Tentação

47 - Capítulo 47


O vento atravessava a janela da caminhonete, ainda haviam cacos presos em torno dela. Louis me encheu de perguntas o caminho todo, mas eu não respondi nenhuma delas, não tinha tempo o suficiente para dar prioridade ao Louis. Precisava salvar minha família, se eu me entregasse a eles ficaria tudo bem.

– Pode ir mais devagar? – Louis disse, com uma voz dura. A estrada estava úmida. – Para onde está indo? – Ele continuou.

– Para cá. – Falei virando o volante rapidamente.

Entramos na estrada de terra, a estrada que Jess e eu havia entrado a um tempo atrás. Lembro-me que estava com medo e aquele medo apareceu quando avistei o pequeno prédio, um arrepio correu pelo meu corpo. Eu realmente preferia o medo que senti com Jess a esse que eu sentia agora.

Freei a caminhonete bruscamente, tinha neblina no lugar. Estava cedo ainda, mas a neblina era muito estranha, como se o tempo tivesse mudado de uma hora para outra.

– Fique aqui. – Ordenei a Louis, descendo da caminhonete.

– Não posso ficar aqui. – Ele desceu atrás.

– Você precisa ficar aqui. – Tentei me manter calma.

– Que lugar é esse?

– Entre no carro. – Ignorei a pergunta. – E se ver algo diferente... Meta o pé daqui.

Parei a caminhonete alguns metros longe da galeria, não queria chamar muita atenção, apesar de ser necessário. Eles precisavam saber que eu estava lá, mas todo cuidado era bom.

Sentia as pedras cutucarem a sola do meu sapato, nada desconhecido. Não era possível ver nenhum movimento, nenhum automóvel, nenhum “guarda”, nada. O silêncio me dava calafrio. Entrei na galeria.

Minha garganta secou quando vi o interior do prédio. Não havia muita luz, os quadros já não estavam como antes, estavam rasgados e alguns manchados de um líquido escuro. Lascas de tinta saiam da parede, como se tivessem sido arrancadas com unhas, unhas de alguém muito forte por sinal.

Mas tudo estava lá, menos meu irmão e minha mãe. Rodeei todo o lugar e não encontrei sequer uma porta ou algo do tipo. Eu não tinha relógio, mas sabia que não era boa ideia ficar perdendo mais tempo procurando onde não podia encontrar nada. Me apressei em sair, rodeei o lugar inteiro e não encontrei nada.

Minha cabeça estava explodindo, e se tudo fosse uma cilada?

Andando em círculos chutei algo sem querer. Uma corrente apareceu. Agachei para poder observar de perto, a corrente era grande e parecia estar mostrando caminho. Ela estava bem camuflada em meio as pedras. Eu a puxei, seguindo-a em passos rápidos.

A corrente acabou quando cheguei a um latão de lixo, mas não tinha lixo nele, estava completamente vazio. Segurei em sua borda e puxei para afastá-lo do lugar. Apesar de estar vazio, era extremamente pesado. Não consegui puxá-lo ao todo usando as mãos, então me joguei no chão para tentar arrasta-lo usando os pés. Estiquei minhas pernas empurrando. Deu certo.

Um pedaço de madeira velho apareceu, usei os pés para afastar as pedras de cima, pareceu maior, a corrente estava presa em uma argola que se prendia no pedaço de madeira. Puxei a argola e descobri que aquele era um caminho para outro lugar. Puxei com mais força até a madeira se desfazer do chão e bater na parede logo atrás dela.

– Isso. – Falei com alívio e cansaço.

Não tinha escada, estava escuro visto de fora. Mergulhei minha cabeça para ver por dentro e consegui enxergar uma porta que escapava luz laranjada pelas frestas. O chão não estava longe. Sentei na borda do buraco e pulei.

Meus pés bateram com muita força no chão me fazendo gemer de dor. Não tinha quebrado, mas torcido talvez. Mas a dor passou quando ouvi uma voz grossa, igual à do telefone, estava abafada atrás da porta. Ela estava contando, estava em uma contagem regressiva.

– ...3, 2...

Eu corri em empurrei a porta, caindo do outro lado da sala.

– 1. – A voz disse.

Meu rosto bateu no chão sujo de madeira que cheirava a coisa velha. Eu estava jogada no chão, com minhas costas para cima, meus cabelos tamparam a minha visão.

– Impressionante. – A voz disse. – Você é o ser humano mais impressionante que já conheci. – Agora reconhecia a voz. – Não é à toa que Jess, o ser do meu ser, nos traiu por você.

– Magda. – Mamãe chamou, em soluços.

Virei meu rosto em direção a ela, alguns fios tapavam parte da minha visão, mas pude vê-la. Seus cabelos molhados de suor colados ao rosto, suas mãos amarradas e pés. Kane estava do mesmo jeito, mas sua boca portava um pano escuro. Meus olhos embaçaram com lágrimas, tentei me levantar e ir até eles, mas o homem me segurou pelos braços e me puxou para longe deles.

– Sem conversa, por enquanto. – O homem, o maldito homem disse. Ele fez sinal para um homem a sua frente, o mesmo andou até minha mãe e a amordaçou também, como Kane. Do outro lado estava mais um rapaz, ele era novo e se apoiava em uma cadeira de madeira, onde o homem estava me levando. – Vou sentá-la aqui e você vai ficar quieta, se quiser sua família salva.

– É isso? – Gritei. – Porque não me mata logo de uma vez? – Já estava cansada de por minha vida em risco, essa não era a primeira vez, porém era necessário. – Esse é o combinado, você me tem e em troca solta minha família.

– Você não entende? – Ele sorriu. – Conosco não tem acordos. – Ele cuspiu as palavras. – Vocês são uma raça tão inútil. – Ele gargalhou.

– Solte eles... – Chorei, eu chorei.

– Meu filho não acabou o que havia começado. – Ele disse, passando as mãos nos cabelos lisos. – Você o machucou, Magda.

– Vá se ferrar. – Gritei em lágrimas.

– Até aí as coisas estavam bem, mas seu namorado o machucou para sempre. Tanto que ele não volta mais. – Jess havia matado Philip, com ajuda da Hanna. Fiquei imaginando se ela tinha mesmo o ajudado, como ela conseguiu não se envolver na morte dele? Se ela tivesse matado Philip, ela havia o traído. – Agora será diferente. Não matarei você. – Ele sorriu. – Não sem o Jess.

Minha cabeça já não conseguia mais parar no lugar, eu estava tonta.

– Vão morrer juntos. – O homem puxou um cigarro do bolso direito e um isqueiro do esquerdo. – Depois de vocês dois... – Ele pausou, para acender o cigarro. – ...matarei seu irmão lentamente. – Ouvi gritos abafados, minha mãe e meu irmão gritavam até perder a força. – Em seguida, a dama que você chama de mãe. – Ele soprou a fumaça para o alto, a fumaça fedida de cigarro queimado. O detetive Hants, o maldito detetive Hants era o pai de Philip, o temido demônio. – Dois homens estão trazendo seu namorado. – Ele jogou o cigarro no chão, o amassando com o pé em seguida. – Hoje será um dia sangrento.