Tentativa
7 Capítulo 7
Notas iniciais
O beijo teria durado uma eternidade se, não tivesse sido interrompido pelo motoqueiro, que batia palmas do lado de fora da casa, com a entrega das marmitas.
– Deixe que eu pegue, já que fiz o pedido, e vou pagar – disse Ramón indo atender o portão.
O que estou pensando? Só pode ser carência mesmo! Se eu fizer isso, mesmo que seja pra “ajudá-lo”, posso acabar me arrependendo, mas, por outro lado – pensou Carlos enquanto tentava conter o tremor das mãos por conta do beijo roubado –, pode ser minha oportunidade de tê-lo comigo. Pelo menos por um tempo, antes que ele se vá outra vez.
Ramón retornou com as marmitas em uma sacola e foi direto para a cozinha, como se estivesse em sua própria casa.
– O que você quis dizer com o beijo? – perguntou Carlos acompanhando-o.
– Não era você que tinha uma queda por mim na sexta série? – falou com um sorriso sacana, enquanto retirava as marmitas da sacola e depositava sobre a mesa da cozinha.
– Confesso – murmurou Carlos. – Realmente tinha. Só que você é hétero, não?
– Não sou preso a rótulos. Apenas vivo a minha vida. E você?
Boa pergunta!
– Ás vezes, quase sempre, nem sei quem sou – desabafou puxando uma cadeira para si, e sentou.
– Você não me respondeu se topa ou não, me ajudar – insistiu Ramón.
– E nem você sobre o que vou ganhar com isso – disse pegando os talheres que ele estava lhe estendendo.
– O beijo não foi suficiente?
Carlos levantou-se e foi até a pia lavar as mãos.
– Você quer minha ajuda em seu plano de vingança, e, em troca eu ganho beijos? – Carlos se segurou pra não rir. – Você não está lidando com uma criança, oferecendo doces em troca de confiança – completou ao retornar para mesa.
– Você tem razão – concordou Ramón. – Não posso simplesmente chegar aqui, depois de cinco anos, te contar o que quero fazer, e acreditar que você vá concordar de primeira...
– Não foi isso que eu quis dizer – interrompeu Carlos.
– Foi exatamente o que eu fiz – rebateu Ramón enquanto lavava as mãos também. – Forçando a barra desde o momento que cheguei aqui. Esperando você aceitar as coisas, até mesmo o beijo. Não tenho o direito – concluiu.
Em seguida puxou uma cadeira pra si, e começou a devorar o almoço.
Seis anos atrás, Carlos e Ramón tinham tudo para serem melhores amigos. Encontraram-se pela primeira vez na quinta série, em 2006. Carlos era muito calado, porém estudioso. No início, Ramón aproveitava para pegar cola das provas com ele.
Carlos cedia por dois motivos: primeiro por medo de sofrer alguma agressão física, e segundo, Ramón era o único que conversava com ele na sala.
A relação de amizade entre os dois foi crescendo aos poucos. Com o passar dos meses, Carlos chegou a confiar em Ramón, e contou a ele os abusos que sofreu na infância. Seu segredo que o corroía por dentro. Coisas que nem mesmo havia contado aos seus pais, por medo de como eles reagiriam se ouvissem como tudo aconteceu.
De certa forma fortaleceu a amizade entre eles, pois, Ramón passou a ser mais amigável, dentro e fora da escola.
Certa vez prometeu a Carlos que mataria o cara que abusou dele. Só que Carlos preferiu dizer que não tinha visto o rosto do “monstro” que o estuprou, a dedura-lo e sofrer alguma outra coisa. Embora, já tivesse feito a procura pelo dito cujo, e descoberto que o agressor havia se mudado da cidade.
Ramón teria sido um irmão pra ele, se não tivesse começado a nutrir um sentimento além de amizade em seu íntimo.
No ano seguinte, quando voltaram a ser ver, depois das férias, Carlos cogitava contar o que sentia por ele.
Tudo.
Arriscar-se.
Infelizmente sua expectativa foi frustrada.
Naquele mesmo ano de 2007, Ramón, num certo dia, disse a Carlos que estava interessado em uma das meninas da sexta série. A mesma da qual, naquele momento, solicitava apoio de dele para seu plano de vingança.
Enquanto comiam, Carlos repassava cada palavra que Ramón havia dito do que pretendia fazer. Ainda assim, não estava totalmente convencido de que seria uma boa ideia participar daquilo. No entanto, quando esteve sozinho na quinta série, foi Ramón, que apesar de qualquer coisa, lhe deu atenção, e apoio quando ele precisou. E também, tornou-se seu amigo e confidente sobre o seu passado.
Talvez, aceitar a proposta de Ramón, fosse sua oportunidade de retribuir pelo que recebeu no passado.
– Eu entendo o motivo da sua raiva. Mas, tem certeza de que é isso mesmo que você quer?
– Toda a certeza – afirmou Ramón.
– Tudo bem. Eu aceito ajudar, desde que você não desapareça outra vez.
– Sério?
– Sério – confirmou Carlos. – Só gostaria que viesse me ver com frequência, já que sabe onde moro – disse tentando não deixar transparecer carência em sua voz.
– Só isso mesmo que você vai pedir? – perguntou olhando espantado para ele.
– Independente de você ter ido embora depois do que aconteceu, e teve seus motivos para isso, ainda assim continua sendo alguém em que eu confio. Na verdade, a única pessoa em quem eu confio. Já que depois que meus pais faleceram, minha avó e meus tios e primos mudaram muito comigo.
– E...?
– E você deixou claro que não vai machucar ninguém fisicamente. Então, tudo bem. Eu aceito!
Ramón abriu um largo sorriso.
Largou o talher, e foi até Carlos fazer-lhe cócegas.
– Para com isso Ramón!
– Vou parar não, você gosta.
– Eu gostava, passado.
– Tudo bem – disse Ramón cessando as cócegas. – Obrigado por aceitar meu pedido de ajuda. Prometo que você não vai se arrepender – disse olhando diretamente nos olhos dele.
– Para de me olhar assim.
– Assim como? – perguntou Ramón com outro sorriso sacana nos lábios.
– Você sabe!
– O que eu sei é que não concluímos o que começamos na sala.
– A conversa? – perguntou Carlos fingindo não saber do que se tratava.
– Não. A conversa já foi encerrada, isso se você não tiver mais nada para acrescentar. Podemos então passar para a sobremesa – respondeu Ramón.
– Não tenho. Sobremesa?
– Ótimo. Sim. A sobremesa é o que não concluímos na sala.
E ali mesmo na cozinha Ramón roubou outro longo e demorado beijo.
***
Sentada em uma das mesas do restaurante favorito de seu pai, Érika já estava cansada do silêncio, após os parabéns por parte dele.
Ótimo revê-lo, depois de algumas semanas em que ele esteve fora da cidade a trabalho. Porém, havia algumas perguntas que a estava incomodando, e não podia simplesmente ficar esperando a boa vontade dele em iniciar um dialogo produtivo.
– Como vão as coisas com Catarina? – perguntou puxando assunto.
– Você quer mesmo falar sobre ela?
– Desculpe, foi apenas uma pergunta.
Érika deu um gole em seu suco de goiaba, mas não por vencida.
– Só queria saber como está você, longe da família. Catarina provavelmente deve estar lhe fazendo muito bem.
– Não estou longe – afirmou Leonardo. – E Catarina não tem nada haver com isso.
– Mas também não está perto – retrucou Érika.
– Estou com você, agora – devolveu na mesma intensidade.
Érika ficou reparando seu pai limpar a boca com o guardanapo. Ele era extremamente cuidadoso, sempre bem arrumado, tanto as roupas quanto a aparência. Cada parte era trabalhada nos mínimos detalhes. Desde a roupa, o estilo, até a combinação de cores. Tudo falava por si só, expressando sua alma.
O que Érika admirava além da consideração que ele tentava manter por ela e seu irmão, era o seu bom gosto. Não apenas no que vestia, mas, até o que comia e o que usava, sempre se atentando ao melhor.
– Senti sua falta hoje pela manhã. Naquele ritual de parabéns pra você em que esteve presente nos anos anteriores. Nada mais é como antes – desabafou.
– Não recomece o drama. Hoje é o seu aniversário, não vamos estragar esse momento filha – disse ele mantendo a serenidade. – Como está o meu filhote?
– Ele mandou lembranças – ela resmungou.
– Você tem melhorado seu sarcasmo. Só não entendo usá-lo comigo.
– Guilherme está bem – disse repousando o talher sobre o prato. – Há dias que ele pergunta por qual motivo exatamente, nossa mãe e o senhor divorciaram.
– Ele ou você?
– Tanto faz – respondeu Érika revirando os olhos.
Leonardo tocou o braço da filha.
– Reconheço que não tenho sido o melhor pai que você poderia ter – disse olhando firmemente para ela. – E que tem vários motivos para estar zangada comigo, ou pior. Só que de todos os lugares que eu poderia estar agora, escolhi estar com você. Posso não entender muito bem o que você está sentindo hoje, depois de tudo. Eu daria qualquer coisa pra que as coisas não ficassem assim entre você e eu.
– E o que te impede?
– É complicado dizer. Pensei que seria fácil, por você ser minha filha, minha princesa, mas, não é – disse olhando profundamente pra ela.
Érika tentou decifrar através dos olhos dele, mas não eram os mesmos de antes. A não ser a cor, castanho claro, lindos.
Contudo, aquela ligação que ambos tinham quando conversavam, e que ela quase interpretava a alma dele, havia desaparecido.
Nada mais é como antes, pensou.
– Não estou vendo nenhuma bola de cristal nesta mesa. O senhor vai me dizer o que é, ou vai ficar me encarando como se tivesse alguma sujeira nos meus dentes?
Não havia sujeira alguma nos dentes dela. Léo deteve seu olhar na filha, pois, no momento em que ela ficara observando-o, lembrou-se de sua ex-mulher. Mais precisamente de quando se conheceram.
Heloísa tinha o sorriso mais belo que ele já vira em toda sua vida. Não era daquelas garotas robustas, com um belo corpo, seios fartos, que ficam exibindo-se. Ela era simples. Cabelos cacheados, lábios delicados, desenhados pelo melhor artista. E tinha um andar que o hipnotizava.
Conheceram-se numa lanchonete, onde Leonardo costuma ir diariamente. Era bem conveniente por ficar a caminho do colégio. Heloísa frequentava a mesma lanchonete.
Sempre bem prestativa, educada, atenciosa, um charme só dela. Logo na primeira vez que a viu, sabia que era ela, a pessoa com quem iria namorar, e que seria a mãe de seus filhos.
Não demorou muito e o romance logo iniciou. Após o primeiro encontro, passaram a se ver com mais frequência. Foi tão descomplicado, que antes mesmo que pudessem pensar, casou-se com ela, fizeram faculdade. Ele Administração, e ela, Ciências Contábeis. A primeira filha nasceu linda que nem a mãe. Oito anos depois veio Guilherme, charmoso que nem o pai.
A família estava completa.
Tudo ia bem, apesar de algumas dificuldades aqui e ali.
Até que um dia as coisas mudaram, todo o cenário do casamento mudou. O acontecimento de um dia, ou melhor, a revelação do acontecimento de um dia, trouxe o desfecho do relacionamento dos dois.
Revelação esta que Leonardo tencionava em contar para a filha naquele momento.
– Pai, vai me contar ou não?
– Deixa pra lá – disse ele recompondo-se. – Hoje é o seu dia, não quero estraga-lo.
– Agora temos segredos entre nós?
– Não se trata de segredos. Só não é momento e o local apropriado pra falar desse assunto.
Érika fechou a cara. Levantou da mesa e pegou sua mochila.
– Obrigada pelo almoço.
– Espera. Vou deixa-la na sua casa – disse.
– Não. Fique ai com seus segredos. Eu vou a pé.
Érika saiu do restaurante sem ao menos dar um beijo no rosto dele, como de costume.
Leonardo deixou uma lágrima rolar depois que ela se foi. Pelo que conhecia sobre a própria filha, provavelmente ela passaria a odiá-lo se soubesse o verdadeiro motivo sobre o fim do casamento dos pais.
Para ele, era melhor ter um pouco da consideração dela no momento, do que nada.
***
Carlos Eduardo ficou entorpecido por alguns minutos depois que Ramón foi embora. Para uma sexta-feira 13, os acontecimentos foram bem inusitados.
Após o entorpecimento causado pelo contato intimo com Ramón, Carlos lembrou-se do que havia lido pela manhã sobre o seu signo: E o mais importante leonino, “não venda sua alma ao diabo”.
Será que tem haver com o plano que Ramón propôs? Ele está mais para anjo do que para diabo, pensou dando uma risadinha.
***
Ramón apertou a função viva voz do seu aparelho após a atender a ligação.
– Oi minha rainha, tudo bem?
– Tudo – respondeu a voz feminina do outro lado da linha. – Como foi a conversa com ele?
– Foi ótimo. Está tudo acontecendo conforme o planejado – gabou-se Ramón.
– Perfeito! Você sabe que estou torcendo pra dar tudo certo. Você merece!
– Sim. Vou ser eternamente grato por seu apoio.
– Bom saber. Qualquer coisa me liga tudo bem?
– Pode deixar comigo.
– Beijos!
– Beijos!
Vou fazer o possível pra manter o controle, não posso decepcionar minha mãe, pensou enquanto dirigia o carro, rumo a sua casa.
***
Já eram quase nove horas da noite. Érika estava em seu quarto, precisamente em sua cama, folheando seu diário. Encontrou a página onde registraria os acontecimentos daquele dia.
“Querido Diário,
Hoje foi e, ainda é, sexta-feira 13. Por ironia do destino, ou seja, quem for o culpado, meu aniversário caiu logo nesta data, este ano.
Essa história de ‘gato preto dá azar’, ‘as bruxas estão à solta’, ‘sete anos de azar se quebrar um espelho’...
Afff! Não acredito!
Não sou supersticiosa!
Azar mesmo foi o fato do pai do meu namorado, ter vendido o carro ontem. O que significa que terei que ir a pé ao colégio nos próximos meses.
Pela manhã tentei fugir do ritual de comemoração surpresa, com um pingo de dúvida que aconteceria, já que meus pais estão separados. Mas, mesmo assim aconteceu. Minha mãe não perde um ano! E eu que pensava que era o meu pai quem mantinha a tradição...
E aquele momento no carro com o Gustavo, o novo namoradinho da minha mãe? Sem comentários!
O ponto de equilíbrio hoje foi Paulo ter me beijado daquele jeito no colégio.
Quanto tempo que não sou beijada daquela forma.
Quem sabe, depois que ele sair do momento depressivo, ele volte a ser como era antes.
Pro meu dia ficar mais ‘alegre’, almoço com o meu pai no restaurante, a convite dele por causa do meu aniversário, e tivemos a conversa mais clara do que água.
De uma coisa eu tenho certeza sobre ele. Ele é metrossexual!
Todo aquele cuidado com a estética, a roupa que usa com todo o requinte, é claramente metrossexual!
Eu só queria que as coisas voltassem a ser como eram.
Será que é pedir muito?
O que realmente aconteceu entre os meus pais?
Tem alguma coisa aí.
Uma hora vou descobrir.
Por hoje é só isso mesmo, diário.
Vou dormir que ganho mais.
Amanhã será melhor se, realmente meu namorado me levar ao shopping”
Érika guardou o diário na última gaveta do criado mudo, e a trancou.
Antes que finalmente fosse deitar, alguém bateu na porta do quarto.
– Pode entrar, está aberta.
Guilherme, seu irmãozinho, entrou todo cheio de energia com o telefone sem fio na mão.
– É a Laura querendo falar com você – disse ele estendendo o telefone para ela.
– Ah sim, muito obrigada.
– De nada, tchau!
Érika ficou rindo por um instante de seu irmão. Tão pequeno, engraçado, tão fofo.
– Fala Laura.
– Preciso de você agora. Urgente!
– O que aconteceu? – perguntou Érika num sobressalto por causa da voz da amiga que falava como se estivesse com dor.
– Torci meu pé cinco minutos atrás. Está doendo demais, preciso ir ao hospital, e estou sozinha em casa.
– Como vou chegar aí tão rápido?
– Já mandei um táxi até sua casa. Venha logo! Ai!
– Tá. Louca. Quero saber o que você aprontou quando chegar aí. Tchau!
Laura! Laura! Aposto que estava de salto alto desfilando pela casa e caiu, pensou Érika imaginando a cena.
Trocou sua roupa, pegou o celular, e saiu o mais rápido possível, enquanto gritava pra sua mãe, dizendo que precisava ir com urgência a casa de Laura.
O táxi chegou e zarpou em direção à casa da amiga.
Chegando lá, Érika pediu que o taxista esperasse. Ligou para a amiga de dentro do táxi.
Quando o portão abriu-se, ela saiu do carro e antes de entrar na casa, reparou que havia muitos carros do lado de fora. Não encucou muito com isso e logo entrou.
Estava tudo escuro, com exceção da luz que vinha no rumo da janela do quarto de Laura.
Érika foi até a entrada lembrando-se dos filmes de terror, casa mal assombrada.
Justamente em uma sexta-feira treze, ter que passar por isso.
Antes que abrisse a porta, ouviu sua amiga gritar:
– Anda logo Érika. Vou morrer aqui!
Que dramática!
Abriu a porta, e entrou na sala. No momento seguinte, a luz acendeu-se, e várias pessoas apareceram espalhadas pela sala.
Érika soltou um grito de susto que foi abafado pela cantoria:
– Parabéns pra você! Nesta data querida! Muitas felicidades, muitos anos de vida. Parabéns pra você! Nesta data...
Érika ficou parada olhando, num misto de raiva e alegria, por ter dito a Laura que não queria nenhuma comemoração.
Independente de não querer festa, era o seu aniversário. Não podia negar-se um pouco de divertimento.
E ainda dizem por aí que o raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Eu que o diga, e sorriu.
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