Tentação
25 - Capítulo 25
A presença de Hanna me deixava tão desconfortável, ela era um incomodo para minha pessoa, eu não estava à vontade na minha própria casa e isso era muito chato.
– Será que Lucia acabou de fazer a torta? – Hanna estava esticada na cama, ela era alta, suas botas ficavam para fora do colchão, talvez alguns poucos centímetros a mais que Jess ela tinha. – Estou com fome, sabe como é, demônios também gostam de comer.
– Pode parar de falar essa palavra? – Eu estava concentrada no meu novo desenho, mas nem o desenho conseguia tirar meu stress.
– Demônio? – Perguntou. – Está brincando. – Ouvi ela sorrir. – Quer que eu fale o que? Unicórnio?
– É, pode ser. – Respondi impaciente.
– Fala sério. – Hanna se remexeu na cama fazendo barulho. – Não vejo problema em falar “Demônio”, eu sou um, foi você que quis entrar em um relacionamento com Jess, que também é um, não somos fáceis... acredite. – Sua voz arrogante me tirou do sério. Antes que eu pudesse abrir minha boca para falar algo em minha defesa, a porta do meu quarto se abriu. Kane estava com uma toalha amarrada na cintura como uma saia, e da cintura para cima era apenas pele.
– Aí, bonitão. – Hanna logo tomou a frente. – Portas são feitas para bater. – Ela falava como uma garota descolada de colegial.
– Quem é você? – Kane ergueu uma sobrancelha.
– Bata antes de querer entrar em qualquer lugar. – Ela ignorou a pergunta.
– Ela tem razão. –Eu disse. Dessa vez ela estava certa, uma hora ou outra Kane fazia esse tipo de palhaçada, e quando eu reclamava ele dizia que esquecia de bater.
– Valeu, cara. – Hanna pareceu gostar do meu apoio.
– Tá. – Ele ajeitou a toalha. – Não discuto com mulheres. – Falou com desdém. – Problema no chuveiro, terei que usar seu banheiro, maninha. – Ele não esperou minha resposta, apenas entrou no quarto indo em direção ao banheiro.
– Esse cara merece uma prensa. – Hanna esfregava o queixo, pensativa.
– É, ele merece, mas estou acostumada, então tudo bem. – Falei voltando ao meu desenho.
– Isso não seria por você, pode crer. – Ela se aproximou. – O que está fazendo? – Ela apontou pro meu desenho. – É aquela ponte?
– Já foi lá? – Perguntei dando os retoques finais no desenho.
– Jess mora lá perto. – Ela se curvou para ver melhor. – É ela mesmo.
– É, ele me disse algo sobre ser “Território dele”. – Fechei o fichário de desenhos e me levantei. – Já foi na casa dele? – Perguntei, tentando desvendar a história. “Hanna teria ido até lá e tentado de todas as maneiras fazer Jess ir pra cama com ela”, pensei, era isso que imaginava dela. Uma safada cara de pau, sem limites.
– Não. – Fiquei surpresa com a resposta, sua voz passou sinceridade, mas não podia descartar o fato de que ela era uma boa mentirosa, como todos os outros.
– Hm. – Foi só o que saiu da minha boca.
– Até que parte da nossa conversa seu irmão ouviu? – Ela sussurrou. – Será que ele ouviu a parte do “Unicórnio”? – Ela perguntou baixo com seriedade.
– Tudo bem, ele já sabe da existência de vocês.
– O que? – Hanna fez cara de surpresa. – Você é louca? – Apesar da cara de surpresa, ela se manteve calma. – Mas que droga, garota. – Uma mão dela passou pela testa. – Não pode sair falando tudo pros outros.
– Ei. – Chamei sua atenção. – Calma aí, ele é meu irmão. – Falei com aversão. – Ele viu Jess matar Eliel, ele ouviu quando Jess disse que era um demônio.
– Unicórnio. – Ela interrompeu, com sua cara fechada.
– Tanto faz. – Ri irônica. – Ele é confiável, não vai falar nada com ninguém.
– Espero que você esteja certa. – Ela apontou seu indicador pro meu rosto. – Se esse moleque sair falando o mínimo que ele sabe, você está morta e Jess está no inferno novamente. – Depois da cena, ela voltou a sua postura de moça fora da lei e respirou fundo. – Vou embora, mas antes vou apreciar a torta da sua empregada.
– Ela não é empregada. – Corrigi.
– Vai fazer o que hoje à noite? – Ela perguntou.
– Dormir. – Dei uma resposta rápida.
– Eca. – Ela fez careta. – Vamos pra um lugar onde você pode estar segura. – Ela mexeu nos cabelos e olhou pro espelho. – Tem que sair desse lugar patético que você chama de quarto.
– Não vou a lugar nenhum com você. – Falei me aproximando da porta, puxando-a pela maçaneta dando espaço para Hanna dar o fora de lá.
– Tenho pena de você, aproveite que estou boa demais. – Ela passou por mim e parou no corredor. – É uma boate bem frequentada, se chama Beats. – Ela sorriu. – Nos encontramos lá mais tarde, se Jess não me matar.
– Por que ele te mataria? — Perguntei, com um desconforto visível, sempre que ela falava dele o famoso ciúmes me dava uma facada na barriga.
– Te contei sobre a espionagem que deveria ser secreta. — Hanna tomou caminho ao corredor e desceu as escadas desaparecendo da minha vista. Fechei a porta e me joguei na cama, precisava de descanso, precisava pensar. Logo, Abgail tomou conta da minha cabeça. E se Jess não conseguisse salvá-la? Eu já nem sabia mais de nada, estava confusa, minha vida estava anormal, eu estava sendo caçada por demônios, eu estava apaixonada por um demônio, e um deles acabara de sair de casa... Totalmente anormal.
– Por que você tem tantos shampoos? – Kane saiu pela porta do banheiro com a toalha na cintura e seus cabelos molhados.
– Havia me esquecido que estava aqui.
– Quem era a garota? – Sua curiosidade estava quase transbordando para fora do corpo. – Nova amiga? – Ele continuou. – Gostei dela, bem excitante. – Um sorriso malicioso apareceu.
– Ei. – Falei agarrando um travesseiro e jogando para acertá-lo.
– O que? – Ele jogou de volta. – Não tenho culpa, sou homem, meninas são atraentes.
– Mas não ela.
– Ela é como seu namoradinho? – Ele se referia ao Jess.
– Jess não é meu namorado. – Falei escondendo a tristeza. – Hanna não é pro seu bico.
– Hanna. – Ele repetiu. – É, ela deve ser como ele, a rebeldia dela me encantou. – Ele mordeu os lábios.
– Não se meta com ela, Kane. – Falei séria, esperando que ele entendesse o recado.
– Está bem, senhora Magda. – Ele se rendeu. – Já entendi. – E saiu resmungando, fechando a porta logo atrás.
Kane não era o sonho de consumo de uma garota, ele não fazia muito sucesso com elas, mas adorava um rabo de saia mesmo fracassando. Hanna não seria uma boa escolha, além dela ser uma garota totalmente errada e não humana, ela era ignorante e arrogante demais para dar bola pra ele... Sem chances.
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