Mensagem Privada — Enviada em 20/12/2019 às 06:04

De: Dududueedu

Para: Moon-IK

“Olá, Moon-IK

Eu me chamo Eduardo Carvalho e sou ilustrador da Editora Abobrinha. Estou muito interessado em sua história ‘Tempo de Segunda Linha’. Acho que, com algumas correções, ela tem muito potencial para ser publicada. Quantos anos você tem? Podemos conversar sobre isso? Se quiser, pode responder pelo meu e-mail profissional:

eduardoilustrador@abobrinha.com

No aguardo da sua resposta :)”

Escrever uma mensagem privada para Moon-IK, o autor de “Tempo de Segunda Linha”, foi a primeira coisa que Eduardo fez pela manhã, quando acordou. Ele provavelmente tinha que falar com Rafaela sobre aquilo, antes de qualquer coisa, mas não pôde se controlar. Nem pensou muito nisso, na verdade. Quanto mais cedo enviasse a mensagem, mais cedo receberia a resposta, em teoria.

Leu a MP umas duas vezes, antes de enviar, analisando se tinha dito muito ou pouco. Ficou encarando a tela, tentando enxergar a própria voz naquele texto. Seu coração bateu um pouco mais rápido quando, finalmente, enviou. Mas ele pôde respirar aliviado, sabendo que uma das tarefas do dia estava concluída.

Então, ele foi para o chuveiro. A água, como sempre, estava fria. Ele não tinha coragem de encarar o valor de uma conta de luz após um mês tomando banho quente. Depois de um tempo, isso não incomodava tanto. Até porque ele já tinha desenvolvido algumas técnicas para driblar o frio, como a de entrar pulando debaixo do chuveiro, o que ele fazia constantemente.

Enquanto a água caía sobre o seu cabelo castanho e volumoso, ele refletia sobre a noite anterior. “Tempo de Segunda Linha” não saía de sua cabeça, ofuscando até o lançamento do próprio livro, na noite anterior. Até os trechos do Capítulo Segundo, do qual ele não tinha gostado tanto, agora pareciam melhores, quando retornavam para a sua mente.

Ofélia tinha olhos escuros e isso dizia muito sobre ela. Não sabe bem o que mas dizia. Talvez não seja a cor dos olhos mas os olhos em si quando se para pra pensar. O jeito de olhar diz muita coisa na verdade. Ofélia costumava olhar para tudo de um jeito meio desconfiado. Menos pra Leona. Não que ela já não tivesse olhado para Leona com desconfiança em outro presente passante mas não mais porque a confiança costuma crescer enquanto o tempo roda.

Sua pele era branca como porcelana e diriam porque disso que ela parecia uma vampira mas isso era besteira. As bruxas tinham deixado claro para ela que não existiam vampiros.

Eduardo riu. “As bruxas tinham deixado claro que não existiam vampiros”, repetiu, em pensamento. Não era uma frase engraçada, mas, justamente por isso, era engraçada. Ele imaginava que algo tão absurdo tinha sido dito num tom de extrema seriedade, como se fosse a informação mais importante do mundo.

E as bruxas sabiam de tudo o que existia. Gigantes, unicórnios, bebês de nuvens que tinham rostinhos, duendezinhos fofos, maravilhosos ratos falantes e papai noel. Ofélia também sabia mas ela não via então não sabia se sabia mesmo. Porque ela era desconfiada pra tudo.

Enquanto abria as cortinas do chuveiro, visualizando o pequeno banheiro, ele pensava com os seus botões em como seria legal desenhar um bebê de nuvem com um rostinho. Apanhou a toalha e se enxugou, antes de borrifar desodorante nas axilas e ir até o quarto, onde ficava o seu guarda-roupa, para se vestir.

Lá, pegou o celular e checou o grupo da Abobrinha no celular. Não havia nada muito relevante. Algumas pessoas comentando sobre o sucesso do lançamento da última noite e um meme celebrando a chegada da sexta-feira, com promessas de festas e álcool. O que não empolgava Eduardo, que gostava de ficar em casa e não bebia.

Além daquelas mensagens, e de mensagens de “bom dia” no grupo da sua família, não existia nenhuma outra notificação. Então, ele se apressou para checar o aplicativo que mostrava as localizações e horários dos ônibus, para ter certeza de que não perderia o seu.

Ao constatar que tinha uma folga minutesca antes de ter que sair do seu apartamento e andar um pouco até o ponto de ônibus, se deu o luxo de escolher o que vestiria. Não que ele tivesse muita variedade de roupas para escolher. Para um desenhista que se preocupava tanto com as roupas dos personagens, seu guarda-roupa era uma péssimo exemplo.

Saindo de casa com os minutos contados, ele chegou no ponto pouco antes do ônibus, levando consigo uma mochila e um visual nada especial. O percurso levava, ao todo, uns 40 minutos, mas era um caminho agradável e ele costumava ir sentado, lendo algum livro de bolso.

A Abobrinha não tinha um prédio próprio. Em vez disso, a editora tinha alugado um andar inteiro em um prédio comercial e era dona de uma gráfica em outra parte da cidade. Eduardo imaginava que seria bem difícil gerir esse tipo de coisa sem ficar no vermelho, se não fosse uma editora de grandes sucessos. Passando pela recepção do térreo do prédio, ele foi direto para a pequena sala que Rafaela possuía no andar da Abobrinha. Bateu na porta, que tinha uma pequena placa dizendo “Rafaela Lima, Editora” ao lado. A voz de sua namorada disse “entre!”, do outro lado.

— Bom dia. – Ele disse, animado. Ela estava sentada à sua mesa, de caneta na mão, assinando ou escrevendo alguma coisa enquanto olhava para a tela do computador. Sua mesa estava uma verdadeira bagunça de papéis. Ao lado dela, sua fiel picotadora de papel.

A decoração do resto da sala era bem simples. Do outro lado da sua mesa, duas cadeiras para quem chegasse. Além disso, tinha um pequeno sofá encostado numa das paredes (onde ela costumava dormir, quando dormia ali, após trabalhar demais) e algumas fotos e certificados emoldurados e pendurados. Uma das fotos era dos dois, de quando viajaram para uma Bienal no Rio de Janeiro para, entre outras coisas, promover Carminha Carmim.

Por fim, uma pequena estante se eternizava ali, seguindo as instruções de Calvino. O primeiro nível era de livros que tinham sido publicados sob a supervisão dela; o segundo tinha os livros que ela mais adorava, seus próprios “clássicos”; o terceiro, eternamente rotativo, contava com os livros que ela queria ler, mas ainda não o tinha feito. Obviamente, quando ela lia algum daqueles livros do terceiro nível, eles eram substituídos por outros.

O rosto dela se iluminou um pouco ao vê-lo: – Oi, bom dia. Eu estou morta, mas bem. E você? – Disse, sem parar de fazer o que fazia.

— Noite passada, eu li uma história e gostei muito. – Ele disse, sem enrolação. – É ela que eu quero pro meu gibi.

A mão de Rafaela parou de trabalhar e ela franziu uma sobrancelha, pouco impressionada, para os papéis que preenchia: – “Leu”? A história é de outra pessoa?

— Hã, é.

— Eu achei que você queria escrever sua própria história.

— Eu mudei de ideia.

Ela suspirou, colocando a mão no rosto: – Quem é o autor?

— Eu não sei ainda. Eu encontrei num site de fanfics.

— Num site de fanfics. – Rafaela repetiu, impassível.

— Isso não é ruim. Vários best-sellers saem dos…

— Me mostra. – Ela disse, estendendo a mão. Ele abriu a história no celular e entregou para ela.

Daí, ela fez o que fazia melhor. Abaixou a cabeça para a tela e deixou os seus olhos correrem de um lado para o outro, numa velocidade incrível. Era a habilidade que se esperava de qualquer editora profissional, com diversos tipos de materiais para ler diariamente.

Claro que essa habilidade não permitia a ninguém ler textos mais rapidamente. O que ela fazia era entender suas ideias principais, através de suas palavras mais importantes, identificadas em rápidas passadas de olho. A prática ajudava mais do que tudo, e ela já o fazia há anos. Era, inclusive, esse tipo de visualização dinâmica, esse skimming, que normalmente ajudava os editores talentosos a separar os materiais bons dos ruins.

Qualquer material que não chamasse a atenção ou, pior, se mostrasse previsível nesse primeiro processo de leitura, era imediatamente descartado. Picotado, no caso de Rafaela.

Um julgamento desse nível não envolvia só a habilidade motora e intelectual para detectar os pontos cruciais de um texto, como todo um repertório literário que ninguém adquire com facilidade.

— Não, isso não está certo. – Ela comentou, passando o dedo na tela do celular para voltar ao começo do texto.

“Ahá!”, Eduardo pensou. O mesmo tinha acontecido com ele, quando tentou aplicar aquele método na sinopse. Não era como se a escrita de Moon-IK fosse incompreensível, embora, às vezes, fosse. Em vez disso, era uma escrita econômica e pessoal, quase um conto oral transformado em escrita. Na linha narrativa de Moon-IK, quase tudo era importante, mesmo as repetições, assim como seriam na oralidade, munidas de tom, contexto e interpretação. Era impossível fazer skimming num texto tão pouco amigável para leituras casuais.

Ele não pôde deixar de sorrir. Se tinha chamado a atenção dela, era certo que ela também tinha percebido que o texto era especial.

Ela leu cada palavra com atenção, até o final. Quando chegou nos dois últimos parágrafos do Capítulo Segundo, leu-os em voz alta:

Quem é você?, a bruxa perguntou. Ofélia sabia que era uma bruxa porque as bruxas tinham uma espécie de aura que faz você pensar meu deus ela é diferente diferente das outras pessoas e as bruxas não costumam se misturar com outras pessoas que não são outras bruxas a menos que precisem.

Mas Ofélia não teve tempo de responder. Foi quando ela piscou que percebeu que não lembrava nada mas despercebeu depois porque não dava pra perceber que não lembrava de nada já que ela não lembrava de nada.

— É isso? – Ela perguntou, sem levantar os olhos da tela do celular, depois de tentar arrastar mais para baixo, sem conseguir.

— Até agora. – Garantiu, de peito estufado.

— Posso imprimir e jogar na minha picotadora? Por favor. – Ela riu, para a decepção de Eduardo. – Não, nem isso. Posso jogar no Sol?

— Qual é, não é ruim.

— Eu não diria ruim. – Ela disse, estendendo o celular para ele, que o apanhou de volta. – Os adjetivos que eu usaria são: Péssimo, terrível, tenebroso, chato, preciso continuar? Porque eu posso continuar.

— Carminha Carmim é uma obra de Shakespeare, por acaso?

— Meu amor, existe um meio-termo entre ser uma péssima obra de literatura de gênero e ser uma obra-prima. Olha, mesmo que eu quisesse apoiar isso, iam dizer que foi porque estamos juntos, porque é muito ruim, sério. Outra coisa, Marta tá quase se aposentando e eu não quero ser a responsável por nenhum flop que me faça parecer uma idiota e me impeça de virar a nova editora-chefe. – Ela abaixou a voz, conspiratória. – A concorrência por aqui está feroz esses dias.

— Podemos esperar tentativas de assassinato em breve, então. – Ele brincou, antes de voltar para o que o interessava. – Mas essa história tem muito potencial! Tem uma trama básica de fantasia infantil e um casal de mulheres como protagonistas…

Rafaela suspirou: – E eu super apoio isso. Precisamos de mais diversidade em qualquer mídia e eu adoro pink money, como qualquer pessoa. Qualquer tipo de money, na verdade, porque é isso que mantém o meu emprego. O seu também. Mas eu não vou publicar qualquer coisa só por causa disso. E essa história não é infantil. É bem sombria, na verdade.

— Sombria?

— A trama principal só acontece porque uma das protagonistas morreu. A outra tenta voltar no tempo pra salvar ela e acaba num mundo paralelo. Inclusive, parece que as bruxas desse mundo apagam a memória dela no final do segundo capítulo. É bem sombrio, sim.

— Eu não concordo. Mas eu posso tentar amenizar o tom.

— Ou você pode tentar gastar seu tempo numa coisa boa e… – Rafaela suspirou, dando um olhar preocupado para uma pequena pilha de papéis na sua mesa. – Olha, faz o que você quiser. Quando estiver pronta, você me mostra sua HQ, tá bom? E vê se fala com esse autor também, porque eu não preciso de um processinho nessa altura do campeonato.

— Tá certo. – Ele levantou as mãos, se dando por vencido. Dessa vez.

Não que ele não gostasse de comprar uma briga. Qualquer briga. Era um criador de caso nato. Mas Rafaela parecia alguém que tinha acabado de acordar. Ou que nem tinha dormido, na verdade. E, se o tivesse, tinha dormido naquele mesmo escritório, enquanto trabalhava. Ele só excluía aquela última possibilidade porque ela usava roupas diferentes da última noite (e não era tão desleixada assim).

Mas os sinais eram claros, enquanto ele a observava: O cabelo escuro curto bagunçado, a voz cansada, as roupas sem muita combinação e as olheiras. Especialmente as olheiras, bem desenhadas abaixo dos olhos… escuros dela. Eduardo congelou por um momento, como se fosse um computador, repentinamente em tela azul, tentando reiniciar.

Seu rosto, ele imaginou, devia ter se contorcido todo de uma forma bem bizarra, pois até Rafaela notou a mudança drástica:

— O que foi? – Rafaela perguntou, desconcertada.

— Seus olhos sempre foram escuros? – Disse, tentando colocar os pensamentos em ordem, vasculhando as própria memórias para garantir que não estava louco.

— Você não sabe a cor dos meus olhos? – Ela não pôde evitar que a própria voz se tornasse muito mais aguda, em meio à indignação.

— Eu achei que eles fossem… meio claros.

— Eles sempre foram completamente escuros. – Afirmou, incrédula. – Você bebeu? E sem mim?

Eduardo balançou a cabeça, tentando sorrir: – Nada. Eu tava brincando com você. Claro que eu sei a cor dos seus olhos. Vou te deixar trabalhar, tá?

Ele caminhou a curta distância até a porta, estendendo a mão até a maçaneta, quando Rafaela o chamou:

— Tá tudo bem, Eduardo? – Ela perguntou, preocupada.

— Claro que tá. Era pegadinha, pô. – Desconversou, rindo. – Vou te deixar trabalhar.

Ela olhou desconfiada para a porta que se fechava. Não era como se ele não costumasse fazer “pegadinhas”. Mas, segundos atrás, ele parecia muito sério. E Rafaela não considerava a possibilidade das habilidades de atuação dele estarem melhorando. Nem ele iria tão longe na elaboração de suas piadas. E, se não aquele comentário dele não era uma piada, era uma potencial preocupação.

Realista como ela era, costumava olhar para tudo de um jeito meio desconfiado. Menos para Eduardo. Não que ela já não tivesse olhado com desconfiança para ele, no passado. Mas a confiança tinha crescido com o tempo, especialmente porque ele era um homem simples, fácil de ler. E talentoso no que fazia. Não existia nada que ela aprovasse mais.

E ela esperava que isso não mudasse.

Do lado de fora, ele respirou fundo. Por instinto, pegou o celular e ligou a tela. Tinha uma nova notificação no e-mail. Sua mensagem privada tinha sido respondida:

“Olá. Olá Eduardo Carvalho ilustrador da editora Abobrinha. Ok. Que bom. 12. Sim. Só vi isso agora e já estou respondendo. Respondi já.

Eu moro na rua dos saguis, nº 21, apt 701.”

Como sempre, ele precisou reler a mensagem de Moon-IK para compreendê-la inteiramente. Nesse caso, precisou reler a sua também, para perceber que cada uma de suas perguntas tinha sido respondida num formato simultâneo e ordenado.

“Bem”, ele pensou, “ele só tem 12 anos. Isso explica várias coisas. Mas o que ele quer? Que eu vá visitá-lo de cara?”

Ele pesquisou o endereço no celular. Não era longe e dava para chegar com um só ônibus. Mas ele se perguntou se seria a coisa mais sensata a se fazer. Até onde ele sabia, não sabia nada de Moon-IK. O autor podia muito bem ser um assassino de 30 anos. Um ladrão. Um ladrão que escrevia histórias de fantasia em um site de fanfics. Por que não?

Por outro lado, se ele não fosse, podia perder uma boa oportunidade de adiantar as coisas ao seu favor. Rafaela, provavelmente, iria. Se achasse que a história valia a pena. Era o que ele imaginava. E ele achava que “Tempo de Segunda Linha” valia a pena.

Pegou o primeiro ônibus que passava onde ele queria e saltou no ponto que o seu mapa digital indicou. Dali, caminhou um pouco até encontrar o prédio de Moon-IK, que não tinha porteiro, mas um interfone, que ele usou para ligar para o apartamento 701.

“Quem é?”, uma voz feminina disse, do outro lado, após três toques.

“Eduardo Carvalho.”, ele respondeu, imaginando se Moon-IK tinha avisado aos pais (ou quem quer que vivesse com ele) da sua troca de mensagens com um estranho, em um site de fanfics. “Eu sou um ilustrador…”

“Ah, sim.”, a voz o interrompeu.

O portão de entrada abriu com um “bzzz” diante dele.

“Abriu?”, a voz perguntou.

“Abriu, sim, obrigado.”, ele respondeu, entrando no prédio e tomando o elevador para o sétimo andar. Quando chegou, foi até o primeiro dos quatro apartamentos do andar, que tinha a porta aberta, dando direto para uma sala de tamanho razoável.

— Olá? Bom dia. – Ele disse, do pé da porta.

— Mônica! Seu ilustrador chegou! – A voz feminina, a mesma que o atendeu pelo interfone, gritou. – Pode entrar, moço.

“Mônica?”, ele pensou.

Quando ele entrou, se deparou com uma pequena garota, saindo de uma das portas que ficavam no corredor, após a sala.

A primeira coisa que ele notou foi que “o autor” era uma “ela”. A autora. Ele não era bom em julgar pela aparência, mas ela realmente não parecia alguém com mais do que 14 ou 15 anos. Seu espírito quarentão tinha reduzido qualquer pessoa abaixo dos 25 à categoria de “jovem”, que podia ser bem pejorativa, a depender do seu humor.

Mas não existia nada de pejorativo em Moon-IK. Ou melhor, Mônica, a autora de 12 anos. Pelo contrário, ela despertava nele uma atração esquisita. Não do mesmo tipo de atração romântica que ele dividia com Rafaela, nem do tipo de atração curiosa que ele sentia pela história dela, “Tempo de Segunda Linha”. Era mais como se ela fosse um céu estrelado em uma grande capital. O tipo de coisa que você sabe que existe, mas passa tanto tempo escondida que você se acostuma a não ver.

Ela também era muito bonita. Ou essa era a impressão que a perfeita simetria do seu rosto dava para, Eduardo imaginou, qualquer um que a visse. Como um violino esculpido por anjos e, então, posto no estojo mais divino que Deus pôde reservar. Estar na presença dela, ou mesmo ter a oportunidade de vê-la, parecia algo que ia além da própria sensação de cometer um crime. Parecia como cometer um pecado. Ou uma transgressão moral tão grave que afastava o autor dos limites da sua humanidade.

Ainda assim, a jovem autora de rosto simétrico, que enjaulava tantas características incomuns, sorria para a sua presença, como se não pudesse imaginar coisa melhor do que ser visitada por um ilustrador profissional. Ela bem podia ser uma das crianças que ele tinha visto na noite anterior, correndo e brincando na livraria, encantadas pelo prazer de descobrir coisas novas. Era tão normal quanto elas. Mas, ao mesmo tempo, ele sabia que não era essa a sua verdadeira impressão sobre Mônica. Ela não era normal.

Mas ele guardou as suas ideias para si. De qualquer forma, não faria bem nenhum expressá-las. Ainda assim, o fantasma de seu desconforto se alojou em algum canto do seu cérebro, incomodando-o, enquanto ele estendia a sua mão para Mônica:

— Muito prazer em te conhecer, Mônica. – Disse, apertando a pequena mão dela. A pele era macia. Ela devia beber muita água.

— Muito prazer, Eduardoilustrador. – Ela disse, rapidamente, como se tivesse ensaiado a fala.

Ele respirou fundo, ignorou o próprio pressentimento e falou: – Temos muito o que conversar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.