele se sentando novamente no sofá cruzando as pernas elegantemente — sente-se aqui, vou te contar uma historinha.

Agnes não queria fazê-lo, mas o seu corpo não obedeceu ao seu comando de continuar de pé. Ela andou até o sofá e se sentou ao lado dele.

— Há muito, muito tempo atrás, um jovem anjo se apaixonou por uma charmosa donzela. Conquistar a bela moça foi fácil com toda a sua beleza angelical e, mesmo sabendo que era proibido, ele se deixou levar pelos encantos da jovem. O anjo casou-se com sua amada e trocaram alianças de prata que o próprio produziu. Os dois tiveram um filho e o seu senhor, como castigo, o amaldiçoou transformando-o em uma criatura noturna. Disse ele: "Me desobedeceste e agora sofrerás com as consequências. Tua beleza será apenas exterior, em todas as noites de lua cheia terás sede de sangue, prata será tua fraqueza e assim será com tua procriação a partir dos seus dezesseis anos. Vosso filho será fugitivo do sol por toda a eternidade". O jovem anjo suplicou para que livrasse pelo menos o seu filho, mas o seu senhor apenas lhe deu a condição de o livrar da maldição do sol. "Terá ele que encontrar um único coração bondoso de vossa espécie e lhe tirar a vida, assim estará livre". O anjo voltou para a sua amada desolado e então lhe deu a terrível notícia, não possuía mais a aliança, pois a mesma o machucava e deixava-o sem forças, mas sua mulher estava decidida a continuar com ele. Então na primeira noite de lua cheia, o pobre condenado não conseguiu controlar a sede e matou sua esposa. A dor foi tamanha que ele tentou tirar a própria vida, mas seu poder angelical o fazia imortal e o que lhe restou foi cuidar de seu filho que viveu por longos e tortuosos anos sob a maldição, podendo apenas se expor à luz do luar. Todos que conseguiam sobreviver aos ataques da lua cheia, tornaram-se também amaldiçoados e assim até hoje. Eu sou um deles, assim como você.

— Isso é completamente ridículo — caçoou Agnes.

— Ah, a fase de negação é sempre a mais chata — Ele revirou os olhos, pela primeira vez parecendo um adolescente normal — Eu deveria ter te preparado desde aquele acidente que a deixou órfã.

— Como você sabe do incêndio? — Agnes perguntou assustada.

— Eu estive com você por toda a sua vida, só não podia me ver — disse ele — eu sabia que iria explodir, fui eu que te salvei. As autoridades não ficaram sem explicações à toa. Ninguém poderia saber.

— Você deixou eles morrerem? — Agnes sussurrou perplexa.

— Não havia tempo, eu precisava...

— Você os matou! — A raiva começou a tomar conta dela fazendo-a se levantar — Matou meus pais!

— Não seja tola, garota — disse ele — Aqueles não eram seus pais.

— Do que você está falando?! — o tom da garota se elevou a gritos.

— Agnes? — a voz do irmão perguntou abafada e distante — está tudo bem aí?

— Não grite! — sussurrou o garoto — Quer que te levem para um hospício?

Foi o estopim para que ela começasse a estapear e esmurrar o garoto com todas as suas forças. Ele a segurou pelos braços e a sentou na cama à força. Ela podia escutar os passos na escada se aproximando e não parava de tentar o machucar enquanto as lágrimas escorriam livremente em seu rosto.

— Shhh... Durma um pouco, meu anjo.

Foi a última coisa que Agnes ouviu antes de apagar e cair num sono profundo.

Notas finais
Espero que tenha sido satisfatório. O próximo capítulo será um pouco mais descontraído. Deixa aí um comentário dizendo o que achou :3