Tentação
49 - Capítulo 49
Notas iniciais
Com várias tentativas de escape, nenhuma delas teve efeito. Já haviam se passado no máximo cinco minutos, Hants estava sedento de acabar com a gente, tanto que não demoraria nem um minuto. Estranhei um pouco.
Jess soltou um som pela boca, eu logo dei minha atenção a ele. Jess conseguira soltar um dos pés.
– Parece que não estou tão inútil. – Disse ele, mordendo os lábios, tentando soltar o outro pé.
Um barulho ecoou do lado de fora da pequena sala em que estávamos.
– O que foi isso? – Sussurrei.
Jess não respondeu. Ele se apressou e fez mais força até arrebentar a corda do outro pé. Quando conseguiu, suas pernas ergueram seu corpo. Jess jogou-se imediatamente de costas na parede mais próxima, batendo a cadeira contra o cimento duro fazendo a cadeira se despedaçar.
Ao mesmo tempo, a porta de madeira foi arrombada, Hanna apareceu armada com um arco em frente ao rosto. Logo que me viu, ela soltou a arma no chão e avançou com as mãos em cima dos meus ombros, apertando tão forte que me fez gemer de dor.
– Sua maldita. – Ela exclamou, vermelha de raiva.
Jess a puxou pela cintura, levando-a para longe.
– Acalme-se. – Ele disse, sério.
– Ela roubou meu carro. — Hanna estava fora do controle. Eu me assustei com toda a cena, mas eu não gostava muito dela, então me senti superior só por tê-la feito sentir tanta raiva.
– Não temos tempo para essa babaquice. – Jess disse, a soltando no mesmo momento. – Hants, onde ele está?
– Não sei. – Ela disse. – Não o vi. Passei apenas por um capanga dele.
– Ele saiu a pouco tempo. – Jess foi até mim e desamarrou minhas mãos. As cordas estavam enroladas com tal força que fez meus dedos ficarem de uma cor roxa clara, e meus pulsos estavam vermelhos mascados.
– Não havia ninguém do lado de fora, apenas um cara. – Ela pegou seu arco. – Atirei um desses em seu coração. – Ela pegou um cilindro pontudo de um dos bolsos da calça. Era como uma bala de revolver, só que maior e pontuda. Com um tiro desses e era morte na certa.
– Precisam ficar juntas agora. – Jess falou, agachando-se para desamarrar meus pés.
– Me peça isso novamente e eu atiro em você com isso. – Hanna falou, erguendo o arco.
Me levantei quando Jess acabou de desamarrar as cordas. Uma leve dor ameaçou começar em minha cabeça, eu me desequilibrei por um momento.
– Está tudo bem? – Jess pegou em meus braços.
– Sim. – Falei fraco.
Me recuperei em poucos segundos, quando lembrei que mamãe e Kane estavam do outro lado. Corri até eles e desamarrei os dois.
– Ah, filha. – Mamãe soluçou. – O que está havendo? Porque não me disse nada sobre isso tudo?
– Mamãe...
– Esse rapaz. – Ela interrompeu-me. – Ele é o que? O que todos eles são? – Seus olhos estavam vermelhos e inchados. Ela parecia desesperada.
– Demônios. – Kane disse, com um tom animado.
Mamãe o olhou em estado de choque, seus lábios se separarem em um tom de surpresa.
– Kane. – Falei severa com ele.
– Explicarei melhor. – Falei. – Precisamos sair daqui agora.
Ainda assustada, ela assentiu com a cabeça.
– Vou na frente, estou armada. – Hanna disse, olhando para todos, mas seus olhos demoraram em mim.
Andamos atrás dela, mamãe estava segurando minha mão com força. Jess estava a minha frente, Kane atrás de nós todos.
Ao invés de subirmos o buraco em que eu havia pulado, Hanna nos levou para outra passagem secreta nos fazendo virar corredores estreitos e subir alguns degraus. Ela parou em frente a uma madeira forte branca, a puxou e entrou em uma passagem que nos fez sair por dentro da galeria de artes. Estava tudo como eu tinha visto antes, tudo estava fora do lugar, a mesma bagunça.
– Esperem aqui. – Ela disse. – Vou certificar de que não há nada lá fora.
Hanna andou até do outro lado da sala, sumindo entre os pilares. Kane fitou o lugar todo.
– Nunca vi esse lugar antes. – Ele andou até um quadro que estava no chão, com a tela rasgada. – Era alguma coisa relacionada a desenhos?
– Uma galeria. – Falei.
– De quem era os desenhos? – Perguntou.
– Disso eu não sei, mas sei que eram maravilhosos. – Olhei para Jess, que me observava. – Tive a sorte de ver todos quando Jess me trouxe aqui pela primeira vez.
– Quando? – Mamãe me encarou. – Quando isso ocorreu?
– Quando estava viajando.
Mamãe suspirou. Ela encarou Jess por alguns segundos, parecia estar pensando em falar algo para ele, mas Hanna apareceu, interrompendo qualquer tipo de questionamento que mamãe queria fazer a Jess.
– Tudo limpo. – Hanna disse.
– Ok. – Jess fez um gesto para que pudéssemos ir.
Hanna estava encostada na porta de entrada, segurando preguiçosamente o arco em suas mãos. Jess foi o primeiro a passar pela porta, depois Kane, mamãe e por último eu. Hanna estava de cabeça baixa e pude perceber seus olhos fitarem o lugar como se fosse a última vez em que voltaria lá. Ela limpou a garganta e me encarou de cara feia.
– O que foi? – Ela disse, passando por mim.
Eu queria pedir desculpas para ela, queria mesmo. Mas a cada olhar que ela me dava era como se cortasse meu pescoço. Não sentia medo dela, mas sabia que subestimá-la seria burrice.
O local aberto me fez respirar melhor, uma neblina estranha ainda tapava tudo adiante. O tempo havia mudado ainda mais.
– Vamos andar até a estrada. – Jess disse.
– Louis pode estar nos esperando. – Lembrei a mim mesma, e informei a eles. – Ele veio junto comigo, o deixei na... – Engoli seco. – O deixei com a caminhonete.
Hanna falou algo inaudível e revirou os olhos.
– Ele pode estar esperando. – Falei para Jess. – Eu disse para ele fugir se visse algo diferente, mas ele pode estar lá ainda.
– Vou na frente. – Hanna começou a andar rápido. Mamãe e Kane foram atrás dela e Jess me acompanhou.
– Acha que ela pode me matar se tiver alguma oportunidade? – Perguntei a ele.
– Ela odeia ser contrariada. – Ele disse. – Sim, ela mataria você se não fosse importante para mim.
– Estou péssima. — Olhei para os meus pés, sendo cutucados pelas pedras. – Eu até pediria desculpas se ela não fosse tão ignorante... E durona.
– Hanna é uma “boa pessoa”.
– Não sei de onde tirou isso. – Encarei-o.
– A galeria é dela. – Ele me olhou nos olhos.
– Sim, é a casa dela, e daí?
– Quis dizer que os quadros também são. – Ele pausou. – Ou eram.
Parei de andar, era mentira. Hanna não tinha tanto talento, Hanna não perdia tempo desenhando obras tão incríveis. Hanna não era responsável por nenhum quadro daqueles, ou era?
– O que? – Quase engasguei.
– Sim, ela desenha. – Ele sorriu. – Ela tem paixão pela arte igual a você.
– Isso é impossível.
– Vocês têm algo em comum.
– Hm. – Eu estava nervosa, não sabia que Hanna gostava de desenhar. Um sentimento ruim me tomou, em pensar que todos os seus quadros haviam sido destruídos doeram em mim. Eu ficaria arrasada.
– Eu ajudei ela a conseguir esse local. – Começou. – Ajudei a decorar. Ela me deu várias ordens, tudo teve de ser como ela queria. Foram algumas semanas de tortura para mim. — Ele passou a mão em seu queixo. – Ela não está tão enfurecida só pelo carro, mas sim pelo que aconteceu com a galeria.
– Tenho uma noção do que ela está sentindo. – Suspirei. Por mais que Hanna fosse uma chata, mandona, ignorante, eu sentia pena dela. Ficaria muito aborrecida se acontecesse algo com meus desenhos.
O carro de Hanna estava em poucos metros, escondido pela neblina. Vi Hanna correndo até ele e fiz o mesmo, Louis estava lá. Ele tinha que estar lá.
Quando cheguei, vi Hanna puxando Louis pelo braço e o jogando para fora do veículo. Ela entrou e inspecionou todo ele por dentro. Ela fez um movimento com o banco, fazendo-o deslizar para frente e em seguida para trás. Suas mãos afundaram até o chão do carro.
Hanna puxou uma pequena bolsa e pegou uma faca afiada.
– Uma dessas no coração e as coisas ficam complicadas. – Ela falou, examinando a lâmina.
– O que você disse? – Louis arregalou os olhos. Hanna não respondeu, ela nem havia dado atenção. – Ela vai matar alguém? – Louis olhou para mim, e em seguida para minha mãe e meu irmão.
– Demônios. – Kane disse, novamente achando aquilo muito excitante.
– Você não pode sair por aí falando isso para qualquer um. – Hanna estava quase colada com meu irmão. Seus olhos pareciam faíscas de fogo. – Mais uma dessas e eu corto você. – Ela olhou para baixo. – Juro que lhe corto.
– Ok. – A voz do meu irmão saiu fraca e ele tapou seu “objeto” com as mãos.
– Estão esperando mais alguém? – Louis perguntou, olhando longe.
– Não. – Jess disse ao mesmo tempo que eu.
– Não era o que eu gostaria de ouvir.
Olhamos para longe, seguindo os olhos do Louis. Vimos corpos se movimentando em meio a neblina. Jess me puxou pelo braço.
– Leve eles para casa. – Jess disse.
– Não vou deixar você.
– Por favor. – Ele fechou os olhos, tentando se controlar. – Faça o que estou dizendo.
Não me distanciei dele imediatamente, antes disso eu lhe beijei nos lábios e olhei fundo em seus olhos.
Chamei-os para entrar na caminhonete e o fizeram. Kane ainda estava fora do veículo, antes que eu pudesse abrir, escutei um barulho como de um tiro. Um tiro potente. Hanna havia disparado seu arco, não pude ver se acertou algum inimigo.
Outro tiro soou, mas não foi o de Hanna. Porque antes dele, ela correu para o lado e tampou meu irmão de algo. Hanna gemeu de dor e caiu de joelhos.
– Não. – Falei somente para mim.
Corri até ela e vi um objeto perfurado em seu peito. Jess puxou o arco das mãos dela e atirou aleatoriamente.
– Levem-na. – Ele gritou. – Depressa.
– Eu a levo. – Kane apareceu do meu lado.
Ele a pegou no colo e levou até a caminhonete. Eles entraram. Jess ainda estava disparando os cilindros, mais cinco tiros e eu não escutei mais nenhum barulho. Haviam acabado.
– Jess.
Ele correu em minha direção e me puxou pelo braço, me empurrou para dentro da caminhonete e ligou-a com facilidade acelerando com toda velocidade, sem olhar para os lados.
– Precisamos fazer algo. – Kane gritou. – Ela está ferida.
– Estou... – Hanna sussurrou com dificuldade. – Estou bem. – Ela engoliu a saliva. – Ele errou.
– O que? – Kane perguntou.
– Errou o coração. – Eu disse. – Ela não morrerá, não se o coração estiver a salvo.
– Tire isso dela. – Jess falou.
– Eu não vou mexer nisso. – Kane estava apavorado. – Vai machucá-la.
– Faça o que estou mandando. – Jess ordenou. – Se tirar vai melhorar.
– Vai cicatrizar em poucas horas. – Concluí.
– Tire logo. – Hanna falou, com dificuldade.
Kane fechou os olhos e puxou com tudo o objeto que estava penetrado no peito dela. Hanna segurou forte a mão dele e tentou não gritar com a dor.
– O — Obrigada. – Ela disse, respirando com dificuldade.
– Use isso. – Mamãe tirou o casaco e entregou ao Kane. Ele enrolou o pano e amarrou forte para segurar o sangue.
– Ela precisa de um médico. – Louis disse do meu lado.
– Ela vai ficar bem. – Falei.
– Ela está gravemente ferida. – Ele insistiu.
– Vai cicatrizar, aos poucos – Jess falou. – A dor continuará por um tempo, mas passará logo.
– Impossível. – Louis disse.
– Pelo que vejo, impossível é você fechar a boca. – Jess disse impaciente.
Louis se calou, mas uma onda de raiva subiu, eu pude ver apenas pela cor do eu rosto. O vermelho tomou conta da sua pele.
– Para onde vamos? – Perguntei a Jess.
– Estou pensando. – Suas mãos estavam firmes no volante. – Sua casa é a pior opção, a minha não é segura.
– A casa de Louis é uma boa escolha. – Deduzi.
– Não. – Louis interveio. – Meus pais não saberiam lidar com isso tudo, chamariam todo tipo de reforços. Não é uma boa, já que estão recusando qualquer tipo de ajuda.
– Abgail. – Eu disse.
– Quem? – Jess perguntou.
– Abgail, a moça da lanchonete em que trabalhei.
– Não sei se é uma boa ideia. – Jess disse. – Aliás, Hants já esteve lá.
– Mas seria a última opção dele. – Falei.
Jess mordeu os lábios e acelerou mais o veículo.
– Ok. – Foi o que ele disse.
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