Notas iniciais
Em muitos momentos precisamos mais ouvir do que falar. Quem sabe tomaremos as melhores decisões!

Ouvir e agir.

– Você nem me conhece, como sabe que preciso de alguma mudança?

A velha abriu uma bolsa pequena que trazia consigo, e de dentro dela, tirou uma pedra esverdeada, com aparência de quartzo.

– Isto vai lhe ajudar – disse exibindo a pedra, em formato um pouco maior que um ovo de galinha.

Bruna fez cara de deboche. Só podia ser uma piada. Aquilo ajudá-la? Talvez pra jogar na cabeça daquela velha maluca!

– Como isso aí vai me ajudar? – perguntou com resistência a ideia.

– Esta pedra pode realizar um desejo, para quem a possui – disse a estranha senhora, enquanto acariciava a pedra como estivesse afagando um filhote de cachorro.

Bruna caiu na gargalhada. Não bastava o que vinha passando, ainda encontra uma velha, no mínimo doida, com uma pedra que pode realizar desejos. Era o máximo da bizarrice!

– Você ri, por não entender. Mas, é bastante compreensível. Ainda não te expliquei como funciona – disse ela serenamente. – Quanto à mudança, as pessoas sempre precisam mudar alguma coisa quando estão numa situação bem difícil.

– Realmente não entendo como essa pedra pode realizar desejos! Por que ela seria diferente das outras pedras que vemos em qualquer lugar?

– Não cabe a nós questionarmos os porquês quando estamos diante de uma solução, minha filha. Só temos que abraçar a oportunidade, e saber agir com sabedoria. – E olhando atentamente para Bruna, continuou:

– Percebo que você duvida do que estou falando. Vou te mostrar.

– Realmente não acredito! Não sei o que estou fazendo sentada aqui. Minutos atrás tudo o que eu mais queria era morrer. E... nem sei por que estou dizendo isso pra você!

– Nem eu. Não me lembro de ter perguntando qualquer coisa sobre a sua vida.

– Vou embora pra minha casa.

Levantou-se do banco.

– Não estou a fim de ver seu espetáculo, seja ele qual for.

A senhora segurou o braço dela delicadamente.

– Antes de ir, permita-me terminar minha missão.

Como sessão de hipnose, Bruna sentou novamente, tentando concentrar-se no que viria a seguir.

– A partir do momento que o desejo for realizado, você terá apenas uma hora, para aproveitar o beneficio do desejo, seja ele qual for.

A velha levantou-se.

– Agora preste bastante atenção. — Ela fechou os olhos, e com a pedra entre as palmas das mãos, em formato de concha, disse:

– Desejo que todo o meu corpo volte ao estado de quando eu tinha 20 anos!

No momento seguinte, Bruna presenciou uma cena que jamais acreditaria ver fora das telas de cinema. A velha se tornou numa bela jovem, mesmo permanecendo com as roupas maltrapilhas, com as quais estava vestida. Por alguns segundos, achou que tudo aquilo era um truque, porém acabou convencendo-se que a transformação foi real.

– Pronto, tome a pedra, eu vou aproveitar meu momento. Até mais garota!

Bruna ficou sentada por alguns minutos, tentando entender o que havia acontecido, enquanto encarava a pedra.

Só posso ter ficado doida. Em algum momento vou acordar desse sonho maluco, ela disse para si mesma.

Bastaram mais alguns minutos, pra ela aceitar o que havia acontecido. Afinal, a transformação da velha foi bastante convincente.

Bom, se a pedra pode mesmo realizar qualquer desejo, o que eu vou perder com isso? – pensou tentando levar a sério tudo aquilo.

Mais que droga é essa? Eu vim parar aqui nessa praça com vontade de tirar a minha própria vida, e me acontece isso! Não faz sentido algum. Na verdade, nada mais faz sentido, desde que ele se foi. Tudo começou quando ele passou a me evitar... Ei, espere ai. É isso! Nunca compreendi por qual motivo ele me afastou da vida dele, depois que adoeceu. Já sei o que quero pedir!

Bruna fechou os olhos, segurou a pedra exatamente como viu a velha fazer, e desejou voltar no tempo, ao dia que parou de insistir em ligar e enviar torpedos para Fernando.

Quando abriu os olhos, estava em frente do portão da casa dos pais de Fernando.

No primeiro instante ficou sem reação. Piscou várias vezes, mas toda vez que reabria os olhos, o cenário era o mesmo. Guardou a pedra no bolso da calça que estava usando, e resolveu tocar a campainha da casa pra ver o que sucedia. Teve que tocar umas quatro vezes até que a mãe de Fernando viesse atender o portão.

– Bruna, o que faz aqui?

– Quero saber onde Fernando está.

– Ele está na casa da tia Amélia.

– Me passa o endereço, preciso falar com ele.

– Não vai ser possível.

– Eu tenho o direito de saber, sou a namorada dele!

– Isso não te dá o direito. Não é motivo pra você exigir essa informação. Por favor, vá embora.

– Não vou! – retrucou Bruna com um olhar desafiador. — Eu tenho o direito de saber, principalmente pelo fato dele estar doente.

– É apenas dengue, quando ele melhorar...

– Mentira! Ele está com HIV!

A mãe de Fernando ficou horrorizada. Engoliu em seco. Pareceu que ia revidar. Limpou a garganta, convidou Bruna para entrar, e pediu que ela esperasse na sala.

O tempo que ficou ali esperando parecia não ter fim. Até que a dona da casa retornou.

– Vá até o quarto dele. Você sabe o caminho.

– Obrigada, Sra. Godoy.

Bruna caminhou até o quarto com o coração palpitando aceleradamente. Quando chegou, a primeira coisa que viu foram os olhos dele. Pensou em cumprimentá-lo, mas, estar diante dele outra vez a deixou sem ação. Ficou parada, em pé, na entrada do quarto, enquanto os seus sentimentos oscilavam entre felicidade e raiva. Feliz por vê-lo novamente, mas com raiva dele ter se afastado dela. A aparência dele estava horrível. Havia emagrecido bastante. Estava com olheiras e o cabelo todo desarrumado, como se não visse um pente e gel por muitos anos.

– Agora você entende? – perguntou Fernando, quebrando o silêncio.

– Entender o quê?

– O motivo de não atender suas ligações, e não responder seus torpedos.

– E também de pedir aos seus pais para mentirem pra mim, que você estava com dengue?

– Isso também. Você entendeu?

– Entender? Num dia, estou na sua vida, vivendo o romance dos sonhos. No outro, sou expulsa, sem direito a reclamar.

– Eu não te expulsei. Estava tentando evitar...

– Tentando evitar o quê?

– Evitar essa conversa por exemplo. Nem era pra você estar aqui!

– Éramos... Somos quase noivos, tivemos um compromisso, e nele inclui saber a verdade sobre a saúde do outro!

– Não me lembro de ter assinado nenhum contrato com alguma cláusula sobre isso.

Bruna fechou a porta do quarto atrás de si, e foi ao encontro de Fernando, para dar-lhe um beijo, mas ele virou a cara.

– Acho melhor você ir embora.

– Acabei de chegar – resmungou sentando-se na cama, próximo dele. Se chegasse mais perto, sentiria que ele estava bastante febril.

– O que você quer? Já não é o suficiente me ver nesse estado?

– Eu não vim apenas pra te ver. Se pudesse, passaria a noite aqui...

– O que quer de mim então?

– Eu quero saber o motivo que levou você a me evitar. Fugir de mim.

– Não sou obrigado a responder.

– Porra! Não estou te entendendo. Já conversamos sobre tantas coisas. Quase dois anos de relacionamento. E você simplesmente me descarta, como se eu fosse um guardanapo que você usou pra limpar a boca e nada mais.

– As coisas mudam Bruna. As pessoas mudam. Ou você aceita isto, ou fica sofrendo pelo passado.

Ela ficou pasma. Aquele Fernando, não parecia nenhum pouco com o cara que conhecera.

Será que voltei ao passado correto? Acho que estou num passado paralelo. Onde quem errou com ele, fui eu, e não, ele comigo! – pensou.

Bruna estava chateada. O desejo para voltar naquele período do passado, estava sendo uma grande perda de tempo. Poderia ter voltado ao dia em que se conheceram. Relembrar o gosto do primeiro beijo, dos primeiros toques... Ou teria sido melhor, se tivesse retornado ao dia que fizeram amor pela primeira vez. Sentir outra vez a sensação do corpo dele sobre o seu... Teria aproveitado melhor àquela hora, que já estava acabando, dentro de alguns minutos, tudo aquilo desapareceria.

O quarto estava desarrumado, sem vida, cheirando a morte. Não havia percebido quando entrou. Porém, depois de um tempo ali dentro, sentia-se incomodada, sufocada.

A expectativa que havia criado era de reviver um momento agradável, além de esclarecer algumas coisas. Infelizmente nem tudo acontece como planejamos.

– Eu sei que você está com HIV! – disse ela revidando a última fala dele.

– E daí? Uma hora você descobriria.

– Não entendo sua impaciência. Eu que devia estar irritada, e não você!

– O que você quer dizer com isso?

– Eu fiz o teste e deu positivo, por sua causa!

– Minha causa?

– Sim. Eu sempre me cuidei!

– Bruna eu sei que já te disse isso, mas você não deveria ter vindo aqui. Vai embora, por favor.

– Não vou embora, enquanto não terminar essa conversa.

Fernando suspirou fundo. O que estava prestes a falar iria deixar Bruna intrigada.

Notas finais
E o que achou da continuidade da história? Aguardo comentários galera! Abraços a todos e até o próximo capítulo!