Tempo, todo poderoso
3 Algo estranho
Notas iniciais
Em algum lugar eu podia escutar o eco de centenas de vozes falando de maneira rápida e alta, até mesmo alguns gritos, mas eu estava entorpecida, incapaz de me mover do lugar onde estava, ou mesmo registrar o ambiente a minha volta corretamente.
Sonserina!
A palavra se repetia na minha cabeça sem intervalo, e mesmo assim meu cérebro não conseguia assimilar seu significado.
Foi então que eu senti um par de braços quentes envolverem meus ombros, e me puxarem sobre meus pés vacilantes, me arrastando o mais rápido possível para o mais longe possível de onde todos podiam me ver e apontar.
A cacofonia só parecia crescer enquanto o desconhecido me arrastava em direção as grandes portas de carvalho, para longe da multidão ensandecida, para a segurança do silêncio nas escadas.
Mas ao invés de subir para a torre da Grifinória, ele me arrastou mas além e para baixo, descendi diretamente para as masmorras, para o Salão comunal da Sonserina.
E eu me deixei levar sem nem mesmo protestar, feliz por me afundar cada vez mais nas entranhas do castelo, onde talvez ninguém me achasse novamente.
Quando finalmente paramos em frente ao portal que levava direto para a entrada do Salão comunal, meu cérebro pareceu retornar um pouco ao que era antes de ser liquefeito por aquele maldito chapéu.
— Nós não podemos entrar, não temos a senha.
Wow, era minha aquela voz de gato esganiçado?
— Não precisamos dela, ainda não foi atribuída nenhuma, então podemos apenas entrar.
Aquele tom rico de frieza e aristocracia, eu o conhecia de algum lugar, sabia disso, mas não me lembrava de qualquer aluno da Sonserina um dia ter falado comigo, fora os insultos ocasionais, e muito menos que algum deles fosse se dar ao trabalho de me tirar do show de horrores do qual eu tinha virado a atração principal lá em cima.
Ele me empurrou adiante, contra as portas que pareciam negras na fraca luz das masmorras, e elas se abriram permitindo a nossa passagem, e se fecharam logo após entrarmos.
Eu tinha conhecimento, de que como bons ricos que eram, os alunos sonserinos gostavam de ostentar seu dinheiro deixando os ambientes que frequentavam opulentos, mas confesso que não estava preparada para tudo aquilo que estava na minha frente agora.
Lustres enfeitiçados de cristal translucido pediam do teto, e luxuosos sofás em verde esmeralda e prata, assim como os ornamentos de aspecto antigo e caro, enchiam o cômodo pintado de um elegante tom purpura, que se tornara mais como uma sala de uma mansão do que um ambiente escolar onde alunos passavam seu tempo.
Ele me guiou para uma das poltronas mais afastadas, e me serviu um cálice com água fresca, enquanto puxava uma cadeira para se sentar a minha frente e me encarar.
Olhos de um profundo Azul-cinzento me fitavam, diretos de um rosto magro e com lindos traços elegantes, ornado com um cabelo loiro platinado que por tantos anos foi impecavelmente arrumado, mas que agora estava bagunçado de um jeito perigosamente sexy e despreocupado.
Draco Malfoy nunca foi alguém que deu a mínima para qualquer um além de si mesmo, e digamos que ele não tinha nenhum amor especial por mim, mas cá estava ele, me encarando depois de me salvar das pessoas que supostamente me adoravam, de me trucidarem.
Ou pelo menos foi dessa maneira que eu achei que as coisas iriam acabar.
Mesmo que ele fosse a última pessoa que eu esperasse que fizesse algo em prol do meu bem estar, eu devia a ele um agradecimento por ter me tirado do meio daquela confusão, quando nenhum dos meu amigos fez.
— Malfoy, eu hum... obrigada, sabe, por me tirar de lá, eu realmente agradeço, mesmo.
Meu tom sussurrante era quase inaudível enquanto em segurava firmemente minha água intocada e encarava meus pés calçados de preto.
Eu estava tão envergonhada por ter congelado em frente a todos que mal conseguia conceber a ideia de voltar e encarar todo mundo em algum momento, até mesmo aqueles a quem eu nem conhecia, mesmo que fosse apenas para as refeições.
Então, morrer de fome não parecia assim tão ruim agora.
— Você nunca foi uma garota de poucas palavras Granger, muito menos enquanto estivesse em frente de uma grande multidão, então quando você ficou totalmente petrificada no lugar, eu não pude deixar aquela humilhação pública continuar, principalmente quando seus amiguinhos pareciam que estavam presenciando o fim do mundo que conheciam bem diante de seus olhos.
Minhas bochechas esquentaram, e eu sabia que elas estavam vermelhas, enquanto o sangue corria furiosamente pelas minhas veias, mas eu não podia revidar contra um fato que eu sabia ser verdade.
Mas também não podia ficar calada.
— Se estava sendo tão humilhante assim, deviria ter gostado não é? Quer dizer, você deveria ser a pessoa que mais se diverte com tudo o que me deprecia e ridiculariza, ou aos meus amigos.
— Eu não acho que sou a mesma pessoa da qual se lembra. Muita coisa aconteceu comigo, assim como muita coisa aconteceu com você, e me mudaram como devem ter te mudado, afinal você saiu da planice dos leões direto para o ninho das cobras.
Me lembrar de tudo o que eu havia perdido, e deixado para trás, literalmente, deveria ter me machucado como ferro em brasa, mas apenas me colocou num estado de fria letargia.
Ronald provavelmente estaria blasfemando agora, gritando que tinha que haver um erro em algum lugar.
Harry deveria estar mais do que confuso, se perguntando como sua melhor amiga, companheira de todas as suas aventuras, havia sido mandada para o lugar de onde praticamente todos os seguidores de seu maior inimigo, e ele próprio, haviam vindo.
Gina talvez estivesse em prantos, e Fred e Jorge tentando fazer com que a situação ficasse menos pesada apelando para o senso de humor.
E eu estava aqui, sozinha e sem nada...
Sem nada!
— Malfoy, minhas coisas ainda estão lá em cima! Materiais, roupas, pertences pessoais, tudo! Não posso ficar sem elas!
Draco, que tinha se levantado e servido a si mesmo de algo para beber, apenas me encarou, algo semelhante a compaixão dançando por trás de seus olhos frios, então falou, com o tom baixo e macio, como alguém que fala com um animal assustado.
— Algum professor vai manda-las para você, não precisa ficar tão preocupada, você ainda é a melhor aluna que eles tem por aqui, isso vale de alguma coisa, mesmo que não seja mais da casa favorita de todos. Agora se acalme, posso ver seu pulso batendo daqui onde estou, vai ter um ataque cardíaco dessa maneira.
Não tinha dúvidas de que ele pudesse realmente ver meu coração batendo na base do meu pescoço, pois seu som estava estalando alto nos meu ouvidos, enquanto o mesmo martelava de encontro as minhas costelas e tórax.
Minha respiração estava acelerada, e então eu não podia mais ficar parada, as paredes vinham ao meu encontro, se fechando sobre a minha cabeça e ao meu redor, o chão se movia sob os meus pés, e tudo o que eu pude fazer foi abraçar meus joelhos de encontro ao meu peito e encostar minha cabeça sobre eles.
Eu não tinha um ataque de pânico desde que tinha 10 anos, quando Marty Lortec, um menino da minha classe me encurralou num beco atrás da escola trouxa em que eu estudada, e disse todas a coisas ruins que sua mente infantil poderia pensar.
Eu fiquei lá durante duas horar depois que ele se foi, sentada ao lado de uma lata de lixo, tentando acalmar o meu corpo e mente, e quando cheguei em casa meus pais estavam a ponte de chamar a polícia, pois em tinha demorado cerca de 3 horas em uma caminhada que levava 20 minutos.
Mas ninguém estava me ameaçando agora, eu estava segura, e não sabia o que tinha sido o estopim que desencadeou uma crise que eu não tive mesmo durante os momentos que quase morri durante as batalhas sangrentas pelas quais passei.
— Hermione! O que tem de errado com você!?
A voz de Draco Malfoy nunca me pareceu tão instável, e também tão próxima.
— Eu... pânico... as paredes... o teto vai me esmagar!
— Porra, de todos os momento em que eu quis que calasse a boca e não parava de tagarelar, quando quero que fale você parece uma retardada mental!
Durante os anos, eu havia procurado tratamentos alternativos para o meu ligeiro problema com o medo, e numa dessas pesquisas eu descobri que pressão por contato humano é um dos tratamentos indicados para inibir o pânico, do qual os soldados que desenvolviam stress pós traumático faziam uso.
Ou seja, a boa notícia era que eu só precisava que alguém me abraçasse bem forte, a má era que Malfoy era o único que estava por perto agora.
— Vamos, pare de se balançar e fale comigo Granger, me diga o que fazer, por Deus, está me assustando, idiota!
Ele estava ajoelhado na minha frente, segurando meus braços e tentando me manter imóvel, eu podia ver seus joelhos vestidos pelas calças negras no chão de carvalho escuro, enquanto sentia sua respiração acelerada batendo no alto da minha cabeça abaixada.
— Apenas me abraçe!
As palavras gritadas saíram dos meus lábios como xingamentos, e tremores me tomaram, quando a oxigenação do meu cérebro falhou, e eu sabia que estava próxima de desmaiar.
Ótimo, como se você já não tivesse passado vergonha demais por hoje Hermione, apenas desmaie e feche o seu dia com chave de ouro.
Pelo menos não havia muita plateia para o meu espetáculo.
Quando os pontos pretos começaram a aparecer na minha visão, eu me preparei para o impacto com o chão, mas ele nunca veio.
No seu lugar, outra vez um par de braços quentes me levantaram e me ergueram, dessa vez, não sobre os meus pés, mas acima do chão, de encontro a um corpo tão quente quanto os braços, e me apertaram à um ponto de morte.
Eu me concentrei na esmagadora pressão no meu corpo, e fechei os olhos com o máximo de força possível, contando meus batimentos e respirando o mais fundo que meus pulmões permitiram, abrando e fechando minhas mãos, que agarravam algo macio e morno, me concentrando em uma coisa de cada vez, acalmando cada parte do meu ser.
Um.
Dois.
Quatro.
Sete minutos.
Eu tinha outra vez o poder sobre o meu corpo, mas meus nervos estavam em frangalhos, arrasados por algo que eu não podia controlar, mas que mesmo assim era uma parte minha.
Quando eu senti meu pés tocarem o chão novamente, lentamente, lágrimas quentes surgiram nos meus olhos, e um soluço estrangulado escapou da minha garganta.
Óh Hermione, quando você se tornou tão emotiva?
Eu me lembro de quando chorei pela última vez, sozinha depois do fim da guerra, pensando em quantos amigos eu havia perdido, em como nunca mais veria meus pais, e em como tudo pelo que eu tinha vivido nos últimos anos havia finalmente acabado, mas não me lembro de ter sido tão alto e sofrido.
Eu abaixei novamente meu rosto em na coisa confortável e sólida na qual ele estava apoiado antes e chorei, solucei e lamentei, pela antiga Hermione, aquela eu tinha tido tudo um dia; família, amigos e uma vida de oportunidades pela frente, e pela nova Hermione, que tinha perdido toda e qualquer perspectiva, que não passava de uma casca daquela que o mundo lá fora tinha considerado uma de suas grandes heroínas.
Meu pai costumava dizer que há tipos diferentes de sofrimento, para tipos diferentes de pessoas.
Haviam aqueles que sofriam com tudo de si, aqueles que mostravam ao mundo e abraçavam esse sentimento, dividindo com os que estavam ao seu redor, para então deixa-lo partir com a mesma intensidade que tinha surgido.
Haviam também aqueles que sofriam em silencio, que reprimiam tudo e guardavam para si, ou dividiam somente com os seu entes mais queridos e íntimos, onde procuravam conforto.
E os que preferiam sofrer sozinhos, não querendo que ninguém sofresse consigo, esses também eram os que se tornavam mais amargurados com a vida e as coisas que ela trazia.
Sempre pensei que eu fosse alguém do segundo tipo, mas agora, olhando para trás em todos os momentos difíceis, eu nunca procurei por alguém para dividi-los comigo.
Nem meus pais, de quem eu me considerava tão próxima quanto era possível um filho ser de seus progenitores.
Nem Harry, a quem eu considerava o irmão que eu não tive no sangue.
Nem Ronald, por quem eu achei estar apaixonada por mais tempo do que conseguia me lembrar.
De todos que passaram pela minha vida, nunca alguém chegou perto da parte escura do meu coração, eles só viram a parte feliz e iluminada, e acreditaram que ela era a única que existia, pois assim eu quis que fosse.
O barulho agonizante que saia da minha boca feria os meus ouvidos, mas me deu uma clareza tão forte sobre mim mesma, que eu poderia até mesmo agradecer por ele.
Quando meu nariz estava entupido, minha garganta ferida, e meus olhos tão inchados que eu mal podia abri-los, finalmente arei de chorar, e percebi que estava confortável demais para ainda estar em pé, e notei que estava em um dos muitos sofás luxuosos que mobiliavam o Salão comunal da Sonserina, mas não sozinha.
Malfoy estava meio deitado, apoiado em um dos braços do sofá, as pernas jogadas de uma maneira que estavam meio sobre o mesmo e metade pendendo para o chão, que não parecia lá das mais confortáveis, e seus braços ao redor do meu tronco, me mantendo firme junto a ele, enquanto eu estava parcialmente jogada sobre ele, minhas mãos firmemente agarradas ao seu suéter negro, e minha cabeça plantada bem sobre seu esterno, que tinha uma grande mancha úmida onde meu rosto havia estado.
Eu me preparei para me levantar, mas uma olhada para o seu rosto me fez parar.
Ele me olhou como se visse minha alma, tão profundo como um oceano azul e prata, pronto para me engolir, e eu soube ali, naquele instante, que Draco Malfoy, era alguém que pertencia, assim como eu, ao terceiro grupo de pessoas, e que ele sabia o quanto a vida era amarga quando se estava sozinho.
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