Tentação
39 - Capítulo 39
Mamãe estava melhor, mas seus movimentos ainda eram vagarosos. Ela estava subindo as escadas lentamente quando eu entrei, em uma mão ela segurava uma caneca cheia de chá e com a outra ela se apoiava no corrimão da escada. Corri para as escadas e coloquei minhas mãos em seu ombro, ajudando-a a subir. Seu rosto encarou o meu, ela ainda estava chateada comigo, pude perceber pelo seu olhar.
– Eu não gosto daquele garoto. – Ela disse, continuando seu caminho. Não era de se duvidar o que ela achava do Jess, ele era o tipo de cara mau que qualquer mãe se incomodaria.
– Mas você nem o conhece. – Sorri levemente. Era ruim ela não gostar de Jess, mas ao mesmo tempo eu me divertia.
– Eu não preciso o conhecer para saber que ele não é confiável.
– Não acha que está exagerando? – Perguntei, tentando mudar a ideia que ela tinha sobre o Jess.
– Não quero vê-la com esse menino novamente. – Ela disse, decidida. – Magda, eu nunca exagero. – Ela bebeu do chá e empurrou a porta de seu quarto. – Ele não parece ser um bom amigo. – Ela ergueu uma sobrancelha.
– Acredite, ele é. – Falei. Jess não era só meu amigo, era mais que isso e mamãe já estava desconfiada.
– Preciso dormir, vou acordar melhor amanhã e talvez esteja pronta para voltar ao trabalho. – Ajudei ela a chegar até a cama. Ela colocou a canela em seu criado mudo e deslizou seus chinelos para fora do pé. – Obrigada pela ajuda, mas sinto que você queira algo, e tenha como resposta “não”, preciso ser mais dura com você e seu irmão. Estão passando dos seus limites e eu espero resolver isso logo.
– Uau. — Soltei. – Obrigada por achar que eu só ajudo quando preciso pedir algo. – Em nossas pequenas discutições eu era orgulhosa demais, e só voltava a puxar assunto quando não aguentava mais ou quando precisava de algo, pois é, ela estava certa.
– Sem drama, Magda. – Ela piscou. – Tenha uma boa noite.
– Ok. – Minha voz confirmou meu nervosismo. Eu não iria conseguir sua permissão para ir a festa, mas eu iria mesmo assim. Aliás, Kane estava em casa e cuidaria dela. Dei passos largos até a porta e fechei-a atrás.
Já no meu quarto, eu me vesti e arrumei meus fios dourados em um rabo de cavalo. Peguei minha bolsa e desci as escadas. Kane estava na sala assistindo documentários.
– É o seguinte, temos negócios mal acabados. – Falei ao Kane, que se assustou com a minha chegada.
– O que? – Ele perguntou sem entender.
– Eu vou sair, a mamãe não sabe, entende? – Olhei-o e continuei. – Você não vai falar pra ela, mas ela não vai desconfiar de nada, ela está dormindo lá em cima. – Apontei para as escadas.
– Quer que eu acoberte você, é isso? – Ele apoiou seu queixo em seu indicador. – Nada é de graça, mocinha. – Ele sorriu.
– Não mesmo, porém, tenho muitos podres sobre você, então acho melhor não fazer nenhuma besteira. – Sorri de volta. – Estamos bem?
– Você está bem, eu não. – Ele juntou as sobrancelhas. – Não volte tarde, ou ela vai saber sobre os seus podres antes dos meus.
– Ok. – Sorri.
Jess estava encostado em seu porsche preto do outro lado da rua. Sua postura sexy vista de longe, me deixava em chamas. Quando me aproximei ele simulou estar olhando para um relógio que não existia em seu pulso.
– Achei que não sairia vida dessa. – Ele falou.
– Digamos que... – Pausei. – Eu não tive tempo de começar uma guerra. – Ajeitei minha bolsa no ombro. – Não posso voltar muito tarde, se ela descobrir, as coisas vão ficar ruins.
– Saiu sem permissão? – Ele não sorriu, mas sua feição passava divertimento.
– Talvez. – Abri a porta do carro. – Podemos ir?
– Podemos.
Imaginei que a festa seria na escola, mas na verdade o lgar usado para festejar estava acontecendo em uma casa próxima a ela. Jess usava jeans escuros, botas e uma camisa preta com mangas longas, algo de costume. Eu estava usando jeans, camiseta e por cima um casaco de cor clara. Ele me guiou até a entrada, o lugar estava cheio. Imaginei que as pessoas não estavam nem aí para o grupo acadêmico e sim para bebidas, pegação etc.
Jess me puxou pela mão, me levando até a sala. Meninas gritavam do lado de fora da casa como se estivessem sendo atacadas por ursos enormes, um grande exagero. A sala era o lugar menos lotado, me joguei no sofá de couro, que pelo visto custou muitos dólares, qualquer um que fosse o dono daquela casa não estava feliz com nada disso.
– Quer beber algo? – Jess perguntou.
– Nada alcoólico. – Respondi. Soltando vagarosamente sua mão a minha ele desapareceu entre os corpos dançantes. Segundos após Jess sair, o sofá afundou com o peso de outra pessoa, foi tão rápido que eu me assustei. Edie me fitava com um sorriso enorme.
– Olá, minha garota. – Edie disse, levando um copo descartável a boca.
– Você me assustou. – Bati de leve em seu braço. – Onde está sua dama? – Me referi a Caroline.
– Oh, olhe ela lá. – Ele apontou com o indicador até a porta de saída para o quintal. Caroline conversava com uma garota do mesmo estilo que o dela, estranhas por inteiro. Edie me surpreendia com suas escolhas. – Minha gata não gosta de festas, eu quase paguei ela pra vir, mas aí ela decidiu vir sem ser comprada. – Ele sorriu de canto.
– Onde está o Ramon? – Perguntei, levando minha não a mesinha de centro que continha potes de salgadinhos.
– Eu não o vi. – Ele entortou a boca.
– Edie. – O chamei com um tom mais sério. – Como vai o Louis?
– Ele está bem, parece que se acostumou com o lugar. – Edie deu um sorriso rápido e logo ficou sério. – Por que você não vai vê-lo?
– Estão acontecendo algumas coisas e eu acabo ficando sem tempo. – Na verdade eu estava com medo de ver Louis novamente, da última vez tivemos uma briga, estava com medo a reação que ele teria, se ele iria me receber bem ou não.
– Por mais que tenhamos nos afastado ultimamente, ainda somos amigos, nós todos. – Ele disse. – Louis é nosso amigo, é seu amigo, isso pode piorar ainda mais as coisas. Se algum dia você tiver um tempo livre, use-o para vê-lo, ele precisa de você também. – Eu apenas assenti com a cabeça, Edie estava certo. – Vou voltar para minha gata. – Edie disse, olhando para Caroline.
– Ok, garanhão. – Sorri e ele retribuiu.
Jess estava demorando, pensei em ir atrás dele mas acabei ficando sentada ali mesmo. Meu corpo dobrou-se para frente em busca de mais salgadinhos e novamente o sofá afundou, mas dessa vez não me assustei, poderia der o Jess ou o Edie voltando para falar algo que havia esquecido. Virei meu rosto com um sorriso esperando ver um dos dois, mas a surpresa não foi boa. Meu sorriso desapareceu rapidamente e meu coração acelerou bruscamente. Philip estava sentado do meu lado, com seus braços apoiados em sua nuca e seus olhos penetrando os meus. Seu corpo fez o mesmo movimento do meu, ele se inclinou para chegar mais perto, e com seu rosto bem perto de meu, ele sussurrou nos meus ouvidos “Senti sua falta.” Senti um arrepio imenso, um arrepio de medo e havia mira raiva circulando sobre mim.
– Consigo sentir seu medo. – Ele falou baixo. – Eu sei que você é difícil ou se faz de. – Seu braço segurou meu ombro. – Mas agora você vai colaborar.
– Não é assim que funciona. – O subestimei. Eu estava apavorada, mas não queria me mostrar tão fraca. Philip soltou uma risada abafada que esquentou meu pescoço. – Jess está aqui. – Falei.
– Você vai se levantar junto comigo e vai andar até a saída, sem reclamar. – Ele ignorou o que eu havia dito antes.
– Não vou fazer o que você quer que eu faça. – Falei firme.
– Ouça bem. – Ele parecia impaciente. – Acha que seu irmão e sua mãe estão seguros? – Ele perguntou, sem me deixar responder, ele continuou. – Espero que você saiba a resposta, porque eu acho que ela não é uma das melhores. Então você faz o que eu mando ou você será a terceira a morrer. – Ou seja, ele pretendia matar minha família e eu.
Sem rodeios, eu me levantei deixando seu braço cair do meu ombro. Em seguida ele se levantou, seu olhar de “vencedor” estampava seu rosto junto a um sorriso maléfico. Seus passos largos e duros atravessaram a sala primeiro que os meus, olhei em direção a cozinha para tentar avistar Jess, mas não vi nenhum sinal dele. Philip parou na porta com sua atenção para mim, esperando que eu continuasse meu caminho em direção a ele e foi o que eu fiz.
– Vai fazer o que? – Perguntei furiosa. – Me amordaçar? Me jogar naquele lugar novamente? Por que você não me mata agora? – Eu iria me arrepender disso depois, se eu sobrevivesse é claro. Estávamos distantes da casa quando eu fiz as perguntas, maldita hora em que surge meu lado corajoso.
– Se não calar a boca, eu posso realizar sua última pergunta. – Ele falou, pegando meu braço.
– Vai, aproveita. – Continuei. – Estamos sozinhos, é uma boa hora pra isso.
– Você é irritante. – Ele falou, me jogando contra uma árvore, minhas costas bateram no tronco, mas não com tanta força. – Isso vai acontecer logo, mas eu quero telespectadores. – Ele estava sério e perto o suficiente para eu sentir o cheiro de maldade em sua respiração. – Jess pode ser um deles, adoraria vê-lo sofrer quando eu cortar seu lindo pescoço. – Eu engoli seco e controlei meu corpo o máximo que pude para não tremer de medo.
– Aonde você estava? – Perguntei. Philip havia desaparecido depois que tomou posse do corpo de Lucia, o que foi tão assustador quanto o que estava acontecendo naquele momento.
– Sentiu minha falta? – As piadas dele não eram nada legais. – Apaguei por alguns dias, mas agora estou aqui novamente, pronto para apagar você e Jess. – Ele olhou para cima de mim, talvez em meus cabelos, em um gesto pensativo. – Mas eu acho que vocês não vão voltar como eu voltei.
– Pra onde vai me levar? – Minha voz tremeu, infelizmente.
– Você vai ver. – Ele novamente tomou meu braço e me puxou. Eu estava caminhando para a minha morte.
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