Tenten Hiden
5 Capítulo IV
— E o vencedor é... Uzumaki Naruto.
Ao fim desse anúncio, uma enxurrada de aplausos e gritos ecoaram no ar. A intensidade daquela comemoração fez Tenten tampar seus ouvidos.
Os seus olhos foram, gradualmente, percorrendo o recinto. Estava sentada, em um dos bancos de uma extensa arquibancada. Notou, a sua volta, um número considerável de pessoas, parecia que toda a aldeia estava ali. Acompanhando a direção em que aquelas pessoas miravam seus olhos e direcionavam seus gritos indecifráveis, Tenten se deparou com uma cena familiar.
Lá estava ele, caído no chão, como uma animal ao ser abatido por um caçador. Ele não se mexia, não demonstrava nenhum esforço para levanta-se, estava inerte. Os seus grandes olhos brancos miravam o céu azulado, enquanto Naruto, em pé a sua frente, parecia dirigir-lhe algumas palavras.
Vendo aquela cena, a kunoichi logo percebera onde estava. Era a terceira fase do exame chunnin. Ela, novamente, defrontava-se com a derrota de seu antigo amigo.
"Não. Isso é impossível. Como alguém como você pôde ter sido derrotado assim". Esses eram os pensamentos que dominaram sua cabeça na primeira vez que vira aquela derrota. Mas, agora, estava confusa, não entendia o porquê de estar recordando tudo aquilo.
O corpo do amigo derrotado foi levantado cuidadosamente do chão pelos paramédicos para, em seguida, ser colocada, com o mesmo cuidado, na maca. Tenten os acompanhou a saírem da arena de combate até onde seu campo de visão permitia. Atordoada, e num impulso, levantou-se da arquibancada, caminhou apressadamente entre os corredores que dividiam as fileiras de bancos e saiu dali. Seus olhos vasculhavam ligeiramente os extensos corredores que percorria, ladeados por portas, à procura do local onde seu amigo fora acomodado pelos paramédicos. Enfim, descendo uma escada que dava em um corredor escuro, iluminado apenas por uma janela ao fundo, Tenten reconheceu uns dos paramédicos e, apressadamente, direcionou-se a ele:
— Com... Como ele está? – perguntou ofegante.
O homem, que trajava uma túnica branca com alguns desenhos simbolizando sua função, respondeu:
— Ele está bem, mas precisa descansar. O seu corpo está debilitado e exausto por conta da luta, entretanto não há grandes ferimentos.
Ao ouvir aquilo, a garota deixou escapar uma expiração de alívio.
— Essa luta foi surpreendente, não acha? – perguntou ele em um tom de intimidade – Nunca pensei que aquele garoto Uzumaki venceria um gênio como o Hyuuga.
Tenten ignorou o comentário, estava preocupada com o amigo. Percebendo isso, o paramédico aconselhou:
— Deixe-o que descanse um pouco – pausou por alguns segundos e completou, num tom de respeito — Além do corpo, o orgulho dele, com certeza, também esta ferido.
Os outros Paramédicos que se encontrava dentro do quarto retiraram-se, fechando a porta, e dirigiram-se para as escadas. O homem os acompanhou, direcionando apenas um olhar de pesar à Tenten. Subiram os degraus e sumiram.
Tenten ficou parada ali, em frente à porta, até quando seus ouvidos não podiam mais escutar as botas dos Paramédicos estalarem no assoalho de pedra. Seu braço esticou-se cautelosamente para alcançar a maçaneta. Girando-a, abriu um pouco a porta de madeira para visualizar o interior do aposento, mas tudo que conseguiu enxergar foi uma parede de pedra lisa. Tomando coragem, se esgueirou pela estreita abertura da porta, recusando-se a abrir um pouco mais, pois o ranger da madeira poderia denunciar sua entrada sorrateira naquele quarto. Não queria acordar o amigo e nem ser pegar por algum Paramédico.
Já dentro, notou que não havia ninguém ali como vigia. O cômodo era um quarto de formato quadrado, mobiliado apenas por uma estante e uma poltrona, ambos encostados na parede. De frente para eles, encostado no outro canto do quarto, estava seu amigo, deitado em um leito. Seus olhos crisparam-se para evitar que algumas lágrimas caíssem. Sua boca desenhou um sorriso desajeitado. Ela estava contente, pois, há tempos, aquele rosto não era mais presente no seu dia a dia. Em seu peito, a dor costumeira parecia dormir, dando espaço para as palpitações de sua respiração. Aos poucos, foi se aproximando até que apenas alguns centímetros a separavam do leito. Não se atreveu tocá-lo, deixou-se observar detalhadamente aquele rosto branco, num misto de alegria e tristeza. Havia algo ali que não parecia ser real.
— Tenten? É você? – perguntou o garoto. Sua voz estava levemente roca.
Assustada, a garota demorou alguns segundos para responder. Com a voz titubeante, disse:
— Sim... Sou... Tenten.
Os olhos dele se abriram, virando-se para fitá-la.
Ela conteve-se para não envolvê-lo em seus braços. Queria abraçá-lo calorosamente, para que a saudade pudesse partir. Mas tudo que lhe restou foi ficar em pé, parada a observá-lo.
— Você está bem, Ne... – as palavras morreram na boca de Tenten, mas, estranhamente, a dor não reapareceu. Então ela continuou – Senti sua falta — ela não conseguiu mais conter as pequenas lágrimas que se formavam em seus olhos. Deixou que escorressem.
Como se não tivesse ouvido aquela confissão e nem visto as lágrimas derramadas pela amiga, ele comentou:
— É estranho... Tudo isso é estranho. Sempre pensei que a vida fosse fruto de um destino determinado. Nossas escolhas seriam apenas pequenos movimentos, fragmentos, de um livro já escrito. Não importava a direção ou o caminho que tomávamos, no final, o lugar que chegaríamos sempre seria o mesmo – um discreto sorriso apareceu entre seus lábios. Seus olhos, agora, atravessavam as janelas envidraçadas do quarto, para fitar as nuvens que percorriam o céu. Ele prosseguiu na sua reflexão – Eu acreditava que assim era vida e restava-me só a resignação. Por isso, aceitei todos os limites impostos a mim, todas as barreiras que me impediam de ir além, que me lembravam da minha posição e do meu lugar, um mero membro da família secundária.
Tenten já havia escutado isso alguns anos atrás, mas estava atenta. Ouvir aquela voz novamente era um momento ímpar. Sentia sua alma domada por uma alegria incontrolável. Seu corpo estava numa ânsia incessante de se mexer. Ficar parada, sem poder tocá-lo, era desesperador.
Ele continuou em seu discurso introspectivo, falando de forma eloquente e suave, entretanto Tenten não tinha mais forças para conter-se e, interrompendo o amigo, debruçou-se sobre ele. Suas mãos envolvendo as dele, enquanto seu rosto descansava no abdômen do companheiro de equipe. Todavia, novamente, ele não esboçou nenhuma reação:
— Tenten – disse, com seus grandes olhos brancos abaixados na direção dela. Ela, também, o olhava, com lágrimas caindo sobre a roupa dele – Você sabe qual é a minha estação preferida?
Sem entender o motivo da pergunta, ela respondeu:
— É a primavera.
— E você sabe por quê?
Ela, ainda confusa, não o respondeu. A dúvida estava estampada em seu rosto.
Ele deu outro sorriso e falou:
— Pessoas tristes e cheias de amarguras como eu são como a relva no inverno, coberta por uma camada espessa de neve. Por conta disso, somos frios e escondemos nessa frieza quem verdadeiramente somos. Só há tristeza em nossos corações. Mas sempre estamos à espera da primavera, para que a neve vá embora e leve a tristeza consigo, e a alegria venha junto com as flores, o verde e as brisas da primavera para aquecer nossos corações. Você entende o que quero dizer, Tenten?
Os olhos de Tenten arregalaram-se, pois o rosto do seu velho amigo foi lentamente se desfazendo em poeira. O mesmo aconteceu com o quarto, entretanto, esse, desapareceu mais rápido e primeiro.
Ela aproveitou aqueles últimos momentos. Envolveu seus braços entorno do corpo do garoto, na tentativa de abraçá-lo, mas fracassara. Antes que pudesse aperta-lo contra o seu peito, ele desmanchou-se em pó, para em seguida ser levado, para longe de Tenten, pelo vento.
****
As pálpebras de Tenten foram lentamente se abrindo, enquanto ouvia uma voz, que parecia distante, chamar seu nome:
— Tenten... Tenten
Ela levou alguns segundos para acostumar-se com a claridade, seus olhos doíam.
— Você acordou. Finalmente! – dessa vez, a voz estava mais próxima.
Não demorou muito para que a garota percebe-se onde estava. Quando a claridade não a incomodava mais, ela conseguiu avistar o que parecia ser um teto. Em seguida, seus olhos percorreram todo o perímetro a sua volta, avistando paredes onde havia várias armas penduradas, um guarda-roupa, um criado mudo com vários pergaminhos, cortinas que balançavam todas às vezes que o vento soprava entre as janelas abertas e outras mobílias. Ela reconheceu. Aquele era seu quarto.
Estava deitada em sua cama. Em um impulso automático, levantou-se das cobertas e ficou sentada no canto, com os pés tocando o assoalho de madeira. Respirava ofegante e suava frio.
— Tenten, está tudo bem? – perguntou a voz.
Ela virou-se para ao lado, à procura da pessoa que lhe dirigia a pergunta.
— Você está bem? Você está suando.
Logo ela viu que se tratava de Ohana, sentada em sua cama, estranhando a sua reação ao ser acordada.
— Fiz mal em acordar-te? – questionou a menina preocupada
— É claro que não – respondeu Tenten, recobrando a calma e a respiração.
— Você parece não estar bem – Ohana colocou a mão na testa da prima para averiguar se uma febre não havia lhe acometido – Não está febril. Talvez só tenha se espantado comigo te acordando.
Tenten nada disse. Olhou para a janela, já era o começo da tarde:
— Que horas são?
— São exatamente 13 horas e 30 minutos. Você dormiu bastante, hein – comentou Ohana, dando um leve tapinha nas costas da prima. Continuou – Vamos! Lavante-se. Esqueceu que hoje eu iria ver seu treino?
"Era verdade", lembrou a kunoichi. Então rapidamente saiu da cama e foi direto ao banheiro. Em seguida, desceu as escadas para ir até a cozinha. Sua mãe terminava de preparar o almoço. Ao avistar a filha, ela disse:
— Como sempre acordando tarde, não é? Chame sua prima, pois o almoço logo estará pronto.
Não foi preciso. Ohana já descia as escadas e acomodava-se em seu local fixo na mesa, o mais próximo do fogão, ali era mais fácil para ela recolocar comida em sua tigela.
O almoço seguiu tranquilo. Meying-san preparou uma refeição reforçada, sabia que a filha logo iria para o campo de treinamento e, por isso, não queria vê-la de estômago vazio. Ohana comia tudo, sempre comentando o quanto sua tia era uma ótima cozinheira. Por sua vez, Tenten estava distraída, absorta em seus pensamentos a respeito do sonho que tivera. Repassava em sua mente cada detalhe, cada frase dita por seu amigo. Queria entender o motivo de ter sonhado sobre aquilo, uma situação já vivida.
Quando seu antigo amigo havia perdido a luta na terceira etapa do Exame Chunnin, ela ficara boquiaberta, não acreditava daquela derrota. Mas, ao decorrer do tempo, e com as mudanças que se deram na personalidade dele, ela compreendeu o quão importante e necessário foi aquilo. A frieza e a prepotência que o ex companheiro de time carregava consigo se apagaram, dando espaço para uma pessoa gentil, mais receptível e amigável. Mudanças essências para o crescimento dele como pessoa e como um ninja. E tudo isso graças a sua derrota.
"Provavelmente, o Festival de Boas Vindas à Primavera me fez lembrar disso e eu acabei sonhando.", concluiu ela, ainda incerta, mas era a única razão que conseguia pensar naquele momento.
"Afinal, a primavera era a estação favorita dele."
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