Tentação

21 - Capítulo 21


Eu estava deitada na cama, meus olhos em momento algum conseguiram se pregar, eu estava inquieta. Eu saberia de qualquer notícia já que o “Detetive” ou sei lá o que era o homem de colete, havia pegado meu número e me avisaria se tivesse notícias de Abgail.

Meu quarto estava um breu, o vento fazia com que o galho da árvore batesse no vidro janela do meu quarto, e a cada barulho, eu ficava mais tensa ainda. Estava assustada demais. As horas foram passando e quando eu consegui tirar um cochilo, um barulho mais intenso me fez saltar da cama.

Eu corri até a porta do quarto para apertar o botão da tomada que acendia a luz, quando o fiz, meus olhos correram para a janela, Jess estava de pé ao lado dela.

– Não faça mais isso. – Um alívio tomou conta do meu corpo, e minhas mãos estavam no meu coração, sentindo aceleradas batidas.

– Desculpe. – Disse, fechando a janela. – Você está bem? – Perguntou vindo na minha direção. – Achei que estava no Rock’s. – Ele me abraçou. – Me odiaria se acontecesse algo com você. – Suas mãos seguraram meu rosto fazendo sua testa se aproximar da minha.

– Jess, você sabe de alguma coisa? – Minhas mãos se apoiaram em seu peito.

– Eles ainda não sabem que você é ela. – Seus olhos se fecharam e um leve suspiro saiu pela sua boca. – Abgail está com eles, mas ainda não sei aonde, estou trabalhando nisso, vou encontrá-la.

– Meu Deus. – Meus olhos arderam. – Eles estavam me procurando, Jess. – Peguei suas mãos, tirando-as do meu rosto, elas eram macias e quentes. – Abgail não significa nada pra mim e olhe meu estado. — Me afastei. – Não quero ver alguém que eu goste passar por isso.

– Mag, não vou deixar que eles façam algo com você. – Jess se aproximou de mim, seu olhar era sério e cheio de afeto.

– Isso não importa. – Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. – Jess, você é um só. – Minha tristeza só aumentava a cada segundo. – Não pode proteger todos a minha volta. – Jess era importante pra mim, muito mesmo, conhecera ele a pouco tempo, mas nesse pouco tempo eu me apaixonei por tudo nele, pelo sorriso, pelas piadas, pelo andar, por tudo, e pensar nisso me deixava ainda mais com uma dor no coração. – Se for pra ser assim, acho melhor acabar por aqui. – Seus olhos transpareciam frieza quando os olhei. – As coisas já saíram do controle, Abgail pode estar morta agora. – Funguei. – E-eu... – Não conseguia falar mais nada, só chorar, me sentei na cama e tampei meu rosto com as mangas da minha blusa.

– É isso? – Senti as mãos de Jess afundarem no colchão, uma de cala lado do meu corpo. – Vai desistir? – Sua voz estava calma. – Eu quebrei uma regra, matei alguém do meu ser, Eliel era um deles e eu o matei, matei ele por você. – Jess puxou minhas mãos. – Vou dar um jeito nisso. – Seu tom de voz diminuiu. – Não posso perder você... Mag, eu...

– Não. – Interrompi. – Vai ser melhor pra nós dois. – Me levantei. – Você terá sua vida na terra, cheia de pecados e humanos para brincar e eu terei a minha vida normal, sem perigo.

– Mag...

– Vai embora. – Apontei para a janela. Jess não se moveu, apenas ficou me encarando com seu olhar que me feria dentro, um olhar de decepção. – Vai. – Repeti e empurrei minhas mãos em seu peito, bem definidos por sinal, para que ele se movesse e fosse embora, seu corpo levemente se desequilibrou e com um movimento rápido seu pé apoiou-se para trás.

Jess não abriu sua boca para dizer nada, apenas me olhou e saiu de cena. Quando ele se foi, eu desabei, chorei até toda a água do meu corpo sair para fora dos meus olhos, chorei até me desidratar inteira, fiquei péssima. Mas eu tentava me convencer de que foi a escolha certa a fazer, Jess estaria livre para viver com seu bando e eu com minha vida.

Depois disso, Jess não apareceu na escola no outro dia, nem no outro, nem no outro. Ele apenas havia desaparecido, perguntava a Ramon todos os dias dele, mas Ramon sempre dizia que não tinha o visto, que ele não aparecia nas aulas de química, perdera algumas provas e trabalhos. Eu estava preocupada, e era possível ver minha preocupação.

– O que você tem? – Edie perguntou, estávamos no refeitório. – Está toda triste, o que houve? – Abriu o suco de laranja e deu uma mordida em seu hambúrguer. – Ainda não superou o acontecimento do Rock’s?

– Não, está tudo bem, eu estou bem. – Meu desânimo era facilmente notável.

– Aposto que tem a ver com aquele garoto exibido. – Louis falou de boca cheia.

– Parem com isso. – Eu estava cansada, estava chateada, estava com mil sentimentos, se eles continuassem falando de Jess, eu iria desabar ali mesmo.

– Me diz. – Louis insistiu. – Se ele fez alguma coisa com você, eu mato ele.

– Eu ajudo. – Edie piscou. Minha vontade era matar aqueles dois, mas eu não tinha esse poder todo, então sorri irônico, Jess era um demônio e matar ele não seria tão fácil assim. Deixei toda minha comida na mesa e saí para tomar um ar, estava prestes a ir pra casa, minha cabeça estava cheia de coisas, não aguentaria ficar mais tempo ouvindo professores cheios de manias chatas e piadas tolas.

Lucia estava picando maças quando entrei toda estabanada pela porta, ela parou de movimentar a faca e me olhou.

– Está cedo. – Ela ergueu as sobrancelhas.

– Não estou bem. – Fiz careta. – Dor de cabeça. – Menti.

– Sua mãe ligou. – Ela continuou a picar as maçãs. – Ela reclamou, disse que seu celular sempre está ocupado.

– Estranho. – Puxei meu celular do bolso, nenhuma chamada perdida. – Deve ser algum problema com a operadora. – Enfiei ele novamente no bolso. – O que mais ela disse?

– Que volta ainda essa semana. – Ela sorriu. – Você gosta de torta de maçã?

– É... eu gosto. – Subi para meu quarto, minha mãe voltaria essa semana, isso fez meu humor aumentar, eu precisava dela, precisava abraçá-la, mesmo sabendo que não poderia desabafar com ela sobre tudo o que houve, ela surtaria se soubesse sobre o Jess, mas queria ela por perto, ainda mais agora, depois de tudo.

Mais tarde, depois de tomar meu banho e fui revirar meus desenhos no fichário, peguei o desenho de Jess, a ideia era rasgar ele para não ter nada que lembrasse, queria apagar tudo da minha cabeça, mas estava sendo difícil, quando estava pronta para picar o papel em pedacinhos, meu celular vibrou, era Louis.

– Festa no lago. – Ele falou animado. – Me disseram que tá bombando, se arrume.

– Não vou, Louis. – Estava irritada.

– Não vai? – Repetiu. – Pare de ser idiota, vai ficar aí trancada nessa merda?

– Não estou afim. – Falei desanimada.

– Não está afim? – Repetiu novamente. – Essa não é a Magda que eu conheço, estou decepcionado. – Louis parecia estar chapado mesmo antes de ir a festa, sua voz já estava alterada, esse era o problema, eu não queria sair para tomar conta de um garoto que não sabia beber.

– Decepcionado? – Questionei, mas ele já havia desligado o telefone.

Mas percebi que Louis estava certo, eu não estava sendo eu, estava deixando as coisas irem longe demais, ficar sofrendo pelo resto da vida não estava nos meus planos, eu precisava me divertir, isso me ajudaria a esquecer. Me arrumei e saí. Pegar um taxi não era o que eu mais queria, porém eu tive que fazer isso, não tinha carona, Louis não voltaria só para me buscar. Dessa vez o taxista era um velho de cabelos brancos e barba rala, seus olhos me lembravam Lucia, eram de um azul lindo, o velho não parecia um psicopata, estuprador ou algo assim, então fiquei tranquila o caminho todo.

A única coisa em comum que notei nos dois taxistas era que os dois eram careiros, a viagem me custou caro.

O lugar estava lotado, o festival havia acabado, mas o Lago Kunt era o lugar de festas, nunca estava vazio. As barracas ainda estavam nos seus mesmos lugares, mas o palco já estava desmontado e alguns brinquedos já não estavam mais no local. Minha procura era por Louis, encontrar ele seria dificílimo, mas eu não desanimei.

Me espremi pela massa de pessoas que rodeavam o local como formigas atrás de comida, levei algumas cotoveladas pelo corpo até chegar na área principal, onde uma rua de pedras se estendia pelo lugar, e dos lados barracas de comida e jogos se enchiam de gente. Louis poderia estar em alguma delas, então passei pelo lugar olhando em cada canto e nem um sinal dele. Em um local mais escuro, uma barraca com luzes neon me chamou a atenção, era uma barraca tiro ao alvo. Infelizmente ou felizmente, não sabia o que achar daquela situação, pude ver Jess pegando uma pistola de plástico nas mãos, como da primeira vez em que tinha o visto no Lago. Ele estava de costas, rapidamente eu me escondi em outra barraca que ficava praticamente de frente com a que ele estava. Uma garota de cabelos lisos e quase brancos estava do seu lado, ela era tipo uma bad-girl, seria um par e tanto e pensar nisso me deixou com tanto ciúmes que me imaginei enforcando ela com minhas mãos ou atirando nela com uma arma bem potente.

Eu estava em uma posição totalmente desconfortável, não queria que ele me visse. A garota estava segurando um copo colorido nas mãos e falava alguma coisa para ele, não conseguia decifrar o que era. Jess parecia não dar a mínima para ela, ele estava concentrado no alvo. Seu dedo estava prestes a apertar o gatilho quando ouvi alguém me chamar.

– MAGDA. – Philip gritou do outro lado. Meu dedo encostou em meus lábios em um sinal de “xiiiiu” para ele, mas ele não levou em consideração. Olhei em direção ao Jess que, estava de frente olhando atentamente para Philip com curiosidade. – O que você está fazendo aí? – Ele me puxou pelo braço, me fazendo aparecer. Não tive coragem de olhar pro Jess, minha cara estava queimando, me sentia como um pimentão, estava morrendo de vergonha.

– Por que você tinha que aparecer justo agora? – Falei furiosa, tentando controlar meu constrangimento.

– Bom te ver também. – Ele sorriu.