Tentation
1 Único
Notas iniciais
França, 1890
A noite na cidade era sempre fria e escura demais. Andar na rua sozinho, mesmo naquele tempo era realmente perigoso. Mas isso não me importava, nada importa quando se está bêbado.
Havia bebido muito na festa e tentava, cambaleando, voltar à minha casa.
A rua estava deserta e só se ouvia os barulhos provenientes dos bares e casas noturnas que havia deixado. Virei em um beco e segui em frente.
Era difícil prestar atenção em algo, mas percebi uma movimentação ao meu redor. Olhei para frente e consegui distinguir um poste com um lampião oscilando no fim da rua. Não me importei e continuei a andar.
Ao me aproximar do poste vi um vulto empoleirado acima do mesmo e percebi que me fitava intensamente. Parei me apoiando na parede e o vi pular, caindo de pé como um gato.
O estranho se aproximava, com um andar elegante, digno da corte. Parou com o rosto muito próximo ao meu.
–O que um garoto tão bonito como você faz aqui?
Sua voz, apesar de grave, era graciosa e macia. Não consegui responder, só o olhava.
–Tudo bem, não precisa responder. Só fiquei me perguntando porque estás tão sozinho!? — começou a me rondar, observando-me atentamente e parando a minha frente após uma volta completa.
Soltei a respiração, que nem percebi ter prendido e consegui responder:
–E por que te interessaria? — minha voz soou mais rude do que pretendia. Para falar a verdade, achava um crime falar com ele nesse tom.
–Calma, querido. Só quero te ajudar — tocou meu rosto e consegui vê-lo à luz fraca do lampião.
Era bonito, tinha de admitir! Os olhos verdes contornados com um pouco de maquiagem, os cabelos, louros e cacheados, caindo-lhe aos ombros, o corpo esbelto, os traços finos, a pele branca...uma beleza que não pode ser descrita e quanto mais se admira, mais lhe fascina.
Demorei para sair de meu transe, mas finalmente o fiz.
–Me ajudar? Quem disse que eu preciso de ajuda? — e mais uma vez minha voz saiu rude demais.
Sua atitude não mudou nem um pouco e a mão continuava pousada em meu rosto.
–A vida sozinho é trsite, não? E olha que disso eu entendo! — sua mão pendeu ao lado de seu corpo e ele deu um suspiro de falso pesar.
–Do que estás falando? E aliás, como te chamas? — começava a soar mais desafiador. Não sei porque, mas começava a achar que tinha que me manter alerta.
Fazia esforço para me manter desperto e não cair de bêbado. Estava fraco, mas sentia que não podia mater a guarda baixa, apesar de outra parte de mim mandar relaxar e me aproximar mais.
–Me chame de Kamijo, prazer. — sua aura era como a de um príncipe e isso só fazia me encantar mais. — Eu sei, te chamas Teru! — completou quando viu que abri a boca para responder
Como sabias tanto de mim nunca descobri, mas no momento não me importei. Aquela preocupação de me proteger havia quase se esvaído.
Era verdade que ultimamente não tinha ninguém. Meus amigos me abandonaram, minha família eu havia deixado e a única pessoa que achei realmente gostar de mim me largou. Sair para beber era meu único alento. Não precisava de ajuda, não a queria. Não sabia o porque de Kamijo estar tão interessado em minha pessoa.
–Posso te oferecer algo que mais ninguém pode. — ele começou a andar com o cotovelo apoiado em uma das mãos, fazendo gestos leves e exagerados. — Posso acabar com o marasmo da sua vida! O que acha? — parou e ficou a me olhar.
Por um momento pensei em aceitar, mas recuei. Não sei o que aquele homem tinha, mas me induzia a fazer coisas involuntariamente.
–O que você quer de mim? — quis mostrar valentia, mas meus passos receosos denunciavam-me.
–Ainda não entendeu? — e, com um movimento que sequer percebi, parou às minhas costas segurando meus braços para trás. — Não é o que eu quero de você, mas o que você quer de mim!
Sua voz não se afetou nem um pouco, nem parecia fazer força para me manter quieto. Comecei a ficar realmente apavorado. Não sabia quem ele era, nem o que queria, mas tinha a impressão de que não era nada bom.
–Não tenha medo de mim, não lhe farei mal.
–Então solte-me! — por mais que desejasse, minha voz não saía nada calma.
Para meu espanto, ele me soltou. Caí no chão. Ele olhava com pesar, ou pelo menos o imaginei. Tentei correr, mas logo o vi parado a minha frente.
–Por que tens tanto medo? Vinde comigo e a solidão não há de existir. — sua mão estava esticada acima de mim.
Tentava lutar contra a vontade de segurá-la e segui-lo para onde fosse, mas simplesmente não conseguia vencer.
Ele parecia sentir o medo que emanava e mim e ria discretamente ao ver minha relutânica ao seu convite.
Finalmente se agachou e falou ao meu ouvido:
–Sabes quem sou? — fez-me estremecer com sua pele em contato com a minha. Não esperou resposta à pergunta: — Quer descobrir?
Meu cérebro dizia para correr, mas simplesmente não podia obedecer. O som de sua voz me hipnotizava e seu perfume de rosas de embriagava.
Mei dei conta de que a tontura por causa da bebida passara e o mundo parecia congelado, como se todos prestassem atenção ao ocorrido.
Não conseguia propagar minha voz, não sabia o que falar, só o fitava.
Ele continuava muito próximo e só então me dei conta da temperatura de sua pele: gélida como mármore. Mas ainda assim não deixava de ter um toque suave.
Não parecia ter pressa e mantinha-se interessado em cada movimento meu. Minha respiração estava cada vez mias pesada e o ímpeto de aproximar-me mais aumentara.
Ele foi mais rápido e me tomou nos braços, acabando com o espaço que havia entre nossos corpos.
–Eu posso te ajudar. — cochichava em meu ouvido — Eu sei que queres minha ajuda!
–C-Como tens tanta certeza? — O medo começou a a fluir por meu corpo, mas um voz em minha mente entrava em conflito comigo.
–Posso sentir! — Mordeu o lóbulo da minha orelha, o que provocou um arrepio por meu corpo.
Pensava em recuar, mas simplesmente não podia me separar dele, não queria fazê-lo.
Ele me fitava intensamente, seus olhos agora negros.
–Te levarei a um mundo diferente, totalmente novo! — Sua voz continuava macia e convidativa.
Havia me seduzido completamente. Já não me importava com o que pudesse acontecer, só queria ficar perto dele.
Não esperou reação da minha parte. Senti algo perfurar meu pescoço e um cheiro de sangue, misturado ao de rosas, preencheu meus sentidos. Seus braços, finos porém fortes, seguravam-me enquanto minha forças se esvaíam e o som de nossos corações entravam em sintonia.
Aos poucos tudo ficou confuso e meu corpo não respondia. A última coisa que lembro ouvir foi Kamijo, sussurando em meu ouvido:
–Goodbye little honey! Goodbye beautiful rose!
Fale com o autor