Tentação
7 - Capítulo 7
Caroline estava deitada no último banco, segurava um livro de capa azul escuro e suas mãos tampavam o título. Me aproximei e sentei-me na grama de frente para ela.
– Gosta mesmo de ler, né? – Comecei. Não sabia o que falar. Ela simplesmente me olhou e em seguida voltou sua atenção no livro. Seus cabelos estavam derramados para fora do banco, fios pretos e tão lisos que pareciam de mentira. – Qual é o título? – Perguntei. Ela me olhou novamente por alguns segundos.
– A morte da menina curiosa. – Finalmente respondeu, me fuzilando com os olhos. Minha vontade era sair correndo.
– Nossa... – Sorri falso. – Deve ser... Interessante. – Ela não disse nada, apenas continuou lendo. Ok, era hora de começar meu trabalho. – Edie fala muito de você. – Falei. – Sabe, ele é legal, irritante as vezes, mas não deixa de ser legal. – Ela não se manifestou. Eu me calei.
– Ele mandou você vir aqui? – Disse ela minutos depois.
– Sim, — Respondi. – quer dizer... Não, — Ri tentando retirar o que tinha dito. – ele não me mandou aqui... eu só... é...
– Consigo vê-lo atrás daquele pilar, — Ela olhou para mim, e então seu olhar desviou-se para atrás de mim. – ele está nos espiando. – Me virei, Edie estava atrás de um pilar tentando se esconder para poder observar o que estava acontecendo, eu bufei baixo e simulei um soco, que ele iria levar daqui a pouco.
– Tá, — Comecei. – é... ele me mandou aqui, dê uma chance a ele. – Levantei as sobrancelhas e curvei meus lábios para baixo, tentando comovê-la com minha tristeza fake. – Ele está tão arrasado. – Falei exagerando em um tom de voz melancólico.
– Eu tenho muita coisa para fazer. – Ela fechou o livro e se levantou. – Não tenho tempo para ele agora. – E saiu.
Me virei para ver se Edie ainda estava lá, ele parecia animado, mal sabia que não teria chances. Apontei um dedo para mim mesma e depois para ele então passei-o em volta no meu pescoço como um “Eu vou matar você”. Ele colocou as mãos na cabeça e seus lábios se mexeram, não decifrei o que ele tinha dito.
***
Ramon acabara de sair da biblioteca e correu ao meu encontro, as aulas haviam acabado. O corredor estava lotado e nos esprememos para passar entre os corpos agitados até chegarmos a saída.
– Louis me disse que comprou um carro, — Ele falou. – vou pra casa com vocês, quero ver se a máquina é potente. – Deu um largo sorriso.
– Vai se surpreender. – Falei com tom de deboche.
– Tem um novato na minha aula de química. – Disse ajeitando os cadernos nas mãos. – O nome dele é... espere, parece meio feminino... é com J, eu não consigo me lembrar.
– Hm... Olhe ali o Louis. – Apontei para a lata velha verde estacionada no outro lado da rua.
– Minha nossa... – Arregalou os olhos. – Aquilo é o carro dele?
– Exatamente, aquela é a máquina potente que ele chama de bebê. – Gargalhei.
– O nome dele é Jess. – Falou de repente.
– O que?
– O novato se chama Jess.
– Oh... meio feminino mesmo. – Sorri. Atravessamos a rua e entramos no carro. – O que você fez?
– Apertei alguns parafusos, mexi daqui e dali e Vualá, está funcionando perfeitamente. – Deu partida.
– Onde está Edie? – Ramon perguntou no banco de trás.
– Foi andando. – Respondi. – Para pensar na vida. Tadinho, ele está sofrendo. – Falei fazendo cena com a mão no peito. – Ele está sofrendo de amor. – Rimos.
Em casa, passando pelo quarto da minha mãe, pude vê-la arrumando algumas roupas e uma mala estava jogada no chão aberta com algumas roupas dentro.
– O que está fazendo? – Disse entrando no quarto.
– Acabaram de me ligar, — Falou jogando cabides em cima da cama. – preciso ir de acompanhante a uma viagem de negócios.
– O que? – Fiquei surpresa, mamãe não gostava de me deixar sozinha com o Kane. Ela se preocupava e não confiava em nós, e de repente ela vai fazer uma viagem assim, do nada? – Como assim?
– Eu sei, meio imprevisível, mas tenho que ir. – Ela parecia chateada. – Mas não vou deixar vocês sozinhos. Vou pagar para a Sra. Flitz, ela virá aqui todos os dias, ver se estão bem, e também vai cozinhar.
– Eu sei cozinhar.
– A sua preguiça não vai deixar você preparar nada pra comer, aposto que pediria pizza o mês todo.
– Vai ficar um mês fora? – Abri a boca.
– Não, — Falou dobrando uma calça cor bege. – no máximo duas semanas.
– Duas semanas? – Me incomodava saber que ela ficaria fora por duas semanas. – Pra onde vai?
– Nova Iorque. – Ela sorriu.
– Uau... – A cidade que nunca dorme, ok então.
– Kane já está sabendo, ele chegou mais cedo que você. – Disse fechando a última mala que faltava. – Meu voo sai em menos de trinta minutos, tenho que correr, a Sra. Flitz chegará logo. – Se aproximou e beijou minha testa. – Fique bem. Prometa que não vai fazer nenhuma besteira. – Colocou um dedo na ponta do meu nariz.
– Vou tentar. – Sorri.
Ajudei a levar as malas para o carro, nos despedimos mais uma vez, então mamãe deu partida e desapareceu pela cidade. Eu parecia muito bem com a situação, não teria minha mãe por duas semanas me dizendo o que fazer e me criticando, mas por outro lado iria sentir falta dela, porém eram só duas semanas... Passariam rápido.
Mais tarde a Sra. Flitz entrou em casa, ela usava uma saia até os pés estampada com flores roxas e uma blusa branca de mangas longas. Ela era baixa e rechonchuda, seus cabelos estavam presos em um coque no alto da cabeça e em sua boca um batom de cor clara.
– Sua madre me deu a chave reserva. – Ela disse olhando para mim com seus olhos grandes e azuis. – Estás com fome?
– Não. – A Sra. Flitz não era americana, por isso o sotaque diferente, engraçado. Gostava de ouvi-la, me fazia rir.
– Mesmo assim vou preparar algo, e quando quiser pode servir-se. – E se foi para a cozinha.
Mais tarde, tomei meu banho para ir mais um dia ao Rock’s, a Sra. Flitz ainda estava em casa quando saí, ela me avisou que talvez já não estaria lá quando eu chegasse, ela disse que precisava resolver umas coisas.
Meu horário estava quase acabando, depois de limpar as últimas mesas, me desfiz do avental que eu era obrigada a usar, coloquei-o em um suporte na parede da cozinha.
– Ei, garota. – A mulher antipática me chamou. – Tome. – Esticou os braços, na sua mão algumas notas. Eram 1.250 dólares, eu deveria receber 1.300.
– Obrigada. – Falei. Ela andou até o balcão e remexeu na segunda gaveta, tirou uma chave e pôs no bolso de traz da sua calça jeans. – Aí. – Falei. – Como se chama? – Perguntei. Ela me olhou por alguns segundos e antes de responder mexeu o nariz.
– Abgail. – Falou pegando seu casaco na banqueta. – Seu horário acabou.
– Ah... sim... – Coloquei meu dinheiro no bolso e peguei minha bolsa do “guarda coisas” que ficava ao lado do caixa. – Vou nessa.
Antes de sair liguei pro Louis, eu precisava de uma carona, não queria sair sozinha. Estava com medo de ser seguida mais uma vez, e poderia ser pior. Eu estava sentada na calçada a quase 30 minutos, não era tão longe assim pro Louis demorar tanto. Peguei meu celular e disquei seu número, antes de chamar eu avistei um farol, era Louis. “Um farol” literalmente, o outro estava quebrado, ele precisava arrumar aquilo.
– Ah, minha dama. – Ele falou lutando com o cinto e se esticando para abrir a porta pra mim. – Esse carinha precisa de carinho para pegar. – Falou se referindo ao carro.
– Jura? – Ri.
– Desculpe a demora.
– Ok. – Falei fechando a porta.
– Qual o destino? – Ele perguntou dando partida.
– Minha casa.
Louis parou o carro na garagem de casa. As luzes da cozinha estavam acesas, Kane havia chegado.
– Está tendo um festival no Lago Kunt. – Lago Kunt era um lugar onde festas aconteciam, algumas eram comemorações da cidade outras eram só adolescentes rebeldes acabando com a reputação do lugar. – Vamos?
– Eu estou muito cansada pra isso. – Falei abrindo a porta e saindo do carro.
– Ok. – Ele abriu a porta do seu lado e saiu. – Sua casa é melhor. – Falou indo até a entrada.
– Eu não te convidei. – Ergui uma sobrancelha.
– Não precisa. – Ele sorriu.
A Sra. Flitz estava sentada em uma cadeira encostada na parede olhando para a TV. Ela segurava uma agulha de crochê e entre seus pés, um barbante azul no chão. Ela me olhou e então se levantou.
– Você tem um irmão pelo que sei. – Ela falou andando até mim. – Olhe as horas. – Apontou pro relógio da cozinha. – São quase meia-noite e ele não apareceu em casa, devo me preocupar. – Ela arregalou os olhos. – Sua madre está me pagando para cuidar de vocês, Deus me livre se acontece algo a esse menino.
– Tudo bem, Sra. Flitz. – Olhei para o Louis. – Acho que sei pra onde ele foi. – Falei pra ela.
– Misericórdia. – Ela voltou a se sentar. – Traga-o para casa. – Então voltou a mexer com as mãos no barbante.
– Louis, Lago Kunt. – Falei saindo.
– Isso! – Ele exclamou, animado.
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