Tentação intercambista
6 Capítulo 5 - Um novo sentimento
"Banheiro! Banheiro!" foi tudo o que consegui pensar ao encarar aquele fantasma... quer dizer, rapaz, pela primeira vez.
– Hã... mamãe, eu já volto! — falei, gaguejando enquanto literalmente corria em direção ao banheiro social, perto da sala de jantar. É... parece que agora o meu vaso sanitário tem um novo dono. Precisarei usar o do meio da casa. Como eu tenho "sorte", hein?
Quando saí, tentei fazer o mínimo barulho possível, procurando pelo novo garoto sem desejar que ele me visse. Não encontrei, porém, nenhum sinal do mesmo. Devia estar no quarto.
Fui, então, até a cozinha para almoçar e ouvi o som do carro do papai. Finalmente ele havia chegado. Estava me devendo muitas explicações.
Antes que eu pudesse engolir a primeira colherada, a mamãe apareceu com o Juan ao seu lado.
– Já falou com o Juan, Belinda?
Engasguei na mesma hora, e senti meu rosto corar em seguida. Tossi diversas vezes e bebi grandes goles d'água. Abaixei o olhar, com vergonha, mas pude perceber que o garoto me olhava preocupado.
– Está tudo... bem? — perguntou ele, se aproximando de mim.
Pude sentir novamente meu rosto ficar vermelho, e aquela dor de barriga estranha novamente apareceu, mesmo depois de eu ter ido ao banheiro. Que coisa estranha!
– Aham... — respondi, de cabeça baixa, arrumando minha franja.
Mamãe ainda estava parada na entrada da cozinha, me encarando com um olhar repreensivo. Olhei para ela querendo perguntar: "o que foi?", mas continuei calada.
Papai finalmente entrou em casa, pondo as chaves do carro em cima da mesa da cozinha.
– Juan, já está tudo certo lá no aeroporto. Eles já entraram em contato com seus pais e ficou tudo bem.
– Obrigado — respondeu o menino, encostado na parede. Para um intercambista, até que ele fala bem o português.
Papai continuou:
– E aí, Belinda? Já conversou muito com o Juan?
Senti a porcaria da minha cara queimar de novo. Aff, por que não fica logo vermelho de uma vez só? Fiquei parecendo um semáforo... ora normal, ora vermelho... normal, vermelho... eu hein...
Pensei que o menino ia esfregar na minha cara que ainda não trocamos nem sequer um olhar direito. Mas para minha surpresa, ele respondeu:
– Já, sim, senhor! A Belinda parece ser muito esperta!
Olhei para ele com uma cara de "hã?", mas apenas recebi uma piscadinha com "resposta". Novamente uma onda fria percorreu minha barriga.
Em seguida o papai perguntou se o rapaz e a mamãe já haviam almoçado, e os dois responderam que sim. Eu, porém, apesar de estar com um prato cheio na minha frente, havia perdido a fome de uma forma misteriosa. Levantei-me silenciosamente e caminhei até meu novo quarto.
Tranquei a porta e sentei-me na cama. Suspirei. Ouvi, em seguida, a mamãe me perguntar, da cozinha, porque eu havia desperdiçado tanta comida. Não respondi nada e liguei meu notebook.
Deitada na cama e com o laptop em cima da minha barriga, entrei no Skype. Das minhas amigas, apenas a Juliana estava online. Mal pisquei o olho e ela já me mandou uma mensagem. Humpf... desesperada.
"E AÍ, E AÍ, E AÍ? ELE É GATINHO? É? É? É? AAAAAAHHHHH!!!!!!"
"É um branquelo altão. E fala português bem pra caramba", respondi.
"AAII! Como você tem sorte, Lindaaa!".
"Para de me chamar de 'Linda'. Meu nome é BELINDA!!! Já disse isso mil vezes".
"Qual é a cor do cabelo dele??? E dos olhoos?? *-*", perguntou minha amiga, ansiosa.
Séria, digitei:
"Ele é loirinho. E os olhos, não faço a menor ideia. Mal olhei pra cara dele".
''Humm... não olhou pra cara... então olhou muito pra parte de baixo dele, né? Hehehe"
Meus olhos se arregalaram.
"QUÊ? OLHA, JULIANA, SE FOR PRA VIR CONVERSAR SAFADEZA PRA CIMA DE MIM, VAI VER SÓ!!!".
"Minha filha, se eu fosse você, estaria soltando fogos de artifício. Você é a pessoa mais estranha que já conheci na vida, Belinda".
"Problema seu!!!!!!!!!!!", digitei, fechando a janela da conversa e ignorando todos seus pedidos de mensagem.
Voltei para a página de contatos e vi que a Ludmila estava online. Assim que eu ia clicar em seu nome, ela me mandou uma mensagem.
"Oi, Belinda!"
"Oi, Ludmila..."
"Ué, o que foi? Está tudo bem?", perguntou ela.
"Mais ou menos".
"É por causa do garoto da Espanha? Ele já chegou?"
"Sim. Já chegou, sim. É que... eu não sei o que está acontecendo comigo, Mila... eu praticamente o odiava sem nem ao menos tê-lo conhecido... mas agora é como se... se..."
"...Se estivesse apaixonada?" indagou ela.
"o.O' QUÊ? Que conversa é essa, garota? Claro que não estou apaixonada!!!" respondi, sentindo meu rosto pegar fogo e minha barriga doer.
"Tá, desculpa! Mas é como se o quê?"
"Anh, sei lá... é como se eu... não... argh, não sei! Não sei! Eu sou estranha! Tchau, Ludmila!!!!" — digitei com força, enviei e desliguei meu computador imediatamente, sentindo meus olhos lacrimejarem.
O que será que estava acontecendo comigo???
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