Terceira Guerra
1 Capítulo 1
Ele acordou e continuou na cama durante alguns minutos. As tão esperadas férias tinham chegado. Levantou lentamente e escovou os dentes. Preparou o café e olhou no relógio: Dez e quarenta e cinco. Encostou-se na pia e tomou o café ali, de pé... Sem pressa. Assim que terminou, colocou o copo na pia e foi até a frente da televisão. Deitou-se ali, simplesmente ouvindo a televisão. Ali ficou até que simplesmente pegasse no sono novamente. Quando acordou, o estomago roncou. O sol forte fazia as crianças brincarem na rua com garrafas d’água, com furos na tampa. Corriam, pulavam, gritavam, fugiam e atacavam. Ele levantou-se do sofá e acompanhou a brincadeira por alguns segundos, olhando pela janela.
O estômago incomodou-lhe novamente. Ele foi até a cozinha e abriu um pacote de biscoitos. Pegou o telefone e ligou para Luciana, sua namorada. Queria comemorar suas férias com ela e os amigos.
−Alo?
−Oi Luciana.
−Oi Gustavo.
−Vamos sair de noite? Vou chamar o Léu e o resto do pessoal... pode chamar suas amigas também.
−Vamos sim. Vou avisar as meninas aqui.
−Pego vocês às nove lá na sua casa, pode ser?
−Combinado. Te vejo de noite.
Gustavo desligou o telefone. Foi até o quarto e trocou de roupa. Saiu para a garagem, subiu na moto e partiu. Deixou o condomínio e foi até a casa de Leonardo, seu amigo. Leonardo era amigo de infância. Conhecia-o desde seus seis ou sete anos, tinha-o como irmão.
Algumas quadras de distância ele parou a moto na calçada e desceu. Tocou a campainha e pouco tempo depois Leonardo apareceu na janela. O homem de olhos negros e cabelos lisos saiu da casa. Não negava a descendência internacional.
−Foi despedido? –disse ele brincando.
−Não, estou de férias.
Leonardo abriu o portão, se cumprimentaram com um rápido aperto de mãos.
−Entra, entra...
−Hoje de noite eu, a Luciana e as amigas delas vamos num barzinho. Quer ir com a gente?
−Claro. Você já me viu recusar algum convite?
Gustavo riu.
−Vou chamar o pessoal também.
−Em que bar vocês vão?
−Sei lá eu... você que conhece esses lugares. Indique algum.
−Ah! Tem um ali pertinho do Extra... sabe qual é?
−Sinceramente, não sei não.
Os dois ficaram conversando durante o resto da tarde. Logo anoiteceu. Gustavo voltou para sua casa, tomou banho e vestiu-se. Calça jeans, camiseta branca e jaqueta preta. Era assim que se sentia bem. Olhou-se no espelho, pegou o gel e arrepiou o cabelo. Sentia-se um moleque fazendo aquilo. Saiu do apartamento e esperou na calçada a chegada de Leonardo e o resto do grupo de amigos. Então, os cavalheiros iriam buscar as damas em suas casas. Chegaram em dois carros. Buzinaram duas vezes e em poucos minutos elas saíram, entraram nos carros. As amigas de Luciana conheciam os amigos de Gustavo há anos. Sempre saíam juntos, sempre! Luciana entrou no carro e cumprimentou Gustavo com um beijo rápido. Leonardo no volante, levou-os até uma boate que ficava ali por perto. Em poucos minutos já estavam do lado de dentro, se acabando de dançar, beber e divertir-se.
Gustavo e Luciana, por serem namorados, aproveitaram a noite juntos. Sentiu-se um menino novamente, saindo para as festas com s amigos, rezando para que o pai demorasse a ligar perguntando onde ele estava. Ah... bons tempos.
Já passava das três da manhã. Gustavo rindo à toa. Leonardo divertia-se com o estado do amigo. Decidiram ir para casa antes que alguém ficasse pior e acabasse dando trabalho. Voltaram para casa sem muitos problemas, além de Leonardo ter passado em todos os faróis vermelhos que tinham pelo caminho.
Gustavo foi deixado em casa. Desceu do carro e foi caiu no sofá. Por ali ficou, dormiu até o dia seguinte.
Ele abriu os olhos. A cabeça doía. Levantou o corpo do sofá e ficou alguns segundos sentado, com as mãos afundadas nos cabelos castanhos. Levantou-se, tomou banho gelado e foi preparar café. Bebeu dois copos seguidos de café quente e amargo. A cabeça ainda doía, mas em menor proporção. Olhou no relógio: nove da manhã.
Sentou-se em frente a televisão e ligou-a. ficou caçando algo interessante pelos canais. Viu um daqueles comunicados urgentes da Globo. Parou ali e ficou esperando para saber quem tinha acabado de falecer, ou que atentado terrorista acabado de acontecer. O apresentador do jornal noturno apareceu na tela.
−O presidente dos Estados Unidos está começando um discurso, os ministros americanos pediram que mostrássemos em todas as emissoras em todo o mundo, ao mesmo tempo. Então, vamos ao discurso com tradução ao vivo.
−Povo americano e mundial –disse a dublagem do presidente− Hoje às 4:55 da manhã recebemos um ataque terrorista. Descobrimos via satélites que o ataque veio da Rússia. Mas ela não agiu sozinha: cada parte do míssil que deveria ter atingido nossa costa leste foi feita no Paquistão e outra parte na Coréia do Sul. Não devemos revelar como o míssil não explodiu. O que interessa é que estamos declarando guerra à Rússia e seus aliados. –ele fez uma pausa− Os países que resolverem nos apoiar, serão bem vindos ao pódio no fim.Os que se opuserem, não serão poupados.
A imagem voltou para o apresentador noturno. Ele não disse nada,permaneceu imóvel alguns segundos.
−Mais noticias no Jornal Nacional, logo mais.
Ele ficou estagnado, encarando a tela. Só poderia ser uma piada... trocou de canal. Notou que todos falavam sobre a mesma coisa. Caramba... era sério. Desesperou-se ao fazer algumas ligações em seu cérebro: ele ia ser chamado para a guerra se o Brasil apoiasse os estados unidos. Não tinha mãe, pai, filhos, não era casado... era sozinho no mundo. Um soldado perfeito, ninguém haveria de dar falta quando ele morresse.
Ele levantou do sofá num pulo. A cabeça ainda doía. Pegou o cartão de credito e foi até a relojoaria. Comprou uma aliança, mesmo com pressa, gastou mais de meia hora até chegar a conclusão de qual levaria. Passou na floricultura e comprou um buque de rosas vermelhas e amarelas. Tinha que se casar, não iria para a guerra se fosse casado. Foi até a casa de Luciana. Tocou a campainha. Estava demorando... tocou mais duas vezes.
A porta abriu lentamente. Ela olhou-o e bocejou.
−Não vai me convidar para entrar?!
−Ah sim. Entre.
Gustavo entrou.
−Luciana... acho que estou sendo meio precipitado, mas... quer se casar comigo?
Ela desviou o olhar, mordiscou os lábios.
−Preciso te contar uma coisa.
Um momento de silencio.
−Estou saindo com outro homem.
Ele arregalou os olhos. Tentou falar, mas o som não vinha.
−Assim que ouvimos a noticia, ele também teve o mesmo pensamento que você. pediu pra casar comigo faz uns quinze minutos.
−Eu conheço?
−Creio que sim...
−Quem é?
−Vou lhe dizer porque... cedo ou tarde você vai acabar descobrindo e... ah! Me desculpe!
−Fala logo! Quem é? –gritou.
Ela começou a chorar. Afundou as mãos nas lagrimas. Ele não se comoveu com aquilo, queria saber quem era o filho da mãe que estava fazendo aquilo.
−Quem é? –disse mais calmo.
Passos se aproximando. Gustavo olhou, sabia que aquele que se aproximava era o homem com quem Luciana tinha o traído. Um homem surgiu de trás da porta do quarto, veio andando lentamente. Um homem conhecido, de muitos anos...
−Le...Le... Leonardo?? Leonardo?! Leonardo!!! Seu filho duma vadia! Como pode fazer isso comigo? Você... minha nossa! Não acredito. Vocês estão brincando com a minha cara, né?
Os dois calaram-se. Leonardo aproximou-se e ficou ao lado de Luciana. Ela ainda tinha os olhos cheios de lágrimas.
−Desculpe... –disse ela num murmuro.
−Cala a boca! Me faz isso e depois vem me pedir desculpas?
−Gustavo... não... –disse Leonardo.
−Você também, Leonardo! Cala a sua boca!
Gustavo jogou a buque de rosas no chão. O anel continuava em seu bolso, intacto. Virou as costas e bateu a porta violentamente quando saiu. Subiu na moto e acelerou. Acelerou para o mais longe que podia, o mais rápido que podia... parou na beira de uma estrada, deixou a moto no acostamento e começou a andar em círculos. Sentia o rosto molhado e salgado. Limpava-o a toda hora com as costas das mãos. Sentia-se mal. Sentia-se apunhalado pelas costas. Viu os caminhões passando ao seu lado.
Sentia-se como um chiclete, no qual quando perdia o gosto era jogada fora. Que fora mastigada durante tanto tempo, que tivera gosto de menta... mas agora, era só mais um chiclete grudado debaixo de um banco de praça: sem gosto e usado.
Irritou-se com suas lágrimas. Não paravam de cair! Deu um grito e correu para o meio da pista, queria ser atropelado. O caminhoneiro que vinha se assustou, virou a carreta rápido... ela balanço para a direita e para a esquerda; mas não capotou, como uma cena de filme exigia. O caminhoneiro passou ao lado, xingando-o de tudo que era nome. O celular tocou dentro do bolso, ele continuava no meio da rodovia. Voltou para o acostamento e olhou no visor: “Luciana”. Um turbilhão de sentimentos invadiu-lhe a alma. Uma espécie de conforto... talvez ela tivesse se arrependido! Ele abriu um sorriso sem graça. Como um vento mudando de direção sem explicação e motivo, ele enraiveceu-se. Aquela vaca não tinha como pedir desculpas! Tinha o traído, e o pior: com seu melhor amigo. Sua alma transbordava ódio. Queria matar aquela mulher e aquele homem. Nunca mais queria vê-los.
Queria sentir-se vingado de alguma maneira... Ele tacou o celular no meio da rodovia com toda a força que podia. Um carro passou e esmagou-o em trezentos pedaços. Ele sentou-se ao lado da roda da moto. Encarou os pedacinhos esmigalhados no chão. Ali ficou durante longos minutos, encarando o celular destruído.
Estava decidido... não seria abatido por aqueles dois. Só por que a mulher que amava e o seu melhor amigo estavam dando-lhe um golpe juntos, ele deveria se sentir mal? Nããoo! Tinha que ser forte, não podia deixar se abater. Subiu na moto e voltou para sua casa.
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