Brinco com o canudo do copo enquanto espero por Gustavo, que está atrasado, como sempre. Coloco uma nota de vinte na mesa e vou para o banheiro. Lavo meu rosto com água fria, e me assusto com meu reflexo no espelho — olhos fundos e oscilantes, lábios pálidos e cabelo despenteado — fecho a torneira, mas ela continua pingando... Ignoro, puxando com força o papel toalha. Retiro da bolsa um batom na cor champanhe, passo nos lábios ainda úmidos e dou alguns tapas leves na bochecha para que fiquem coradas. Respiro fundo e saio.

São 20hrs da noite e eu estou fugindo do meu melhor amigo, correndo pelas ruas gélidas e vazias da minha cidade, procurando bares. Finalmente, ouço uma música singela, que me guia para um pequeno Pub — está literalmente vazio — me sento em frente ao balcão vermelho, todo trabalhado em madeira. Um rapaz bonito, vestindo uma camiseta com "Pub Soft" me pergunta o que eu quero.

— Tequila, com limão e sal, por favor.

Ele pega uma garrafa na prateleira, vira no copo e me entrega o sal, acompanhado de quatro fatias de limão.

— Mais alguma coisa? — Ele pergunta.

Viro a dose de uma vez e faço careta, já sob o efeito efervescente da bebida.

— Pode me trazer mais uma dose dessas, assim mesmo, no mesmo copo. — Digo, empurrando o copo na direção do homem.

— Tudo bem. — Ele vira a garrafa.

Minha garganta está quente e formigando, começo a sentir o corpo oscilar.

— Vocês vendem por garrafa? — Pergunto, largando outra nota de vinte no balcão.

— Sim.

— Ótimo! — Agradeço, puxando a garrafa para perto.

Passo em frente a uma ponte, que leva para fora da cidade, sinto o coração pulsar mais forte, como se estivesse esperando por aquilo. Como se soubesse o que eu estava prestes a fazer, como se soubesse que eu queria pular. Mas tudo que consegui, foi olhar para baixo e desistir. Tenho medo de altura.

— Moça, o que está fazendo aí? — Pergunta um morador de rua, estendendo as mãos para me segurar.

Cambaleio para trás.

— E-eu não vou me jogar, minha garrafa está quase vazia, senhor. — Gaguejo.

Meus pés não obedecem, então me deito ali por um tempo.

— Você é jovem, não devia beber assim, de cair.

Diz o velho, se desenrolando do cobertor.

— Eu não devia fazer muitas coisas...

O som dos carros e a voz rouca do senhor formam um coro.

— Menina bonita assim, devia estar indo para cama, ajeitando tudo para segunda-feira.

Olhei atentamente para ele, que possuía o olhar morteiro, a expressão cansada, rosto fino e pálido, devia ter seus 60 anos de idade. Segurava duas notas de dez, com medo delas escaparem por entre os dedos, e eu não o culpo.

— Eu só estava olhando os carros, você sabe.

— Eu sei de muitas coisas, menina, a gente, que mora por aí, vê de tudo. O negócio é seguir em frente, com deus numa mão e o diabo na outra.

Ele eleva as duas mãos para o céu e flexiona os braços, como se estivesse praguejando contra as estrelas.

— Eu preciso ir para casa.

— Melhor do que ficar aqui, certo?

O senhor de meia idade resmunga, vira para o lado e se deita.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.