Notas iniciais
Um pouco de diversão...

Laura destacava-se pela sua pele negra, da qual ela tinha bastante orgulho. Olhos negros perolados. Cabelos cacheados, bem mais que os de Érika. E um corpo de tirar o fôlego de qualquer homem. Ela não era magra, nem atlética. Tinha umas gordurinhas aqui e ali, mas não se importava tanto com elas. Possuía uma confiança tão grande em si mesma, que dificilmente algo a abalava.

Naquela noite, ela estava deslumbrante. Com um vestido vermelho bem decotado, deixando a desejar aos olhares alheios, seus seios. As coxas de fora, mostrando uma pele bem cuidada. A maquiagem no rosto estava carregada cuidadosamente, para não destoar com o conjunto. Cílios levantados discretamente, batom de cor uva, sombra azul cintilante, e brincos de argola dourados. Sem falar do salto que estava usando, lhe permitindo um rebolado só dela.

Aproximou-se de Érika com um largo sorriso no rosto, e disse:

– Bem-vinda a sua festa surpresa amiga. Esse é o meu presente pra você!

– Onde está o pé torcido? – perguntou Érika olhando para os pés dela, avaliando o salto de 7 cm.

– Já fui curada. Esses saltos são milagrosos, você não faz ideia.

– Você me paga!

– Pelo quê?

– Você viu o estado em que estou? Devo estar pior que uma dona de casa, depois de faxinar a casa inteira sozinha no final de semana.

– E você acha que vou deixá-la neste estado decadente, em sua própria festa de aniversário?

– Espero que não.

– Não fique chateada comigo pelo teatro mais cedo, foi tudo ideia dela – disse Laura olhando para Beatriz que acabara de aproximar-se.

– Foi ideia nossa. Se não fosse a sua casa, nada disso estaria acontecendo.

– Isso mesmo. Podem agradecer a rainha das festas aqui.

As três riram.

Pra uma rainha, não estava faltando muito a Laura, vestida com todo aquele glamour.

– Meus parabéns, outra vez amiga – disse Beatriz dando um abraço e dois beijos nela. – Trouxe um presente pra você, é simples, mas, é de coração.

Érika pegou o embrulho e abriu. Era uma capa para smartphone, com a ilustração dos minions do filme, Meu Malvado Favorito.

– Adorei! Como sabia que eu gosto do filme?

Beatriz olhou para Laura.

– Culpada – confessou Laura. – Beatriz não sabia o que te dar de presente. Aí eu falei a ela que qualquer coisa que tivesse o filme envolvido, você iria gostar de primeira.

– Exatamente – confirmou Beatriz. – Ela deu a sugestão e eu segui. Só fiquei preocupada se você teria o aparelho exato pra esta capa...

– Não tenho – interrompeu Érika. – Mas, isso não é problema Beatriz. Quando tiver, pode ter certeza que vou usar. Gostei muito do presente, de verdade.

– Que bom, fico feliz em saber.

– Vamos ao meu quarto dá um trato nisso? – disse Laura avaliando com os olhos a blusa e a calça jeans que Érika estava usando.

– Eu vou a cozinha pegar mais um pouco dessa bebida – disse Beatriz.

Érika foi caminhando em direção ao quarto, enquanto alguns dos convidados cumprimentavam-na pelo caminho. Colegas do colégio. Amigos de Laura que sempre acompanhavam as festas que ela organizava. Apesar de, aquela noite ser uma festa mais reservada, mesmo assim, para Laura, certos limites não existiam. Apenas diversão. Porém, ela conteve-se em não estender o convite a mais pessoas do que o necessário.

– Pessoal, fiquem a vontade – disse Laura em alto e bom som. – A aniversariante vai dar uma ajeitada no look, já, já voltaremos.

***

No quarto, Érika passava os olhos pelos diversos vestidos, à procura de uma cor que a agradasse. Laura era uma consumidora compulsiva, de carteirinha. Tendência da moda eram seus sobrenomes.

– Tá difícil escolher? – perguntou Laura ironicamente ao entrar no quarto.

– Estou me sentindo dentro de uma loja de roupas, indecisa se visto verão ou outono.

– É o seu dia. Sem dicas. Aproveite.

Érika bateu o olho em um vestido preto, e soube que aquele era o vestido certo.

– Ótima escolha. – Aprovou Laura.

– Sim. Perfeito pra esta noite. Só vai faltar uma coisa – disse Érika colocando o vestido em frente ao seu corpo enquanto olhava-se no espelho.

– O quê?

– Meu namorado. Não o vi na festa. Você o convidou?

– Sim, convidei.

– E ele vai vir?

– Não vou te enrolar, Érika. Ele não virá!

Ela despiu-se, jogando a blusa e a calça sobre a cama da amiga.

– Entendi. É a próxima surpresa? Irei dar de cara com ele quando voltarmos pra sala?

– Não. Ele realmente não virá.

– Pelo menos disse o motivo? – perguntou tentando não transparecer o aborrecimento.

– Ele ia dizer. Hesitou por um momento, e, apenas repetiu que não viria. Disse que depois entraria em contato com você, explicando o motivo – respondeu Laura enquanto ajudava-a ajeitar o vestido no corpo.

– Paulo anda estranho. Uma hora está de bom humor. Em outra, ele se fecha em seu próprio mundo. Tenho sido tolerante com ele, no entanto, sinto falta dele.

– Não fique assim amiga. É só uma fase. Logo vai passar.

– Tomara que seja apenas uma fase. Eu gosto muito dele. Gostaria de não perder isso.

– Vamos pensar positivo, e tudo vai dar certo no final, tudo bem?

– Vou tentar.

– Muito bom. Vou à frente enquanto você ajeita a maquiagem e o cabelo. Tem outra surpresa que preparei pra você. Relembrar alguns momentos. Acho que vai gostar.

– Tem sacanagem no meio? – perguntou maliciosamente.

– Não pensei nisso – respondeu Laura. – Quem sabe na próxima. Sinta-se em seu quarto. Até agorinha.

– Sim, obrigada.

Paulo não vai vir mesmo? Tomara que ele tenha uma boa desculpa, pensou.

***

Carlos Eduardo havia acabado de chegar ao portão da casa. Fora convidado por Laura no colégio, no intervalo das aulas, naquele mesmo dia. Atrasou-se um pouco, mas, por uma boa causa.

– Finalmente você chegou – disse Laura buscando ele no portão, e o guiando para dentro. – Trouxe o trabalho?

– Sim. Está aqui dentro – respondeu Carlos entregando um pen drive a ela.

– Ótimo. Vou passar ao Igor, já volto.

Laura foi até um cara magricelo, de óculos, sentado em frente a um notebook. Entregou o pen drive, aguardou o conteúdo aparecer na tela. Em seguida, deu algumas instruções a ele, e voltou até Carlos.

– Muito obrigada. Vai ser perfeito!

– Por nada. Tomara que agrade a ela.

– Com certeza vai. Não tenho dúvidas – comentou Laura. – Fique a vontade, Carlos. As bebidas estão na cozinha, provavelmente Beatriz esteja por lá. Alguns aperitivos estão na mesa logo ali à frente. Tem salgadinhos, sanduíches frios daqueles pequeninos, entre outros. Sirva-se. A festa é nossa!

– Onde está a aniversariante? – perguntou ele olhando para as pessoas a sua volta.

– Terminando de ajeitar a maquiagem no quarto. Uma longa história.

– Ah sim.

Beatriz saiu da cozinha com um copo de bebida na mão. Estava em um vestido verde esmeralda arrebatador, realçando a cor dos olhos. Seus cabelos loiros soltos, trabalhados no volume. E um batom rosa claro, bem sugestivo.

– Olá Carlos, você veio – cumprimentou Beatriz dando um beijo no rosto dele.

– Pois é. Não pude resistir ao convite.

– Imagino. Laura é bastante persuasiva.

– E como – comentou dando um sorrisinho. – Me deem licença, vou pegar algo pra tomar, e beliscar alguma coisa. Aproveitar que está tudo liberado.

– Não beba demais – advertiu Laura. – Daqui a pouco o DJ vai liberar o batidão.

Carlos deu sinal com o polegar, e foi para a cozinha.

– Beatriz, você notou diferença no físico dele do começo do ano pra cá?

– Sim, resultado de horas de academia e alimentação saudável.

– Como você sabe disso?

– Uai, está óbvio, não?

– Você ficaria com ele?

– Não. É uma gracinha, só que não rola Laura.

– Certo. Olhando pros garotos aqui da festa. Com qual você ficaria?

Beatriz observou um por um dos que estavam espalhados. Até parar em um deles.

– Aquele ali, vestido casualmente – respondeu apontando discretamente.

– O gordinho? – perguntou Laura.

– Não parece ser gordo.

– Você está olhando de longe. Se chegar perto vai ver melhor.

– Não me importaria de ficar com ele mesmo assim.

– O que viu de interessante?

– Gostei do jeito que está vestido. Os lábios dele são bem chamativos, e provavelmente tem uma boa pegada.

– Ha! Há! Olha a safada ai! – exclamou Laura.

– Safada não, esperta!... Olha lá quem vem arrasando na passarela – apontou Beatriz.

Érika surgiu luxuosamente no vestido preto, com um batom vermelho provocante, e os cachos do cabelo ajeitados. Alguns assoviaram enquanto ela atravessava a sala.

– Então, como fiquei?

– Arrasou! – disse Beatriz.

– Agora você está pronta – emendou Laura enquanto tirava o salto.

– Ué, por que está tirando eles?

– Simples Érika, é hora do show! DJ aumenta o som – gritou Laura.

Música eletrônica começou a dominar o ambiente, e a galera vibrou gritando.

As luzes foram apagadas, e no lugar, globos giratórios coloridos surgiram espalhados pelo ambiente, jogando feixes de luz para todos os lados.

Laura, Beatriz e Érika foram pro meio da pista improvisada, e o restante do pessoal foi entrando na dança.

A noite prometia.

***

Depois de um tempo de música, dança e bebidas, o som foi cortado. Os globos pararam de girar, e um projetor foi ligado, lançando luz sobre a parede ao lado da mesa dos aperitivos.

– O que está acontecendo? – perguntou Érika já um pouco inebriada dos copos de cerveja que tomara.

– A outra surpresa da qual lhe falei antes de sair do quarto – respondeu Laura extasiada com o que viria a seguir.

Uma música com um ritmo suave começou a tocar.

No momento seguinte, uma frase surgiu na parede:

EM HOMENAGEM A ÉRIKA, FELIZ ANIVERSÁRIO!

– Vai me fazer chorar mesmo?

– Fique quieta e observe – advertiu Laura colocando o dedo indicador nos lábios dela.

A frase desapareceu.

O compasso da música acelerou, e imagens começaram a surgir. Eram fotos de infância. Érika com a família. Outras tiradas na antiga escola onde Laura e ela fizeram o ensino fundamental. Várias outras dos dois primeiros anos do ensino médio. Trabalhos, apresentações, feiras de ciência. Fotos com o namorado Paulo...

Érika virou para Beatriz que estava ao seu lado esquerdo.

– Não olhe pra mim, não tenho nada haver com isso – cochichou ela.

Virou para Laura com olhar inquisidor.

Laura retribuiu com um olhar de ingenuidade.

Mais fotos tiradas em shopping, praça, circo, festas, e diversos lugares.

Érika não esperava que aquela homenagem fosse mexer com ela. Era tudo muito lindo. Mesmo não tendo sido informada sobre qualquer autorização pra uso das imagens. Mas, fazer o quê? Quando Laura queria fazer uma coisa, dificilmente alguém a segurava.

Depois das fotos, a música prosseguiu até ser interrompida, dando lugar a um vídeo.

– Essa é a melhor parte – sussurrou Laura.

O ambiente da filmagem era de uma sala aula.

Um garoto negro apareceu segurando um buquê de flores numa mão, e na outra, uma caixa de chocolates. Ajoelhou-se em frente a uma garota, e começou a recitar um poema.

A qualidade da imagem do vídeo não era muito boa, já o áudio estava ótimo.

Quando o garoto terminou de recitar o poema, os alunos que assistiam a tudo bateram palmas, e em seguida, aguardaram a reação da garota.

Érika começou a recordar-se daquele vídeo.

Estava tentando lembrar quem era o garoto nele. Porém, outra lembrança passou a incomoda-la. Decidiu não continuar por ali.

Foi para fora discretamente.

Sentou nos degraus da entrada para a varanda.

Prometera a si mesma que aproveitaria aquela noite, sem ficar pensando em seu namorado. Claro, depois ter ligado para ele cinco vezes, enquanto maquiava-se no quarto de Laura. Todas elas caíram na caixa postal.

Estava indo muito bem. A roupa, a companhia de suas amigas ali, e junto a elas, agitando na pista com as músicas, a dança, as bebidas...

Sentia falta dele. Do namorado que era presente. Que a acompanhava nas festas, que ligava quase todas as noites, pelo menos pra dizer boa noite.

Simplesmente, sumiu.

Quando seus pais divorciaram, ele esteve ao lado dela nos meses seguintes, dando apoio, carinho e aconchego. Foi o período que se sentiu mais próxima a ele em todo o relacionamento.

Por um lado, a fase que ele estava enfrentando, relacionado com a dificuldade financeira na família, estava deixando-o deprimido. Contudo, toda vez que ela aproximava para conforta-lo, ajudar a melhorar o humor, ele fugia dela. Era estranho. Agia como se não precisasse dela. Um misto de orgulho e vergonha. Ás vezes parecia medo, medo de que ela percebesse nele uma fragilidade que não devia estar ali. E tudo isso, dificultava em vários momentos, o contato entre eles.

Érika ficou observando dois casais de possíveis namorados aos beijos no jardim. Um deles encostado ao muro da casa, e o outro, sentados na grama, acariciando-se.

Poderia ser Paulo e eu, se ele estivesse aqui, pensou.

– Estão procurando pela aniversariante.

Virou-se para ver quem falava. Era Carlos Eduardo, o garoto que ela tinha certeza que beijava rapazes.

Ia dizer alguma coisa, no entanto, resolveu permanecer calada.

– A lua está linda hoje, não? – disse ele.

Ela olhou para cima, e teve que concordar. A lua mostrava-se parcialmente naquela noite, com um brilho amarelado, linda.

Noite das bruxas.

– Eu não gosto de aniversários – insistiu Carlos aproximando-se mais dela. – No caso, do dia do meu aniversário. Por me fazer lembrar...

– O que você quer? – interrompeu-o tensa.

– Desculpe, não queria te irritar.

– Não estou irritada com você. Só não estou de bom humor no momento.

– Tudo bem. Vou te deixar em paz. Meus parabéns.

Érika levantou-se e o encarou.

Ele vestia uma camiseta regata de cor branca, permitindo mostrar os músculos do peitoral e braços. Bermuda jeans, e um tênis casual amarelo. O cabelo dele já estava um pouco bagunçado. Lembrava o jeito que o cabelo do seu namorado ficava depois do sexo.

Ele parece disfarçar perfeitamente bem, se eu não desconfiasse...

Érika avançou e roubou um beijo dele.

Em seguida afastou-se embaraçada com o que fizera.

– Quem te convidou? – perguntou ela desconcertada.

– Laura – respondeu ele confuso com o que acabara de acontecer.

Érika revirou os olhos e voltou pra dentro.

Carlos ficou atônito por alguns segundos.

Garota estranha, eu hein, pensou voltando o olhar para a lua, enquanto seus pensamentos perdiam-se em uma pessoa, Ramón.

***

Érika foi até a cozinha, pegou mais um copo de cerveja, e tomou de uma vez.

O que foi aquilo que aconteceu lá fora? Estou perdendo a linha. Culpa dessa bebida do cão!

– Olá. Feliz aniversário!

Era Igor, o cara do notebook.

– Obrigada.

– Você está linda nesse vestido.

– Culpa da Laura. Ela que gosta desses vestidos gritantes.

Ele sorriu.

– Vou voltar pro meu lugar. A festa tem que continuar.

– Isso aí DJ – vibrou ela levantando mais um copo de cerveja.

Tomou mais aquele copo, e saiu da cozinha.

Foi de encontro a Laura.

– Estava te procurando Érika. Onde esteve enfiada?

– Na cozinha, bebendo.

– Você perdeu o final do vídeo. Faz tanto tempo, você nem lembra mais dele né?

Érika não estava prestando atenção nela.

Do outro lado da sala, viu Beatriz aos beijos com um cara. Aquilo a deixou intrigada.

– É isso mesmo que eu estou vendo, ou já bebi demais?

– Está referindo-se a Beatriz? – perguntou Laura olhando para a mesma direção que ela.

– Exatamente. Aquele que ela está agarrando é o gordinho da nossa sala?

– Sim. Eu a desafiei.

– E o que ela vai ganhar com esse desafio?

– Meu respeito!

Érika olhou para ela incrédula.

– Quanto ela bebeu?

– Sei lá. Acho que o suficiente pra encarar esse desafio.

Érika riu. Logo parou. Lembrou-se do que aconteceu do lado de fora entre ela e Carlos.

– Não estou me sentindo muito bem. Acho que bebi demais. Vou deitar na sua cama, tudo bem?

– Está cedo.

– Sério amiga. Vou deitar um pouco. Se passar, volto pra aproveitar mais. Muito obrigada por tudo isso.

– Não precisa agradecer. Você sabe que está aqui no meu peito né? Tem muito espaço.

Érika sorriu. Laura era fantástica.

– Se eu dormir, me acorde pra te ajudar a arrumar a bagunça.

– Não precise se preocupar com isso.

Érika foi pro quarto e fechou a porta.

Empurrou para um lado suas roupas que havia jogado ali horas atrás, e desabou sobre a cama.

Notas finais
Obrigado aos que fãs que estão acompanhando a história. Prometo surpreende-los mais e mais a cada capítulo.