Tentação intercambista
4 Capítulo 3 - Atrasos
O dia passou rápido. Apesar das aulas legais com o professor Matheus, meu preferido, não consegui parar de pensar no cara espanhol que chegaria hoje.
O Matheus é daquele tipo de professor brincalhão, que faz todo mundo rir, aprender brincando, essas coisas. Não tem um dia que ele não conquiste qualquer estudante com seu humor. Entretanto, minhas amigas passaram a aula inteira me mandando bilhetinhos, apaixonadas por um garoto que nunca viram. E mais velho, ainda por cima. Isso fez com que eu não conseguisse prestar atenção em momento algum da aula, só respondendo — de cara feia — as garotas. Fiz de tudo para o professor não perceber nossa dispersão.
Quando o sinal que anunciava a hora da saída soou, levantei-me depressa da minha carteira e recolhi meu material, afim de sair daquela sala de aula o mais rápido possível. Não queria falar com mais ninguém sobre o estrangeiro. Entretanto, quando pus o primeiro pé fora da classe, a Juliana e as meninas praticamente me puxaram para dentro, de novo.
– Meninas, eu tenho que ir! Meu pai vem me buscar e...
– Belinda, nós estamos mais ansiosas que você! — exclamou Giovanna.
– E eu não sei? — respondi, séria — agora me deixem ir e...
– Nananinanão!!! — disse Juliana, segurando meu braço — você vai ter que nos fazer um favor.
Suspirei, tentando controlar meu mau humor da melhor forma possível.
– Que favor?
Laís mordeu o lábio inferior e disse, exaltada:
– Assim que o espanhol chegar na sua casa, tire uma foto dele e mande para nós!
As meninas deram um grito ensurdecedor e irritante. Pareciam que estavam tendo um orgasmo... seja lá como for um orgasmo.
– Tá, tá, pode deixar — respondi, tentando cortar a conversa e sair da sala.
– Opa, pera lá! — exclamou Juliana — você tem que prometer! Promete, Belinda?
Depois disso, não aguentei mais. Apertei minhas mãos com força, e gritei:
– QUAL É O PROBLEMA DE VOCÊS? PARECEM ATÉ QUE NUNCA VIRAM UM HOMEM NA VIDA! VÃO SE FERRAR!!!
Dizendo isso, dei meia volta e finalmente consegui sair da sala de aula, caminhando em longos passos. Não olhei para trás para verificar a reação das garotas, mas apenas ouvi alguém gritar:
– PROMETA, BELINDA!
Não dei qualquer sinal de que havia entendido a mensagem. Apenas andei em direção ao portão de saída daquela grande escola.
Cheguei na calçada e, como todos os dias, procurei pelo carro do meu pai. Ele ainda não estava lá. Olhei meu relógio de pulso e vi que eram 12:43. Ele já devia ter chegado...
"Será que o papai me mandou alguma mensagem no celular?" pensei, retirando meu aparelho celular da mochila e ligando-o. Sim, havia uma mensagem.
"Belinda, não vou poder buscá-la na escola hoje. Volte de ônibus. Espero que não tenha gastado todo o dinheiro do transporte com balas, que nem da última vez. Caso tenha feito isso, desculpe, mas terá que me esperar até mais tarde no colégio. Estou resolvendo umas coisas do Juan. Beijos, papai".
Argh! Era só o que me faltava! E olha que hoje nem é sexta-feira 13!! Aiai, eu mereço, hein?
Mas até que havia uma coisa boa nisso tudo. Ele disse que está resolvendo umas coisas do... daquela criatura que vem da Espanha. Será que o avião dele caiu? Será que ele desceu no país errado? Enfim, espero que tenha acontecido alguma coisa e ele não venha para cá.
Apoiei minha mochila em um banquinho pertencente ao lado de fora da minha escola. Vi que havia pouquíssimas pessoas esperando os pais. Retirei uma bolsinha de moedas e a abri. Perfeito. Para o meu dia do azar fechar com chave de ouro (ou não, caso o carinha tenha morrido no caminho ou qualquer coisa do tipo), a bolsinha estava completamente vazia. Só havia um papel de bala dentro.
– Aaaargh, que ódio, que ódio, que ódio!!! — resmunguei, sem perceber que havia chamado a atenção de uma pessoa.
– Você está bem, Belinda? — indagou ela.
Senti meu rosto corar de vergonha e olhei para ela. Era Ludmila, uma colega de sala.
– Ah... oi, Ludmila! Você ainda estava aí, é? Hã...
– Sim! Meu pai se atrasou um pouco hoje porque o pneu furou, mas já está chegando!
– Poxa, então somos duas — disse, sentando-me no banco onde minha mochila estava — meu pai também vai se atrasar. Mas é por outro motivo.
Ela se aproximou de mim e sentou-se ao meu lado.
– Tem alguma coisa a ver com o intercambista que vai morar na sua casa?
Olhei desconfiada para a menina.
– Como você sabe disso? — perguntei, com as sobrancelhas franzidas.
– A Laís me contou! Hehe!
– Aff, tinha que ser aquela loirinha...
– Ué, qual o problema com isso, Belinda?
Suspirei.
– Ah, é que... sei lá, Mila... pra falar a verdade, eu nem sei porque estou tão incomodada com a vinda desse menino...
– Será que você não está com... ciúmes?
Senti meu rosto novamente pegar fogo. Descontrolei-me, nervosa, gesticulando e gritando como uma louca:
– QUÊ? CIÚMES? TÁ MALUCA, LUDMILA? EU NÃO TENHO CIÚMES!!!
– Tá, calma, calma!!! Desculpe, não quis ofender! É que... às vezes, somos tão apegados aos nossos pais, à nossa casa... que quando alguém vem nos visitar ou até mesmo morar conosco, podemos sentir um pouco de ciúmes. Mas já que não é sua situação, eu não sei o...
Senti um pouco de remorso ao ter falado com ela daquele jeito.
– Hã... Mila, me desculpe... eu não queria ter falado daquele jeito... eu só estou um pouco nervosa e... ah, sei lá... minhas amigas parecem que nunca viram um cara na vida, sabe? É tão estranho... talvez eu esteja meio que me sentindo fora do ninho por nunca ter me apaixonado ou sentido essas coisas que elas sentem...
– Ah, eu sei bem como é isso! Mas você não precisa se preocupar em nunca ter gostado de ninguém, ainda. Só tem 13 anos! Eu tenho a mesma idade que você, e minha primeira paixãozinha foi aos doze. Mas agora nem sinto mais nada pelo menino. É completamente normal! Tenho uma prima que disse que só se apaixonou aos quinze anos. Não existe nenhuma regra pra isso, Belinda. Não precisa se sentir de fora!
– Mas... é tão chato, sabe? Elas ficam lá, todas felizes, falando de seus paquerinhas, do meu hóspede... e eu fico só olhando, porque nem sei como é isso tudo... Ludmila, como é se apaixonar?
Ela ficou uns segundos olhando para mim, como se estivesse pensando em uma resposta. Sua pele é morena, mas ainda deu para ver que ficou envergonhada com a pergunta.
– Ahn... sabe o que é? Acho que aquilo só foi uma paixãozinha de criança, mesmo... não foi nada sério, Belinda... — respondeu ela, arrumando o cabelo para trás da orelha.
– Ah, por favor! Me diz como é, Ludmila! Eu quero saber! O que é que você sente quando está apaixonada?
Ela abaixou o rosto, envergonhada, mas eu ainda queria uma resposta.
– Ah, sei lá... a gente sente um frio na barriga... ficamos gaguejando, e falamos um monte de bobagem!
– Bobagem?
– É... sabe... quando uma pessoa gosta de outra, ela tenta agradá-la o máximo que pode para conquistá-la. Por isso pode acabar falando um monte de bobagem, ou coisa que nem se interessa pelo assunto!
– Como assim? — minha curiosidade era tremenda, mesmo.
– Tipo... o menininho que eu gostava amava falar sobre astronomia. E eu não sabia de nada sobre o assunto. Mas como eu queria mostrar que estava interessada nele, ficava falando um monte de besteira, sem nem perceber! Eu chegava a inventar coisas de astronomia só para ele pensar que eu... opa, meu pai chegou, Belinda!
Ela se levantou e eu suspirei.
– Ah... então tá... tchau...
A menina deu dois passos em direção ao carro e olhou de volta para mim.
– Hã... seu pai ainda vai demorar?
A calçada da escola já estava completamente vazia.
– Provavelmente. Parece que aconteceu alguma coisa com o Juan, e ele foi resolver...
– Quer carona?
Fiquei sem saber se dizia "sim" ou "não". Não queria ser mal educada e responder que sim, mas também não queria ficar sozinha no meio da rua.
– Seu pai não... se importa?
– Ora, claro que não! Vem, vamos!
– Boa! — exclamei, me levantando.
Entrei no automóvel, cumprimentei o pai da garota e seguimos em direção à minha casa. Durante o percurso, senti minha barriga doer de ansiedade. "Será que é essa a dor que a Ludmila sente quando está apaixonada?", pensei, olhando o céu pela janela.
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