Tempos de Guerra
2 Partida silenciosa
Notas iniciais
Mihael rumou decidido para o Quartel General de Frankfurt, e foi deste mesmo modo que bateu na porta do general Yohannes.
A porta se abriu alguns momentos depois.
Haviam dois homens na sala. O próprio General Yohannes, sentado imponentemente atrás de sua mesa, e o Tenente Edwin Otto.
O Tenente Otto era o oficial responsável pelo regimento de Mihael e Mail, e pela visão de Mello, não possuía a aparência que um oficial deveria ter. Em sua opinião, Otto se encaixaria melhor como consolador de viúvas do que no cenário de uma batalha. Os cabelos loiros eram curtos e mantinha sempre uma barba rala que lhe dava uma aparência mais velha; e talvez fosse porque ele fosse seu superior há apenas algumas semanas, depois da morte do antigo tenente, e porque não o havia visto em batalha até agora, que Mello não depositava muita confiança nele.
Após as devidas saudações, o general perguntou o por quê daquela visita e encarou o sargento, esperando uma resposta.
— Senhor, eu soube que o senhor irá enviar algumas tropas para a fronteira — Mello falou, escolhendo as palavras com cuidado. Não seria muito prudente mencionar o nome de Matt.
Yohannes confirmou com a cabeça, e Mello prosseguiu.
— Eu gostaria de perguntar o por que da minha companhia não ter sido convocada — perguntou o mais polidamente que conseguiu.
— E você gostaria de ser enviado à fronteira? — o general perguntou, achando aquilo realmente incomum.
— A questão é — Mello pensou no que dizer, tentando conter a ansiedade — que não deveríamos subestimar o inimigo. Principalmente agora que os Estados Unidos se juntaram à guerra, os Aliados estão longe de serem inofensivos.
— Você duvida das nossas forças? — Yohannes estreitou um pouco os olhos.
— Não, mas o maior erro que se pode cometer em uma guerra é subestimar o inimigo. A conquista do território francês foi uma importante vitória para o nosso lado, e eu gostaria de estar presente caso haja uma tentativa de reconquista. Eu quero lutar em prol de meu país o tanto quanto for possível — acrescentou, sabendo que o extremismo nacionalista do general seria tocado por essa frase.
— O que acha, Tenente Otto? — o general perguntou ao loiro que havia permanecido em silêncio por todo o tempo. E foi com isso que Mello percebeu que tinha conseguido; o general só perguntava a opinião dos outros quando ele já estava decidido do que fazer.
Edwin Otto mirou seus escuros olhos em Mihael por um instante antes de responder:
— Eu acredito que a companhia do Sargento Keehl será de grande ajuda para nós.
— Está bem. Esteja pronto para partir amanhã, sargento.
~x~
— Você é idiota?! — Matt esbravejou assim que Mello terminou de contar as "boas novas", ao voltar para casa.
— Claro que não! Você acha mesmo que eu o deixaria ir para a França, lutar contra aqueles malditos red necks sozinho? Não mesmo!
— Deve haver algum problema com você para trocar um lugar seguro, com aquecimento e conhecido por um campo de batalha! — revidou Matt — E eu não vou sozinho, uma companhia inteira virá comigo.
— Agora irão duas — Mello sorriu vitorioso, a contraposição ao olhar de poucos amigos de Matt — E não há nada que você possa fazer para impedir.
— Ah não? — Matt andou decidido até a porta da casa, mas antes que pudesse alcançá-la, uma mão forte o segurou pelo braço e o fez parar.
— Aonde você pensa que vai? — Mello perguntou sem soltar o ruivo.
— Tentar tirar você dessa merda em que você resolveu se meter — não tentou se soltar do loiro, tanto porque conhecia muito bem a força dele. Apenas o encarou de volta.
— Não vai não — foi tudo o que Mihael disse antes de puxar Mail para mais perto, colando seus corpos e juntando suas bocas. Ainda segurava o braço do ruivo, embora sem impor mais nenhuma força. No momento não necessitava disso para mantê-lo ali.
— Eu vou com você — Mello falou em voz baixa, ainda muito próximo, encostando sua testa na de Matt. O ruivo nem se deu ao trabalho de pensar numa resposta, estava mais preocupado em não perder a respiração...
Beijaram-se calmamente, sendo visitados por uma sensação nova. Era sempre assim a cada toque de lábios. Abraçados pelos braços e pelas línguas, seguiram para o quarto.
~x~
Acordaram antes do sol, como de costume.
Matt havia se dado por vencido; sabia que a esta altura, não poderia mais impedir a ida de Mello à França. Deu-se por vencido, mas isso não queria dizer que havia aceitado bem.
Por isso durante todo o tempo que levaram para organizar tudo o que fosse necessário para a viagem, Mail permaneceu no mais absoluto silêncio. Havia sido derrotado pelo golpe baixo de Mihael, e isso o frustrava. Golpe baixo sim; o beijo, a voz baixa e rouca, e tudo o mais que se seguiu depois.
Mello também não o forçou a dizer nada; estava muito satisfeito, afinal, havia vencido. Era melhor deixar o ruivo com os próprios pensamentos até que ele parasse de dar importância àquilo.
Caminharam lado a lado pelas ruas cheias de neve até a estação de trem. O silêncio durou por todo o caminho também, e o único som que o quebrava era o silvo da fumaça que desprendia aos poucos dos lábios de Matt, que manteve um cigarro aceso até alcançarem seu destino.
Chegando à estação, foram saudados pelos soldados, que já os esperavam, e os dois organizaram todos os homens para dentro do trem, esperando apenas a chegada do tenente.
— Sargento Jeevas, Sargento Keehl — Edwin Otto cumprimentou assim que chegou, aproximando-se deles — Estamos prontos para partir?
— Companhias B e C a bordo do trem e prontas para a viagem, tenente — Mail respondeu prontamente, usando um tom mais grave de sua voz, combinando com a postura ereta, segurando os braços para trás e com as pernas separadas. Mello repousava do mesmo jeito.
— Ótimo. Seguiremos para Paris em vinte minutos — e trocaram um último cumprimento antes do tenente entrar no trem.
— É mesmo tão difícil de entender que eu nunca deixaria você partir em uma missão tão arriscada como essa sozinho? — alguns segundos de silêncio depois, Mello soltou tais palavras quase num sussurro, encarando um ponto qualquer no horizonte para não encarar Matt.
— Entender é uma coisa, aceitar é outra bem diferente — Matt falou no mesmo volume, entrando no trem em seguida.
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