Notas iniciais
Guardian:O título serve tanto para a história quanto para a postagem do capítulo...
Mais nas notas finais, e aqui está o resto do capítulo anterior ~

Matt já não aguentava mais as reclamações de Mello conforme eles limpavam como podiam as mesas de madeira do lugar. Estavam quase acabando – faltava só mais duas perto do palco mal iluminado –, porém Mello não tinha planos imediatos de cessar seus resmungos. Santo cigarro que Mail sorrateiramente “pegou emprestado” do bar, do contrário...

— E ainda por cima tivemos que lavar aquela droga de banheiro nojento! – falava em alemão, pelo menos se lembrando de não elevar o tom como era seu desejo — Nós não deveríamos ser obrigados a fazer essas coisas, isso não vale...

— Prefere ficar de férias com os Aliados? – Matt sussurrou em resposta, esfregando o pano já em farrapos na mesa com toda (aparente) calma da Terra.

— Usaria eles para lavar o banheiro.

Terminado, ambos voltaram para trás do balcão onde passariam a maior parte da noite. Pelo menos a mulher não os havia feito cozinhar. Não muito depois algumas garotas começaram a descer as escadas que pareciam meio escondidas em um dos cantos do local.

Não, não eram apenas garotas. Eram mulheres usando vestidos vermelhos de corte reto com franjas pretas na barra, de salto alto e exalando em perfume fortíssimo e enjoativamente doce. Seus rostos pintados e os cabelos soltos para completar as imagens envergonharam os sargentos e as expressões deles de incredulidade ao vê-las começar a dançar ao som da vitrola recém ligada, naquele palco que tinha acabado de “limpar”, foram mal interpretadas por Roxanne, que apareceu do nada ao lado deles.

— Bonitas, minhas damas, não? – sorriu orgulhosa observando as pernas descobertas delas se moverem conforme a música. Os dois compartilharam o pensamento de que aquelas mulheres certamente recebiam muitos nomes, mas que “damas” não devia ser um desses – Oitenta francos para vocês. Desconto de funcionários.

Oitenta... E este, queridos leitores, é um ótimo exemplo de que roubo é algo antigo.

— Não, obrigado – Mello desviou o olhar e voltou a limpar os copos com o pano encardido. Matt o imitou.

— Se mudarem de ideia... – a proprietária piscou e foi recepcionar alguns dos “clientes” que acabavam de passar pela porta.

Bar, restaurante, lanchonete, mas em nenhum momento passou pela cabeça dos dois alemães que aquele lugar era um cabaré! O que não deixava de ser deveras estranho e completamente inusitado, afinal, cabarés não eram para ser lugares para pessoas abastadas econômica e socialmente? Bem mais abastadas do que as que ocupavam seus lugares à mesa agora?

A semana árdua que passaram naquele trabalho infeliz foi marcada em suas memórias como a sujeira pura em que aquele lugar se resumia. Todas as noites, aquelas mulheres e meninas dançavam para os homens sentados com suas bebidas baratas, e enquanto os “divertiam” para fazerem jus ao pagamento que recebiam, Matt e Mello enchiam e reenchiam os copos com álcool e, se fosse necessário, expulsavam os clientes demasiadamente abusados ou separavam brigas.

Sem falar que uma das ditas “damas” desenvolveu um certo interesse em particular pelo novo funcionário ruivo. Ela era estrangeira também, revelou, e mostrou-se compreensiva das dificuldades de estar em um país que não o seu em uma época como a que viviam; acontece que essa “compreensão” não parecia atingir seus olhos, que pareciam achar que contornar mentalmente cada músculo à mostra do ruivo era uma tarefa bem mais interessante do que tentar acompanhar suas próprias palavras.

Claro que Mello se dar conta disso não ajudava nem um pouco em fazê-lo um pouco mais tolerável pelos próximos dias. Especialmente depois que a mulher bem insinuosamente ofereceu o “convite” que obviamente queria oferecer desde aquela primeira noite e, quando percebeu Mello ouvindo tudo, perguntou se ele queria participar também. Mail não tinha muita certeza se temia ou ria da expressão assassina do loiro, muito parecida com as que ele dava em meio a um tiroteio, expressão esta que sua “admiradora” teve a felicidade de não ver.

Por isso e por mais um tanto de coisas que sequer vale a pena comentar, os dois não hesitaram por um segundo em escapar dali porta afora no instante em que Roxanne desembolsou-lhes os 200 francos.

Não iriam gastá-los logo, lógico que não. Deram muito duro por aquele dinheiro para vê-lo evaporar assim. Sairiam de Lixieux ao amanhecer e andariam até Orléans, parando apenas em Chantes no caminho, para o básico, sabe, como descansarem e não morrerem de fome. Não demoraria muito, manteriam os corpos em forma e ainda economizariam o dinheiro. Era triplamente vantajoso!

E realmente foram rápidos. Três dias e já estavam em Orléans, em um pequeno porto do Canal do rio Loire, executando a honrosa tarefa de subornar um funcionário de um dos navios prestes a sair. Pelo visto a França estava mais do que quebrada, pois Matt e Mello não gastaram mais do que 20 francos para conseguirem se esconder no bote de emergência do navio e receber uma refeição por dia. Ou melhor, por noite.

— Acho que se passaram dois dias... – Mail sussurrou para o loiro, que estava de alguma forma deitado em seu peito graças à falta de espaço. Qualquer comentário banal era válido para que eles não mergulhassem muito fundo em suas próprias mentes, o que não seria algo muito aconselhado na situação em que se encontravam. Principalmente porque o calor emanado de seus corpos e os engolfava sem trégua não era de muita ajuda.

“Há males que vêm para o bem, afinal” Mail pensava enquanto sentia a respiração quente de Mello bater ritmicamente em seu peito e sua mão acariciava distraidamente os fios loiros e secos. Era o máximo que podia se permitir fazer naquele lugar, escondidos como estavam, mesmo.

— Acho bom sermos muito bem recompensados quando voltarmos – sussurrou Mihael, mudando o braço dormente de posição e só conseguindo assim ficar ainda mais embolado com Matt.

~x~

A tensão dominou cada músculo e sentido do loiro e do ruivo quando eles conseguiram cruzar a fronteira da França com a Suíça... Em uma caixa de madeira que continha... Garrafas de Vinho. Desconfortável, arriscado e um tanto tentador, tinha sido o único jeito que o marujo subornável conseguiu arranjar para eles fazerem o que restava de sua viagem. Atravessam o país daquele jeito e ao fim da tarde sentiram enfim o movimento que os conduzia, cessar. Haviam chegado a uma pequena e pacata cidade que fazia fronteira com sua amada Alemanha.

Estavam sujos, estavam machucados, com fome e, a bem da verdade, estavam fedendo, mas nada disso os fez se curvarem. De peito estufado, Matt e Mello caminharam com toda a confiança que tinham até a base de alemães na estrada, um pouco afastada da fronteira oficial. Suíços e sua obsessão por neutralidade.

— Civis! Parem imediatamente e coloquem as mãos na cabeça! – uma voz grave se propagou através de dois alto-falantes. Céus, passaram realmente por maus bocados se se sentiram bem por ao menos desta vez era um dos seus que estava gritando com eles! Os sargentos obedeceram prontamente, não havia necessidade de haver sangue derramado gratuitamente. Não quando tinham conseguido chegar tão longe.

Imediatamente um grupo de seis soldados deixou a base e avançou a passos rápidos e firmes, empunhando suas armas de calibre 12 na altura do peito. Os dois não tinham dúvidas de que a mira estaria em suas cabeças caso fizessem algo... Impróprio.

— Identifiquem-se! – um dos soldados, o mais alto deles, ordenou. E eles estavam certos, dependendo da resposta o alvo daquela arma já estava travado.

— Eu sou o Sargento Mihael Keehl – respondeu Mello em alto e bom som, confeitando sua voz com o orgulho e prepotência que há muitos dias não tinha oportunidade de usar. Sentiu-se repentinamente bem com isso.

— Sargento Mail Jeevas – Matt incrementou sua voz também, para acompanhar Mello.

Ao ouvir tais nomes que basicamente viraram uma constante desde antes mesmo do Dia D — em parte pela competência e atrevimento daqueles dois e em outra por eles estarem supostamente mortos, o que causava uma impressão ainda maior, já que se fossem mesmo eles, isso significava que tinham conseguido de alguma forma fugir de uma das mais arrasadoras tropas anglo-americanas já formadas e alcançado um ponto seguro sem serem pegos – os soldados hesitaram o dedo no gatilho, porém o da frente não permitiu que baixassem a guarda – Ah, é mesmo? Provem!

Não era como se carregassem documentos de identidade no meio de uma batalha para que quem sabe um bom samaritano ao encontrar os corpos, os identificasse, desse um enterro digno e avisasse as famílias. Eles tinham um meio próprio de provar que eram realmente alemães, e o resto de provaria sozinho. E um alemão não usaria o nome de um militar conhecido de forma inconsequente.

Então sem esperar uma segunda ordem e nem um segundo a mais, Matt e Mello se livraram das camisetas manchadas e exibiram cada um sua cicatriz. A suástica bem visível no peito.

O sinal para abaixar as armas foi dada e ambos foram acolhidos pela tropa alemã. Finalmente, mesmo que não nas melhores condições, eles haviam chegado em casa. Finalmente...

Notas finais
Guardian: Eu nunca planejei demorar tanto de novo, mas minhas férias começam oficialmente hoje, então vou tentar não repetir isso :)
E claro, não podia deixar de agradecer mais uma vez à Yuko pela recomendação linda que ela fez pra fic *O*
Muito obrigado aos que ainda lêem ~
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.