Tennensi Reformatory
1 Prólogo.
Notas iniciais
O veículo policial parou em frente a enorme residência dos McSider. Minha residência.
É a terceira vez neste mês que esta cena se repete, para o desgosto da minha família.
A visita frequente dos policiais, na calada da noite, é sempre consequência das minhas aventuras, que frequentemente extrapolam os limites da lei para a diversão em público (o que é uma grande ironia a julgar que minha distinta família de advogados, é a personificação voraz e tediosa de um livro de leis e regras).
Meus pais costumam me acobertar, afinal, que bem traria a imagem os dois advogados mais renomados de Nova Orleans, ter uma filha com mais ocorrências policiais do que passagens pela biblioteca da escola?
Além disso, precisam proteger o histórico da sua herdeira, porque dificilmente eu conseguiria a sonhada (por eles) vaga de direito na Universidade de Harverd se um dos decanos da faculdade se deparasse com um histórico de passagens pela polícia devido aos recorrentes desvios de conduta.
Mas até quando meus pais estariam dispostos a pagar propina aos policiais para a minha proteção?
Acredito que não por muito mais tempo, além dessa noite.
Quando a porta da mansão se abriu e um homem de expressões cansadas, por volta dos quarenta e seis anos, apareceu por de trás dela. Meu pai.
Eu já sabia o quanto estava encrencada. O olhar de impaciência de Nathaniel McSider, me entregou isso. Era sempre assim.
Até mesmo o policial que me acompanha já está habituado ao procedimento, que já pode ser dito como rotineiro.
— Senhor Nathaniel, me desculpe, no entanto, serei obrigado a abrir uma ficha para sua filha se isso se repetir mais alguma vez durante esse ou o próximo mês. As coisas estão mudando no distrito, meu chefe está fazendo vista grossa e se descobrirem do meu acordo com o senhor, não terá dinheiro que livrará o senhor de uma acusação por propina, ou que salvará o meu emprego. Eu lamento. — O policial Fields, no qual nunca me dei ao trabalho de gravar o primeiro nome, realmente parece lamentar. Afinal era o dinheiro extra que recebia com os acordos extracurriculares que fazia fora da delegacia, que o ajudam a pagar algumas regalias na sua vida, como o carro do ano, o apartamento novo, e até o relógio caro em seu pulso.
A expressão do meu pai não se abala com a informação. Mas é o brilho dos seus olhos que entrega a impaciência por tudo aquilo.
— Tudo bem Charles, eu entendo. Farei a transferência de hoje e a partir de amanhã nosso acordo estará encerrado. Minha filha terá de arcar sozinha com as consequências dos próprios atos. — Dito isso ele lançou um olhar severo a mim, fazendo um breve sinal para que eu entrasse na casa.
Sem outras opções, eu obedeci.
Talvez fosse melhor virar-me para o policial, pedir para que ele me algemasse e me levasse para qualquer prisão longe daquela casa. Porque eu tenho certeza que me sentiria muito mais livre assim, do que dentro daquelas paredes brancas, grandes e maçantes. No então, no o fiz.
O policial não fez ou disse nada se não balançar a cabeça positivamente, concordando com o que meu pai acabara de dizer.
Ele estava prestes a retirar-se, quando então parou, atraindo outra vez a atenção de meu pai, que mantinha de compostura elegante mesmo exausto e sonolento devido ao dia longo de serviço, e de ter sido arrancado da sua cama para resolver o meu problema.
— Se me permite uma sugestão... — Começou o policial. — ...o instituto para jovens problemáticos está acostumado a lidar com casos como o da senhorita McSider. Eles são conhecidos por serem eficientes e discretos, podem corrigir a conduta de pessoas como sua filha. Além disso, o ensino deles é bastante aprimorado. Tenho certeza que seria uma grande oportunidade. — Ele sugere.
Aposto que provavelmente também recebia algo extra salarial por indicações e divulgações feitas, pelo reformatório.
Ele retirou do bolso do uniforme policial, um folder informativo, dobrado ao meio e o estendeu para que meu pai o pegasse.
Assim ele fez. Recebendo um educado boa noite do policial que finalmente retirou-se enquanto a figura alta de meu pai, abstinha sua atenção às informações marcadas no papel sobre o lugar indicado pelo oficial.
Mas foi apena quando ele me encarou nos olhos, após as portas da grande mansão se fecharam, que eu concluí basicamente com um único olhar o quanto eu estava encrencada.
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Era doloroso olhar para os olhinhos tristes de Connor, meu irmão caçula, encarando-me como se nunca mais fosse me ver.
Bom, ele sabia que me veria de novo, mas talvez, não tão breve quanto gostaria.
Há uma semana meu pai decidiu que eu não sou mais digna dos esforços dele e de minha mãe, para me manter longe de confusão. Acho que as palavras certas foram “se você insiste em nos envergonhar com esse comportamento, então arque com as consequências deles. Se quer ser uma jovem delinquente, será tratada como tal. ”
E com isso ele quis dizer que, se eu não quero agir como um McSider, então não posso viver como eles.
Ou, simplificando ainda mais, essa foi a forma eufêmica de ele dizer que eu era a mais nova interna do instituto e internato de jovens delinquentes “Tennensi Reformatory”.
— Você vem pro meu aniversário, certo? — A voz preocupada do garotinho de doze anos em meu quarto, sentado em minha cama, soou pelo quarto.
Eu o encarei pelo reflexo do espelho. Connor e eu não tínhamos muitos traços semelhantes. Quem sabe, talvez, se eu deixasse meus cabelos no tom original, parecêssemos mais, ou ao menos o suficiente para sermos ditos como irmãos. Mas bom, eu não tenho certeza sobre isso, faz tanto tempo que o castanho original dos meus fios de cabelo foi descolorido e tingido por vermelho, que já se tornou difícil me imaginar outra vez ao tom natural.
Eu sorri abertamente para o garoto.
— Você acha mesmo que eu perderia? — Pergunto em uma falsa incredulidade. — Con, poderiam me arrastar para o outro lado do mundo, me amarrar em correntes e me trancar em um tanque de tubarões, e ainda assim eu apareceria para o seu aniversário! — Isso parece deixa-lo mais animado. Devo dizer que também me anima. — E enquanto estiver fora, quero que marque todas as receitas dos novos SanduSider, porque eu com certeza vou experimentar todas as novas criações.
— Até os que tiverem atum? — Ele perguntou arqueando as sobrancelhas, deixando que um sorriso travesso marcasse seu rosto infantil. Eu fiz uma careta.
Odeio atum.
Não que eu goste dos SanduSider, mas a graça está justamente no gosto horrível das péssimas combinações que compões os sanduiches. Quase tão ruim quanto a composição que eu e Connor usamos para nomeá-los, juntando a palavra “sanduiche” junto ao sobrenome “McSider”.
— Como o de atum se você comer o de brócolis. — Sugeri, dessa vez virando-me para ele e deixando de encará-lo através do espelho. Sua expressão por um instante é pensativa antes de enfim dar de ombros com um grande sorrisão.
— Fechado!
Lamentavelmente essa foi minha última conversa com aquele tampinha, antes de o motorista aparecer na porta, dizendo que foi encarregado por meu pai, para me levar ao reformatório imediatamente.
Eu me despedi de Connor.
E dos empregados.
Meus pais não estavam, e ironicamente, isso era muito mais reconfortante do que o contrário.
Viver como um McSider talvez no fim fosse o castigo, e finalmente ser libertada desse peso, pode vir a tornar-se uma oportunidade.
Ou talvez eu queria acreditar nisso apenas para fingir que o fato dos meus pais, a todo custo tentarem esconder a filha errada que eles tem, não me afeta em absolutamente nada.
Acreditar que eu os larguei, é menos cruel do que acreditar que eu fui largada.
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