Tempo da Lua
2 Cristais
Os assobios e trinados ritmados se misturam ao som suave e constante da água corrente. A primavera se arrasta lentamente, e os dias estão cada vez mais quentes conforme o verão se aproxima. É o primeiro verão que Dante passará junto aos licanos. O desejo mais profundo do garoto é que também seja o único. A intuição afirma o exato oposto.
Dante fecha os olhos para se concentrar na sensação da água morna lavando os pés. O rio corre ao leste da comunidade, um tanto quanto fora dos limites estabelecidos pela liderança. E por isso é o único local em que Dante pode se esconder nas tardes livres sem ser cotado para uma atividade extra e sem ter que lidar com os nativos. Não tem nenhuma reclamação formal dos nativos. A maioria, naquela altura do percurso, é indiferente. Contenta-se com a posição de estrangeiro e está muito ciente do quão insignificante a nobreza que portava em Florença é naquela região.
(Mas, deuses, como sente falta de ser querido por todos! Analisando agora, não se sabe se era querido ou por méritos próprios ou por ser herdeiro do duque. Dante necessita do aconchego que apenas as melhores mentiras oferecem e sabe que detém uma personalidade admirável!).
(E, pensando bem, mesmo que os servos não gostassem verdadeiramente dele, Dante sente falta de todos. Principalmente de Francisca, que o adulou com muito amor durante toda a vida. Lamenta por Clement também, o tutor francês que fingia grande severidade na frente do senhor da casa, como se Adrian não soubesse a verdadeira personalidade dele).
A atual indiferença não é totalmente cruel. Antes era impossível escapar dos olhos atentos dos servos e do pai, ainda que a convivência deles não fosse agradável. Agora todas as noites Adrian pergunta sobre os dias e ouve com atenção, tentando arrancar o máximo de informações. Dante geralmente é honesto e gentil, o que consola a ansiedade e incerteza do genitor, mas tem entendido porque os adultos gostam tanto de cultivar segredos. (Ele está se tornando adulto? Se sim, é bem diferente do que imaginava).
Dante adentra o rio. A correnteza é suave. Rapidamente encontra a posição ideal para boiar. Daquele ângulo, as árvores que circulam as beiras do rio são mais distantes e densas. É possível ver pássaros e insetos atravessarem o céu com tranquilidade, mantendo a cantoria. O sol atravessou metade do céu e não machuca mais os olhos. Dante enche o pulmão de ar, fecha os olhos e absorve a suave massagem que a água faz no corpo, afastando-o muito lentamente do ponto inicial. Pouco se preocupa porque para retornar basta subir o rio.
As nuvens ganham formas no céu. Dante aponta para o que parece ser uma ovelha e ri sozinho. Depois é capaz de desenhar perfeitamente um gato, um peixe, uma árvore frondosa e um ser humanóide alado. Os olhos pesam, e Dante pisca rápido para resistir ao sono. O corpo perde o equilíbrio, afundando levemente. O garoto enche os pulmões de ar e luta para manter-se acima da água enquanto os membros se tornam mais pesados e lentos aos comandos. A correnteza acelera tão devagar que é imperceptível. Os pássaros e os insetos soam como uma canção de ninar muito agradável. O cheiro de terra molhada, jasmim e citronela enche as narinas. De repente, a música cantada pelos animais é atravessada por risadinhas baixinhas, que soam como mosquitos ao redor das orelhas. Dante tenta afastar, e as risadinhas ficam mais altas.
O esforço para erguer-se da água é notado pelos mosquitos, que se afastam brevemente. Dante pisca várias vezes para enxergar melhor. Porém, todo o mundo ao redor está embaçado. O cheiro de jasmim é tão forte que causa dor de cabeça. Ele nota a correnteza mais densa e falha nas três tentativas de agarrar-se às pedras ao redor. Dante se debate ao sentir o corpo ser empurrado em direção ao rio. Antes da água entupir o nariz e os pulmões, ele nota o céu escuro e extremamente estrelado, a ausência de nuvens e o silêncio incômodo.
“Quem é você, garotinho?”, o mosquito zumbi.
“Garotinho?” Outro zumbido responde, rindo. “É um homem formado”.
“Não, não, não”. O primeiro mosquito responde. “Posso sentir o coração suave”. Dante sente o peito formigar quando o mosquito o toca. “Oh, sim. Algo pesa aqui. Quem é você, jovem homem?”
Dante não usa a boca para responder: “Eu… O que está acontecendo? Preciso voltar! O meu pai…”.
Os mosquitinhos riem.
“Veja como é puro. Chora pelo papai”. As risadinhas estão mais altas. Dante nota que o corpo está completamente imobilizado, e a conversa parece acontecer dentro da cabeça. “Diga o seu nome”.
“Dante”.
“Não é um filho da lua”.
“Não totalmente. Se fosse, saberia onde está. E nunca diria o nome!”.
“Onde eu estou?”
“Você está no melhor lugar da terra, Dante. Aqui todos os seus desejos podem ser realizados. Qual o seu maior desejo? Por um pequeno preço, posso torná-lo realidade.”.
“Eu…” Dante tenta elencar os desejos mais importantes, e a tristeza muda a energia ao redor. “Infelizmente não podem. Meu desejo está morto”.
“E não deseja mais nada?”
“Não sei o que desejo”.
“Veja só?! Eu disse. É apenas um garotinho. Um homem completo teria uma grande lista”.
Dante sente a aproximação dos mosquitos.
“Tenho certeza que almeja algo”.
“O que vocês são?” Dante pondera, “Digo, se quiserem falar…”
Elas riem.
“Podemos escolher?”
“Ah,” Ele pensa, “Mais do que eu, acredito. Não sei. Talvez eu esteja morto. Eu estou? Eu morri no rio?”
“Você gostaria de morrer no rio?”
“Não. Seria péssimo. Mas também não é o pior lugar pra morrer, não é? Acho que nunca pensei nisso antes. No lugar pra morrer. Se aquela foi minha última visita, estava bem bonito. Mas espero que não esteja morto. Eu não posso estar morto, na verdade. Acho que os meus pais não suportam perder mais um filho”.
“Quem são os seus pais?”
“Ah. Vocês não conhecem. Talvez eu esteja sonhando. Eu estou?”
“Tem certeza que não quer pedir nada?”, o mosquito mais sério inquire.
“Eu gostei dele. Podemos mantê-lo?”, a outra voz soa como um sino suave, “Talvez seja a hora de cobrarmos o povo da Lua”.
“Ele não é um filho da Lua”.
“Povo da Lua? São os licanos?”, Dante fica muito curioso e é ignorado.
“Se não é um filho da lua, é um garoto perdido. Melhor ainda. Não precisamos dar nada em troca”.
“Para que ficaríamos com um humano? Além disso, não podemos ficar com ele sem que exista uma troca”.
“Não precisamos de um humano. Sei disso. Só… Não sei. Só sinto falta de algo diferente”.
“Você apenas quer um bichinho de estimação, irmã. Se ao menos cuidasse do bichinho a longo prazo, tudo bem. Mas em poucas semanas vai enjoar dele. E o que faremos?”
“Devolvemos”.
“Será tarde. Ele já terá visto muito”.
“Bom, depois poderíamos…”
“Não seria justo. Nenhuma infração contra nós o humano cometeu. Isto fere a lei.” O mosquito que soa como sino reclama. O mosquito mais sério completa: “E ele ainda não pediu nada. Vamos devolvê-lo logo”.
“Tem certeza que não deseja nada, Dante?”
“Não desejo”.
O sino fala:
“Ainda assim, te deixarei um presente. Caso mude de ideia, conseguirá vir até mim”. Dante tem a impressão de estreitar os olhos. O ser ri: “Não tema. Meu preço é justo. Cobrarei o equivalente ao que me pedir. Nada mais. Nada menos”.
Dante desperta na orla do rio, entre cascalhos e terra. A mão direita está fechada, apertando dois quartzo transparentes, extremamente comuns à região. O corpo está pesado, e os olhos lutam para permanecerem abertos. O dia finda no horizonte; tons rosados decorando o céu. Virar o corpo demora muito. Dante encara o céu, enche os pulmões de ar e lembra-se da terrível sensação de ser arrastado e afogado pela correnteza, que era morna e insignificante. Os zumbidos dos mosquitos agora parecem improváveis, certamente fruto do cérebro desesperado e do corpo inerte. Ainda assim, a mão direita aperta os dois cristais com devoção. Ele encara as pedras transparentes, brutas e pouco belas, sem entender em que momento as agarrou. Ao sentar-se, considera devolvê-las ao rio. O zumbido suave no ouvido o aconselha a mantê-los. Inerte, aceita a sugestão.
(...)
As pontas dos dedos percorrem a pele nua com cuidado, principalmente na região em que o fogo foi verdadeiro algoz. Embora esteja cochilando, Sylvia sibila toda vez que as cicatrizes são tocadas. Madalena franze o cenho e cogita se é possível ainda haver dor depois de mais de dois anos. Não tem interesse em perguntar diretamente à mulher; sabe que a dor emocional pode ser mais dilacerante do que as feridas vivas. Além disso, não quer que Nora volte a ser tópico novamente, já que na mente de Madalena a bruxa é uma perturbação constante.
Sylvia suspira alto e se mexe devagar, anunciando o despertar. Madalena afasta-se para apreciar a cena completa. Primeiro, Sylvia franze as sobrancelhas. Em seguida, esfrega lentamente os pés contra as pernas de Madalena. Ela sorri, negando. O sorriso também surge nos lábios de Sylvia, embora a metade esquerda dos lábios esteja desfigurada pelo fogo.
O olho natural esquerdo não existe mais. O buraco escuro é decorado com uma prótese de vidro que de perto pouco convence. Por isso, Sylvia opta por esconder a pálpebra vazia com o tapa-olho. A região ao redor do olho, incluindo a bochecha, é um amontoado de pele queimada e mal cicatrizada. Por sorte, o nariz não foi afetado porque Madalena sabe que seria inviável viver com a cavidade exposta. A orelha esquerda não teve a mesma sorte; foi totalmente consumida pelo fogo e posteriormente amputada. A pele na região do ombro e do braço esquerdo queimou em menor quantidade; atualmente está coberta por cicatrizes esbranquiçadas. O dedo anelar e o dedo mindinho também foram amputados depois de serem esmagados e posteriormente derretidos no fogo.
— Não gosto que me olhe dormir.
Madalena arqueia as sobrancelhas.
— Por quê?
— Não há nada de bom para ver aqui.
— Tem você.
Sylvia luta contra o sorriso.
— Mantenho o meu ponto: nada realmente bom.
Madalena apoia o tronco nos cotovelos e se estica até que seja possível distribuir beijos pelo rosto e dorso de Sylvia.
— Não seja tola. — Madalena brinca com uma mecha do cabelo de Sylvia. — Eu gosto do que vejo.
— Não precisa ser gentil comigo. Sei a aparência que tenho.
Madalena bufa, revira os olhos e interrompe imediatamente o carinho, sentando-se de costas para a mulher e ajeitando o próprio cabelo. Além de todas as cicatrizes que Nora incutiu no corpo, o longo cabelo louro foi cortado tão curto que quase beira a blasfêmia. Madalena teve a oportunidade, mas não a coragem de questionar se o corpo foi propositalmente maltratado.
O carinho inicia-se no fim das costas, quase nas nádegas, e sobe gentilmente, causando cócegas suaves. Madalena morde o lábio para evitar o suspiro. Sylvia investe nos ombros até chegar na nuca. Madalena pende a cabeça para trás e se odeia por ser tão óbvia.
— Não fique brava.
— Como eu não ficaria? Boa parte do tempo você passa se lamentando.
Sylvia revira o olho que restou.
— Não é um lamento.
— Parece ser.
— Mas…
— Eu não tola, Sylvia. Muito menos cega. Sei o que vejo quando te olho. — Sylvia arqueia as sobrancelhas e segura a respiração. — Não devia sentir tanta pena de si mesmo.
Sylvia cede e senta-se na cama, abraçando-a pelas costas. Madalena para de resistir, se aconchega e pende a cabeça para trás até que Sylvia possa depositar um beijo na testa, afastando o cabelo louro. Elas compartilham um breve sorriso.
— Você costumava ser mais arisca. E menos verbal.
Madalena solta o ar pelo nariz.
— E como eu não seria? — Sylvia balança os ombros, apoiando o queixo no ombro dela. — Eu nem mesmo sabia que era possível aquilo acontecer. Eu estava adormecida dentro do meu próprio corpo enquanto… — Ela para de falar quando a frase pede a citação. — De repente, me vejo vagando por aí como uma assombração, sem saber que estava vagando. Até você me encontrar. É assim que ficamos depois da morte?
— Depende. — Madalena olha para Sylvia, silenciosamente inquerindo. — Depende do quão preparada estava. Almas mais preparadas e experientes tem facilidade em concluir a travessia enquanto um número desconcertante de almas ficam presas entre o nosso mundo e o mundo espiritual, vagando muitas vezes sem perceberem que estão mortas.
O arrepio surge na nuca e escorre por toda a coluna. A versão do pós-morte de Sylvia é ainda mais desoladora do que a Igreja apresentava. Madalena cresceu com o futuro muito bem definido: se fosse uma cristã devota e exemplar a sua alma encontraria descanso no céu; do contrário seria convidada a se redimir no purgatório. As piores almas seguiam para o inferno diretamente.
— É como um purgatório.
— Algo assim.
— Como você sabia que eu não estava morta?
Sylvia distribui beijos nos ombros dela e pondera.
— Você vai acreditar se eu disser que é diferente? A energia da alma é diferente. Uma alma que desprendeu-se do corpo mediante à morte física tem uma aparência e até mesmo cheiro diferente. Além disso, eu sabia onde e o que estava acontecendo com o seu corpo. Não foi difícil perceber.
Madalena afasta-se para analisar as meias-expressões de Sylvia. Depois, suspira alto e desiste da conversa. As memórias daquela época não são tão claras. Talvez possam até ser claras, na verdade. Mas Madalena recusa com veemência. Afinal, deitar-se com uma mulher, uma feiticeira, depois de passar toda a vida na igreja é desafiador e inquietante o bastante. Por um tempo, até mesmo foi um grande problema. Embora o desejo e o interesse por Sylvia tenha surgido com extrema facilidade — Sylvia não surgiu naquele mundo desfeita pelo fogo. Ela teve a oportunidade de conhecê-la em toda a glória que ostentava. —, Madalena apenas cedeu aos desejos depois de notar que havia uma grande possibilidade de nunca sair do limbo. Do purgatório.
O encontro inicialmente não foi físico. É assustador notar que as almas delas se entrelaçaram muito antes que os corpos físicos se encontrassem. Ainda assim, Madalena sentiu e deliciou-se com cada toque como se estivesse presente na carne, completamente ciente que nunca sentiu nada parecido com Adrian — que é a única referência de intimidade masculina que tem. E agora é capaz de garantir que nunca sentirá nada, senão algo parecido com asco e muito desinteresse, com os homens.
Contudo, o pensamento não lhe traz a tranquilidade que gostaria. Madalena afasta-se de Sylvia e se arrasta para fora da cama enquanto sente o rosto e o peito queimarem. Sylvia suspira ao vê-la separando as roupas para vestir.
— Fique mais um pouco.
— Você sabe que não posso. — Madalena a olha enquanto ajeita a roupa íntima. — Já estou fora há muito tempo. Nenhuma vigília dura tanto. — A risada que Sylvia dá piora a queimação no corpo. Madalena, de repente, se torna incapaz de encarar a amante. Amante. — Além disso, — Madalena se obriga a falar, raspando a garganta. — não confio naquela gentinha.
— Eles são tão ruins assim?
Madalena não pede, mas precisa de apoio para se vestir: a estrutura inicial, que delimita a silhueta, é impossível desafiadora. O tecido, embora a peça seja simples para combinar com a modéstia esperada nas vigílias, é pesado e firme para garantir a estrutura total da roupa. Depois de calçar os sapatos, o último detalhe a ser adicionado é o terço.
— Sim. — Sylvia estreita o olho, desconfiada. — E não. Mas sim. — Madalena senta-se no banquinho próximo da janela e analisa a escuridão. Precisa caminhar do quarto alugado no pior bairro do centro até a igreja, local que o cocheiro a buscará ao amanhecer. Sempre atrasado porque dorme muito e pesado. — Valentina é uma mulher digna e tola. Devota ao marido e aos filhos. Sente-se grata por gerar herdeiros e por estar com um homem decente.
— Compreensível. Ela tem mais do que a grande maioria.
— Verdade. — Madalena encara as próprias mãos. — Vincenzo é um homem digno, acima de qualquer suspeita. — Ela solta o ar pelo nariz sem perceber. Sylvia inclina a cabeça. — Posso entender porque Adrian devotava tanto desprezo ao primo. — Sylvia fecha a expressão. — Mas ele é bom em demasia. Incapaz de gerir as demandas do ducado. Ele é… — Madalena gesticula. — Não tem a firmeza necessária. A posição também exige uma arrogância bem equilibrada.
— E o que seria arrogância equilibrada? — Sylvia debocha. — Não existe.
— Existe, sim. A arrogância equilibrada exige que, antes de tudo, o indivíduo seja bom no que pretende se gabar. É indispensável na corte, senão nunca será respeitado pelos nobres. A autoridade deve ser reafirmada. Vincenzo não tem esse talento.
— E você parece descrever alguém com tantos detalhes.
Madalena revira os olhos e ignora, prosseguindo:
— Diante da incompetência de Vincenzo, os meus problemas se agravam. Pouco a pouco Valentina cresce como senhora da casa. As minhas ordens estão sendo questionadas pelos servos! — Madalena enfatiza. — É um desrespeito inenarrável! Aos poucos eu sou tratada como uma viúva que foi incapaz de produzir herdeiros e garantir o próprio futuro! E o meu marido nem morto está!
— O seu marido. — Sylvia alfineta. — Às vezes você me soa apaixonada.
Madalena ergue a voz mais do que deveria:
— Não seja tão ridícula, Sylvia. Se você é incapaz de entender, tenha a graça de não debochar. — Madalena ajeita o chapéu no espelho, encarando a amante pelo reflexo. — Quer saber de uma coisa? Eu teria feito melhor uso do meu tempo se tivesse ido rezar.
Sylvia aproxima-se, a abraçando.
— Não seja cruel comigo. — Ela distribui beijos no pescoço de Madalena. — Sou ignorante. Não compreendo as nuances políticas da situação. E ainda acredito que são insignificantes, considerando a vida que podemos ter.
— A vida que podemos ter?
— Longe deste lugar, Madalena. — Sylvia para diante dela. — Você não pensa nisso? — Madalena fecha os olhos quando Sylvia a acaricia no rosto. — Na vida que poderíamos levar em outro lugar? Um lugar em que todas essas preocupações não existissem. Que pudéssemos passar os nossos dias juntas, sem medo de sermos vistas. — O corpo dela é envolvido gentilmente. Sylvia a convence a entrar na dança lenta enquanto beija a mandíbula e o pescoço. — Você poderia ser quem quisesse. Poderia fazer tudo o que desejasse. Não seria mais submetida aos caprichos de ninguém. O que você pensa, meu amor? Vamos deixar toda essa vida para trás?
— Até mesmo Nora?
— Principalmente Nora. Sou capaz de esquecer o que a maldita fez comigo se você for comigo.
Madalena sorri.
— É capaz mesmo?
Sylvia também sorri.
— Eu passaria toda a vida ao seu lado. — Madalena aconchega o rosto na mão de Sylvia. — Morando em uma casinha só nossa. Em um lugar que nosso amor não é vergonha, muito menos pecado. E embora eu não seja uma cozinheira exemplar, garanto que nada faltaria para você.
Casinha. Cozinheira exemplar. O sorriso de Madalena fecha aos poucos.
— Eu também não sou uma cozinheira exemplar. Eu nunca cozinhei na minha vida.
— Pode aprender.
— Aprender? — Madalena ri. — Meu amor, esse é o trabalho de uma serva. Não de uma mulher como eu.
— A vida seria diferente, Madalena. — Ela faz uma careta. — Mas seria boa. Posso garantir que sim.
Muitas perguntas surgem naquele momento. Porém, como o sol está prestes a nascer, Madalena pensa na pergunta mais importante: como Sylvia pode garantir que a vida será melhor?
(...)
A porta e as janelas dos fundos do templo estão abertas. Dante nota a ausência de sol no céu e franze o cenho, procurando por uma explicação aos arredores. Os cristais transparentes pesam no bolso da calça molhada, e as memórias confusas de dois mosquitos conversando são reais demais naquele momento. Ele balança a cabeça e assiste os pequenos insetos voando para dentro do templo, em busca das chamas para se aquecerem. A lembrança de ter adormecido tão profundamente enquanto boiava ao ponto de sonhar é inquietante e vergonhosa na mesma medida. Não sabe como cedeu ao sono tão facilmente; não estava cansado naquela tarde. E não ter se afogado beira ao milagre.
(Deveria contar a particular experiência a alguém, mas não está disposto a confessar tamanha imprudência e muito menos ouvir repreensões que nada valem agora! A ignorância disfarçada de cuidado que os adultos têm incomodam cada dia mais. Dante não suporta outro sermão de Adrian, que cada dia parece muito mais perdido! A mãe talvez pudesse constrangê-lo, mas primeiro deveria aparecer. Nora é tão covarde quanto Adrian, esgueirando pelo mundo com a justificativa de “encontrar a alma de Selena”. Dante evita pensar nisso; não sabe se ou a mãe enlouqueceu ou se a alma de Selena está, de fato, perdida. As duas opções são terríveis! Agora desejaria que todos esquecessem a Selena para que pudessem viver como uma família novamente!).
As lágrimas ardem os olhos. Dante as enxuga enquanto adentra o templo e fecha a porta dos fundos, muito cuidadoso com todos os movimentos para evitar Yanca. Os corredores do templo estão iluminados pelas tochas dispostas nas paredes, na altura da cabeça dele. Várias espécies de mosquitos e mariposas rondam as chamas, emitindo um barulho alto e muito diferente do que se ouvia no rio. Para além disso, a quietude é suspeita já que Yanca tem a mania irritante de arrastar os pés enquanto corre de um cômodo para o outro, como se sempre estivesse prestes a evitar uma morte trágica. O fim do mundo é todo final de tarde para a esposa de Kamel.
— Não fique andando como um ratinho. — A mulher dispara, assustando Dante. — Yanca não está no templo.
Hannah surge no fim do corredor, apoiando-se no batente da porta para sustentar o corpo pesado. A perna encurtada e torta é muito feia e causa lentidão considerável. Dante aproxima-se como um ratinho. A mulher apoia-se no ombro dele imediatamente e exige ajuda para chegar ao quarto.
— Feche as janelas antes que Yanca retorne.
Dante obedece, incerto sobre o atual estado mental da mulher. Eles não conversam desde a noite que Fevzi adentrou o quarto e a obrigou a beber o líquido verde espesso, há mais de seis luas. (Isso é terrível já que a maioria das atividades dele agora são no templo ou para o templo. Não tem certeza de como esse arranjo surgiu. O fato é que todas as pessoas que atuam no templo concordaram com o conselho de Yanca: “Mantenha-se longe de Hannah. Ela enlouqueceu”).
— Onde estão todos?
— É noite do conselho.
Dante cria coragem para sentar-se no banquinho próximo à janela que acabou de fechar. Hannah está na cama; a perna encurtada erguida com a ajuda de vários travesseiros de palha. Ele encara o membro por mais tempo do que deveria, decidindo se é nojento. (Como poderia ser nojento se não há nada que Hannah possa fazer para melhorar?).
— Ah, sim. Me esqueço disso toda vez.
— Não deveria se esquecer. As reuniões são importantes para sabermos o que está acontecendo dentro da nossa comunidade. Também é o momento em que Fevzi compartilha as novidades de outras comunidades e dos nossos aliados.
Dante arqueia as sobrancelhas.
— Vocês têm muitos aliados?
Hannah dá de ombros.
— Alguns, sim. — Dante inclina-se na direção dela. — Você saberia se fosse às reuniões.
— Se as reuniões são tão importantes para todos, por que você está aqui?
Os dois estreitam os olhos.
— Eu não posso ir. — Hannah indica a perna.
— Se este é o problema, deixe-me ajudá-la na próxima reunião.
Hannah estala a língua.
— Você sabe porque não posso ir. — Dante finge não entender. — Quanto tempo está aqui, garoto? Até hoje não sabe que a minha alcunha é A Enlouquecida? — Hannah ri sozinha.
Dante coça a nuca.
— Isso é muito confuso para mim. — Hannah inclina a cabeça. — Agora você não me parece enlouquecida. Você é?
— Se eu fosse, seria capaz de notar? Os insanos não se autodenominam. São vocês que decidem. — Dante desvia os olhos. — Então, o que me diz?
— Me dê um tempo para decidir. — Hannah julga a resposta convincente. Dante observa a perna encurtada. — Isso dói?
— Boa parte do tempo.
— Você… — Ele escolhe as palavras com cuidado. — Nasceu assim?
— Não, é um castigo. — Dante arqueia as sobrancelhas, incrédula. Hannah soa séria quando acrescenta: — Um castigo da Mãe. Aqui… — Ela aponta para a cabeça. — às vezes penso que o que acontece aqui também é um castigo. — Dante encara o chão, molha os lábios e estala os dedos. As perguntas são diversas e sensíveis demais. O silêncio surge. Hannah suspira. — Pergunte.
— O que… — Ele para de falar. — Quem é a Mãe? Isso existe de verdade?
A risada de Hannah começa baixinho e cresce muito rápido. Dante se encolhe. (Pergunta idiota? Hannah é realmente louca?).
— Essa pergunta é tão… — Ela gesticula e cessa a risada. — A presença dela é tão real para nós que questioná-la é quase uma piada. — Dante se encolhe. — Não murche, ratinho. Se aproxime. Vou te contar. — Ele não se movimenta por dois minutos inteiros. Hannah bate no espaço ao lado da cama. — Venha, ratinho.
Ratinho.
— Não quis ofender.
— Não pensei nisso. Sei que você foi criado pelos homens. E a maioria dos homens nega os deuses antigos à favor do novo deus. — Dante cede e senta-se na beirada da cama. — Você sabe como o mundo foi criado? Como as raças foram feitas? — Nora lhe contou superficialmente, mas ele nega porque está interessado em ouvir a versão dos licanos. — Assim contam os mais antigos: Por muito tempo houve a longa Noite. Ninguém sabe como a Noite surgiu, nem mesmo a Noite. Pode ter sido acaso. Ou pode ter sido criada. Tudo o que se sabe é que por muito tempo houve apenas a Noite. E enquanto era Noite, nada mais existia. A Escuridão era muito densa e muito forte. Um dia, a Luz surgiu. Brilhante e quente, acendeu todo o universo. A Luz era expansiva, criativa e bondosa. Logo notou que o vazio escuro não era bom. Então, começou a trabalhar no nosso mundo. A Escuridão não sabia se gostava de tal obra, mas não atrapalhava porque desejava a atenção da Luz. E a Luz também desejava a Escuridão. Dessa união, os primeiros deuses nasceram. A vida, enfim, surgiu. Muitos são filhos da Noite e do Dia, mas os primeiros e mais importantes são: Eris, Iris e Moros.
Então, eles viram que a Terra vazia não era boa. Assim, Eris e a Escuridão criaram as bruxas. Iris criou os seres que hoje conhecemos como feéricos. A Luz e Moros criaram os licanos. Os Primeiros foram ensinados pelos próprios deuses e incentivados a percorrer o mundo e ocupá-lo.
Assim foi feito por muito tempo. As diferentes raças estavam espalhadas pela Terra. Tinham a liberdade de experimentar, criar e também matar. Os deuses se agradaram tanto que conviviam lado a lado com a criação.
Desta forma, a Luz era responsável pela Vida; a Luz era Madora, Mãe de Todos. Assim foi chamada porque trouxe os deuses ao mundo. Nada existiria sem a Luz. E tudo corria da Luz. Contudo, o coração da Noite era escuro até mesmo para o Dia. Irou-se ao ver a atenção que a Mãe de Todos tinha e se afastou da clareza, deitando-se com a própria criação. Da união nasceram os filhos da Noite. Diferente dos deuses, não eram equilibrados pela Noite e pelo Dia. Eram completamente tomados pela Escuridão.
Cheia de ira, a Mãe de Todos também deitou-se com a própria criação. Da união nasceram os filhos do Dia. Tão desequilibrados quanto os filhos da Noite, porque neles havia apenas a luz.
Toda a criação testemunhou o nascimento dos filhos da Luz e da Escuridão. E como a criação foi feita com pedaços dos próprios deuses, rapidamente a carne dos mortais inflou de desejo. Diferentes espécies coabitaram. Os filhos concebidos não eram fortes como os pais, nem mesmo tinham os mesmos dons que os pais. E assim a espécie humana surgiu; uma mistura tão grande de diferentes raças que se tornou uma nova raça. E esse foi o começo do nosso fim. Os seres humanos procriam como coelhos. Poucas centenas de anos foram necessárias para ultrapassar todas as outras raças. E poucas provocações bastaram para que se voltasse contra os antepassados.
Dante pisca várias vezes, impressionado. Hannah suspira.
— E então? Onde estão os filhos da Luz e da Noite? Como você sabe de tudo isso? Você conhece a Madora?
— Eu sou a Sacerdotisa da Mãe. — Hannah pondera: — Bom, ao menos eu era. Todas as Sacerdotisas, independente de onde estejam, conhecem a Mãe. Madora preocupa-se muito com o que criou. Através das Sacerdotisas, a Mãe instrui os povos licanos.
— Você a conhece? — Dante franze o cenho. — Em carne e osso?
— Sim, conheço. Muito mais do que gostaria.
Dante nega com a cabeça.
— Isso não pode ser verdade.
A risada baixinha de Hannah preenche o cômodo.
— Ratinho, você é hipócrita quando insiste em ser incrédulo. — Ele inclina a cabeça. — Você conheceu a Escuridão em carne e osso.
Dante arregala os olhos. O tremor surge na nuca, criando suor frio por todo o corpo. Ele fecha as mãos, desvia os olhos e arranha a garganta várias vezes. Hannah exibe um discreto sorriso, especulativo.
— Como sabe disso?
Hannah enche os pulmões cansados.
— Mesmo quando não desejam, os deuses marcam os mortais. — Dante arqueia as sobrancelhas. — Não se preocupe. A maioria nunca notará a assinatura dos deuses. E quase ninguém sabe sobre isso aqui. Inclusive, o seu pai tem sido bem discreto sobre a vida pregressa. É claro que Yusra sabe a verdade, assim como Fevzi. Mas é importante que sejam discretos. A comunidade é tão devota à Madora ao ponto de se ressentirem com todas as bruxas. As bruxas estão em decadência, certamente. Mas a sua mãe fez um esforço para manter a categoria em alta. — Dante abre a boca para questionar. Madora responde: — O anel. — Dante observa o anel no mindinho, feito por Nora para impedir a transmutação de Adrian por anos. É um anel de ouro discreto com o brasão da família Palucci estampado no rubi. — Irradia a magia da bruxa o tempo todo. Sabe o que foi necessário para criar esse anel? — Ele nega. — O nosso sangue.
Dante desvia os olhos, incapaz de responder. Hannah deixa a conversa pairar no ambiente.
— E você, a Sacerdotisa da Mãe, está me contando tudo isso.
Hannah suspira bem alto e tosse.
— Madora não é mais minha mãe. — Ela aponta para a perna. — Você é amado por sua mãe. Então, me diga: a sua mãe faria isso com você? — Dante nega veemente. — Exatamente. Nenhuma boa mãe faria isso.
Dante molha os lábios, esfrega as têmporas e organiza todas as dúvidas. Todavia, a porta dos fundos range ao ser aberta. As vozes preenchem o corredor, silenciando todos os insetos. Dante toca as pedras dentro do bolso. Hannah acompanha a movimentação e apressa-se para dizer:
— Volte depois, Ratinho.
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