Tennessee 95
3 Capítulo 2
Capítulo 2
”XIX Octobris MCMXCV.
Espero que saiba, que o que combinamos não era uma grande brincadeira como você pensava. É uma pena você não ter uma outra chance de se desculpar, ou tentar desfazer seu erro. Fique esperta, Savannah.
Hodie mihi, cras tibi.”
Logo que li fiquei meio confusa, porém tudo que pode ter ligação com a morte de Ethan era como uma luz para mim. Mas por que diabos existiam frases em latim? Como vocês podem perceber pelo nome, Church Hill é uma cidade muito religiosa e a escola onde estudei também, então lá eu aprendi o básico de latim, pois é uma lingua muito empregada na Igreja Católica. Não entendi o que a última frase significava, mas sei que a primeira parte diz ”19 de outubro de 1995”, o que é estranho, já que as mortes ocorreram dia seis dias depois, no dia 25 de outubro. Percebi então que embaixo dessa folha, havia outra. No início achei que ela estava totalmente em branco, porém percebi um pequeno escrito cinza bem claro quase ilegível, e com muito esforço eu li ”Walden Camp”, e era este o nome do acampamento onde tudo aconteceu. Continuei encarando essas duas folhas por alguns minutos até ser interrompida por Sean.
– Olivia? — disse ele estralando os dedos. — Entendeu alguma coisa dessa carta? Isso tem a ver com a morte da Savannah, não tem?
– Eu posso ficar com elas? — perguntei, ainda com os olhos vidrados nas folhas.
– Você tem que tomar muito cuidado com elas, meus pais não sabem que eu peguei e..- eu o interrompi. — Você sabe que eu vou cuidar muito bem disso. Não se preocupe.
Eu não tinha percebido, porém Brooklyn estava um pouco atrás de mim e parecia que ela estava ali há um bom tempo. Tratei de me despedir rapidamente de Sean, e disse que ligaria para ele quando descobrisse alguma coisa. Antes de fechar a porta, dobrei as folhas e coloquei no meu bolso. — O que é isso Liv? Aconteceu alguma coisa? — perguntou Brooke com os olhos arregalados.
– Não é nada de mais, somente endereços de lojas. Vou sair hoje a tarde procurando um novo trabalho. Já arrumou o seu material? — perguntei. Brooklyn balançou a cabeça negativamente. — Já estou indo.. que droga. — disse ela, andando o mais devagar possível até seu quarto.
Por mais estranho que isso possa parecer, eu esqueci da carta. Me lembrei quase duas semanas depois. Ainda queria descobrir o que aquela frase significava, e também queria descobrir quem havia mandado para Savannah, já que não possuía nenhuma identificação, nem sequer siglas ou iniciais. Usei a tarde do dia seguinte, enquanto Brooke estava na escola, para procurar alguma resposta. É, eu não gosto de fazer isso perto da minha irmã. Ela não sabe se controlar e começa a chorar desesperadamente. Ela considerava Ethan como um irmão mais velho, e se duvidar, o amava mais do que eu. Peguei meus livros da época da escola, e tentei procurar um significado para a frase ”hodie mihi, cras tibi”, mas foi em vão. Procurar na internet seria impossível, já que não tenho um computador. Com o salário que eu costumava receber, eu conseguia apenas para pagar as contas, e comprar algo que Brooke gosta. Depois de alguns minutos, vi na capa de um livro, uma marca de carimbo escrito ”Church Chapel Hill Christian School”, e automaticamente lembrei de Padre Alexander, que além de realizar missas todas as semanas, também era o diretor do colégio que estudei, e eu o adorava.
Já passava das três da tarde, e decidi visitar minha antiga escola antes de buscar Brooke. — Olivia? É você mesmo? — perguntou Irmã Anastasia, que estava perto da porta principal. Eu amava essa mulher, ela foi uma mãe que eu nunca tive. Na verdade, acho que encontrei minha família nessa escola. — Sou eu sim! Quanto tempo, não é mesmo? — conversei por uns minutos com a Irmã, e então perguntei por Padre Alexander. Logo em seguida, segui para sua sala, e o encontrei.
– Com licença — eu disse ao entrar. — Querida Liv! Quanto tempo! Eu senti muito a sua falta! — disse Padre Alexander ao me ver, e logo em seguida me deu um abraço igual ele costumava fazer quando eu era criança. — Essa cidade é tão pequena e mesmo assim, fazem dois anos que não nos vemos! — ele disse ainda me abraçando.
Conversamos por quase uma hora, e finalmente o perguntei. — Padre, o que significa ”Hodie mihi, cras tibi?” — ele me encarou espantado, e quis saber o motivo da pergunta. Não havia pensado nessa situação e rapidamente inventei a desculpa de que tinha achado a frase em um livro e que não encontrava a resposta.
– Quer mesmo saber? Essa é uma pergunta meio estranha. — disse. Balancei a cabeça positivamente na espera da resposta. — ”Hodie mihi cras tibi” significa ”hoje para mim, amanhã para ti.” — disse ele. O olhei meio confusa, eu não sabia como encaixar essa frase na história até que ele continuou a dizer — Essa frase, era muito utilizada em inscrições tumulares, Olivia. Ela é usada quando se quer desejar o mesmo mal a quem o causou. — finalizou Alexander.
”Hoje para mim, amanhã para ti.”
Fale com o autor