1188

— Vocês ao menos tentaram?

A risada áspera preenche a choupana por longos minutos. Floare movimenta-se arrastando os pés e empurrando o que atrapalha o seu percurso. Os utensílios usados para o preparo do jantar também sofrem com a ira da velha mulher. Nora mantém-se sentada próxima a janela, tentando sentir a primavera em sua carne como faz todos os anos. Desta vez, tudo é diferente.

— Agora consigo entender a preferência de Bryda… — Nora desvia os olhos do exterior e encara Floare com repreensão. A ofensa pouco atribula Nikita. — O que pensa, garoto tolo? Pensa que estamos à merce desse sofrimento como ovelhas ansiosas pelo sacríficio?

Nikita se encolhe. Floare o encara como se esperasse por um pedido de desculpas. O pedido não acontece, e Nora volta a observar o exterior. Em particular, conforme o dia põe-se lentamente, Nora interessa-se sobre a mudança de comportamento dos excêntricos passarinhos na gaiola pendurada na varanda.

Os pássaros de Floare são cantantes durante as primeiras horas do dia, animando-se com as possibilidades sem perceberem que continuarão presos por mais um dia — e por toda a vida. Se ela fosse um pássaro rapidamente se deprimiria com a repetição dos dias na gaiola. A esperança, ou a tolice, são fortes fundamentos aos oprimidos, porém.

O canto retorna ao final dos dias; quase como um louvor aos deuses. Antes de escurecer, as pobres aves parecem ter poucos instantes de clareza e tornam-se agitadas por suas miseráveis vidas. O barulho das asas batendo contra as grades de madeira é alto e inquietante. Não há canto, nem choro. Há apenas a tentativa feroz de escapar.

— Até mesmo estacas encantadas?

— Até mesmo as cruzes. — Floare responde. — Não há nada que ainda não tentamos. Acha que pediria ajuda a Bryda se houvesse algo a ser feito? — O silêncio é a resposta. — Nada funciona contra esse nosferatu. Ele é diferente. É o primeiro entre todos. O mal começou com ele e é ainda pior com ele. — Nikita silencia-se também, absorvendo a dureza das palavras. É uma condenação, afinal. — Faça-me, ao menos, garoto, um favor… Pegue os passarinhos.

Nikita é prestativo. Em poucos instantes a gaiola dos pássaros é retirada da varanda. O comportamento das aves ainda é errático quando adentram à cozinha. Os dois pássaros insistem em alçar voo, e a gaiola é uma prisão simples e efetiva.

— Eles são sempre assim? — Nikita questiona. — Não parecem dóceis.

— E deveriam ser? Estão presos o dia todo.

Ele estreita os olhos, e Nora finge não perceber a tensão surgir.

— Qual o sentido de mantê-los, então? — Floare toma a gaiola de Nikita e conversa com os pássaros em sua língua materna. Nikita percebe que não terá respostas e retorna ao principal assunto: — Se esse nosferatu é diferente de todos os outros, o que há de ser feito? — Ele estreita os olhos. — Bryda sabe muito bem o que acontece nesse lugar estranho. Mesmo assim, insistiu para que viéssemos. E para quê? Se ela não foi capaz de solucionar o problema antes, como nós poderíamos agora? — Floare para de conversar com as aves e encara Nikita. Ele firma o maxilar e a testa franze. — A senhora parece saber menos que nós. Não tem nem ao menos uma sugestão. — Nikita coça a barba e debocha: — A menos que a senhora espere que a minha irmã ceda com tamanha benevolência.

— Eu o faria, se pudesse. Sangraria tudo o que corre pelas minhas veias se fosse o suficiente para livrar todo o meu povo dessa maldição.

A gargalhada de Nikita é irônica e escandalosa.

— Quão tola a senhora é! — Ele esbraveja. — Acredita mesmo que o seu demônio se contente com uma taça de sangue? E a senhora nem mesmo pondera nas intenções dele? — A distância entre eles se encurta conforme Nikita se irrita. Nora está pronta para intervir, mas deseja ouvir a resposta da anciã também. — E mesmo que a taça fosse o suficiente, mesmo que o sangue fosse insignificante, isso nunca vai acontecer. Se você está disposta a sangrar até a morte pelo seu povo, que sangre! Minha irmã não derrubará nem uma gota por vocês. E mais do que isso: eu sangraria cada um de vocês para evitar isso.

O rosto enrugado da anciã a trai por instantes. Antes que Nikita possa perceber e retrucar, Floare comenta:

— Eles não vivem presos desta forma. — Ela posiciona a gaiola na sala. — Do contrário, eu permito que passem todos os dias livres lá fora.

Nora franze o cenho.

— Como faz isso?

Floare dá de ombros.

— Mantenho as asas sempre curtas. — Nora estreita os olhos. — Eu permito que eles andem. Não permito que voem.

Nikita abre e fecha a boca várias vezes até ter a resposta adequada:

— Não finja haver alguma gentileza nisso. — A repreensão é severa. — Ainda é uma prisão.

1545

Os tapinhas no rosto são suaves como plumas. Ainda assim, Nora geme e encolhe o corpo como se pudesse fugir do toque de Lucien. Os olhos permanecem fechados. Não adianta abri-los se tudo o que vê é sangue.

— Minha senhora… — A cordialidade a surpreende. Nora se esforça para ver quem a toca. A figura feminina, baixa e gorda, quase lhe parece novidade. São momentos significativos até lembrar-se da serva de Lucien. — Eu imploro, seja rápida.

O copo é mantido próximo a boca de Madalena. Ela observa o líquido e afasta a cabeça, supondo o sabor insuportável do vinagre.

— É água. — A mulher comenta. Nora a encara, desconfiada. — Eu juro, minha senhora. É água.

Os braços ainda estão suspensos e distendidos, e Nora não ousa tentar mover-se devido a intensa dor. Os tornozelos estão inchados e preenchem as correntes, e as pernas não parecem mais compor o corpo frágil de Madalena. A dor é tão forte, misturada às ausências febris e cada vez mais frequentes, que Nora usa a última gota de saliva para duvidar:

— Você é real?

A paciência da serva termina, e o copo é empurrado contra os lábios ressecados e machucados. O líquido é fresco e queima quando desce a garganta. Nora se engasga porque é a primeira vez que bebe água desde que chegou. Não é capaz de ver o corpo de Madalena, mas o sente ressecado, endurecido e quase sem espírito nos últimos dias. Ou horas.

As sessões de Lucien não são tão frequentes quanto antes. A força do padre parece ter cessado também. Por outro lado, quando o servo de Deus está inspirado, as crueldades são mais longas e duras. Ou talvez o corpo esteja, finalmente, incapaz de suportar qualquer excesso.

A dor é uma constante tão intensa que Nora não sabe mais diferenciá-la. Após tantos dias, ou seriam meses, é a única coisa que ainda sente. E a percepção torna-se cada vez mais falha conforme as memórias retornam com tanta vivacidade.

Não são como sonhos, porém. Se Nora ainda pudesse sonhar, ela gostaria de sonhar pela última vez com os filhos e Adrian. Gostaria também de ver Revna pela última vez. O que ocupa a sua mente são memórias estranhamente claras e tão intensas que parecem adormecer por poucos momentos os excessos de Lucien.

— Trarei algo para comer. — A mulher promete. Nora duvida. — Algo que consiga engolir sem dificuldade.

O sorriso que restou à Madalena é perturbador porque quando Nora o força a senhora se encolhe e desvia o olhar.

— Por quê? — A serva afasta-se, saindo do círculo mágico com cuidado. Nora observa o movimento com o resto de percepção que lhe resta, atentando-se para a barra extremamente longa e suja do vestido dela. — Diga-me o porquê!

Nora surpreende com a força que a exigência escapa de sua boca. A serva desvia os olhos, encolhe os ombros e suspira alto. Nada é dito, e Nora grita pela presença da mulher por muitos minutos após ela sair do cômodo, trancando a porta.

Os lábios se umedecem de novo, e a boca é preenchida por gotas d’água salgada. As lágrimas são breves e severas. Nora ergue o rosto para o céu e ri do breve pensamento que lhe ocorre. Os escritos bíblicos narram Jesus entregando o espírito ao Pai após um sofrimento indescritível. Naquele instante, com os ombros deslocados, a pele ferida, os membros inchados e alguns dentes ausentes, Nora desconfia que o seu calvário é tão intenso quanto o de Jesus. No entanto, não há para quem entregar o seu espírito. Se Revna tiver razão, a alma de Nora não terá descanso e reencarnará em breve. O pensamento a aflige brevemente. Nora morreu há sete anos, mas a sua alma não reencarnou. A maldição teria, enfim, acabado?

Pouco importa, ela usa os últimos segundos de lucidez para decidir que não morrerá antes de Lucien.

***

— Ora, — Nora se esforça para falar. A tosse surge. Ela desconfia que o corpo esteja cedendo à exposição das baixas temperaturas. O tronco queima quando a tosse cessa. — Não diga que se esqueceu de mim. — O deboche é a única arma que lhe restou. Também é uma tentativa de provar para si mesma que não está cedendo à insistência de Lucien. — Temo que tenha pensado que poderia me deixar para morrer! Que infortúnio o seu. Aqui permaneço eu. Mais tempo do que o seu Jesus.

A blasfêmia não o incomoda desta vez. Lucien senta-se à mesa e trabalha em silêncio por um tempo considerável. Nora mantém os olhos fechados porque a claridade do dia machuca a visão. Porém, o som de ferramentas de metal sendo movimentadas sob a madeira é característico. Ela suspira porque presume que o padre esteja novamente inspirado para outra sessão, como gosta de chamar.

— Diga-me uma coisa, padre… — Nora recomeça. A cadeira se arrasta, e os passos são pesados. Instantes depois, Nora sente a presença dele dentro do círculo. O corpo nu e desfeito de Madalena quase não reage mais. Nora luta para abrir os olhos e o encarar. — Se pretende me matar, responda-me essas perguntas…

Lucien movimenta as correntes, embora seja impossível esticá-las mais, correndo o risco de estourar o gancho preso no teto. Ele sai do círculo mágico e retorna com um banco alto que se torna apoio para as ferramentas e com a cadeira que compõe o jogo de mesa. Lucien senta-se ao lado do corpo de Madalena, e Nora teme que após tantos dias o padre, enfim, estupre o corpo frágil.

— Fale, demônio.

Nora o encara, notando as pinças dispostas no banco redondo. Ela também nota o castiçal que porta três velas acesas.

— Por quê?

Lucien ri pela primeira vez.

— Por quê?

— Não é a primeira vez que faz isso. E o senhor precisa admitir que não é um trabalho honrado. — Lucien a olha. — Por que continua? Há algum prazer?

— Não há nenhum prazer, demônio. Há apenas dor. E obrigação.

— Obrigação. — Nora debocha. — Que obrigação é essa? — Ela movimenta-se, irritando-se. — Esse é o seu compromisso com o seu deus?!

— Não é honrado, de fato. Mas alguém precisa fazer. — Ele esquenta a pinça nas velas. — Não seria necessário se coisas como você não vagassem pelo mundo, ocupando corpos que não os pertence, desrespeitando a criação.

Nora aperta os dedos dos pés quando desconfia que a pinça aquecida será usada contra o corpo de Madalena. É a primeira vez desde que chegou que uma possibilidade a atormenta.

— Você… — Ela solta o ar pelo nariz. — Você realmente pensa que sou como os demônios que encontrou por aí?

Lucien a olha.

— Não. Não mais. — Ele avalia a pinça e observa o seio esquerdo, próximo a ele, de Madalena. Nora se encolhe quando percebe. — Preciso admitir que além de orgulhoso fui ignorante. Acredite, é ainda mais humilhante reconhecer que você é a pior coisa que encontrei.

Ela não tem tempo nem para organizar os pensamentos. A pinça aquecida na chama é usada contra o mamilo esquerdo de Madalena, queimando a pele. Nora urra antes que o cheiro de carne queimada surja. Lucien aplica força considerável na pinça, afundando o metal contra o mamilo. O sangue escorre ao mesmo tempo que Nora range os dentes.

Enquanto a pinça é aquecida outra vez, Lucien entoa a reza do exorcismo. A pinça se aquece com rapidez e é novamente usada no mamilo. O cheiro de carne queimada é um dos piores cheiros que Nora sentiu. Ela urra conforme o mamilo é desfigurado.

Não há voz para ironias, nem blasfêmias. O que lhe resta são uivos altos. Lucien mantém-se conservador em sua tarefa, desfazendo aos poucos todo o mamilo de Madalena com as pinças disponíveis. Nora geme, urra e treme. O suor escorre pela testa, nuca e costas. O sangue mistura-se com o mijo que cai entre as pernas. Ela range os dentes, morde os lábios e chora.

A pele que compunha o mamilo esquerdo cai no chão, e Nora urra quando visualiza a ferida. Ela chora, treme e geme. Lucien esquenta a pinça novamente enquanto reza como se não estivesse mutilando todo o seio de uma mulher jovem. O horror a preenche com tanta força que o choro torna-se incontrolável. Em sua língua natal, Nora amaldiçoa Lucien. E o padre pensa que a mutilação está funcionando para arrancá-la do corpo de Madalena.

Nesse momento, Nora gostaria que funcionasse. Porém, a sua alma parece colada ao corpo. Mesmo se quisesse, não sabe como sair do corpo. Revna lhe ensinou muitas coisas, mas não isso. E ela sente tudo. Ela sente o sangue escorrer, e o cheiro nojento de sangue, pele queimada e urina. O suor escorre por todo o seu corpo, a deixando ainda mais imunda. Todos os membros que foram esticados são sentidos também. Até mesmo as feridas feitas no primeiro dia se abrem e sangram.

— Se afaste! — Nora grita com o resto de voz que tem. — Saia de perto de mim!

Lucien, contudo, reza mais alto. A pinça é vermelha devido ao sangue e fede tanto quanto todo o resto. Os braços e pés estão presos pelas correntes, mas Nora movimenta o tronco com toda a força que restou. Ela urra quando os membros lesionados doem e puxa mais os braços em direção ao tronco, balançando o corpo que antes estava parado, tenso e suspenso.

O barulho das juntas estalando se misturam ao crepitar das velas. A dor dos pés nem se compara à queimação que ocupou o peito esquerdo. Por isso, Nora também puxa as pernas em direção ao tronco. Incapaz de mirar com o movimento do corpo, Lucien abandona a pinça e tenta mantê-la quieta para, então, arrancar todo o seio.

Após tantas sessões intensas, tantos machucados e outros abusos, não resta muita disposição e energia para o corpo. Na alma de Nora, todavia, arde algo mais antigo e severo que os absurdos cometidos por Lucien. Além do evidente sofrimento causado pela mutilação, o tronco queima com a densidade que parece pressionar o seu corpo. As palavras que escapam da boca de Nora não pertencem ao idioma usado no ducado italiano, nem mesmo pertencem ao idioma inglês, comum entre os viajantes, ou a língua do seu povo.

Embora nunca tenha ouvido as palavras ríspidas antes, os significados surgem em sua mente. Aberração seja aquela que com maldade me alcança. Nora não atenta-se muito ao que é dito porque o corpo de Madalena é invadido por espasmos severos e febris. Ela pende a cabeça para trás enquanto as palavras soam em uma voz que não pertence à Madalena ou à Nora. Ela sente os olhos girarem nas órbitas e se virarem para trás.

Lucien desiste de segurar o corpo e cai no chão, trêmulo.

Maldito seja os passos daquele me toca sem permissão

Em nome do que vem, em nome do vai,

Pois em seus dias não haverá luz,

E em suas noites não haverá sono,

Em nome do que vem, em nome do que vai,

Em sua boca haverá fome,

E em seus pés faltará equilíbrio,

Aberração é aquele que me atravessa,

Para a sua alma descanso não há

O gancho do teto cede às convulsões, e o corpo de Madalena desabafa no chão. Nora escuta a cabeça bater contra o chão em um barulho oco antes de perder toda a consciência.

1188

Os passos pesados de Nikita incomodam até mesmo os mortos. Nora, porém, não desvia os olhos das cascas secas de árvores que utiliza para escrever. A concentração dela parece o perturbar ainda mais. Suspiros e resmungos baixinhos são adicionados à inquietação do irmão gêmeo. Conforme a tinta, feita à base de ervas e o próprio sangue, seca, Nora toca a casca e sente a magia fomentando-se.

— Essa é a coisa mais esquisita que já fez. — Nikita junta as palavras, enfim. — E você já fez muitas coisas esquisitas.

— Não há nada mais poderoso que o sangue. — Nora murmura, e Nikita se encolhe. — Você está mais ansioso que o normal.

Ele se aproxima rapidamente. Nora deixa a pena descansar em cima da mesa.

— E como eu não poderia estar?! — Nikita gesticula com ênfase. — Que merda é essa, Eleonora?

Ela levanta-se e afasta-se alguns passos, visualizando por completo o trabalho no qual debruçou-se desde a madrugada passada. Os desenhos, que levemente se assemelham às runas, são letras que compõem um alfabeto desconhecido por ambos. Nora não finge identificar a língua, mas também não deixa de compreendê-la. Cada desenho que forma a frase lhe é estranhamente familiar.

— É uma magia. — Nora mordisca a ponta dos dedos. — Uma maldição. — Nik a encara e cruza os braços, impaciente. — Preciso que confie em mim. Não me olhe assim. — Nik aproxima-se das cascas de árvore com cuidado. Ele as toca e assusta-se quando sente a magia antiga contida em cada símbolo. Nora lhe oferece um típico sorriso que beira o orgulho e presunção. — Não vejo outra forma de lidar com o nosferatu. Até agora ele é incapaz de morrer.

— Tudo morre.

Ela concorda.

— Eu sei. Até os deuses. — Nikita franze o cenho. Ela percebe que está repetindo as palavras do conde. — A proposta que me foi feita tem data fim. Sete luas. — Nora mostra três dedos. — Isso é o que temos agora. Eu adoraria me debruçar sobre tudo o que a humanidade produziu para entender mais esse demônio, — é uma irônia. — mas o tempo não nos permite. E eu não sou mártir como Floare é capaz de supor. Também não sou tola. Aquela coisa não se contentará com uma taça. E mesmo que o faça, o que ele fará com o meu sangue?

Nikita permanece quieto e pensativo. Nora afasta-se para buscar um pouco de hidromel.

— Bryda não lhe ensinou isso. — Nik soa severo. — Me diga, minha irmã. Não porque eu a repreendo, nem porque duvido do que me mostra. Me diga porque minha preocupação é capaz de me matar.

Nora desvia os olhos e bebe o hidromel. Nikita aproxima-se, tocando-a na marca de nascença presente no cotovelo direito. Nikita tem a mesma marca no cotovelo esquerdo, e a mãe sempre disse que eles eram ligados por aquele detalhe. Ela relaxa os ombros, deixa o copo de hidromel e aproxima-se das cascas secas do cedro.

— Isso não vem de Bryda. Acho que ela nem saberia o que é. — Nikita mantém-se parado e questionador. Nora apoia os quadris na mesa e gesticula. — Não posso mentir para você. Não tenho certeza de onde vem. — Ela desvia o olhar e mordisca os lábios. — Eu sonhei com tudo isso. Aqui, — Nora toca a testa. — não faz sentido. Mas aqui, — Ela demonstra o resto do corpo. — parece ser a única coisa que sei.

Nikita desvia os olhos, suspira alto e gesticula. Nada é dito. Não é necessário. A desaprovação é latente. O silêncio é sufocante. Nora anda pelo cômodo como se pudesse fugir. Quando não consegue, apoia-se na janela e encara a lua que se torna cheia aos poucos. O apogeu será em três dias, e ela não acha que é uma coincidência. O conde se intitulou como um antigo feiticeiro e não pode ser ignorante sobre o significado e influência das luas.

— Às vezes você me faz miserável.

Nora arregala os olhos e o encara. Nikita agora está sentado na cadeira, apoiando o cotovelo na mesa.

— Não vejo como pode me machucar mais.

— Nem eu. — Ele afunda o rosto nas mãos. O silêncio perdura. — Às vezes me pergunto sobre quem conheci primeiro. Você ou nossa mãe. Mesmo que a resposta seja apenas suposições, sinto que você veio primeiro. Não compartilhamos apenas o desenvolvimento, mas toda a vida. E, ainda assim, Eleonora, ainda assim, às vezes sinto que somos feitos de coisas totalmente diferentes. Às vezes olho para tudo isso… — Ele mostra os símbolos. — E percebo que há mais coisa em você do que há em mim.

Nora esfrega o dedo polegar contra a soleira da janela.

— Eu não sei se tem razão. Não sei se existe mais em mim. — Ela o olha por cima do ombro. — Mas se existir… Pode me perdoar?

Ele solta o ar pelo nariz e inclina a cabeça.

— Não tenho que perdoá-la. Não comete nenhum erro. Eu só… — Nikita levanta-se e anda sem rumo. — Tenho medo. Tenho medo de não alcançá-la mais. Tenho medo de perdê-la. E você… — a voz embarga. — é a minha melhor amiga.

Nora o encontra com um abraço gentil e infeliz também. A suposição do irmão a enche de angústia. Se dentro de si não existe apenas quem é, o que mais existe? Não é nem mesmo capaz de supor se o que arde em seu sangue é bom ou ruim. Ela sente as lágrimas escorrerem, mas não deixa que Nikita perceba. Por um instante, Nora considera se esconder na floresta e chamar pela escuridão, implorando que ele sussurre alguma resposta. O desejo morre tão rápido quanto surgiu.

— Ao menos pode me dizer o que isso significa?

Nora afasta do irmão e observa as cascas de cedro.

— Não somos capazes de matá-lo agora. — Ela inclina a cabeça. — Mas ainda será uma prisão.

Notas finais
Vamos as curiosidades: Nikita é um nome masculino, embora o Elton John tenha feito um bom trabalho ao nomear uma mulher. Nosferatu não é nome próprio, é uma palavram romena para vampiro. E eu amo. A lenda de nosferatu aqui é uma mistura do original (Dracula) com outras produçoes como o Nosferatu 2025 e simplesmente a minha criatividade. Tento ser o mais discreta possível nas cenas de Nora e Lucien porque não tenho verdadeiro interesse em tornar isso gráfico demais. Eu juro que está nos finalmentes. Me deixem saber o que acham!