Tentando Destruir um Conto de Fadas
5 Apenas Histórias Para Assustar Crianças
Foi custoso para Natan aguentar o castigo, mas obedeceu porque não queria aumentar seus problemas, nem prolongar seu infortúnio. A parte boa é que conseguiu evitar a madrasta e o irmão, o que lhe rendeu um pouco de paz.
Quando se viu livre, correu para a Casa da Orquídea e pôde matar a saudade de sua doce Elida, com quem estava mantendo uma frequência de encontros. Natan sempre se mantinha fiel quando gostava de alguma garota e dessa vez, sentiu vontade de presentear a cortesã, por isso estava pensativo sobre o que poderia dar a ela. Por causa desse impasse resolveu perguntar a quem poderia ajudar, a irmã mais nova.
Apesar de ser filha de Érodi, Livana não foi corrompida pelos caprichos da mãe. Muito pelo contrário, de alguma forma era negligenciada porque a rainha só tinha tempo e energia para o príncipe herdeiro. Apesar de ser algo horrível de se pensar, Natan era grato por isso, pois ele acabou se tornando muito próximo da princesa.
Estava se direcionando para um local onde seria fácil de encontrá-la, rapidamente pelos portões da área da cozinha, localizada em uma estrutura mais alta, que ficava há uns bons metros subindo a montanha. Nova Esperança, capital do Clã dos Lobos, era construída ao pé das famosas Montanhas Geladas e a morada do rei foi construída no meio da base onde haviam as três mais altas.
O topo delas ostentavam um manto de neve na maior parte do ano, proporcionando uma visão espetacular para quem as via de longe. Em uma parte da base, havia um enorme paredão, e nele tinha uma fenda entre as pedras, onde escorria água sem cessar. A cozinha foi construída ali propositalmente por causa da fonte.
Livana de fato estava lá, com os cabelos soltos, que desciam ondulados pelas costas e a cor brilhava sob a luz do sol, já que era castanho claro. Havia sentado na borda do tanque alto, construído para conter a água que descia do paredão. A estrutura tinha uma abertura do lado esquerdo e um canal foi construído para conduzir a água para a cozinha do palácio sem interrupções.
— Te achei! — Natan chamou a atenção e ela se virou, abrindo um sorriso automaticamente.
Os olhos castanhos também sorriram para o irmão, o nariz fino e as maçãs do rosto estavam vermelhas por causa do sol. O vestido bege com bordados dourados lhe davam a aparência quase divina.
— Irmão! — ela foi até ele dando um abraço no tronco, que foi muito bem recebido — Você sumiu depois do castigo. — reclamou com uma falsa irritação, mas logo o semblante mudou quando teve que levantar a cabeça para conseguir vê-lo — E está tão alto.
— Claro, sou mais velho. — ele falou convencido levantando o queixo.
Livana fez uma careta e o soltou.
— Isso é injusto! Vou pedir a deusa da montanha para ficar mais alta do que você. — disse cruzando os braços
— Como se ela fosse perder o tempo dela com algo tão estupido. — Natan zombou dando um sorriso de lado.
— Está me chamando de estúpida? — Livana soltou os braços e fechou os punhos, dando sinais de raiva verdadeira.
— Não foi isso que eu quis dizer. — Natan percebeu e tentou desfazer o que tinha falado.
A resposta tinha saído sem querer apenas para troçar com ela, não imaginou que seria levado a sério.
— Qual o problema em querer ser alta como você? Eu não iria parecer fraca e minha mãe poderia me dar mais atenção…— a voz dela ia diminuindo conforme falava — Se fosse guerreira como nossa tia Leda, poderia pelo menos lutar com nosso exército.
Natan viu a jovem se virar e dar passos em direção ao tanque. Sentiu um aperto no peito, ele conhecia demais aquela sensação.
— Você não precisa ser alta para ser forte ou para chamar atenção da sua mãe. — o príncipe falou chegando perto dela — Você já é uma pessoa incrível e especial. Também é uma princesa, todos te amam, então não precisa mudar nada em você.
— Mas porque não parece suficiente? — ela baixou a cabeça e Natan sabia que aquilo era uma ferida.
— Para mim, você é sim. — ele disse se abaixando, ao mesmo tempo levou a mão para levantar o queixo dela e olhar nos olhos da irmã — Quem não te enxerga como você é agora, não vai te enxergar mesmo se tiver dois metros de altura ou derrote cem mil inimigos. Lembre-se que eu vejo você, não importa quem seja ou onde esteja.
Livana piscou os olhos para conter as lágrimas que ameaçavam surgir, ouvir aquilo de Natan era muito significativo. Ele era o irmão que ela mais amava e por isso o abraçou novamente, dessa vez pelo pescoço. O rapaz retribuiu se levantando, segurando-a no tronco porque tinha ficado pendurada.
— Isso foi lindo, irmão. — ela sorriu ainda agarrada ao pescoço dele.
— Você sabe que é minha irmã favorita, não é? — o tom de voz de Natan saiu divertido.
— Claro, fácil falar quando sou a única. — ela deu um tapinha para que ele a colocasse novamente no chão.
Livana arrumava o vestido ainda sorrindo e Natan também estava arrumando a roupa que ficou abarrotada.
— Sabe, eu estava ouvindo das cozinheiras sobre terem ouvido uivos noite passada e então lembraram da lenda que diz que nas montanhas existiam homens lobos. Eles se transformavam na lua cheia e saíam capturando moças para terem filhos lobos, por isso que hoje existe o Clã dos Lobos. — a capacidade de Livana mudar de assunto era algo que Natan achava incrível.
Ele acabou rindo, do assunto tão repentino.
— Você sabe que isso é apenas histórias para assustar as crianças.
— Mas faz muito sentido — a jovem rebateu e ajeitou os braços, com o esquerdo pousando na altura do estômago e o cotovelo do direito se encaixou ali, para que ela pudesse gesticular com a mão enquanto continuava o raciocínio — Pensa só, o nome do nosso reino é Clã dos Lobos. Então, se a gente for descendente desses lobos, podemos nos transformar em feras!
Natan não conseguia acreditar que ela estava falando sério e juntou as sobrancelhas em descrença.
— Você está falando sério? — ele levantou a sobrancelha.
— Ai, para. — ela ficou envergonhada, ser julgada estava tirando qualquer convicção que tinha no momento — Eu só estava pensando que seria legal, assim a gente venceria fácil aquele general fantasma.
Ele cruzou os braços como se finalmente estivesse pensando seriamente nos argumentos da irmã.
— Acho que você deveria tentar se transformar em um lobo. — falou com uma expressão séria e ela percebeu que ele não estava falando sério e fez um bico — Quero ver que tipo de lobo você seria. Com certeza seria baixinho e fofinho, dificilmente conseguiria derrubar um lanceiro, quem dirá o general fantasma usando aquela espada com de nome de mulher.
— Às vezes você é bem desagradável, irmão. — Livana bufou e sentou na borda do tanque, observando a água que não parava nunca.
Chateada, a jovem afundou a mão na água para logo em seguida jogar o líquido em Natan, que não conseguiu desviar a tempo.
— Ei! — ele reclamou e se afastou alguns passos passando as mãos no rosto, onde respingou mais a água — Dá para não fazer isso de novo?.
— Então saia daqui, se for continuar zombando de mim, vou jogar mais água! — ameaçou irritada e se levantou, caminhando para o lado oposto da cozinha.
Havia ali uma mesa de pedra no centro do pátio livre, também tinha uma meia parede de proteção, pois estavam na beira de um penhasco, que dava vista para toda a cidade do lado direito e do lado esquerdo, se via um pouco do vale ao longe, coberto de um manto verde das árvores silvestres. Era um dos lugares favoritos de Livana.
— Desculpa, vai. — ele falou se aproximando lentamente — Eu vim te pedir um favor.
Livana encarava a vista e virou minimamente a cabeça com certo interesse.
— Diga antes que eu te chute para baixo. — ameaçou ainda irritada.
— Quero dar um presente para uma garota, mas não sei exatamente o quê. Então como você é uma garota, vim saber do que as garotas gostam.
Ela se virou para ele curiosa, era a primeira vez que ele falava de garotas com ela.
— Quem está cortejando? É alguma garota que conheço?
— Você não conhece. — ele desviou o olhar, não queria revelar de onde era Elida, mas ao mesmo tempo achava que essa informação poderia ajudar melhor — Ela é da Casa da Orquídea.
— Uma cortesã? — ela ficou tão surpresa que se virou para ele e caminhou para ficar mais perto — Você sabe que é errado frequentar aquele lugar. — sussurrou com medo que alguém ouvisse — As mulheres são perdidas.
— Você não entende, isso é coisa de adultos — Natan falou cruzando os braços e levantou o queixo.
— Você nem é tão adulto assim. — ela rebateu — E eu não sou criança, tenho dezoito anos e já estou na idade para casar. Como não posso saber essas coisas? Sei que é errado frequentar esse tipo de local e todos falam que homens decentes não vão para lá.
Ela encarou o irmão com os olhos semicerrados.
— Você geralmente acredita que tem homem que não vai para lá? — ele zombou mais uma vez — Mas essa não é a questão, vai me ajudar ou não?
— Eu não deveria, assim como você não deveria ir para aquele lugar, você é um príncipe. — estava inclinada a rejeitar veemente.
— Um príncipe bastardo, minha reputação está manchada desde que cheguei aqui, uma coisa a mais ou a menos não significa mais nada.
Não depois de tudo o que a rainha faz sempre que pode, acrescentou mentalmente. Poucas coisas alegravam sua vida, os braços de uma cortesã era uma delas.
— Mesmo assim, não é certo. — Livana continuou — Se você quer ser amado, case-se com uma mulher decente.
Natan suspirou, sua irmã era ingênua demais. Se aproximou e segurou com delicadeza e pequena mão dela.
— Nenhuma mulher decente me quer. — ele falou em um tom mais melancólico do que pretendia e ao perceber, sorriu suavemente — Mas não se preocupe, não sou um qualquer, não me deixo levar por várias, só gosto dessa e apenas quero agradá-la, ela é muito gentil comigo. — assegurou com firmeza e viu que aquilo quebrou a rigidez da princesa.
Ela sabia do sofrimento do irmão e ao descobrir que alguém além dela o tratava bem, sentiu um pouco de alívio. Resolveu que talvez não faria mal.
— Tudo bem, vou tentar. — ela respondeu ainda fazendo um bico — Mas quero deixar claro que não concordo com isso. — finalizou o decreto e de repente seu rosto suavizou — Qual o nome dela?
E então passou as próximas horas perguntando tudo sobre Elida e dando algumas dicas que Natan achou bastante úteis.
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