Tempos de Guerra

4 Reunião, café, e um francês nervoso


Notas iniciais
Guardian: sinceramente, eu nem deveria estar postando isso hoje... Mas estudando Física online eu me lembrei por que eu DETESTO Física, então vim aqui me distrair um pouco.

— O que houve? Não dormiram bem? — Tenente Otto perguntou aos sargentos um pouco antes do trem parar na estação principal de Paris.

Aproximava-se do meio-dia, e o tenente encontrava os sargentos pela primeira vez no dia. Os dois estavam com uma aparência obviamente cansada e com quase imperceptíveis olheiras abaixo dos olhos.

— Algo assim, senhor — Mello respondeu evasivo.

— Não se esqueçam de que teremos uma reunião com o Coronel Volz dentro de algumas horas. Espero que estejam dispostos até lá.

— Sim, senhor — Matt e Mello disseram juntos, observando o tenente se afastar.

Um momento de silêncio se passou antes de Mello virar para Matt e perguntar em voz baixa — Ainda está bravo?

— É melhor você não morrer — foi tudo o que o ruivo disse, e com uma expressão tão ameaçadora, que fez Mihael soltar um riso baixo.

— Pode deixar, Sargento Jeevas — falou ainda com um sorrisinho brincando em seus lábios.

O salão de reuniões encontrava-se abaixo de um lugar que o Coronel Volz considerou ser inusitado — ótimo para evitar espionagem Aliada: no subsolo de um ateliê de moda, evacuado pelos próprios soldados alemães que dominaram a França.

Apenas uma lâmpada incandescente era responsável pela iluminação do porão recém transformado em QG — qual fazia escassamente, até mesmo piscando algumas vezes. Uma mesa redonda de madeira estava posta abaixo da fraca luz, com seis cadeiras dispostas ao seu redor.

O ranger da porta foi quase sombrio quando o coronel a abriu. Rapidamente ele, os Sargentos Jeevas, Keehl e Egewarth — do batalhão D, que viera em missão de reforço ao batalhão A, na fronteira com a Bélgica -, o Major Haas — responsável pelo último sargento -, e o Tenente Otto rodearam a mesa e cada um ocupou uma cadeira ao seu redor.

— Antes de qualquer coisa — Coronel Volz falou, com seu semblante sempre sério e sua voz estrondosa, pegando uma chaleira direto da espiriteira, o vapor escapando pelo bico — Vamos tomar um café quente.

O coronel serviu cada um dos presentes com aquele líquido fumegante, que foi mais do que bem-vindo no frio que, mesmo no subsolo, reinava implacável.

— Sargento Egewarth, você já sabe o que fazer, certo? — Volz perguntou após alguns goles, que deixaram suas bochechas flácidas levemente ruborizadas devido ao líquido quente ingerido.

— Sim, senhor — Egewarth respondeu prontamente. O sargento tinha um pouco mais de idade do que os Sargentos Jeevas e Keehl; seus curtos cabelos castanho-claros não chamavam tanta atenção quanto os ruivos de Mail, e seus olhos de praticamente igual tom não chegavam a ser penetrantes como so azuis de Mihael, mas ele ostentava a Suástica em seu uniforme com tão visível orgulho, que era difícil não se impressionar com sua pessoa.

— Eu irei acompanhá-lo, senhor — Major Haas se pronunciou, recebendo um breve gesto afirmativo do coronel em resposta.

Rodrik Haas era relativamente jovem para sua patente de major, mas ele era considerado um prodígio dentro do exército, tanto que corria o boato de que o próprio Füher tinha grandes expectativas quanto a ele. Possuía cabelos ruivos também, mas de um tom mais escuro, de ferrugem, e seus olhos eram de um curioso tom azul-acizentado que variava de acordo com a incidência da luz.

— Tenente Otto, você irá, juntamente com os Sargentos Keehl e Jeevas, para Chenonceau, um vilarejo nos arredores do Rio Loire — o coronel anunciou, e dando um último gole em seu café, prosseguiu dirigindo-se a todos — A tentativa de reconquista dos Aliados não passa de especulação e hipóteses que talvez nem venham a se concretizar, mas em todo caso, estaremos preparados.

Abriu um grande mapa da França em cima da mesa, de modo que ficasse visível para todos — Se houver um ataque, nós não sabemos onde ele será iniciado, mas os locais mais prováveis são também os menos esperados, portanto mandaremos os batalhões B e C — lançou um olhar para o loiro e o ruivo lado a lado — para o sul de Paris, no interior da França — apontou a área no mapa físico, tendo o dedo seguido por todos os olhos — Vão acampar às margens do Rio Loire por onde talvez os Aliados possam adentrar o país. Peguem o que for preciso em Chenonceau, e façam com que os moradores de lá colaborem.

Volz olhava sério e autoritário para eles, e continuava a falar sem interupções — Eu quero alternância de grupos de vigilância e deslocamento periódico ao longo do rio desses mesmo grupos. Fiquem atentos com ataques aéreos também. Qualquer mínimo sinal de aviação Aliada, informe a base aérea que já fora instalada no vilarejo de Blois, um pouco mais ao norte.

— Com licença, senhor — Mihael chamou — Por quanto tempo ficaremos de tocaia?

— Durante anos, se for necessário — o coronel respondeu — Até termos certeza de que não existe mais qualquer ameaça, não importa quanto tempo demore. Alguma reclamação, sargento? — finalizou com uma expressão desafiadora.

— Absolutamente não, senhor — Mihael apressou-se em responder. Era claro que tinha reclamações — muitas reclamações -, mas era mais óbvio ainda que não poderia fazê-las.

O resto do tempo que passaram ali foi todo usado para a análise de todas as táticas de defesa possíveis para todos os tipos de ataque esperados. Mais alguma xícaras de café — não mais tão quente — e um longo discurso final do coronel sobre a superioridade do Eixo após vistas as táticas, e todos se retiraram.

Ao saírem do subsolo do ateliê, o grupo, o grupo se deparou com a iluminação alaranjada de fim de tarde em um impressionante contraste com a neve que cobria as ruas.

— Acabamos ficando a tarde inteira aqui — Mail reclamou baixo — Vamos comer alguma coisa?

— Vamos — Mihael concordou — Só vamos ter que partir amanhã mesmo.

Começaram a andar — os oficias já haviam ido cada um em uma direção -, mas o Sargento Egewarth chamou a atenção deles, fazendo-os parar.

— Vocês se importam se eu me juntar a vocês? — ele perguntou muito polidamente.

Os outros dois fizeram uma rápida e imperceptível troca de olhares, antes de Matt responder sorrindo levemente. Não via a menor necessidade de ser formal com alguém de igual patente à sua.

— Sinta-se a vontade — estendeu a mão direita, que foi apertada pelo sargento — Mail Jeevas.

— Lexer Egewarth — apresentou-se.

— Mihael Keehl — Mello falou apertando a mão de Egewarth, impaciente — Agora que todos se conhecem, podemos ir comer?

Matt reprimiu uma risada ao ver a expressão do Sargento Egewarth frente ao temperamento de Mello.

Foram até um restaurante à três ruas de distância de onde estavam. O estabelecimento não era luxuoso nem nada que chegasse perto disto, mas mais importante do que isso, o lugar era harmonioso. Nesta época de guerras, o que as pessoas mais necessitavam era de um lugar onde se sentissem confortáveis, acolhidas; de um lugar que lhes passasse segurança de alguma forma, por mais ilusória que ela fosse. E a fraca iluminação e a música ambiente ao fundo obtinham ótimos resultados.

E pelas pessoas que ali se encontravam serem todas daquelas que buscavam avidamente um pouco de tranquilidade em meio a tempos tão conturbados, não é de se espantar que absolutamente todos eles — inclusive os atendentes — terem paralisado ao verem três soldados alemães adentrando no restaurante.

Todo o barulho cessou instantaneamente, e uma atmosfera de temor substituiu o clima descontraído de momentos atrás.

De cara fechada, os três caminharam lenta de imponentemente até o infeliz garçom sem sorte do dia, arrastando os olhares temerosos com eles, inclusive o do aterrorizado atendente.

— Tabelle für drei — disse Mello entredentes, tomando a frente do trio. Não se preocupou com a possibilidade de o homem não falar alemão. Mas só a entonação naturação da língua saxônica era intimidadora o suficiente para fazê-lo deduzir rápido, para seu próprio bem.

— Oui oui — o garçom gaguejou nervoso, a voz estranhamente baixa e fina, e se apressou a guiá-los.

Notas finais
Guardian: duas coisas ->
1) Chenonceau e Blois são castelos que existem em algum lugar às margens do Rio Loire, mas fingiremos que são vilarejos, ok? Poderíamos fazer uma pesquisa mais aprofundada para a história coincidir com a geografia real, mas como isso não tem realmente tanta importância, não tem problema.
2) "Tabelle für drei" significa "mesa para três" em alemão (segundo meu irmão).

Bee: http://dl.dropbox.com/u/37595044/Tempos%20de%20guerra.jpg
Esse é o link do desenho que a luna_blank fez dos dois *--*