Tentação
41 - Capítulo 41
Notas iniciais
Tomas abriu a porta do carro de Philip e encontrou a chave no contato, entrei logo atrás fechando a porta bruscamente. Precisávamos dar o fora daquele lugar. Tomas virou a chave e deu partida, que funcionou apenas na terceira tentativa. O carro derrapou na saída e seguiu em linha reta na estrada em alta velocidade.
– Precisa me deixar em casa. – Falei em desespero. – Preciso ver minha mãe, meu irmão...
– Precisamos achar alguém que consiga deter Philip. – Tomas estava sério e sua voz grossa me deu calafrios.
– Jess pode fazer isso. Ele pode deter Philip, a Hanna pode ajudar.
– Quem é Hanna? – Ele perguntou, suas sobrancelhas ergueram.
– Ela é um demônio também, mas está do nosso lado. – Falei, procurando meu celular no bolso do meu jeans. – Você tem celular? Acho que perdi o meu.
– Eu não tive tempo para pensar em pegar meu celular. – Ele acelerou mais o veículo. A estrada estava deserta. – Pensou em ligar para quem?
– Jess. – Tomas me encarou, seus olhos se arregalaram e pude ver o terror em sua face. Pude observar pela sua janela que estávamos atravessando a ponte.
– O que foi? – Perguntei sem entender o motivo daquela expressão e logo percebi que seus olhos não estavam em mim, e sim atrás de mim, do lado de fora do carro. Virei minha cabeça para ver o que ele estava vendo. Philip estava grudado na porta como um animal, seus olhos estavam negros por inteiro e seu sorriso medonho estampava seu rosto jovem. Não pude conter meu grito ensurdecedor. Tomas acelerou mais o carro e Philip escorregou para trás, em segundos aparecendo do outro lado, um soco atingiu o vidro do carro estilhaçando-o em pedacinhos minúsculos. Minha respiração desacelerou, pude ouvir meu coração bater, tudo se passou em câmera lenta.
Philip agarrou Tomas pela camiseta e o puxou para fora do carro que estava em movimento, jogando-o e o deixando para trás esticado no asfalto. O carro mudou sua direção para a estrutura de cimento da ponte, pulei para o banco do motorista e freei o automóvel que bateu na estrutura sem muito estrago, pulei novamente para o outro banco e abri a porta. Philip estava de pé no meio da estrada sorrindo.
– Você causou tudo isso. – Ele disse. – Meu pai está morto por sua causa, isso não foi legal.
– Ele não era seu pai. – Lágrimas escorriam pelo meu rosto. Tomas estava morto. – Seu infeliz.
– Não gosto de me chamem assim, isso me incomoda.
– O que vai fazer? – Estava pensando em um jeito de escapar, mas pra pensar eu precisava de tempo, então encher Philip de perguntas seria uma boa jogada.
– Matar você? – Ele deu um paço a frente. Ele não estava muito longe, mas também não estava perto.
– Tem certeza disso? – Perguntei. Meus olhos passaram pela estrutura baixa de cimento da ponte, eu estava acostumada a pular daquela altura, talvez se o fizesse ganharia tempo o bastante para conseguir escapar. Me lembrei que aquele era o território do Jess, ele poderia estar lá, mas as chances eram mínimas. Obviamente Jess estava me procurando.
– Está tentando me enrolar. – Ele fechou a cara, suas sobrancelhas se juntaram e suas mãos se fecharam mostrando força.
– Tem certeza disso? – Repeti a pergunta.
– Você é minha. – Ele sussurrou alto.
Antes que ele pudesse me alcançar, eu corri para a estrutura de cimento e não pensei duas vezes em me jogar de lá de cima. As águas estavam negras como os olhos dele e o movimento era mais assustador do que da última vez que havia feito aquilo. O vento gelado batia em meu corpo me deixando com dificuldade para respirar. Em segundos, bati na água fortemente e afundei.
Depois de toda a adrenalina, consegui voltar a superfície. Minha luta naquele momento era com a água, ela estava forte e eu precisava de forças para conseguir nadar até chegar a beirada. Batendo os braços rapidamente eu nadei tentando chegar a beirada, mas estava com dificuldade e minha respiração já estava forte e o cansaço estava começando a aparecer. Diminuí os movimentos dos meus braços e percebi um barulho forte de braçadas, eu não estava sozinha. Philip estava nadando na minha direção. Meu desespero foi aterrorizante, eu não sabia se continuava a nadar ou se parava para descansar, se eu continuasse com tal velocidade eu poderia ficar sem ar e se eu parasse Philip me alcançaria. Respirei fundo e deixei a água me cobrir, não consegui enxergar nada embaixo da água. Para o meu alívio, meus pés encostaram no começo de terra, mergulhei mais baixo e passei minhas mãos para ver se encontrava algo. Minhas mãos encontraram um pedaço de pau, mil vezes isso do que ter mãos abanando. Já quase perdendo o fôlego eu subi para a superfície e encontrei Philip, e sem rodeios ele puxou meu cabelo me fazendo ir junto a ele.
– Já chega, sua vadia. – Ele rosnou.
Ele me afundou, suas mãos seguravam minha cabeça, eu não conseguia me soltar. Philip iria me afogar.
– Está gostando? – Ele disse me puxando para cima novamente pelos cabelos. Eu tossi, e senti minha garganta queimar. – Eu realmente não queria isso... – E novamente ele me afundou, do mesmo jeito. Mas o erro dele foi me puxar para cima novamente, era minha única chance. Juntei todas as minhas forças e encravei o pequeno pedaço de pau em seu peito. Ele se contorceu e soltou meus cabelos. Eu corri com dificuldade para fora do rio e caí de joelhos na lama. Tossi várias vezes tentando me recuperar e olhei para Philip que ainda se contorcia gritando de dor. Eu havia errado o coração, ele não iria morrer.
Sem esperar mais tempo eu corri entre as árvores, minhas roupas encharcadas pareciam pesar ainda mais o meu corpo, minha visão embaçada de lágrimas não me deixava enxergar direito, ao mesmo tempo que eu corria eu chorava e estava sendo difícil fazer os dois ao mesmo tempo. A mata estava escura, mas não tive medo algum disso e sim de ver Philip novamente, estava cansada disso tudo e agradeci por ser tão sortuda como eu era. Escapar várias vezes dele não era fácil, mas fiz ser possível. Meu corpo bateu em algo e pude sentir calor, havia trombado em alguém e Philip veio em meus pensamentos. Me afastei bruscamente, me jogando para trás, o ser usava uma jaqueta de couro e botas. Ele se agachou na minha frente e me ergueu pelos braços me pegando no colo em seguida.
– Ah, meu amor. – Jess disse em meus ouvidos. E um mar de lágrimas brotou em meus olhos, afundei meu rosto em seu pescoço e o abracei. Jurei que nunca mais o soltaria.
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