Tempos Surpresos
1 Ocultando Segredos do Resto do Mundo
Notas iniciais
"E que a vida sempre me traga uma surpresa, pra sair da mesmice."
(Nova Iorque, 14 de Fevereiro,inverno de um ano qualquer, reformatório de Long Island.)
- Bem, senhorita Jackson, hora de se virar nas ruas. Parabéns pelos seus 20 anos.
- Obrigada pela falsidade senhora Hills. Finalmente sairei deste inferno. Só não xingo de coisa pior, pois foi aqui que eu passei meus últimos dez anos.
Os portões enormesde ferro se abriram, me trazendo uma claridade fora do comum.
Como se algum dia, eu tenha visto tal luz. Arrumei meus cabelos fora do cachecol fino, abotoei novamente meu sobretudo de lã preto, e chequei meus tênis novamente.Peguei a minha mala de mão surrada, com alguns remendos de retalhos, e dei o primeiro passo para o mundo real.
Brittany Hills era a minha supervisora, que era a versão feminina do diabo. Que estava menos infernal, porque sua recruta favorita para torturas finalmente iria conhecer as mazelas da capital.
- Rachel, tome, isso é pra você pelo menos pegar um metrô para o Brooklyn. Que é o único canto da cidade para pessoas sem classe como você.
Era 20 pratas. Eu não podia recusar, era a única verba que eu poderia ter.Arranquei o dinheiro da mão dela, e saí para as ruas.
Todos me olhavam de uma forma estranha. Mas também, não é de se ver todo dia, uma garota com calça jeans rasgada nos joelhos, com uma mala surrada e um cachecol velho. Eu estava meio perdida nos pensamentos, porque finalmente estava livre das torturas, das horas sem comer, por não saber quem são meus pais, por não ter família.
- Garota?
Eu olhei para os lados, e procurei quem estava me chamando. Senti um toque de dedos atrás de mim.
- Olha, está fazendo muito frio.
Era uma garota, com um casaco preto e embaixouma camisa larga da NBA, cheia de anéis, com um colar engraçado e uma calça preta, com tênis parecidos com os meus.
- Sim, está. — Respondi.
- Desculpa, é que realmente, eu vim visitar minha prima, e eu vi você saindo do reformatório com este casaco velho e de malas na mão, acho que você não tem nenhum lugar pra ficar. Prazer, Anne.
- Prazer, Rachel. Eu não tenho mesmo um lugar pra ficar, mas acho que vou para o Brooklyn.
- Eu moro num apartamento lá. — Ela disse abotoando seu casaco.
- Poxa, você não se importa de eu ir pra lá?
- Não, que isso. Eu tô precisando de uma companhia.
Fomos para a estação de metrô, desci aquelas escadas e comprei um bilhete, passei na roleta e pegamos uma plataforma totalmente pichada.
- Saindo de lá, por causa da idade né?
- Sim. 20 anos muda a vida de uma pessoa.
O metrô chegou, totalmente grafitado, com negros, e latinos dentro. Uma sorte, pois eu era latina.Nós entramos, e sentamos. Eu coloquei a minha mala em cima do meu colo e abri o bolso pequeno. Anne me observava, quando eu tirei meu cigarro, e o isqueiro. Depois que eu comecei a fumar o primeiro, Anne fez a pergunta que eu esperava ouvir.
- Fuma desde quando?
- Desde os 16. Pegando os cigarros do segurança do meu departamento.
- Roubados?
- Não, ele me dava, afinal foi ele que me ensinou a fumar. Porque dizia ele que acalmava depois de uma tortura. Até agora tá funcionando. Você fuma?
- Claro.
Estendi a carteira pra ela, e o isqueiro. Soltamos a fumaça juntas, e eu pensava no que o destino me reservava dali pra frente.
Ela pegou sua bolsa pequena, tirou dois preservativos, um espelho, e pegou o que queria. Um celular.
- Aposto que você não é virgem. — Afirmei.
- Não sou. Tirei a virgindade com um cara da minha rua, ano passado. Estamos namorando.
- Ele mora no apartamento?
- Não, ele me visita de vez em quando.
A viagem durou alguns minutos.
" Estação Brooklyn, cuidado ao sair, área perigosa."
- Vamos, Rachel, só alguns metros e estamos em casa.
O apartamento era simples. Uma cozinha pequena, com uma dispensa na qual também tinha um balde de roupa suja. Não tinha uma mesa de jantar, era só o balcão da cozinha para a sala de tv. Tinha dois quartos subindo uma escada em cima da tv.
- Rachel, este é o meu quarto e o seu é o da janela da frente. Eu não gosto de quartos arejados. Pode tirar o casaco, temos aquecedor.
Ela tirou o casaco dela, e pelo perfil também era latina. Tinha quadris largos e seios pequenos. Eu tirei meu sobretudo, e percebi que meus seios eram maiores que os dela. Coisas que eu percebia, só por perceber, eu não falava com garotas da minha idade no reformatório.
- Anne, banheiro?
- No seu quarto tem um, eu uso o do fim do corredor.
Eu coloquei minha mala em cima daquela cama com lençol fino. Desfiz a mala, arrumei aquelas velhas roupas no guarda roupa, tomei um banho, e troquei de roupa. Coloquei uma blusa de capuz larga, por cima de uma regata meio rasgada. Fiquei de calcinha mesmo, pois nem no reformatório eu usava a calça dentro do meu quarto.
Eu estava meio confusa, porque o que leva uma garota trazer uma pessoa completamente estranha pra dentro de sua casa?
Eu desci as escadas e Anne estava fumando cigarros na cozinha vestindo a camisa da NBA, como vestido. Ela me ofereceu um, assim eu peguei.
- Por que tava no reformatório?
- Porque eu atingi a idade máxima no orfanato, e me mandaram pra lá, com 10 anos. Não tenho pais, sei que eram imigrantes de Porto Rico, e morreram, assim que eu nasci porque clandestinos os mataram.
- Então você não conhecia o mundo real?
- Praticamente, não. Eu tinha um segurança aliado. Ele foi meu quase pai. Foi ele que me ensinou a fumar, me explicou as coisas de sexo e tal. Mas, o que te levou a trazer uma desconhecida pra sua casa?
- Eu precisava de uma companhia, minhas amigas se mudaram, e eu aqui. E tive uma boa impressão de você. é virgem?
- Não. Fui estuprada pelo marido da minha supervisora. Já superei parte daquele momento terrível.
Ela olhou meu traje de gala.
- Você é do tipo que se pudesse ficaria nua em casa, não é?
- Sim. Sempre me vesti assim.
- Sorte que eu só pago as contas da luz, água e do aquecedor. Esse apartamento é herança dos meus pais que morreram num confronto com a polícia cinco anos atrás.
- Sinto muito.
- Vamos mudar de assunto? Que ironia, você fazer aniversário no dia dos namorados, não é? — Ela torrou o cigarro no cinzeiro.
- Sim. Me condeno por isso.
Anne riu.
- Vai arrumar um emprego?
- Vou, preciso me sustentar e te ajudar.
- Meu amigo Billy tem uma loja de CD'S, ele tá precisando de gente, mas vamos deixar isso pra depois porque finalmente você está livre!
- Realmente, finalmente livre!
- Olha, vou explicar algumas regras do apartamento. Festas, nunca, por causa da vizinha que tem câncer, drogas não recomendo pois a polícia pega pesado com essa rua, se arrumar um namorado, faça sexo no seu quarto, e o que não falta é preservativo pois eu trabalho numa farmácia.
- Entendi. Mas eu não pretendo arrumar nenhum namorado.
-Sei dessa. — Ela riu.
Ela pegou uma garrafa de Red Label, colocou um pouco em dois copos.
- Viva a liberdade!
- Viva!
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