Notas iniciais
Sonhos x Realidade

POSITIVO.

Havia contraído HIV. Era um momento crítico em sua vida.

Bruna com seus 18 anos, dona de um corpo esbelto, olhos castanhos claros marcantes, e um cabelo liso preto, havia recebido vários convites para ingressar na carreira de modelo, mas seus planos para o futuro eram outros. Quando terminasse o ensino médio, entraria numa ótima faculdade, no curso de Medicina. Era o sonho dos seus pais, e felizmente, o seu também. Um sonho que estava se desfazendo naquele momento, por causa de um descuido, sim, um grande descuido que poderia ter sido evitado.

Quem imaginaria que Fernando estivesse com AIDS?

Foi fácil dizerem que ele havia morrido por dengue, já que a pessoa fica vulnerável a vários outros tipos de doenças oportunistas.

Ela chegou a uma conclusão: Fernando não sabia que havia contraído HIV, quando se conheceram. Ao tomar conhecimento, provavelmente ficou em choque. Conversou com os pais, e pediu que mantivessem segredo, e dissessem que era dengue, para justificar os sintomas que vinha sentindo, e, com vergonha, não quis contar a verdade a ela. Evitou-a durante o período em que esteve doente. Não atendia suas ligações. Não respondia as mensagens. Chegou até mesmo a ficar os últimos dias da sua vida na casa de uma tia, o que dificultou ter acesso a ele, até sua morte.

Esteve em seu velório e enterro.

Chorou bastante.

Não poder mais tê-lo ao seu lado, ouvindo seus desabafos, lhe dando carinho, fazendo amor... Uma perda e tanto. Veio-lhe tantas lembranças durante aquele triste dia, principalmente da primeira noite em que fizeram amor na casa dos pais dele.

Era uma noite de sábado.

Fernando fez o convite para ir à sua casa, seus pais estavam em viagem, e poderiam aproveitar o final de semana inteiro juntos.

Seis meses de namoro, e naquela noite, pela primeira vez, fizeram sexo sem camisinha. Ah, se ela soubesse que estava selando seu destino naquela noite, teria dito não ao convite. Mas, negar que o prazer foi ótimo, não podia. Ele foi muito carinhoso, sensual e bastante sexy, como sempre.

Tinham planos para o futuro. Alianças de noivado, morar juntos, faculdade, e até mesmo já haviam conversado sobre um possível casamento. Tudo isso foi arrancado pelas mãos do destino, após um ano de relacionamento, quando ele se foi.

Agora, que vontade tinha de pensar no futuro? Não sentia vontade de continuar vivendo. Seu desejo era morrer, o mais cedo possível. Não queria que seus pais descobrissem que havia contraído HIV.

O que fazer? Pra onde fugir?

Prometera a si mesma que não contaria pra ninguém. Nenhuma pessoa a sua volta entenderia sua dor naquele momento.

Parou um pouco de chorar pra pensar que, não conhecia ninguém que estivesse na mesma situação que ela. O que a deixou mais desconsolada.

O médico que lhe entregou o resultado, da forma mais profissional possível — evidente a situação delicada do momento -, Bruna fez-se ouvir claramente cada palavra que foi dita dentro do consultório. Essas mesmas palavras ecoavam em sua cabeça nesse momento: “Procure apoio e ajuda no meio da sua família. Não desista da vida! Com cuidados e medicamentos corretos, você poderá viver por muito tempo”.

Viver? Passar o que o meu namorado passou? Não resistiria uma semana sequer, pensou.

Então, claro como a água, outro pensamento passou a tomar forma: Suicídio!

Sim, suicídio. Era o único jeito de colocar um fim de forma rápida, objetiva e direta, evitando todas as dores que viriam no futuro. Mas, como se matar? De que forma tiraria sua própria vida sem causar mais dor, do que já vinha passando?

Se eu cortar meus pulsos?... Não! Demoraria muito tempo, sangue escorrendo até que eu desmaiasse... Vou me enforcar! Humm... Não! Posso acabar agonizando por tempo demais... Dar um tiro na minha cabeça ou direto no coração?... Merda! Posso acabar errando, sobreviver, e causar mais sofrimento... Droga! O que vou fazer? – pensava ela aflita.

Até que por fim, decidiu ir pra rua, talvez conseguisse uma ideia melhor. Quem sabe jogar-se na frente de um carro.

Não retocou a maquiagem. Não trocou de roupa. Nem ao menos se olhou no espelho. Se olhasse, na certa, não reconheceria aquele semblante triste que estampava seu rosto. Tal rosto, que outrora, antes de seu namorado ter ido embora desse mundo, carregava um lindo sorriso, que cativava as pessoas a sua volta. Esse mesmo sorriso também foi enterrado, juntamente com Fernando.

Caminhou até uma praça, já havia passado das nove da noite. Não sentia medo de andar na rua tão tarde, ao contrário, sentia uma coragem estranha, de enfrentar qualquer coisa que aparecesse.

Andou, andou e andou.

Cansada, sentou no banco de uma praça.

Depois de alguns minutos, olhando fixamente pro nada, uma senhora assentou-se ao seu lado, e a cumprimentou:

– Boa noite!

Bruna não respondeu. Não era uma boa noite pra ela.

– Percebo que você está muito abatida garota.

Com certeza! Qualquer um que olhar pra marmota em que me encontro nesse momento, é o mínimo que vão perceber em mim, pensou ironicamente.

Aquela senhora encontrava-se vestida humildemente. Até mesmo a um olhar despercebido, poderia ser confundida com uma moradora de rua.

Continuou falando, como se adivinhasse as considerações mentais da garota ao seu lado:

– Não sei exatamente qual é o seu problema nesse momento, mas sentei-me aqui com um propósito.

Bruna teve que olhar, sua imaginação ficou a mil com aquela frase, e com tom de deboche falou:

– Então você é a morte, e, de forma adiantada já veio me buscar?

– Seria muito fácil garota! – E com um tom de voz sinistro, prosseguiu dizendo:

– Eu vim lhe apresentar uma possibilidade de mudança.

Bruna segurou-se pra não rir.

A velha sinistra fez uma cara ridícula ao pronunciar aquelas palavras. Contudo, por um momento, ela resolveu considerar ouvir o que a estranha tinha a dizer.

Afinal, o que mais tenho a perder?

Mal sabia que se encontrava, diante da possibilidade de mudar sua vida.

Só dependeria dela, saber ouvir e agir.

Notas finais
E você? Está gostando da história? Até o próximo pessoal! Abraços!