Tempo de Escolha
19 Capitulo Dezenove
Quem crê em mim, como disse a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. João 7:38
Lorena piscou se movendo na cama. Tentou respirar, em meio a dor que sentia. Assustada, balançou Rafael pelo ombro na tentativa de acorda-lo.
— Acorda. Pediu.
— O que foi? Ele perguntou sonolento.
— Tem alguma coisa errada. Choramingou levando a mão a barriga e ele seguiu seu gesto com o olhar. _ Esta doendo muito. Falou com esforço.
Rafael levou dois segundos para compreender a informação e pulou da cama vestindo um casaco por cima do pijama e calçando um tenis qualquer.
— Rafael. Lorena gemeu mais uma vez se contorcendo na cama.
— Vamos para o Hospital. Ele falou alcançando as chaves e a carteira e colocando o bolso. _ Vem amor. Chamou tentando ajuda-la a levantar.
— Não consigo. Esta doendo muito. Ela falou e ele paralisou ao ver a mancha vermelha sobre a cama. Movido pelo desespero, a ergueu em seus braços e caminhou com ela o mais rapido que podia, ate alcançar o carro no estacionamento.
Lorena apertou o cobertor que estava envolta de si e tentou respirar, enquanto lagrimas caiam de seus olhos e as ruas passavam feito borrões. Os olhos dela, transbordavam medo assim como os dele.
— Ja estamos chegando. Rafael garantiu apertando o volante com força e evitando tirar os olhos da estrada.
Estacionou de qualquer jeito e correu com ela nos braços.
— Preciso de um médico. Ela esta gravida. Falou exaltado.
— Aqui. Um enfermeiro surgiu com uma cadeira de rodas e Rafael a colocou ali, acompanhando o passo do enfermeiro. Um médico e outra enfermeira se juntaram a eles rapidamente.
— O que houve? O médico perguntou e Rafael começou a falar, as informações saiam atropeladas da boca dele, enquanto olhava sua esposa palida.
— Faça a ficha dela na recepção. O médico falou para Rafael e se dirigiu ao enfermeiro. _ Vamos leva-la, rapido. Chamou e os dois sairam levando Lorena.
— Por aqui, vamos fazer a ficha dela. A enfermeira indicou com a mão e ele a seguiu automaticamente. Preencheu as informações da mesma maneira. Piscou com a visão embaçada. _ Acabou? A enfermeira perguntou e ele acenou. _ Obrigada. Falou pegando o formulario.
— Minha esposa... Ele disse sem saber como proceder.
— Aguarde um pouco, por favor. Ela ja esta sendo atendida. Assim que tiver noticias, o médico falará com o senhor. Respondeu se retirando com a ficha de Lorena em mãos.
E foi assim que ele ficou por um longo tempo, encarando as portas que o separava dela. Tentou respirar e pensar com clareza, mas o rosto palido de Lorena e seus gemidos de dor, não saiam de sua cabeça.
— Por favor, Senhor que elas fiquem bem. Sussurrou encostando a cabeça na parede. Por favor, não as tire de mim. Seu coração gritou e pela primeira vez, Rafael se viu perdido e sem rumo. Tudo o que fez foi permanecer ali, imovel, esperando. Lagrimas quentes brotaram em seus olhos e ele respirou forte repetindo a oração.
Tentando se manter no controle, discou o numero de Rute informando o que aconteceu e desligou após ouvir que ela estava indo ao Hospital. Fez o mesmo com o numero da casa de seus pais.
— Alô. A voz sonolenta do seu pai atendeu, denunciando que o telefonema o acordara.
— Pai, estamos no Hospital. A Lorena... ela...
— O que aconteceu filho? Ouviu a voz do seu pai do outro lado.
— Ela acordou com muitas dores e corremos para cá, mas ainda é cedo para ela ter a bebê.
— Como elas estão?
— Eu não sei direito. Ela esta sendo atendida e eu estou esperando aqui...
— Vou avisar a sua mãe e estamos indo para ai. Rafael acenou, esquecendo-se que ele não poderia vê-lo e desligou.
Os minutos passaram. Rute chegou, seus pais tambem. Todos buscavam noticias. Abalado, Rafael sentou-se sentindo as pernas tremulas e o coração angustiado e esperou. Ao longe, podia ouvir as vozes preocupadas de sua sogra e seus pais, mas sua mente estava na imagem de Lorena o acordando, sua expressão desesperada.
— Onde você vai? Seu pai perguntou quando ele levantou-se de repente, incapaz de permanecer esperando.
— Preciso de noticias. Não posso ficar esperando aqui parado, sem fazer nada. Falou atordoado e seu pai se colocou a frente dele, notando seu estado.
— Sei que é dificil filho, mas tente manter a calma. Seu pai pediu.
— Preciso saber delas. Pai. Preciso de noticias. Repetiu e seu pai acenou concordando.
— Esta espera tambem esta me matando Rafael. Rute falou ansiosa. _Mas temos que ter fé e acreditar que vai correr tudo bem.
Rafael acenou cruzando os braços e encostando o corpo na parede.
Esperar era tudo o que pediam que ele fizesse. O que demandava mais esforço a cada minuto que passava.
.........................................
— A cirurgia acabou e correu tudo bem. Rafael respirou aliviado como se um peso fosse arrancado de seus ombros.
— Elas estão mesmo bem? Rute perguntou e o médico acenou.
— Sim. Daqui a pouco vocês poderão ve-las. Uma enfermeira vira avisa-los.
— Obrigado Doutor. Rafael falou e ele acenou.
Abraços foram trocados e Rafael suspirou ansioso para ver sua esposa e finalmente conhecer sua pequena.
— Falta pouco agora. Seu pai falou como adivinhando seus pensamentos.
— Sim. Falta pouco. Deu um sorriso ansioso e feliz ao mesmo tempo.
.........................................
Lorena sorriu de leve ao ve-lo atravessar a porta do quarto.
— Oi. Sussurrou ainda deitada na cama. Por ordens medicas, ainda não devia levantar.
— Oi. Rafael falou se aproximando dela. _ Como esta se sentindo?
— Um pouco estranha, mas acho que estou bem.
Rafael se aproximou segurando a mão dela e depositou um beijo ali. Lorena o analisou em silencio e suspirou. Seu semblante preocupado a entristeceu.
— Tudo bem amor. Falou com a voz suave e ele acenou escondendo o rosto na mão dela. Com o braço livre, Lorena começou a fazer um carinho suave em seus cabelos. _ Esta tudo bem. Repetiu.
— Fiquei apavorado. Nunca pensei que a espera fosse tão longa. Revelou ainda com o rosto escondido.
— Eu sei. Tambem tive medo. Ela disse e ele a abraçou com cuidado.
— Nunca mais me assuste assim. Falou serio e ela sorriu devagar voltando a olha-lo.
— Combinado.
Rafael a analisou com cuidado, antes de finalmente baixar os labios e depositar um beijo demorado em sua testa.
— Com licença. Uma enfermeira pediu interrompendo o momento e Rafael se colocou de pé novamente.
Imediatamente, os olhos voltando-se para o minusculo Ser que ela trazia consigo.
— Diz Ola para seus pais, pequena. A Senhora falou com voz afavel e Rafael piscou olhando-a demoradamente. _ Que tal segura-la? A enfermeira voltou a perguntar e ele acenou com a cabeça, sem desviar o olhar dela.
Com cuidado a segurou em seus braços, encantado como a forma que a pequena parecia confortavel ali.
— Estou indo. Aquele é o botão de chamada se precisarem.
— Obrigado. Rafael disse erguendo o olhar e a enfermeira acenou os deixando a sós no quarto.
Quando seu olhar encontrou o de Lorena, um sorriso gigantesco estampava no rosto.
— O que foi? Perguntou interessado.
— Você. Ela disse simplesmente e ele franziu o cenho sem entender. _ Eu passaria por tudo novamente só para ver este seu olhar de pai. Você a olha como se nada pudesse atingi-la. É uma cena linda de ver.
Rafael sorriu e voltou a olha-la.
— Temos que decidir um nome. Falou.
— Eu pensei em alguns. Lorena revelou. _ O que você acha de Rebecca?
— Rebecca. Ele repetiu analisando. _ É um lindo nome. Concluiu.
— Significa União. Gosto dele tambem.
— Então esta decidido. Nossa princesa se chamará Rebecca.
Eles conversaram um pouco mais antes dos avós entrarem e começarem a paparicar a neta recém nascida. A menina parecia espalhar amor por onde passava.
..................................
— Você deve estar exausto. Lorena comentou após o fim da visita. Rebecca dormia silenciosamente no pequeno berçário ao lado da cama.
— Agora que toda a agitação passou, estou cansando mesmo.
— Então durma um pouco. Ela pediu e ele acenou se deitando no sofá de dois lugares que havia um pouco mais afastado.
— Só vou descansar um pouco. Me chama se precisar de alguma, esta bem?
— Sim. Ela concordou tambem fechando os olhos e sentindo o sono a tomar.
Pouco tempo depois acordou com a enfermeira a analisando.
— Precisa de alguma coisa? Ela perguntou ao notar Lorena despertar e ela negou com a cabeça. _ Seu jantar. Indicou com a mão a bandeja.
— Obrigada. Ja posso me sentar? Lorena sussurrou não querendo acordar nenhum dos dois.
— Sim, com cuidado. Orientou e Lorena acenou. A enfermeira a analisou um pouco mais e saiu. Lorena comeu devagar, sem muito apetite e afastou o prato após algumas colheradas na sopa destemperada.
— Só vai comer isso? Rafael perguntou e ela tremeu levemente de susto.
— Não me assusta assim amor. Ralhou baixo.
— Desculpa. Ele pediu se aproximando. _ Esta sem fome? Voltou a perguntar.
— Sim. E você? Não vai comer nada?
.......................................
— Eu tive um sonho. Lorena começou e Rafael a olhou. _ Não sei bem em que momento apaguei com a anestesia e em que momento comecei a sonhar, mas sei que sonhei.
— Com o que? Rafael perguntou totalmente desperto.
— Com um Rio. Um Rio de Vida.
— Como é? Ele perguntou sem entender e ela sorriu.
— Foi este o nome que me veio. Era um Rio com aguas claras, tão convidativas. E nas margens havia plantas e arvores com frutos, como uma especie de jardim, muito lindo. Explicou. _ O mais incrivel era que no começo eu não mergulhei, apenas entrei e senti a agua molhar meus pés, ate meus tornozelos. Então eu caminhei e a agua alcançou a minha cintura. Mas algo ainda não estava certo. Então eu me aprofundei, ergui os braços e mergulhei. Quando subi de volta a superficie, eu estava aqui no Hospital. Como se aquele Rio me trouxesse de volta.
— Por isso chamou de O Rio da Vida?
— Sim. Por isso mesmo. O médico disse que houve algumas complicações. Acho que mergulhar neste Rio, me trouxe de volta. Você acredita?
— Sim. Mas acreditando ou não, você esta aqui e é tudo o que importa no momento.
— Rafael, sinto que deviamos voltar. Voltar ao Caminho. Ela falou e ele a olhou. _ É como se fosse uma segunda chance e eu não quero perder esta oportunidade. Quero que nossa filha cresça com princípios firmados na Fé. Eu mesma preciso crescer na Fé.
Rafael suspirou e ela buscou a mão dele.
— Ha muito tempo que eu me afastei de Deus. Mas quando chegamos aqui e ver você daquela maneira, eu orei, eu pedi que vocês duas ficassem bem e acho que Ele me ouviu.
— Sim. Ele Ouviu. Lorena falou emocionada.
— Quando você estiver recuperada, vamos a Igreja. Vamos levar a Rebecca para ser apresentada. Vamos voltar ao Caminho, meu amor. Falou secando uma lagrima do rosto dela e Lorena fez o mesmo com um sorriso contente no rosto.
.............................................
Algumas Semanas Depois...
— Que bom que vocês vieram.
— Tambem acho. Longe, só encontrei medo, insegurança, ansiedade. Estou com Saudades do Abba. Lorena murmurou emocionada deixando algumas lagrimas rolarem por seu rosto. Rafael a abraçou de lado, enquanto Lorena segurava a Pequena Rebeca nos braços. Ambos sentados no sofá, prontos para darem um novo passo em suas vidas. Prontos para entregarem seus corações ao Autor da Vida.
— E Ele de você. De vocês dois. O Abba nunca se afastou, sempre esteve presente. Vocês que se afastaram, mas agora que voltaram os seus corações a Ele, a Palavra Dele, O Abba esta de braços abertos para recebe-los, vocês dois e esta linda princesinha. Sejam bem vindos de volta a Casa do Pai.
FIM!
Fale com o autor