— Tenten... Tenten – gritava uma menina que vinha se aproximando.

Tenten, absorta em contemplar o por do sol, não percebeu que alguém se aproximava. Ela estava inebriada por aquele céu alaranjado de fim de tarde.

— Tenten, você não está me ouvindo? – Perguntou a garota em tom queixoso e colocando sua mão no ombro de Tenten, para que ela notasse sua presença.

Como se estivesse acordando de um intenso devaneio, Tenten piscou rapidamente os olhos e virou sua cabeça para vê quem estava atrás dela:

— Ohana! – Exclamou ela com os olhos espantados – O que você está fazendo aqui?

— Não é óbvio? Vim te buscar.

Ohana era uma prima de Tenten e estava passando um tempo na sua casa. A garota, de pele avermelhada, dona de um cabelo preto, curto e ondulado, o qual as mechas mais longas iam até um pouco mais abaixo do queixo, tinha catorze anos. Era baixa, tinha um corpo esbelto e um sorriso tão resplandecente que animava até o mais infeliz dos indivíduos. Estava na casa de Tenten há alguns meses, pois sua aldeia fora completamente destruída pela a Quarta Grande Guerra e, com isso, seus pais resolveram poupá-la do sofrimento trazido pela guerra enviando-a a Konoha, enquanto eles continuaram na aldeia para ajudar na reconstrução.

Assim, Ohana chegou à casa de Tenten e, essa, até alegrou-se com a chegada da prima, pois sua casa estava precisando de uma alma sorridente e tão cheia de vida como Ohana. Tenten admirava o comportamento da prima, que mesmo tendo presenciado as desgraças trazidas pela guerra, ainda mantinha um espirito tão alegre.

— Como assim? – Perguntou Tenten confusa.

— A tia, sua mãe, pediu-me que viesse aqui para te levar para casa. A janta já está pronta.

— E como você conseguiu chegar aqui? – Questionou ela. Afinal, Ohana não conhecia tão bem a vila ainda e, além disso, aquele campo de treinamento era um pouco distante de sua casa e um dos mais escondidos da Vila, quase ninguém treinava ali.

— Sua mãe me explicou onde ficava. Bem, vou ser sincera e confessar que não entendi muito, mas algumas pessoas me ajudaram no caminho – respondeu a prima esbanjando seu sorriso tão arrebatador.

— Ah! Entendi. Você realmente adora se arriscar – rebateu Tenten, que também retribuiu com um sorriso.

Tenten levantou-se e já estava resselando suas armas, espalhadas pelo campo de treinamento, para poder retornar a sua casa. Ohana aproveitou esse momento para observar o campo. Era um belo lugar, uma grande clareira, rodeada pelas árvores de um bosque e com uma relva tão macia que convidava a qualquer um para deitar-se sobre ela e tirar um revigorante cochilo ali mesmo:

— É realmente um lugar lindo aqui – Comentou Ohana, ainda observando encantada o lugar.

— Sim. Esse é um dos motivos que me faz sempre treinar aqui.

— Você vem treinar aqui novamente amanhã? – Perguntou ela, ansiosa para ouvir um sim. Mas não esperou que Tenten respondesse e logo completou – Posso vir amanhã com você? Esse lugar é tão lindo.

— Claro que pode. Vou adorar ter sua companhia – Disse ela aproximando-se da prima. Depois, colocou a mão no ombro de Ohana e falou — Agora vamos para casa.

A casa de Tenten ficava em frente a um pequeno parquinho, onde as crianças iam todas as tardes brincar. Era uma casa modesta e de bela aparência, principalmente pelo belo jardim que a rodeava. Esse jardim era um dos orgulhos da mãe da Tenten, a Meiying-san, que todos os dias sempre regava as plantas e flores e tinha o maior cuidado possível para que elas estivessem sempre deslumbrantes e saudáveis. As rosas, daquele convidativo local, possuíam um colorido intenso, que davam um toque delicado a casa, reforçado pelo verde brilhante das plantas e da grama. Quem passava por ali e se deparava com aquele lugar, sentia estar contemplando uma pintura em aquarela, na qual as cores transmitiam uma sensação de doce tranquilidade.

A jantava já estava servida. Meiying-san preparara uma deliciosa sopa com alguns legumes, retirados da horta no fundo da casa, com pedaços de frango cortados em cubinho. Antigamente, Tenten animava-se com as delicias preparadas pela sua mãe, pois a considerava uma ótima cozinheira, e era um grande deleite para ela, após os treinamentos intensivos com Guy-sensei, saborear algo preparado por sua mãe. Entretanto, atualmente, no estado de ânimo que se encontrava, ela não tinha mais o apetite de antes, não conseguia mais sentir o sabor dos alimentos.

— Acabei – falou Tenten.

— Coma mais um pouco, minha filha. Você treinou muito hoje, tem que recompor as forças – Advertiu Meiying-san.

— Já estou cheia – Rebateu ela com indiferença. Levantou-se e foi até a pia.

Ohana, que também já havia acabado, levantou-se para por mais um pouco da sopa em seu prato. Sentou-se e começou a comer novamente com um brilho de deleite nos olhos.

— Essa sopa está tão deliciosa. Tia Meiying, você realmente é uma cozinheira e tanto.

Meiying-san assentira com a cabeça para Ohana, em forma de agradecimento ao elogio, embora seus olhos estivessem grudados em Tenten. Já havia notado há algum tempo o desanimo da filha através de pequenos indícios. Notara que Tenten não possuía mais o apetite de antes, muito menos aquele comportamento ativo. Seu semblante que antes era corado e cheio de brio, agora, parecia estar coberto por uma fina camada de gelo, pois se tornara gélido e levemente pálido. Além disso, as conversas costumeiras que as duas sempre tinham, aos poucos foram diminuindo e, hoje, Tenten reserva o seu tempo apenas para seus treinamentos à tarde e para suas longas noites de sono.

"O que aconteceu com você, Tenten?" perguntava ela constantemente para si mesma. Algumas vezes, preocupada com essa languidez que cobria a filha, Meiying-san resolveu perguntar para Tenten se estava tudo bem com ela, se não havia algo a incomodando. Ao se deparar com tal pergunta, Tenten apenas respondeu, com um sorriso abatido no rosto: "Não se preocupe, mamãe, eu estou bem".

Todas já haviam terminado suas refeições. Ohana, que ajudava sua tia a tirar a mesa, viu a prima subindo as escadas, correu até ela e segurou sua mão:

— Tenten, por favor, vamos sair hoje – Pediu com um tom suplicante na voz.

— Desculpa, Ohana, mas estou cansada – Respondeu. Embora Tenten não quisesse ir, o olhar comovente de sua prima a fez sentir uma pontada de culpa em recusar o convite.

— Não seja má comigo, Tenten. Desde quando cheguei na vila, nunca saímos juntas. Você nunca me levou para conhecer nada aqui. Por favor, eu te peço – Ohana dizia isso balançando insistentemente a mão de Tenten – Por Favor, vamos.

Era verdade. Desde a chegada de Ohana, há alguns meses, em Konoha, Tenten sempre recusava os convites feitos pela prima para sair. Felizmente, Ohana era uma garota bem disposta e, por isso, arriscou-se algumas vezes a explorar a vila e conhece-la por si só. Todavia, com a censura de sua tia, que recava com que ela se perdesse, Ohana não saiu mais, exceto hoje, em que ela foi buscar Tenten para jantar.

Ouvindo o pedido incessante da sobrinha, Mei-san resolveu intervir:

— Filha, sua prima tem razão. Além disso, há tempos que você não sai para se divertir na vila. Todos os dias você acorda tarde e sai para treinar. Essa monotonia não te incomoda? É preciso variar um pouco. Saia hoje com Ohana, faça isso por ela. Ainda mais que hoje é o Festival de Boas Vindas a Primavera, seu festival preferido.

Tenten não se animou em sair, entretanto, não encontrou mais forças em resistir aos pedidos de Ohana e aceitou o convite. Ela baixou a cabeça por alguns instantes e, olhando para mão de sua prima, que segurava a sua, disse, em um tom nostálgico e ao mesmo tempo melancólico, para si mesma:

— Então, a primavera realmente chegou, né? – Respirou fundo e, dessa vez, olhou para sua prima – Tudo bem, nós vamos sair.

E a dor em seu peito subitamente reapareceu.