Tennensi Reformatory
35 Bomba Relógio
Notas iniciais
– Náh?!
Esse era o primeiro som que parecia me atingir diretamente há horas. Não que eu estivesse surda ou inconsciente. Mas eu gostaria de estar. Gostaria, apenas para não ter que encarar os malditos fatos que me acertavam como uma bomba relógio.
– Por Deus Natasha, todos estávamos atrás de você. O que você está fazendo aqui, já são dez horas da noite, se um dos monitores te pega aqui em cima, você está ferrada.
Eu havia saído do quarto de Brandon há poucas horas, e havia subido até o último andar da ala sete. Eu estava no terraço que, a propósito, fazia do fúnebre reformatório, ainda mais fúnebre com visão panorâmica que tínhamos ali de cima. Eu imaginava como Mason havia me encontrado ali em cima.
Eu estava sentada exatamente nos limites da ruína do grande prédio e minhas pernas pendiam para o lado de fora. Fazendo uma enorme sombra em movimento devido à luz vinda de algum ponto atrás de mim.
Não era difícil encontrar uma ruiva suicida no alto de um prédio aos pedaços.
– O que aconteceu com você? — Eu ouvia a voz de Mason cada vez mais próximo de mim, até que por fim ele se abaixou e sentou do meu lado. – Se está pensando em se jogar daqui saiba que eu posso, e vou impedir você de fazer isso.
Mesmo sem olhá-lo eu tinha noção do sorrisinho que brincava em seus lábios. Eu queria conversar com ele, mas sentia que eu desabaria a qualquer segundo. E eu não queria testemunhas nesse momento.
– Vai me ignorar? – Ele perguntou ao notar que eu não parecia nem um pouco disposta a desviar meus olhos da nada elegante paisagem, e também não pretendia abrir minha boca para uma conversa entre amigos.
Sentia a mão de Mason se aproximar do meu rosto, e de forma firme, porém delicada puxar meu queixo para que eu o encarasse. Não aguentei, lágrimas saíram de forma descontrolada dos meus olhos e eu não tinha forças e nem a intenção de pará-las.
– Ei, Náh calma ai... – Ele me puxou para o seu peito e me abraçou, afagando meus fios ruivos de forma delicada, com seus dedos. – O que houve com você? – Sua voz soou baixa perto da minha orelha esquerda. – Não foi essa garota que eu deixei aqui há duas semanas. O que aconteceu com ela?
Visto que eu não me acalmaria tão cedo, ele apenas permaneceu lá. Com os braços em volta do meu corpo de forma protetora e os dedos afagando meus cabelos. Era estranho como os toques delicados de Mason, eram ao mesmo tempo confortáveis e estranhos para mim. Eu gostava daquilo, mas ao mesmo instante tinha certeza que apenas aquela suavidade não era o suficiente para me proteger da realidade. Talvez eu estivesse em abstinência. Tinha que ser essa a explicação, porque essa era a única desculpa coerente que eu tinha para me apegar, tendo a sensação de que apenas Adam poderia me ajudar.
É, eu deveria estar louca. Ou bêbada.
Uma música um tanto diferente começou a soar abafada de algum lugar bem próximo a mim, pegando tanto a mim como Mason desprevenidos. Ele me soltou com calma e eu me afastei da beirada do grande prédio até que meus dois pés estivessem em solo firme. Levei as mãos ao bolso do moletom de onde os ruídos prosseguiam, e de lá tirei o aparelho telefone que Adam havia me entregado pouco antes de partir.
Olhei no visor e as palavras “Casa Pai”, vinham acompanhadas da mesma imagem que o porta-retratos na escrivaninha de Adam abrigava. Franzi o cenho imaginando se devia ou não atender. Adam poderia estar lá, e talvez estivesse ligando para perguntar de Connor, e talvez, só talvez, esse fosse um assunto que eu desejasse evitar debater com Adam. Por outro lado, eu sabia que Adam tinha uma viagem marcada para a casa da família e os mesmos poderiam estar preocupados caso Adam não tivesse aparecido. Nesse caso, talvez o mais correto fosse atender.
Suspirei e deslizei meu dedo pelo ecrã do celular, enquanto Mason em minha frente me olhava atentamente com um olhar acusatório, como se falasse algo sobre ter um celular contra os regimes da Tennensi, ou até mesmo pelo fato de ter reconhecido o aparelho celular, como sendo o telefone de Adam.
– Alô? – Falei alguns segundos depois de atender.
– Sinaleira? – A voz baixa e o que eu deduzi ser um tom de preocupação soaram do outro lado da linha. Por algum motivo desconhecido senti minhas bochechas esquentarem e eu desviei os meus olhos do olhar de Mason, que agora me olhava curioso para saber quem era do outro lado da ligação.
– Oi, Adam. – Disse olhando rápido para Mason como se isso esclarecesse a pergunta silenciosa que ele havia me feito. Meus lábios tiveram que exercer o ato involuntário de erguer um dos seus cantos, em um meio sorriso.
– Bom... – Ele fez uma pausa como se desejasse pensar no que falar. – Você não me ligou então eu... – Mas uma pausa, e então ele desistiu de se explicar. – Você falou com Brandon?
Suspirei antes de responder. Por Deus como eu queria falar cada uma das coisas que me aconteceram nessas últimas horas, mas droga, era o Adam. O impulsivo e descontrolado do Adam. O possessivo e bipolar do Adam. O maldito loiro que se importa mesmo sem se importar, e que está fazendo da minha cabeça um inferno de pontos de interrogação que nunca encontram suas respostas. Eu deveria odiá-lo, e culpá-lo por tudo isso, porque era isso que eu adorava fazer quando as coisas complicavam para o meu lado. Jogar a culpa nos outros sempre me pareceu o mais correto, só que agora... bom agora isso era infantil e idiota. E provavelmente não resolveria nada, e acabaria criando ainda mais confusão.
– Adam... – Eu sabia o que eu desejava falar, mas não sabia exatamente com que palavras eu diria aquilo. O peso dos olhos de Mason sobre mim não colaboravam com nada na situação, e eu me sentia presa em um maldito quarto onde as paredes seguiam uma de encontro às outras, e eu permanecia presa no centro, com a estranha sensação de sufocamento. – Eu... eu...
Todas as palavras se desvairaram e eu apenas pude soltar um suspiro novamente desviando os meus olhos do de Mason. Adam ficou quieto no outro lado da ligação, como se tentasse me dar o tempo necessário para reformular uma nova frase e partir do princípio para responder sua pergunta. Um movimento de Mason de chamou a atenção e quando dei por conta ele estava de pé bem próximo a mim, com um sorriso gentil no rosto. Ele se agachou o suficiente para ficar quase da minha altura, colocando o peso sobre os calcanhares e curvando o pescoço para repousar seus lábios em minha testa.
– Ethan me autorizou a dormir no sofá da cabine. Sabe onde me encontrar quando estiver pronta para conversar. – Ele deu um sorriso o qual eu retribui e se levantou caminhando para a pequena porta que dava passagem para a velha escadaria onde era a única passagem usável para o terraço. – Mande lembranças ao Adam. – Ele saiu com um sorriso divertido e brincalhão no rosto, e mil coisas passaram pela minha cabeça, imaginando o que aquela curva em seus lábios poderia estar sugerindo, em relação a Adam e eu.
– Quem está ai? — Adam do outro lado da ligação pareceu levemente curioso para saber de quem era a voz que conversava comigo.
– Mason acabou de sair. – Disse tentando evitar o assunto sobre eu estar no último andar da ala sete. Adam sempre começava uma discussão quando o assunto envolvia qualquer pessoa que ele tivesse pelo menos um pouquinho de consideração, e a ala sete. Ele sempre alegava que nós não deveríamos vir até aqui sozinhos, porque esse não era o tipo de lugar que pessoas como nós deveríamos frequentar. Mas quando falávamos sobre ele sempre estar em algum lugar daqui com pessoas que provavelmente não deveria de estar, Adam alegava que era uma situação completamente diferente.
– Mason? – Ele pareceu surpreso mas se recuperou rápido. – Então talvez eu não devesse estar tão preocupado. – Algo em mim palpitava que a sensação de saber que Adam se preocupava comigo, era algo quase confortável de se sentir. Como se isso pudesse pelo menos compensar o ódio mortal que sentíamos um pelo outo quando estávamos a maior parte das horas juntos.
– Eu não falei nada a ele... Eu não falei nada a ninguém. – Olhei para cima encarando a lua nebulosa que era fina e ao mesmo tempo parecia fazer o formato perfeito para se encaixar na ponta da unha de um polegar das nossas mãos. – Eu não sei o que fazer Adam. – Tentei não soar como um choramingo, mas eu já sentia as lágrimas queimando pelo meus olhos e por mais que eu levantasse minhas pupilas e piscasse para evitar que lágrimas saíssem, mais eu sentia o nó se formar em minha garganta e me sufocar.
– Ei ruiva... – Eu sentia que ele queria ajudar, me confortar, ou talvez apenas me acalmar para manter o ritmo fluente de uma conversa, mas desconfiei que ele não sabia o que fazer para isso acontecer. – Você pelo menos tentou falar com Brandon?
– Sim.
– O que ele falou a você? Onde esta Connor? O que ele te pediu? — Eu senti que viria um turbilhão de perguntas, uma atrás da outra se meus soluços não fossem altos o suficiente para que os pequenos alto-falantes do celular pudessem transmitir o som até o aparelho de Adam. – Ei... – era quase cômico suas falhas tentativas de me acalmar.
– E-eu estou realmente encrencada Adam. – Disse rápido para que mais lágrimas não me atrapalhassem, mas acabei enrolando minha própria língua. – Eu não sei o que fazer. – Completei com um suspiro de lamentação.
– Ei sinaleira, se acalme. Eu não estou do seu lado par ver a sua cara malfeita, então colabore comigo e fale devagar para eu poder entender. – Balancei a cabeça positivamente, me esquecendo completamente de que ele não estava realmente do meu lado. – Onde está o Connor? – Perguntou depois de alguns segundos em silêncio.
Sequei as lagrimas com o punho do casaco que vestia e me encolhi trazendo as pernas para o peito e colocando a cabeça entre elas.
– Está em casa... Eu falei com Brandon pouco depois de você chegar. Foi horrível Adam... eu achei... ele disse... meu Deus ele ia matar meu irmão! – Falei soltando o ar dos meus pulmões me permitindo pela primeira vez liberar todo o pânico que sentia internamente. Droga, eu estava no inferno e dessa vez não se tratava de trocadilhos.
Adam e sua paciência dos infernos – que a propósito parecia existir apenas quando estávamos conversando pelo telefone. – Conseguiu me acalmar, até que eu estivesse relatando cada um dos fatos ocorridos na minha emocionante e ameaçadora conversa com Brandon.
– Ele disse que teria tudo o que fosse seu. Ele vê você como um líder de todos, invejado pela maioria e ele quer tudo isso Adam. Eu tentei convencê-lo de que aquilo tudo era uma besteira, que ele era maluco e que de forma alguma conseguiria algo do modo como estava agindo. Então... – Lagrimas voltaram aos meus olhos e eu lutei para impedi-las de sair. – Ele falou que começaria tendo a mim. Que isso não só humilharia você, como mostraria a todos como Brandon é o melhor, todos imaginam eu e você como um casal e na verdade isso é a única coisa humilhante. – Quase pude o ouvir revirar os olhos e terminar com uma sobrancelha erguida do mesmo modo que sempre fazia. – Eu disse que nunca me envolveria com alguém do tipo de Brandon, paranoico. Então veio a pior parte ele pegou o celular e ligou para alguém, eu pude ouvir, pois estava no viva voz, Brandon disse: “Mate-o em dois minutos. Um tiro no peito e dois na cabeça” o cara respondeu mas eu ouvi o grito de Connor do outro lado, implorando por ajuda e me apavorei...
Fiquei muda logo depois disso, esperando que ele entendesse por si só o que aconteceu a seguir, para meu desespero Adam queria que eu terminasse a história.
– Eu disse que daria a ele qualquer coisa, se meu irmão voltasse para casa.
Ficamos em silêncio por segundos.
Mais segundos do que o número que usávamos em uma conversa comum.
Eu odiava o silêncio do Adam.
Odiava aquele silêncio, ainda mais do que quando ele se calava e estávamos frente a frente. Porque enquanto é possível olhar nos olhos de Adam, suas tempestuosas órbitas verdes, gritam tudo aquilo que se passa em sua mente, e que se prende na beira de seus lábios. Já por telefone, eu tinha que simplesmente me calar e esperar até que seu tom de voz soasse e entregasse suas emoções.
O mais curioso de fato, é que eu odiava tanto o seu silêncio, quanto odiava olhar em seus olhos. Mas por algum motivo desde o meu rouco “alô” dois pontinhos verdes cintilantes, brincam em minha mente, fazendo-me ter a desagradável sensação de desejar que eles não estivessem só na minha mente.
– S-seu irmão está em casa? – Para a minha surpresa Adam não tinha nem uma das vozes que eu imaginei que ele teria. Ele não gritou e eu também não havia sinais de um garoto extravasando emoções. Talvez sua bipolaridade não funcionasse por telefone. Ou quem sabe o modo como vacilou com suas palavras, oprimia o desejo de ir logo ao ponto perguntando se eu dei a Brandon realmente o que ele queria, em vez de disfarçar tal pergunta fingindo de certa forma preocupação com meu irmão.
– Há algumas horas. – Respondi em fim. – Brandon falou com ele, disse que se ele quisesse continuar a ter uma irmã diria aos nossos pais que resolveu simplesmente fugir de casa, mas acabou sendo encontrado por um homem que lhe trouxe de volta... Eu não sei como aconteceu exatamente, mas minha mãe me ligou a pouco dizendo que tudo estava bem. – Ouvi um suspiro do outro lado da linha.
– Você falou com seu pai? – De novo o tom vacilante, como se existisse mais de uma pergunta se camuflando antes do tal ponto de interrogação.
– Ele tentou me falar algo, mas eu desliguei. Ele pegou o telefone nas mãos e eu pude ouvir cada segundo da sua respiração. Eu quase podia ouvir os pensamentos dele, Adam. Pela primeira vez em toda a minha vida, meu pai me pediria desculpas, mas eu desliguei. Eu não estava pronta pra ouvir aquilo e também não merecia. Meu pai estava certo, pelo menos uma vez ele acertou. Se não fosse por mim nada seria como é.
– O que? – Adam parecia um tanto indignado. – E desde quando você dá razão aquele cara? Ele mataria você hoje! Pedir desculpas pelo que ele fez, é como dar uma gota de água para um morto de cede. Não muda nada!
– Você não está entendendo Adam. Se não fosse por mim, Connor não passaria por nada do que está acontecendo. Minha mãe estaria feliz pela ótima reputação na mídia. E meu pai teria a família feliz que ele sempre desejou. Mas bom eu tive que nascer para estragar tudo. Eu tive que ser a filha errada que sempre suja o sobrenome da família, que dá desgosto aos pais, que odeia tudo na sua vida... Tudo. – Dessa vez Adam permaneceu calado por tanto tempo que se não fosse por uma profunda respiração do outro lado da linha, eu passaria a desconfiar que a ligação havia caído.
– Você não... Eu acho que... Ah esquece. – Desistiu. – Só que dizer que odeia tudo em sua vida, me soa de forma exagerada.
– Eu só faço coisas erradas Adam, tudo o que eu não odeio passa a me odiar depois de ficar tempo o suficiente ao meu lado. – Ouvi uma risada do outro lado que fez o canto esquerdo do meu lábio se levantar de forma inconveniente.
– Então se for assim, por que eu não consigo odiar você? Só Deus sabe o quanto eu sinto vontade de te mandar para o espaço, para o inferno, para qualquer lugar que eu nunca mais tenha que olhar na sua maldita cara, ou que eu não possa correr o risco de simplesmente tropeçar e cair em cima de você. Na verdade acho que nem Deus imagina como é irritante quando você se apodera da minha cama e eu sou obrigado a me levantar de manhã cedo e procurar algo interessante na televisão para te deixar dormir, ou então quando você passa alguns dias sem depilar as pernas e elas roçam na minha de forma irritante. E sem contar o fato de que você nunca guarda seus sapatos nos lugares certos, e sempre deixa a pasta de dentes do banheiro fora do maldito pote escrito pasta de dente. Eu tenho os motivos mais fúteis para te odiar, mas mesmo assim seriam os motivos que me fariam dar um chute na bunda de qualquer um dos meus amigos. E quando eu tento fazer isso com você, quando eu olho nos seus olhos no meio de uma das nossas brigas inúteis, eu percebo que eu não posso tirar você da minha vida, porque eu não odeio você ruiva. Eu só odeio algumas partes suas. Talvez eu só tenha um pouco de desafeto por você, ou talvez uma tensão sexual. Mas presta atenção droga, dizer que você odeia tudo na sua vida é como atirar pedras nas pessoas que se preocupam com você. É como se você realmente quisesse fazer com que te odeiem... Não atire pedras em mim ruiva. Não enquanto eu não estiver do seu lado para revidar.
É talvez ele não soubesse. Ou quem sabe fingia não saber. Quer dizer será que ele realmente podia não notar? Adam não queria que eu lhe atirasse pedras, mas com certeza ele mesmo havia forçado uma pedreira inteira contra a minha garganta, apenas usando suas malditas palavras.
– Eu não fico dias sem depilar as pernas. – Foi a única coisa que eu pude falar. E na verdade eu não sabia o que ele esperava ouvir, porque se a expectativa oposta fosse escutar um “eu também não odeio você, Adam” ele morreria esperando. Porque só os duendes mágicos do paraíso perdido, poderiam imaginar o quanto eu odiava cada milímetro existente em Adam. E odiava ainda mais eu mesma, por simplesmente adorar Adam e cada um dos seus odiosos milímetros existentes.
– As vezes eu me pergunto se você realmente ouve o que eu digo... – Ele resmungou talvez querendo levar algum crédito pelo seu discurso recém-improvisado. A falta de consideração talvez fosse um dos itens que Adam odiava em mim.
– Eu preciso dormir. – Disse novamente mudando o assunto e pude ver sua respiração se deformar por sua risada.
– Na cabine? – Ele quase soou inocente. Quase.
– Na cabine. – Confirmei.
– Boa noite, ruiva.
– Boa noite, Calliel. – Seu sobrenome era engraçado quando não estava sendo dito acompanhado de um berro e um torpor imenso de ódio. Na verdade usar o sobrenome Calliel quando eu não estava com raiva, fazia parecer completamente sem nexo, como se estivesse me referindo a um completo estranho. – Adam? – Perguntei ao notar que apesar do desejo de boa noite, nenhum de nós dois havia sequer movido os telefones presos em nossos ouvidos, e eu sabia disso, pois o som de ruídos seria escutado, caso Adam fizesse isso.
– Sim...
– Você... vai voltar? – Me arrisquei a perguntar e novamente pude ouvir aquela risada abafada e disfarçada de respiração.
– Antes do que você imagina, Sinaleira. – Ele respondeu e eu sorri. Mas eu não queria que ele soubesse do meu pequeno momento de felicidade, porque sustentar o ego de Adam parecia uma missão desnecessária para se acrescentar em meu currículo.
Eu voltei para a cabine pouco depois da ligação, Mason dormia no sofá sendo iluminado pela luz da televisão. Eu ouvia risinhos e choramingos de Amber vindos no quarto de Ethan, então resolvi não interromper seja lá o que os dois estivessem fazendo. Fui até o quarto de Adam e abri seu guarda roupas e tirando de lá um cobertor qualquer, que serviria para aquecer Mason caso ele se acordasse durante a noite. Joguei o cobertor acinzentado e com um terrível cheiro de mofo sobre os pés de Mason e sai logo depois que desliguei a televisão.
Tomei um banho tentando deixar que água levasse todas as lembranças do pior dia da minha vida.
Mas tudo o que vinha em minha mente, era a boca de Brandon falando “minha”, repetidas vezes. Tantas vezes que eu me senti nauseada a ponto de interromper o banho para fazer uma cena de bêbada fraca, botando os pulmões pra fora na privada. Eu estava com nojo de mim. Nojo de cada parte se mim que Brandon ousou tocar. Nojo dos meus lábios, do meu pescoço, pernas, braços. Nojo dos meus pulmões por terem respirado o mesmo ar que ele.
Sabe lá Deus até onde teríamos ido se Scott Kinkad não tivesse aparecido no quarto de surpresa, interrompendo – para a minha felicidade – todos os planos de Brandon. Santo Deus como esse cara era merecedor de uma beatificação. Assim que Kinkad entrou no quarto, Brandon me dispensou com um repugnante “Vejo você amanhã, anjo”. Eu não queria vê-lo amanhã. Nem depois. Nem no inferno.
Voltei para debaixo do chuveiro quando senti que qualquer rastro nojento de Brandon, que tivesse ficado preso a minha boca já estava caminhando pelos encanamentos do reformatório. Agora o maior desafio era tirar o cheiro impregnado e detestável daquele verme do meu corpo.
Foram-se exatas uma hora e dezessete minutos, para eliminar qualquer sombra de bactéria contaminante que aquele psicopata poderia ter deixado em mim. Fora as imagens em minha mente reprisando diversas vezes o modo nojento como as mãos daquele cara deslizavam por meu corpo, tudo parecia nos perfeitos conformes. Ou pelo menos na medida do possível se tratando do meu ser.
Sai do quarto e fui surpreendida por uma figura morena e sonolenta, apenas de calça de moletom e meias, com os cabelos semi-enrolados, alvoraçados devido ao modo que dormia pouco antes.
Mason era relativamente sexy até quando não desejava ser.
Ele estava sentado na beira da cama e sorriu de canto ao me ver. Sorri de volta, mas não por educação e sim por divertimento. É serio, ver a cara amassada de Mason, tentando ser sedutor, era algo humanamente impossível de se ver e permanecer sério.
– Perdeu alguma coisa? – Peguntei me jogando do outro lado da cama, e me cobrindo com os cobertores brancos. Mason fez o mesmo. – Adam não reagiria muito bem se soubesse que você andou mexendo no guarda-roupa dele.
– Por isso você não vai contar. – Disse, com seu sorrisinho mais convencido. – A propósito, quando nessas duas semanas, você virou a garota do Adam? — Franzi o cenho desentendida e Mason virou-se sorridente pra mim. – É serio, estou me sentido extremamente rejeitado. – Ele brincou.
– Eu não sou a garota do Adam. – Protestei e novamente ele riu.
– Não é isso que todos estão dizendo. – Ele desceu os olhos no meu pescoço. – Nem o que a marca no seu pescoço me diz. – De modo automático meus dedos se lançaram contra meu pescoço, no local onde horas antes os lábios de Calliel haviam trabalhado em uma monstruosa marca vermelha.
– Como você sabe que ele fez isso? – Perguntei indignada, e Mason riu aproximando nossas testas.
– Um chute no escuro, ruiva. Você acabou de se entregar. – Ele tinha um sorriso brincalhão no rosto. – Eu sei que eu sou um partido muito melhor, sem contar que o Adam é loiro, e todos sabem que os morenos são os mais gatos. Mas eu reconheço uma causa perdida quando vejo uma, então não vou tentar te seduzir e tirar você do Adam. A propósito, se eu ignorar meu orgulho ferido, posso te dizer que você e o Adam seriam uma boa combinação. — Revirei os olhos.
Eu sabia que em partes Mason se divertia no modo teatral. Nunca tivemos esse tipo de sentimento um pelo outro. Eu também não sabia se ele era capaz de sentir isso novamente. Mason ainda não havia apagado todas as marcas que seu último relacionamento amoroso lhe causou, ele havia aprendido da forma mais cruel as consequências de ser estupidamente dependente de alguém para viver.
Não que Mason fosse algum tipo de emo depressivo, daqueles que choram a vida toda e vivem afogados em antidepressivos. Ele era só ele, um cara bacana no qual a vida foi extremamente sacana, fazendo ele não só perder a pessoa que mais amava, como também o fez pagar pelo crime que não cometeu. Se Mason merecia respeito? Meu Deus eu tinha inveja da força de vontade desse garoto. Mas se ele estava pronto pra amar de verdade outra pessoa? Bom, isso ele só descobriria quando parasse de se divertir com “melhores amigas”, e esbarrasse em uma garota certa.
– Eu não tenho nada com o Adam, Mason. – Falei revirando os olhos e afastando nossos rostos para que ele pudesse ver a minha séria expressão, falha.
– Nada. Bom claro que você não tem nada com ele, a menos é obvio que no seu dicionário nada, seja uma palavra especifica para definir “amigos quase inimigos que se pegam em todos os sentidos” A propósito vocês são masoquistas? Porque em cinco minutos de conversa com Ethan e Rebecca sobre você e Adam, eles alegaram que vocês só curtem o lance da amizade-colorida, quando estão no meio de uma briga feia, prontos para desferir socos um no outro. – Não era verdade. Mas não era mentira.
– Eu e o Adam não temos uma amizade-colorida. Alias que coisa gay Mason. – Falei empurrando de leve o ombro dele. – Nós só ficamos algumas vezes. E tá certo a maior delas tinha algum tipo de conflito no meio, mas... Espera ai, como a Rebecca e o Ethan sabem sobre isso? – Perguntei repentinamente assustada com a possibilidade de meus amigos serem os tipos de pessoas maníacas, que ficam se espreitando pelos lugares, em busca da vida alheia dos outros. Sério, eu tive uma vizinha que fazia isso, e eu a considerava potencialmente perigosa.
– Bom, me fale pelo menos uma coisa que a Rebecca não saiba. – Ele brincou rindo. Ok isso era verdade, e de qualquer forma a Rebecca já havia presenciado um desses momentos envolvendo eu, Adam e beijos. Mas até onde eu sabia nenhum de nós havia tocado no assunto de novo. E Ethan, bom sem querer ofendê-lo, mais ele era o tipo de cara tapado demais para pescar as coisas que escondemos atrás das famosas caras de paisagem. – E você sabe que Adam e Ethan são os meio-irmãos mais apegados que eu já vi, é meio fácil de adivinhar que Adam contaria a ele.
– Então quer dizer que além de ter que aturar o Adam como irmão, Ethan tem que aguentar as frustrantes narrativas sexuais de Adam, com as garotas do reformatório? Nossa, agora eu realmente respeito esse cara, por não ter enfiado pregos no próprio ouvido. – Mason riu revirando meus cabelos.
– Claro que não Náh. Você acha mesmo que qualquer ser vivo da terra teria tempo o suficiente para ouvir as narrativas sexuais de Adam? Aquele cara deve ter mais horas de sexo do que um aposentado tem horas de trabalho. E isso que ele mal chegou aos dezenove anos. – Rimos. – Mas ele falou de você pro Ethan. E eu sendo um cara muito bacana fui privilegiado, Ethan me contou várias coisas sobre o irmão e você. Mas são coisas que eu não vou dizer a você porque somos garotos, e não maricas. Não curto esse lance de fofoca. – Se Mason tinha a intenção de me deixar curiosa, sem duvidas nenhuma havia acertado no alvo com a sua provocação estúpida.
– Mason... – Ele riu dando um beijo em minha testa.
– Só seja paciente Náh. Você e o Adam são como bombas-relógio, a qualquer hora vão explodir. Se não for de raiva, tenha certeza que vai ser de tesão reprimido.
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