Ele está com um livro de bolso nas mãos e um fone de ouvido, um sobretudo escuro e está com uma pequena mala, o que me leva a acreditar que está esperando alguém vir buscá-lo. Fixo o olhar no livro, mas não consigo identificar a obra.

— É Baudelaire. — Diz ele, com um meio sorriso, daqueles simpáticos.

— Ótima obra, muito interessante, na verdade.

— Ah é?

— A degradação da beleza... como minha professora costuma dizer.

Ele me olha com certo interesse, pela primeira vez, acho que consigo sua atenção.

— Isso mesmo. Não poderia descrever melhor.

Nos entre olhamos por alguns instantes, ele enfiou o livro na mochila e se levantou.

— Eu sei que acabamos de nos conhecer, mas, ainda assim, gostei da sua companhia, quer me acompanhar para tomar alguma coisa, Maya?

— Acho que eu ainda tenho um tempo...

Nós seguimos para um pequeno restaurante, próximo ao aeroporto. Pedi uma salada de frutas e suco de abacaxi, ele um refrigerante e um sanduíche. Conversamos sobre algumas obras literárias e também sobre nossas infâncias.

— Eu fui filho único até meus 12 anos de idade, e do nada, minha mãe me contou que eu tinha uma irmã mais nova, então, dois dias depois, eu tinha mesmo. Meu pai e a menina se mudaram para a nossa casa, a partir de então, a coisa piorou. Nos mudamos, foi estranho. Meus pais passaram a me ignorar, mas a menina, era tão adorável, que eu nem ligava. Ensinei ela a ler, escrever... Com 16 anos fui embora. E agora, estou de volta. E você?

— Não tem muito o que dizer, eu estou tentando deixar essa cidade.

Ele concorda com a cabeça e toma um gole de refrigerante, olha as mensagens e a hora a cada dois minutos.

— Você não quer voltar ao aeroporto agora? Talvez seus pais estejam chegando?

Entregamos o dinheiro no caixa e voltamos.

***

Fico espionando o garoto, enquanto ele conversa no telefone, parece confuso e irritado, de repente ele volta os olhos na minha direção, como se estivesse conferindo se ainda estou ali. Ele desliga o telefone e retorna, como se tudo estivesse bem.

— Eles estão vindo, obrigada por esperar.

— Tudo bem.

Ele se inclina na direção de sua mochila, e enquanto mexe nas suas coisas, seu casaco escorrega dos ombros, deixando seu pescoço exposto. Ele tem uma pequena cicatriz, alguma arte de criança, deduzo. A pele clara e repleta de pintas, me distraem de forma irreversível e tudo que eu mais desejo é tocá-las, uma por uma, até encontrar seus lábios e beijá-lo.

— Aqui, fique com esse livro de contos, acho que vai gostar.

— Eu não devo — recuso.

— Só fique com ele, tá bom?

— Ok. Obrigada.

Ele sorri e depois ajeita o casaco, escondendo novamente o pescoço.

— Eu preciso ir agora, foi legal conhecer você!

Estendo a mão para me despedir, então ele se levanta e se aproxima, me puxando para um abraço já premeditado. Seu corpo se inclina na minha direção, sinto seu nariz encostar no meu pescoço, o ar úmido e quente me faz ter arrepios, o garoto afasta a cabeça e, finamente reparo na cor dos seus olhos, azuis, que me fazem lembrar de Rebeca. Pega de surpresa, sinto sua boca se encaixar na minha.

— Qual o seu problema?!

Apuro os passos até estar longe dali.

***

Em frente ao meu apartamento, fico tentando encontrar uma explicação plausível para Jessica, uma que faça sentido, mas não seja a verdade.

— Maya — alguém me chama.

— Stavo? O que é que você faz aqui? — Pergunto, assustada.

Ele sai das sombras e então se aproxima.

— Nós temos que contar o que houve, ainda podemos resolver isso, mas preciso da sua ajuda.

— Não, nós não podemos resolver nada. Eu deixei ela lá, a culpa é minha, entende? Fica fora disso, cara!

— Você não pode simplesmente ignorar, Maya...

— Fica olhando... — digo, enquanto entro pela porta e o deixo lá fora.