— Mas o Catarina! Qual a necessidade de tudo isso?

— Petruchio, nossos filhos já tem três anos e não é saudável que eles sempre nos vejam brigando. Você já percebeu que Clara e Julião Júnior nos imitam pelos cantos? Tacam vasos um no outro?

— Quem será que eles imitam? Né? — ele fez uma cara questionadora a esposa fingindo pensar. Catarina bufou, mas continuou sua defesa.

— Custa me acompanhar nessa nova modalidade de profissão? Custa? Você não me ama?

Ela sempre jogava esse argumento contra ele quando queria que Petruchio fizesse algo que ele não queria. Provar que amava a mulher e que não conseguia mais viver sem ela era uma constante em sua vida. Desde quando fingiu que estava com Marcela para encontrar as apólices, Catarina não parecia tão mais segura de si no relacionamento que mantinham, mesmo que as juras de amor tivessem se tornado frequentes depois que os gêmeos nasceram. Petruchio sentia-se em constante dívida com ela e por isso concordou em ir fazer essa tal de sessão de terapia.

— Lurdes e Bárbara disseram que foi maravilhoso para elas e o relacionamento delas…

— Relacionamento delas? — Petruchio ergueu as sobrancelhas para a mulher que estava sentada no banco do motorista do carro, pronta para juntos irem a terapeuta renomada que as amigas tinham indicado.

— Pare com esse preconceito! Elas estão felizes e falaram que com só uma sessão haviam se acertado com o Fábio. Vai Petruchio! Faça isso por mim.

— Faço meu favo de mel, faço. — ele concordou com a cabeça. Catarina ligou o carro e partiu deixando a fazenda para trás.

Afinal era só uma sessão e ele sobreviveria e seu casamento também, certo? Afinal era para o bem deles, certo?

Chegando no local Petruchio já fez uma careta observando a sala com um sofá perfeito para se deitar. Outro no canto havia sido indicado pela tal Terapeuta renomada para que ambos se sentassem.

— Sejam bem-vindos. Sou a Dra Rose Rodrigues, espero que gostem da nossa sessão inicial.

Petruchio fez uma careta com o final de sua fala e foi logo reclamando com Catarina em alto e bom som:

— Que negócio é esse de sessão inicial Catarina? Ocê me falo que era uma só vez!

— Petruchio! Não fale até que a Doutora peça para você falar, está bem? — lhe lançou um olhar cortante.

— Estão aqui para a sessão de terapia de casal. Certo? Eu como profissional da área quero dizer a vocês para que fiquem à vontade e digam o que sentem verdadeiramente. Quanto mais sinceros forem, mais poderei orientá-los, tudo o que faço aqui é visando um melhor futuro para o relacionamento de vocês. Tenho algumas perguntas para fazer aos dois e peço que sejam sinceros quando forem responder. — a terapeuta voltou a falar. Pegou um pequeno bloco e tinteiro e uma caneta para ir anotando as respostas que eles dariam às suas perguntas.

Catarina concordou com a cabeça esboçando um sorriso, enquanto Petruchio revirou os olhos pensando que uma hora dessas devia estar na fazenda monitorando se todos estavam trabalhando em suas funções.

— Tenho dez perguntas para vocês, espero que colaborem nas respostas, estou aqui para ajudá-los, não espalharei nada do que disserem aqui, podem ter total confiança em mim.

— Confiamos em seu profissionalismo Doutora. — Catarina logo respondeu ao mesmo tempo em que Petruchio abria a boca para retrucar. Ela lhe deu um pequeno beliscão na perna fazendo ele ficar quieto.

— Quais são os principais problemas no casamento de vocês? — a terapeuta perguntou, Catarina se concentrou em tentar pensar numa resposta, mas Petruchio parecia ter a solução em sua língua.

— Ah essa é fácil! O principal problema é essa onça aqui acabá com os vaso lá de casa tacando todos na minha cabeça.

— Petruchio! — Catarina exclamou alarmada.

— Ué, ela que falo pra ser sincero. Tô sendo.

— Sabe qual é o principal problema, doutora? Esse chucro do meu marido não me ouvir. O que me deixa estressada e me faz jogar vasos, completamente compreensível.

A terapeuta escrevia tudo o que eles diziam e parecia ter entendido tudo de primeira.

— Então é a falta de diálogo entre vocês que resulta em todas as brigas.

— Óia acho que num é não a falta de conversa, porque essa daí ama conversá. Às vezes eu só quero deitá e durmi, ou só ficá em silêncio no quarto, mas ela ama conversá.

Catarina revirou os olhos e foi logo se defendendo.

— Óbvio que a senhora sabe o quanto é bom conversar com as pessoas que amamos e admiramos, mas ele não entende doutora.

Aquele assunto poderia render longos minutos de discussão. Ela resolveu continuar com as perguntas.

— Vejo que vocês tem vários problemas, quando eles começaram?

— Ah isso eu sei muito bem! — Catarina exclamou decidida. — Tudo começou quando ele trouxe para nossas vidas a Marcela. — disse o nome da ex de Petruchio com a maior desdém que conseguiu.

— Arriégua Catarina! Tudo ocê tem que envolvê a Marcela.

— Eu? Você que me traiu com ela e eu que tenho sempre que envolvê-la na conversa? — Catarina o questionou levemente chateada, ainda sentia uma dor em seu coração quando pensava em Petruchio com ela em segredo.

— Eu nunca que fiquei com ela no tempo que tentava descobri suas apólices, já conversamo sobre isso.

A terapeuta mexia seu rosto de um para outro como se assistisse uma partida de ping-pong. Anotou algumas frases, mas quando viu que eles continuariam a brigar. Virou sua pergunta a Petruchio.

— O senhor Julião Petruchio, quando percebeu os problemas no casamento começarem?

— Ah doutora, os problema já começaram antes memo de casá. Começaram quando me deram a ideia de conquistá essa daí. — ele apontou para Catarina chateado.

— Viu doutora? Ele nunca quis casar comigo por ter sentimentos por mim, queria era salvar aquela fazenda, queria meu dote. — ela emburrou cruzando os braços e ficando de costas para ele no sofá que dividiam.

— Não é bem assim não, eu sempre tive muito sentimento pelo ocê.

— Tanto sentimento, tanto sentimento que me abandonou grávida para ir atrás de amante que ainda por cima é uma sirigaita…

— Oh Catarina ocê sabe que eu tava atrás de recuperá sua herança! Nunca te abandonei, nunca te abandonaria com um filho meu no seu ventre.

Bom, a conversa não estava muito amistosa, mas a terapeuta anotava todos os detalhes que achava relevante. Decidiu tentar uma pergunta nova, de uma maneira diferente:

— Bom, agora vocês vão virar um de frente ao outro e olhar nos olhos um do outro. — ela pediu aos dois que mantinham-se de costas viradas e de braços cruzados.

Catarina bufou raivosa e respirou fundo cedendo primeiro a encará-lo. Petruchio imitou com o único objetivo de se livrar daquela sessão de terapia o mais rápido possível.

— Perguntem um ao outro primeiro o que mais faz que irrita seu companheiro.

— O que eu faço que irrita ocê meu favo de mel? — ele perguntou primeiro dando um sorriso de lado, já imaginando o que ela responderia.

— Quando me chama de favo de mel. — respondeu prontamente. Odiava e amava aquele apelido com a mesma intensidade. Amava quando ele a chamava assim na intimidade que tinham no quarto ou quando estavam a sós fazendo juras de amor. Mas na frente dos outros ela odiava. Odiava porque se derretia e esquecia os motivos de estar nervosa com ele. — E você, o que faço que te irrita?

— Bom, ocê não tem muita paciência né favinho, o que faz acabar com toda nossa louça de casa muito rápido.

— Todas louças que jogo são por razões completamente plausíveis. — se defendeu.

A terapeuta considerou que tinham progredido muito desde o começo das perguntas. Fez outras anotações.

— Agora o contrário. Perguntem o que mais amam no companheiro.

— O que mais ama em mim? — Catarina prontamente obedeceu a terapeuta fazendo a pergunta primeiro. Queria ouvi-lo antes de falar sua resposta.

— Eu amo como sempre tem razão e sabe ajustar nossa fazenda do jeito perfeito de fazê ela funciona e quando se esforça pra ser uma mãe coruja pros nosso filhos. Uma ótima capitã.

Ela sorriu ficando com as bochechas levemente vermelhas.

— O que ocê mais ama em mim?

— Eu amo o fato de ser esforçado em tudo o que faz, desde em manter nossa fazenda e nossos empregados bem, até em ser o melhor pai do mundo para nossos filhos.

Ele sorriu e pegou a mão dela beijando rapidamente seu dorso.

— Bom, estão se entendendo. Como vêem enxergam coisas ruins e coisas boas um no outro. E um casamento é isso, entender como o outro é, amar nas diferenças. — a terapeuta dizia, mas eles continuavam a manter o olhar fixo um no outro. Quase não prestavam atenção no que ela dizia. — Pensando no casamento de vocês, o que vocês podem fazer para melhorá-lo?

— Eu? — Catarina acordou momentaneamente do seu estado de torpor e apontou para si mesma. — Eu já me doou totalmente a esse casamento. Sou na verdade massacrada por esse aí.

— Arriégua! Eu que recebo vasos na cabeça e ocê que é massacrada?

— Sim! Quando não confia em mim para arranjar um emprego.

— Ah não Catarina, ah não! Agora ocê foi longe demais.

A terapeuta quis entender onde ela havia errado na pergunta, estavam em perfeita paz e harmonia poucos minutos atrás.

— A doutora não imagina naonde ela qué que eu deixe ela trabalhá. Na revista feminista daquele jornalistazinho mequetrefe!

— Julião, a profissão que quero seguir não precisa estar em pauta nessa nossa terapia, certamente não é esse o foco que a doutora pretende dar.

— Foi ocê que começou o assunto do seu "emprego" — ele fez aspas com os dedos para irritá-la mais.

Catarina levantou da onde estava sentada indignada.

— Doutora eu retiro tudo o que disse a respeito do que amo nesse meu marido viu! Ele não consegue nem me apoiar em um sonho antigo meu. — ela parecia chateada e prestes a chorar.

Petruchio levantou do sofá e vociferou contra a esposa na mesma intensidade que ela.

— Eu que retiro tudo o que disse do cê sua onça brava. Pote de fel!

— Não me chama de pote de fel! — ela correu os olhos no lugar e achou um vaso de flores depositado na mesinha de centro. Retirou as flores de dentro dele e começou a erguê-lo em direção a cabeça de Petruchio.

O vaso se espatifou na parede bem próxima a cabeça da terapeuta que permanecia sentada tentando entender tudo.

— Catarina, se acalma! — Petruchio pedia, apesar de estar familiarizado com o jeito explosivo da mulher, sabia que a doutora não.

Catarina pegou uma estátua e um cinzeiro, voltando a jogar tudo o que via pela frente, Petruchio habilmente desviava de tudo.

Nessa altura da discussão dos dois a terapeuta resolveu se esconder atrás de sua mesa imaginando que se tudo o que o marido dizia da esposa fosse verdade, todos os vasos de seu consultório seriam quebrados em segundos.

Mas Petruchio estava acostumado a esses ataques repentinos de fúria dela, e sabia como deixá-la mansinha novamente. Segurou os braços dela no ar quando esta, tentava lhe atirar outro vaso e começou a procurar a boca dela para fazer as pazes da forma que mais gostava: a beijando.

Catarina virou o rosto tentando resistir a ele e não ceder tão facilmente, mas quando o assunto era Petruchio, suas pernas logo amoleciam, seu coração começava a saltar pela boca e não resistia quando ele grudava seus lábios no dela. Logo estava retribuindo o beijo puxando o rosto do marido para si e deixando que o vaso caísse no chão se arrebentando sozinho.

Já havia beijado Petruchio muitas vezes, em todas sentia-se completa, mas todos os beijos pareciam diferentes, uns eram desesperados, outros calmos apreciando o carinho de um com o outro, outros era como aquele, por vezes rápido e urgente, por vezes calmos com pequenos beijos espalhados pelo rosto, era como se o compasso de seu coração só se completasse com o compasso do coração dele, dançando num mesmo ritmo, com as batidas sintonizadas na mesma música, por vezes eletrizante, por vezes calma. Eram Catarina e Petruchio em sua maior e melhor essência.

Seu rosto parecia um pimentão de tão vermelho que estava quando se deu conta do que faziam no consultório da terapeuta, se separou dele.

Ela começou a pedir milhares de desculpas a doutora que permanecia agachada atrás de sua mesa.

— Doutora, me perdoe por essa cena tão humilhante na sua frente, não era minha intenção quando convidei meu marido para uma sessão com a senhora. Esperava que ele me ouvisse mais, me entendesse mais.

Ela apenas abanou a cabeça concordando com as afirmações de Catarina. Petruchio segurou nas mãos de sua esposa e foi logo se justificando a ela.

— Mas eu te entendo meu favo de mel, eu quero que ocê fique feliz e permaneça feliz do meu lado.

— Eu sou feliz e te amo muito, só quero que tenha confiança em mim, quero que me dê uma chance porque queria escrever Petruchio, eu quero ter voz e sinto que teria numa revista, numa revista que é voltada para mulheres.

Ele bufou bravo, mas entendia ela. Catarina se esforçava tanto na fazenda, conseguia organizar toda rotina da casa, tinha uma paciência gigantesca com Mimosa e Neca que viviam brigando, era uma mãe calorosa e orgulhosa dos filhos, mas ele sabia que ela sentia falta de escrever, sentia falta de lutar pelo o que pensava.

— Então ocê vai deixá eu ir com ocê falar com o jornalistazinho mequetrefe e o ameaçar porque ele que não ouse te dar uma chance de escrever pra essa revista.

— Faria isso por mim? — ela o olhou com os olhos brilhantes. — Faria isso agora por mim?

— Vamo lá. — ele segurou as mãos dela pronto para sair do consultório.

— Doutora eu te agradeço muito, a senhora é uma ótima terapeuta! — Catarina se encaminhou para perto da mulher que se levantou encostando na parede tentando ficar bem longe dela. — Olha, lembro que a senhora falou que tinha dez perguntas para nós, então nossa terapia não foi completa porque só foram metade delas, não é?

— Ah… ah…

— Catarina fez uma pergunta pra senhora, devia respondê. — ele falou bravo com a mulher fazendo ela concordar com a cabeça automaticamente.

— Vamos precisar voltar, não é Petruchio? Ainda precisamos melhorar em casa, nossos filhos estão com o terrível hábito de tacar vasos.

— Não sabemos bem o porquê. — Petruchio lançou uma piscadela cúmplice a doutora que permanecia acuada num canto.

— Vamos ao jornal então.

— Vamos favo de mel, vamos.

— Até a próxima sessão doutora. — Catarina se despediu indo com Petruchio até a porta de saída.

A psiquiatra renomada que havia ajudado alguns casais estava respirando forte analisando o estrago de seu consultório. Pegou o jornal que estava no canto da mesa e começou a olhar a seção de classificados. Precisava achar um novo lugar para alugar bem longe dali, bem longe do conhecimento daquele casal briguento.

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