Tempo perdido
1 Capítulo Único
"Tenho certa dificuldade de lembrar da maioria das coisas. Até hoje não consigo dizer ao certo data de aniversário dos meus pais, meu CPF e muito menos dizer exatamente as ruas que eu pego do caminho de casa para o trabalho — visualmente me dou melhor nesse ultimo ponto.
Mas, não é a minha dificuldade de lembrar de coisas do meu dia a dia a questão principal. E sim o controverso disso.
Apesar de por vezes, conseguir esquecer até mesmo minha idade, eu nunca esqueci da minha época de faculdade. Bom, talvez tenha esquecido um nome ou outro de alguns colegas, alguns assuntos ou festas. Contudo, de você, pode ter certeza, nunca esqueci.
Lembro do seu sorriso gentil, lembro dos seus olhos que carregavam tanta tristeza, mas sem nunca parar de brilhar, lembro de sua pele escura, de seus lábios carnudos, seu cabelo em que todos diziam ser feio, volumoso demais, crespo demais, preto demais.
Para mim, aquele era o seu ponto alto, seu cabelo, sua aparência, tão diferente das demais sempre foram o que mais me atraiu. Sua alegria espontânea e jovial somado a vitalidade excepcional. Somente os cegos não te admiravam e os burros não e encantavam.
Impossível não se apaixonar.
Ao menos, foi assim que eu via.
Contudo, a minha vergonha, timidez e — admito — preconceito me impediram de ir até você, de conversar com você, de... Falar tudo que eu sentia para você.
Se bem que... Na época eu era jovem, uma menina no começo da vida ainda, pouco sabia sobre o mundo e sobre mim mesma. Inclusive sobre minha preferencias.
Oh... Além de serem tempos antigos, épocas antigas, conceitos antigos. O simples fato de ter uma negra na faculdade era algo totalmente discriminado, uma heregia.
Esquecia-me que durante certo também também fui perseguida. Ou talvez, nem soubesse. Certas coisas são ocultada de tal forma da sociedade que informações relacionadas a como algumas pessoas eram tratadas foram totalmente apagadas da história.
Um grande exemplo disso, o fato de que pessoas ruivas, como eu, foram perseguidas, tratadas como bruxas, torturadas e queimadas vivas em fogueiras.
Apenas por nossa genética.
Passei todo o tempo ali, vendo você nos cantos, excluída, isolada. Queria te odiar, assim como todos os outros, mas não podia. Queria me aproximar, mas meu orgulho não deixava.
Concordava por manter a boa fama tudo que falavam sobre você, todas as críticas, todas as piadas, todo o ódio.
Queria concordar, compartilhar mesmo pensamento, mas não conseguia. Você era bonita demais para isso, sua tristeza era tão grande que sentia uma forte compaixão que impedia minha mente. E meu amor por você era forte.
Eu não sabia, se sabia, não quis aceitar. nunca me aproximei, nunca falei com você. Te admirando a distancia, soltando pequenos sorrisos quando percebia que estávamos sozinha e não tinha risco de ninguém ver minha afinidade para com você. Se é que podia-se chamar assim.
Até que aquele dia aconteceu. Do nada, não te via mais, você simplesmente tinha desaparecido da faculdade.
Por um, dois, três dias. Até que no final da primeira semana, não podia mais aguentar seu desaparecimento, ficar sem saber onde você estava. Totalmente desesperada e preocupada, passei a perguntar para todos que conhecia, colegas, veteranos, novatos, professores, diretores, coordenadores, todos.
E ninguém soube responder.
Alguns agiam como se você nunca tivesse existido, outros riam, satisfeitos para a "macaca nojenta" ter desaparecido, desejaram sua morte.
Passei a segunda semana inteira procurando, achei uma foto sua, no pequeno apartamento da periferia que você morava. Cujo o endereço eu achei na sua ficha de inscrição, bolsista. Fiz cartazes a mão e te desenhei inúmeras e inúmeras vezes para poder ter uma caligrafia sua em todos, em que qualquer um pudesse identificar.
Eram tempos realmente antigos, tudo que tinha era uma foto, papel e caneta. Ainda sim, fiz centenas de cartazes e preguei por toda faculdade.
Nesse tempo, o desespero era tão grande, que passei a distribuir por toda a cidade, ninguém sabia dizer onde você estava, e se soubesse, não falava.
Foi então, que um mês depois, bateram em minha porta. Um senhor de idade, pele negra, roupas simples e olhar triste, segurava um dos cartazes.
— Sinto muito senhorita... Fico feliz que a minha neta tivesse ao menos alguém que se importasse com ela... Mas...
O senhor começou a chorar, e eu também. Sabia o que significava, desabei ali mesmo, sem forças para permanecer em pé, caí de joelhos e chorei desesperada. Como se parte te mim tivesse morrido junto, como se fosse um parente meu, senti como se nunca pudesse ser feliz novamente.
O senhor me abraçou, ficou comigo, me acalmando.
Demorou para eu conseguir me acalmar de fato, mas quando isso aconteceu, eu o convidei para entrar, e ele contou tudo.
Ashanti Konmannanjy era seu nome. Engraçado, ao procurar, descobri que Ashanti significava mulher negra forte. Combinava com você.
Também descobri que o único que restara da sua família fora o avô, que na verdade tinha a adotado. Ele era um ex-escravo, conheceu a mãe da criança, uma mulher negra de sorte, ela e um homem branco tinham um relacionamento as escondidas, uma vez que aquilo era proibido. Desse relacionamento eles tiveram uma filha, cuja a mãe morreu no parto. O homem, que não podia cuidar da criança, entregou para o um antigo escravo da família que continuou trabalhando para eles, mesmo depois de sua liberdade, para cuidar dela, o senhor.
Ele a cuidou, ensinou tudo que sabia, conseguiu arranjar livros com o pai dela, para ensiná-la a ler e escrever. Cresceu sábia enquanto o avô trabalhava arduamente para conseguir sustentar os dois.
Quando Ashanti completou onze anos, seu pai morrera e como politicamente ela nunca foi reconhecida como filha dele, não deve direito a nenhuma herança, ficando apenas com alguns livros, que fora dado para seu avô no final. Tudo que seu pai tinha conseguido entregá-la no seu testamento.
Depois que a lei em que negros também poderiam estudar em faculdades, ela ralou muito para conseguir entrar como bolsista.
Contudo isso lhe custou caro, sua saúde já era precária e o esforço físico e psicológico passou a matá-la aos poucos.
Como não aturava mais dar tanto trabalho ao seu avô já muito velho, saiu da casa dele e passou a trabalhar nas minas de carvão nos horários livres que recebia da faculdade, se privando do sono e muitas vezes da boa alimentação.
Na faculdade, além das agressões verbais, também recebeu inúmeras vezes agressão física.
Dois messes antes dela desaparecer, descobriram que ela tinha sido estuprada e que daquilo veio uma criança.
Esta, que terminou de matar Ashanti, tomando todos os poucos nutrientes que ela conseguia para si, até que, quando voltava das minas de carvão, tarde da noite, fora brutalmente espancada, perdendo o feto no processo.
Conseguiu chegar até a casa do avô, mas naquele momento, já tinha perdido muito sangue, e seu corpo fraco, não aguentou mais.
O avô, de luto, ficou um mês sem sair de casa se não para o trabalho. Então, quando finalmente resolveu sair, se deparou com os inúmeros de cartazes de procurados, todos com a mesma caligrafia e um endereço.
Passei uma semana de luto também, várias vezes atravessei a cidade para ir para a casa do senhor, Bandele Konmannanjy.
Ao terminar a faculdade direito que fazia, me foquei principalmente para ajudar nos casos relacionados aos negros.
Montei uma comunidade de proteção aos negros. Já na meia-idade descobri sobre o movimento gay, no qual me interessei e descobrir ser uma.
Logo, montei também uma comunidade de proteção aos gays.
Continuei no ramo de direito até os meus sessenta e nove anos, quando me aposentei, dando atenção total as duas comunidades na qual gerenciava.
Quando Bandele morreu, recebi suas coisas inclusive todas as fotos e quadros de Ashanti e suas bijuterias. Carrego hoje a aliança de sua falecida mãe no dedo — Bandele insistiu, apesar de até hoje não me sentir com liberdade par tal.
Como uma mulher viúva fiel ao falecido, nunca me relacionei a ninguém. Apesar de ser jovem na época, permaneci pura, coisa que acredite ou não, preservo até hoje.
Não me arrependo nem um pouco de todos os anos que eu passei sem nenhum namorar. A única coisa que me arrependo, é de nunca ter ao menos, falado com a minha amada."
— Que linda história vó! Mas... Se você nunca namorou, então como que... Papai e minhas tias e tios nasceram?
Um pequeno garoto, moreninho pergunta, com as mãos estendida. Pensamento esses, que ocorria em todos os outros garotos e garotas, sentados em almofadas, ouvindo a história.
— Querido... Eu adotei várias crianças ao longo da minha vida. Pessoas brancas, negras, indianas, e toda qualquer outra raça que possa imaginar.
— Adotar, vovó Anna?
Dessa vez, foi uma menina, pele clara, olhos azuis, cabelo negro e encaracolado.
— Isso mesmo, criar como seus filhos, crianças que não tem pai nem mãe.
Explicou calma, rindo da curiosidade da menina.
— Nem todos foram assim dona Anna, você me adotou mesmo depois de adulta.
Comentou uma mulher, aparentava estar nos trinta e poucos anos.
— E o tio Hugo também!
Um garoto, negro da raiz, já com seus treze, quatorze anos.
— E o meu papai.
Comentou um garoto, nem branco, nem negro, nem asiático, nem indiano, nem indígena, uma mistura.
Todos os citados, foram casos de jovens, abandonados pela família por serem quem são. A mulher, na verdade era um homem também, abandonado pela família. O Hugo, um gay que fugiu de casa por causa dos constantes ataques físicos que recebia e o pai do garoto, um transsexual que nunca recebeu apoio dos pais, que tempos depois, o desertou.
Casos do tipo eram frequentes e Anna fazia o possível para ajudá-los, dar o apoio necessário.
— Realmente, eu adotei um monte de pessoa ao longo da vida. Mas tudo isso só pode acontecer por causa que eu conheci a Ashanti. Se eu nunca tivesse estudado na mesma faculdade do que ela, duvido muito que tudo isso tivesse acontecido, e que eu fosse feliz como sou agora, com um monte de filhos e netos maravilhosos!
Sorriu gentilmente, se levantando da cadeira de balanço que estava sentada até então.
— Então, quem está com fome?
— EEEUUU!!
As crianças cantaram em couro, acompanhando a senhora com alegria, comentando entre si sobre a história contada.
E você? Também gostou da história? Eu gostei.
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