Tentativa
10 Capítulo 10
Notas iniciais
– Que dia é hoje? – perguntou Beatriz abrindo seu caderno de capa rosa.
– Segunda-feira, vinte e três de abril, de dois mil e doze. Que por sinal, está fazendo muito calor em Goiânia.
– Laura nossa nova garota do tempo. Hoje vai chover?
– Na cidade, não sei, Érika. Porém, na minha horta, sim.
– Por que eu fui perguntar – disse ela revirando os olhos. – Mudando de assunto.
Faz uma semana que Paulo e eu brigamos, e, estamos sem conversar.
– Uma semana! – enfatizou Beatriz escancarando a boca exageradamente.
– Não vejo nada demais – comentou Laura com certo desdém.
– Estudamos no mesmo colégio, Laura. Uma semana é muita coisa.
– Na última vez em que discutiram, ficaram sem conversar por duas semanas.
– Sim. Só que, nos víamos no intervalo, trocávamos olhares...
– E qual é a diferença agora? – interrompeu Beatriz enquanto abria seu pacote de
biscoitos.
– Não estamos nos vendo, e nem trocando olhares. Sem comunicação absoluta – respondeu Érika.
– Como você se sente sobre isso?
– Não me coloque em sessão de terapia, Laura. Só estou dizendo que desta vez, estamos realmente sem qualquer tipo de comunicação.
– Se existisse telepatia, você estaria equivocada – curtiu Laura.
– Mas, existe – interveio Beatriz. – Minha avó uma vez me confidenciou que, ela e o meu avô, compartilhavam pensamentos telepaticamente.
Érika e Laura reviraram os olhos, enquanto Beatriz, calmamente, mordiscava seu biscoito, como se tivesse acabado de passar uma informação importantíssima.
– Beatriz minha querida, você já consultou com algum psiquiatra em sua vida? – perguntou Laura discretamente.
– Não. Por quê?
– Deixa isso quieto, Laura – intrometeu-se Érika.
– Agora eu quero saber o motivo da pergunta – insistiu Beatriz.
– De coração, Beatriz. Não queira saber. Laura pode se tornar uma caixa de Pandora. Conhece a história?
– Sim. Mitologia grega. Fala a respeito de uma caixa que continha todas as desgraças que poderiam destruir o mundo.
– Exato – confirmou Érika. – E a mesma história conta que, a curiosidade de Epimeteu, levou-o a abrir a caixa, espalhando todos os males sobre a humanidade.
– Mas, restou a esperança no fundo da caixa – ressaltou Beatriz. – Pandora a fechou, reservando-a sabiamente...
– Estão parecendo duas nerds – interrompeu Laura entediada com aquele assunto.
– Quem me dera – suspirou Érika. – Apenas curto esse tipo de assunto. Mitologia, coisas ocultas, fantasia, aventura. Sou ariana, astrologicamente falando. Esse é o meu jeito de ser.
– Se você se dedicar mais um pouco aos estudos, poderá chegar ao meu nível algum dia – disse Beatriz sorrindo.
– Ai que tédio, garotas. Eu sou totalmente avessa, não curto muito esse lance de estudar – falou Laura olhando para o professor Miguel, observando-o escrever no quadro negro. – Prefiro me dedicar a outras coisas no momento.
– Como disse: caixa de Pandora!
– Sou mesmo Érika. E vocês duas, principalmente você Beatriz, não viram nada ainda do que sou capaz de fazer.
– Coisas que até o diabo dúvida – brincou Érika.
– Ei, não coloque o capiroto no meio disso – advertiu Beatriz.
Caíram na gargalhada.
– Érika, eu postei aquele vídeo na internet – mencionou Laura.
– Você não fez isso.
– Fiz sim, e a repercussão foi ótima. Cada comentário ao...
– Você é doida mesmo. Aquilo já faz quanto tempo mesmo? – Érika interrompeu.
– Uns cinco anos mais ou menos.
– Vocês estão falando sobre o vídeo que foi exibido na festa?
– Ele mesmo Beatriz – confirmou Laura.
– Vocês acham que eu devo dar mais uma chance pro Paulo? – perguntou Érika mudando de assunto.
– Se você realmente se importa com ele, por que não?
– Ui, olha nossa mentora de relacionamentos.
– Não é, Laura? Garota revelação do momento – disse Érika. – Estou me sentindo importantíssima, pois, tenho duas amigas socialmente importantes. Uma garota do tempo, e outra, conselheira de relacionamento.
– Menos, Érika. Menos.
– Sinto falta dele.
– Vá atrás. Vai encontrá-lo na próxima sala a frente – disse Laura.
– Não é uma boa ideia. Ele que tem que vir até mim e pedir desculpas.
– Então continue esperando, e pare de ficar lamentando.
– Concordo com a Laura – disse Beatriz.
Érika se ajeitou em sua carteira, pegou seu caderno pra copiar a matéria do quadro. Ganharia mais do que ficar conversando.
***
Ele pegou o notebook.
Ligou e conectou a uma rede de internet.
Clicou no navegador que mais usava, e abriu uma das páginas mais acessadas, armazenada em seus favoritos. Deu um clique no campo bate-papo, e na nova tela que se abriu, digitou a palavra de segurança e o Nick de acesso: Angel35.
Angel deveria estar procurando em outro lugar o que de fato queria, mas, em segundo plano, a intenção para algo casual, indicava que, não estava no lugar errado.
Ficou observando Nick por Nick dos que estavam na sala, até deparar-se com um que lhe chamou a atenção: Brenner.
Um Nick simples dentre os vários promíscuos que se encontravam ali.
Clicou no Nick dele para iniciar o diálogo.
(11h 30min 10s) Angel35: Bom dia!
(11h 30min 25s) Brenner: Bom dia.
(11h 30min 42s) Angel35: Tudo bem?
(11h 31min 08s) Brenner: Tudo.
(11h 31min 23s) Angel35: O que você está procurando?
(11h 31min 46s) Brenner: O que rolar... conversar, beijar, e por aí vai... e vc?
(11h 32min 15s) Angel35: Conversar também, e o que vier depois será consequência.
(11h 32min 27s) Brenner: Humm.
(11h 32min 48s) Angel35: Posso saber sua idade?
(11h 33min 25s) Brenner: 19 se importa?
(11h 33min 38s) Angel35: Não. Você se importa com meus 35 anos?
(11h 33min 56s) Brenner: Por mim tudo bem.
(11h 34min 13s) Angel35: Não sou velho pra você?
(11h 34min 22s) Brenner: Vc se acha velho?
(11h 34min 47s) Angel35: Não. Só achei estranho você não se importar com a idade?
(11h 35min 03s) Brenner: Se vc for chato me afasto.
(11h 35min 30s) Angel35: Você parece ser um cara sincero.
(11h 35min 45s) Brenner: Dizem por aí...
(11h 36min 09s) Angel35: Eu sou direto no assunto. Toparia se encontrar comigo?
(11h 36min 21s) Brenner: Depende do lugar.
(11h 36min 40s) Angel35: Um local público, pra conversarmos.
(11h 36min 52s) Brenner: Ótimo.
(11h 37min 10s) Angel35: Pode ser uma lanchonete?
(11h 37min 24s) Brenner: Sim.
(11h 37min 41s) Angel35: O que acha de nos encontrarmos agora?
(11h 37min 59s) Brenner: Não quer conversar mais um pouco aqui?
(11h 38min 18s) Angel35: Olho no olho é melhor.
(11h 38min 30s) Brenner: Ah sim... em que lugar?
(11h 38min 49s) Angel35: Lanchonete Esquina conhece?
(11h 39min 08s) Brenner: Conheço... fica perto da minha casa.
(11h 39min 20s) Angel35: Perfeito. Ao meio-dia, tudo bem?
(11h 39min 31s) Brenner: Tudo.
(11h 39min 45s) Angel35: Seu nome é Brenner mesmo?
(11h 40min 06s) Brenner: Não... na lanchonete te falo meu nome.
(11h 40min 21s) Angel35: Ok. Como vou te reconhecer se você chegar primeiro?
(11h 40min 40s) Brenner: Estarei de camiseta azul, calça jeans e um boné preto.
(11h 40min 58s) Angel35: Certo. Eu estarei de paletó. Horário de almoço no trabalho.
(11h 41min 15s) Brenner: Com que vc trabalha?
(11h 41min 49s) Angel35: Sou gerente administrativo de uma empresa. E você?
(11h 42min 10s) Brenner: Legal. Sou estudante.
(11h 42min 32s) Angel35: Isso é bom. Vou me preparar aqui e ir. Até daqui a pouco.
(11h 42min 55s) Brenner: Ok... até.
Passou por sua cabeça que, aquele encontro daria em nada. Mas, mesmo assim, resolveu arriscar.
Sua cisma era com a idade dele. De certa forma, muito novo. Contudo, ele disse que era maior de idade. Confirmaria isso de alguma forma quando estivesse com ele, pra evitar qualquer problema futuro.
Desligou seu notebook, após constatar que Brenner havia saído da sala.
Pegou as chaves do carro, deu uma olhada no espelho pra examinar sua aparência. Confirmou que estava bem arrumado, como sempre, e partiu.
No caminho pensou várias vezes em desistir.
Seria melhor se eu conhecesse alguém dentro da minha faixa etária, pensou.
Também não podia negar que sentia falta de Rogério, seu ex-namorado.
A relação ia bem um tempo atrás, apesar de viverem constantemente com receio de que fossem descobertos. Só não havia passado pela sua cabeça, a possibilidade de que seu ex-companheiro, o deixasse. Talvez, apenas ele tivesse se entregado de fato. E Rogério, em sua zona de conforto, simplesmente aproveitado dele enquanto pôde. No fundo, parecia ainda haver certo ressentimento, por razão de como tudo acabou.
Os fins justificam os meios, infelizmente neste caso.
Chegou à lanchonete exatamente ao meio-dia.
Não havia nem sinal de Brenner por lá.
Escolheu uma mesa, e sentou. Pensou em pedir água, mas, preferiu aguardar. Dependendo de como a conversa fluísse, o convidaria para almoçar em algum restaurante ali por perto.
A lanchonete era bastante movimentada. Principalmente naquele horário, estudantes saindo dos colégios; universitários de suas faculdades, entre outros clientes.
O bom cheiro das delícias que eram feitas, misturavam-se harmoniosamente a música ambiente que ali tocava. Espaço amplo, bem organizado, moderno e higiênico.
O ambiente havia mudado bastante com o passar dos anos, entretanto, as lembranças do passado, permaneciam vivas em sua memória.
Ele estava inquieto. Já fazia um tempo, um bom tempo na verdade, desde a última vez em que se encontrou com alguém naquela lanchonete.
Em sua procura nos últimos meses por alguém, o papo rolava apenas pela internet. Apesar de que, no final das contas, não passava disso. Motivo: sua idade.
Dessa vez, resolveu arriscar a conversa olho no olho, correndo o risco de se tornar constrangedor. Mesmo assim, apostava que Brenner, ajudaria a conduzir um bom papo.
Os minutos seguintes foram agoniantes. Olhava para o rumo da entrada toda vez que alguém entrava, ansioso que fosse Brenner, com o boné preto e a camiseta azul.
– Com licença. Você é o Angel?
Angel estava tão ocupado em observar a entrada da lanchonete que, não havia percebido que um jovem se sentou à mesa em que estava.
– Sim – respondeu enquanto analisava aquele rapaz com o olhar.
– Sou primo do “Brenner” – disse ele fazendo o movimento com as mãos pra indicar as aspas. – Vocês marcaram de se encontrarem aqui. Ele ficou receoso, e me pediu pra vir pedir desculpas. Ele não virá.
– Imaginei que isso aconteceria. Muito obrigado – disse levantando-se depressa.
Angel pegou as chaves do seu carro enquanto saía do estabelecimento.
Isso que dá criar expectativas desnecessárias. Devia ter dado atenção a minha intuição de que, não era uma boa ideia vir a este encontro, pensou irritado.
Enquanto afastava-se em seu carro da lanchonete, não muito longe dali, Ramón estava a observa-lo atentamente.
Teste concluído com sucesso, e sorriu.
***
Érika chegou do colégio, faminta.
Ao entrar em sua casa, foi atraída por um cheiro de comida irresistível. Não era nem de perto, parecido com o da sua mãe.
Entrando pela cozinha quase levou um susto, Gustavo estava ao fogão fazendo o almoço, o que confirmava o aroma diferente no ar.
– E aí garota, tudo bem?
Que intimidade é essa da parte dele? Tá achando o quê? Quem ele acha que eu sou? A best friend dele? – pensou ironicamente.
– Sim, tirando a fome, o resto está tudo ótimo.
– Então chegou na hora certa. Sua mãe pediu pra que eu viesse fazer o almoço. Ela se enrolou com algumas papeladas no trabalho. Se não se importar em comer da minha cozinha hoje.
Se não tiver envenenada, sem problemas, pensou enquanto olhava para ele sem saber o que dizer. Apenas sorriu de um jeito forçado.
Gustavo deu uma provada do molho de frango com batatas, o gosto estava divino. Em seguida, desligou a chama que aquecia a panela.
– Está pronto, sirva-se.
– Ah, pensei que iria dar o trabalho de ser o garçom.
– Se quiser...
– Não precisa, só estava zoando mesmo – disse ela revirando os olhos.
– Me pegou, nem percebi – disse ele sorrindo. – Vou chamar seu irmão para vir almoçar.
Érika encheu o prato de todas as delicias que estavam ali. Arroz, feijão, ensopado de frango, bastante salada – pra disfarçar –, e como de costume, foi até a geladeira e encheu um bom copo com suco de goiaba.
Seu irmão entrou na cozinha como um furacão, abraçando-a logo que a viu.
– Que bom que você chegou maninha – disse ele carinhosamente.
– Que bom ver você também seu diabinho.
– Sou diabinho não, sou anjinho – disse ele. – Quem vai colocar o almoço pra eu?
– Não é pra eu que se fala, e sim, pra mim – ela o corrigiu.
– Tá bom, quem vai colocar almoço pra mim?
– Eu coloco – respondeu Gustavo.
– Eba! – vibrou Guilherme sentando-se a mesa. – Érika, papai tá com saudade de você. Ele ficou triste, porque não foi vê-lo esse final de semana.
Ela continuou mastigando a comida, fingindo não ter escutado o que seu irmão dissera.
– Ele pediu pra falar isso – concluiu Guilherme.
– Quando der vou vê-lo.
– Tá bom.
– Aqui está, garoto. Bom apetite – disse Gustavo colocando o prato sobre a mesa.
– Humm o cheiro está bom. Gu, eu gosto da sua comida.
– Que bom. Coma tudo. Daqui a pouco vou te levar pra escola.
Érika tentava deslocar seus pensamentos para outro ponto, mas, era inevitável não observar aquele momento. No fundo, sentia um pouco de inveja da inocência do irmão. Um olhar sem julgamentos, diferente do mundo dos adultos. Não duvidava que Gustavo estivesse naturalmente bem, no seu papel de padrasto, em vista de outras realidades mundo afora. Mas, aceita-lo como padrasto, ainda era um longo caminho a percorrer.
***
– Preciso conversar com você – disse Carlos para Ramón.
– Antes, precisamos conversar sobre certo assunto – ponderou Ramón.
Carlos estava bastante ansioso aquela tarde. Ele passou a semana anterior inteira refletindo no que queria falar a ele. Em seu intimo, tinha uma ideia de que, as visitas de Ramón desde o seu retorno, não eram apenas para acompanhar de perto o andamento do plano que ele tinha proposto. Havia alguma coisa mais, ligada ao sentimento, e, era nisso que ele se apoiava.
Porém, Ramón estava com um olhar diferente, desde que chegara. Estranho, comparado às outras vezes.
– Tudo bem. Pode falar – cedeu Carlos ajeitando-se no sofá da sala.
– Quando você ia me falar do vídeo, Kadu?
– Que vídeo?
– Sem jogos, por favor.
– Se você estiver falando sobre o que foi parar na internet, a Laura me passou o link dele hoje, nem cheguei a acessar – defendeu-se Carlos.
– Não está esquecendo-se de outro momento?
– A festa! – Carlos levou a mão à testa. – Desculpe, eu ia te contar semana passada, só que esqueci.
– Aff cara. Onde fica nossa parceria? Você está comigo ou não?
Carlos ficou mudo.
Ramón foi até a cozinha tomar um copo com água gelada.
– Eu só preciso do seu apoio, você prometeu me ajudar – disse Ramón ao retornar a sala.
– Entendi. Pisei na bola, foi mal!
– Eu preciso de você – disse ele pegando a mão de Carlos, após sentar-se ao lado dele. – Entende?
– Sim, entendo – sussurrou Carlos cabisbaixo.
– Ei, não precisa ficar assim.
– Não foi por querer, sabe.
– Sei que não. Porém, teremos que mudar o plano original – expôs Ramón passando a mão pelas costas dele.
– Por qual motivo? – Carlos perguntou levantando a cabeça.
– Não quero correr o risco que o objetivo do plano venha falhar, por causa do vídeo. Então, eu tive uma nova ideia esse final de semana, e, vou precisar muito de você pra uma nova parte em particular – disse cruzando os dedos das mãos sobre as pernas.
– E qual é essa parte? – perguntou Carlos desconfiado.
– Quero que conheça um cara. Torne-se amigo, discretamente, e conquiste a confiança dele.
– E depois?
– Não é importante no momento. Porém, fique tranquilo, ele não vai se machucar fisicamente. Estou atento ao nosso acordo – respondeu Ramón.
– Certo. Qual é o motivo?
– Não posso te falar ainda. Se eu disser o que ele fez comigo, vou ter que te matar depois.
Carlos o encarou incrédulo.
– Você está de brincadeira com minha cara né?
– Jamais – afirmou Ramón. – Em outras palavras. Se eu te contar a história, corro o risco de que não dê certo o seu envolvimento com ele. Não quero isso. Quero que dê tudo certo.
– E se eu não aceitar? – desafiou Carlos.
– Procuro outra pessoa pra fazer isso.
Não sei se aceito me envolver com um estranho, pode ser perigoso, refletiu Carlos por um instante.
– Não vai me ajudar? – insistiu Ramón.
– Estou considerando aceitar. Só preciso conquistar a confiança dele, assim como a de Érika, isso? Você não vai me pedir pra ir pra cama com ele, ou algo do tipo?
– De jeito nenhum. Apenas conquistar a confiança. O que acontecer, além disso, fica por sua conta – disse Ramón sorrindo.
Ramón estendeu-lhe algumas folhas que retirou de sua mochila que tinha largado no chão quando entrou.
– No momento certo te conto o motivo sobre ele. Por enquanto, você pode ler isso.
– Do que se trata? – perguntou Carlos.
– É um script. Aí está o que você precisa saber de início, uma orientação do que você vai fazer. E a última folha, é uma foto dele.
Carlos foi direto à foto.
– Nada mal. Quantos anos ele tem?
– Trinta e cinco – respondeu Ramón.
Carlos tornou a colocar a folha da imagem impressa na última posição, e passou a ler as primeiras folhas avidamente. Ele amava ler livros. E, querendo ou não, o conteúdo ali até que estava interessante.
– Pelo que vi aqui, houve uma conversa por bate-papo, e depois, um encontro na lanchonete, onde esse tal de Angel levou o bolo, isso? – perguntou Carlos apreciando tudo aquilo.
– Exatamente. Você vai dar continuidade a isso do seu jeito. Confio em você.
– Tenho que usar o meu nome ao me aproximar dele, ou posso usar outro?
– O que você achar mais confortável.
– Parece que vai ser divertido. Se eu não gostar do andamento, poderei desistir?
– Sim. Mas, acredito que você não irá desistir – assegurou Ramón.
– Quando tenho que começar?
– Essa semana, até sexta.
– Tudo bem – consentiu Carlos.
– Muito obrigado. Você queria conversar comigo sobre algum assunto, o que é?
– Ia? Não lembro mais – disse ele rindo. – Quando me lembrar, te falo.
– Você tem alguma coisa pra comer? Estou com fome – disse Ramón passando a mão pela barriga.
– Tenho sim. Vamos à cozinha.
Até que não foi tão difícil convencê-lo, pensou Ramón sorrindo para Carlos.
***
Ele deslizava as mãos sobre o corpo dela com uma maestria que, se encaixava perfeitamente aos seus anos de experiência. Todas as vezes que se encontravam na cama, era levada a um estado de puro êxtase. Cada vez ficava mais louca por ele. Mas, não era só na cama que ele prendia a atenção dela, e também com o tom de voz, e com seu caráter.
Encontravam-se normalmente nas segundas-feiras, e, em outro dia aleatório da semana à tarde, de acordo com a disponibilidade da agenda de trabalho dele. Era o que ela podia ter da parte daquele homem, além dos telefonemas e torpedos que trocavam quase todos os dias.
– Você gosta assim? – perguntou ele arfando.
– Sim... Adoro – ela respondeu após um gemido.
Continuaram no ritmo ascendente, delirante de prazer, até explodir no clímax que, só os dois sabiam fazer juntos.
No fim, após o momento único só deles, como se o relógio tivesse parado no tempo, ele a abraçou, com o corpo ainda em chamas. Em seguida, encostou delicadamente seu rosto nos cabelos dela, sentindo o aroma que vinha deles, enquanto relaxavam-se.
– Poderíamos eternizar este momento – sussurrou ela.
– Você e eu, e mais ninguém – ele completou.
– Fico me perguntando se realmente algum dia isso vai ser possível – disse ela virando-se para ele.
– É só ter paciência meu bem, as coisas vão se encaixar no seu tempo.
– Estou tentando, você sabe que sou um pouco impaciente.
– Já te disse que até o final do ano faremos isso. Lembra?
– Lembro – respondeu passando a mão nos cabelos dele. – Você me disse isso dois meses atrás, na primeira vez em que fomos pra cama. Parece clichê, mas, lembro como se fosse ontem.
– Ótima memória – disse sorrindo pra ela, de um jeito jovial. – Estamos juntos até hoje, mesmo não sendo do jeito que você quer, contudo, eu confio em você, e quero de verdade algo mais sério.
– Acredito em você, gato.
– Olha, estarei com a noite livre, se quiser, podemos sair pra algum lugar especial.
– Vou pensar no seu caso. – E mordeu levemente o lábio inferior.
– Está me seduzindo outra vez?
– Sempre.
Beijaram-se longamente, quase iniciando uma nova rodada.
Ele levantou-se da cama, e disse:
– Vou tomar uma ducha, você vem?
– Pode ir. Daqui a pouco eu vou.
– Tudo bem, não demore.
Laura olhou para o espelho do teto, e ficou admirando seu corpo nu.
Pare com essa ansiedade sem sentido. Você não é mais aquela garota iludida do passado. Você agora é uma mulher! – pensou travando uma conversa com si mesma.
Fale com o autor