Apesar de boa, o sir. Bianchi não parece convencido com a avaliação que ele mesmo conduziu. O corpo de Madalena continua sentado no recamier diante da cama. O quarto utilizado para avaliação pertence a Adrian e é muito mais elaborado que o dormitório que Madalena ocupa. O mero detalhe enoja Nora; a abnegação excede até mesmo a devoção de grandes figuras católicas. Madalena a lembra de Sylvia. A dedicação de ambas deveria ser admirável. Nora não se convence, porém. E infelizmente. Seria mais fácil nutrir qualquer resquício de afeição por elas.

O médico aproxima-se outra vez, apalpando as costas expostas de Madalena. A parcial nudez não constrange Nora, nem mesmo os toques do médico. Embora não admire o profissional, o sir Bianchi nunca foi desagradável. Adrian e Ginevra sentem-se de outra forma porque movimentam-se e resmungam coisas inaudíveis o tempo todo.

— O senhor está me preocupando. — Lady Conti fala. — Há algo de errado?

O sir. Bianchi busca o caderno, relendo as anotações. Nora permite que Adrian a ajude com o vestido.

— Não. — O médico encara a Lady Conti. Adrian estreita os olhos para Nora. — Sua Graça aparenta saúde invejável.

Lady Conti aproxima-se.

— E qual o problema? O senhor não… — A mulher procura pela palavra ideal. — Não parece estar feliz com a conclusão.

— Não estou infeliz. — Sir. Bianchi murmura. — Minha senhora, me perdoe se não lhe dou a notícia com alegria. A situação é tão surpreendente que mal encontro as palavras. — O médico aproxima-se de Madalena outra vez. Adrian permanece próximo, quase vigilante. Nora ainda ferve por ele em muitos sentidos, raiva essencialmente. — Vossa Graça não se lembra de nada das últimas semanas? — Nora confirma a mentira. — E ela esteve ausente desde a última vez que nos falamos? — A pergunta é direcionada a Adrian. Ele confirma. — Impressionante! E intrigante.

— Por Deus! — Ginevra lamenta. — Sir Bianchi, preciso que me diga o que está pensando. O meu coração palpita com todos esses sussurros.

O médico junta todas as ferramentas sem pressa. Nora suspira impaciente. Adrian está quieto externamente. Nora o conhece o suficiente para supor que ele pondera em todas as possibilidades.

— Como eu disse, Lady Conti, estou tão impressionado que me falta as palavras corretas. — Outra pausa dramática. — Da última vez que visitei a Sua Graça, presumi o pior desfecho. O pulmão estava barulhento e os sinais vitais não eram tão fortes. Sua Graça parecia prestes a descansar.

— Que Deus te perdoe! — Lady Conti o repreende. — Minha irmã está bem!

— Perfeitamente. E é isso que me perturba. Não consigo supor como a Sua Graça se recuperou. Ainda mais que esteve ausente nas últimas semanas. Onde a Sua Graça estava? E quem cuidou tão bem dela ao ponto de curá-la? É ainda mais perturbador que a Sua Graça não se lembre de nada. Ora! — O médico nega. — Me alegro com a recuperação total da Sua Graça, mas não entendo como. Não mesmo. Eu estava prestes a…

— Nosso Senhor age de formas surpreendentes! — Adrian interrompe. Nora o encara e quase ri. — Me poupou de outra perda, isto é. Não vejo motivos para nos preocuparmos já que o senhor mesmo nos garante que Madalena está curada.

— Vossa Graça tem razão. Ainda assim…

— Meu senhor, como eu disse: Deus age de formas incompreensíveis. Não devemos questionar ou duvidar. É tão desrespeitoso que beira à blasfêmia.

Sir. Bianchi abaixa a cabeça, concordando. Adrian gentilmente convida sir. Bianchi e Lady Conti para se retirarem do quarto, argumentando que Madalena precisa descansar. Ginevra resiste até que o médico a convença. Nora os assiste sair do quarto, e Adrian tranca a porta para garantir confidencialidade.

— Quando tornou-se esse católico fervoroso? — Nora debocha. — Nosso Senhor age de formas misteriosas. — Ela o imita, rindo. — Estou quase comovida, Vossa Graça.

— Sou católico desde o ventre de minha mãe. Não sei por que se surpreende.

Nora revira os olhos e levanta-se, andando pelo quarto.

— Não sabe professar uma reza completa.

Ele escora-se na cômoda, cruzando os braços.

— Não, não sei. — Adrian balança os ombros. — O sir Bianchi está impressionado com a sua recuperação. Tão impressionado que não pararia de fazer perguntas. E eu não sei se “bruxaria” seria a melhor justificativa, até porque você é uma católica devota.

Nora mexe em algumas gavetas sem procurar nada em específico.

— Vossa Graça tem razão. — Ela imita o sir. Bianchi. — Madalena é uma mulher devota. A decoração da casa deixou isso bem claro. O que ainda me impressiona é a união de uma mulher com coração tão puro com um pecador tão óbvio. Ela sabe quem você realmente é? Ela sabe o que você realmente é?

Adrian solta o ar pelo nariz.

— Não, claro que não. — Adrian gesticula. — Madalena não é o tipo de pessoa que acredita nisso. Ela pensa que tudo isso é… — Ele silencia-se, procurando pelas palavras. — Histórias antigas. Lendas, talvez.

— Ainda não entendo o que vocês têm em comum. Afinal, você definitivamente não é uma lenda.

Adrian dá de ombros e desvia os olhos, pensativo. Nora aguarda uns instantes. São muitas perguntas pendentes e muitas discordâncias.

— Mas eu não sou como você, Eleonora. — Ela arqueia bem as sobrancelhas. Adrian nega com a cabeça várias vezes. — Não sou e nunca fui tão convicto sobre o que sou. Não sei porque parece surpresa. Eu nunca escondi como… essa condição me trouxe apenas sofrimento. Eu nunca escondi isso. Nunca menti.

— E também nunca fingiu ser como eles.

— E nunca fingi ser diferente. — Adrian franze o cenho. — Eu não sou como você ou como os meus antepassados. Eu não cresci orgulhoso de ser assim. Por muito tempo, por muitos anos, eu nem mesmo sabia o que eu era. Todas as luas cheias… — Adrian faz uma pausa. — Me pergunto se Marco percebia. Ou se Marco sabia. Foram muitos anos sem entender o que estava acontecendo. Por muitos anos, todas as noites de lua cheia eram apenas sonhos intensos e cansativos. — Nora para de revirar as gavetas. — E também não sou como eles. Não sou um ser-humano comum. Sei disso. Sou essa… Isso. Uma coisa, uma existência entre dois opostos.

Eles se encaram.

— Por que ela? Por que Madalena? — Adrian encara os próprios pés, ponderando. — Não me diga que é amor, por favor. A única coisa que você tem ao seu favor é a possibilidade de tudo isso não passar de um meio que se justifica no fim. Não me diga que é amor.

— Não é amor. Nunca foi.

Nora sorri incrédula.

— Nunca? Nem por um momento? — Ele solta o ar pelo nariz, e Nora imediatamente percebe com quem Revna aprendeu a irritante mania. A percepção a perturba. Revna estava os observando há quanto tempo? — E o que era? O que é, Adrian? Me faça menos infeliz.

— Eleonora, por Deus, eu…

A conversa é interrompida pela batida intensa na porta. Eles se encaram, e Nora teme até ouvir a voz de Dante. Ela apressa-se para abrir a porta e recepcionar o filho com um abraço apertado e desesperado. Dante a aperta com ainda mais desespero. Ela o acolhe com paciência, acariciando o cabelo do garoto.

— Está tudo bem. — Nora sussurra. — Estou aqui. Está tudo bem.

— Mãe, eu pensei… — As palavras desaparecem.

Nora o acolhe outra vez, o aninhando como se fosse a mesma criancinha que encontrou na floresta. Por um momento é. E ela agarra-se nesse momento. Quando eles se soltam, Dante encara Adrian com o semblante sério. Adrian firma a expressão também.

— Pegue um tempo para pensar em todas as suas justificativas. — Nora debocha. — E, por favor, não me faça pedir de novo. Ainda não entendo porque a Lady Conti está nesta casa e a Selena não.

Adrian não rebate. Ele está sozinho contra dois. Dante convida Nora para o desjejum, e ela não tem nenhum motivo para recusar.

Dante e Nora ocupam a sala de sozinhos. A mesa extensa está posta e é muito variada. Há pães recém-feitos, bolos, torradas e geleias de duas frutas diferentes, além das próprias frutas que resistem ao inverno rigoroso. Há uma variedade considerável de chá, suco e café. Todo o tempo ausente e os breves dias na cabana de Sylvia foram o suficiente para que Nora se esquecesse da rotina que tinha. Ela também estranha todos os excessos.

Embora Adrian tenha herdado uma alta posição, duque de Florença, o casarão que ocupa nada se assemelha às cortes que os reinos vizinhos ostentam. A região com considerável costa mediterrânea também não é tão unificada quanto os vizinhos. Há muitas influências na região. Por consequência, muitas disputas também. França e a Espanha são os principais reinos que ainda disputam pela região, e o povo é tão fragmentado e diverso que são mais dialetos que Nora tem dedos nas mãos. O reino austríaco também é um incômodo considerável para os que tentam fortalecer o seu poder.

A influência dos Palucci na região foi determinante para que Marco Palucci alçasse ao cargo de duque no fim de sua vida. A vida dele não estava necessariamente no fim, mas foi abreviada pelo próprio sangue. Adrian nunca confessou e também não precisava. Oficialmente, Marco padeceu devido ao ataque severo de uma fera; alguns pensam que se tratava de um urso, animal não muito comum aos arredores de Florença. Outros, ciente da fauna, culparam as alcateias de lobos. Os lobos, não licantropos, muito menos lobisomens, foram caçados por semanas. Os animais inofensivos são sempre responsabilizados.

Desta forma, Marco pouco influenciou na criação e definição do que seria a corte de Florença, tendo Adrian Palucci, na época um jovem de vinte e poucos anos, como regente de maior autoridade. A pouca sociabilidade de Adrian reduziu muito o número de moradores do palácio, o que foi alvo de críticas. Embora o ducado oficial fosse uma novidade, os nobres da região tinham muitas expectativas. Entre elas, a quase impossível unificação do território. Como poderiam reunir tantas regiões em um único reino se é quase impossível submeter a própria região a um único senhor?

A família de Ginevra e Madalena é um exemplo quase entediante de tão óbvio dos conflitos comuns à região. Por muito pouco, o genitor das irmãs não foi nomeado como duque da região de Toscana e Florença. A ausência de filhos homens foi determinante na escolha. Sem um herdeiro, o ducado de Riccardo Moretti seria breve e os problemas de sucessão surgiriam muito rápido. Marco, por outro lado, tinha um herdeiro jovem, saudável e com potencial considerável, ao menos era o que todos pensavam. Adrian, na verdade, não passava de um garoto com severos problemas de identidade e convivência com o genitor.

A união das famílias Palucci e Moretti era aguardada e óbvia. A atual Lady Conti, que antes era Ginevra Moretti, Lady Moretti, era a escolha mais óbvia. A união de ambos fortaleceria o ducado dos Palucci ao mesmo tempo que daria ao Riccardo Moretti o gosto de gerir indiretamente a região.

Adrian, porém, tinha os próprios desejos. Tolos e excessivos, como apenas um jovem de dezoito anos poderia. Uniu-se com muitas companheiras até que Dante fosse uma consequência antes de um presente. O casamento com a genitora de Dante foi exigido pela família dela, mas a jovem não era nobre o suficiente para Marco, que pretendia esconder o infame erro, para homens nunca é infame e nem mesmo erro, por toda a vida. Além disso, a jovem não sobreviveu ao parto do filho. Dante se tornou bastardo e órfão muito rápido. E Adrian ainda estava prometido à Ginevra.

A família Moretti, porém, não aceitava a existência de um bastardo. Ginevra, primeiro, era a lady mais desejada na região. Talvez até mesmo em Roma comentavam sobre ela. E os pais não achavam correto casá-la com um homem que já possuía o próprio bastardo.

Nora nunca acreditou nessa versão. Dante não seria um problema de verdade para Ginevra, já que Marco estava disposto a dar o próprio neto para qualquer casal jovem com uma condição estável. Marco seria capaz até mesmo de encurtar a vida do garoto. O verdadeiro problema, todos sabem, é que Adrian poderia se encantar pelo bastardo, e Dante se tornaria um problema sucessório para Riccardo Moretti.

Outro problema sucessório.

Adrian nunca confessou. Outra vez, não precisava. Porém, o assassinato de Marco, cometido pelo próprio filho transmutado em animal, foi motivado pelas profundas discordâncias sobre o futuro de Dante.

Ao herdar o ducado de forma excepcional, Adrian se emancipou das vontades do pai e recusou a união com a família Moretti. A antiga Lady Moretti casou-se com o sir. Conti, a segunda melhor opção depois do duque de Florença. E Adrian, anos depois, juntou-se à bruxa da floresta — outra decisão questionável.

Por fim, a bruxa morreu. E Adrian, finalmente, realizou as vontades de Marco e Riccardo. Madalena era a filha disponível, e Nora desconfia que Adrian não estava em posição de escolher muito. Ainda não entende em que situação Adrian estava para que aceitasse a união, que foi descartada severamente quando a proposta, Ginevra, era mais atraente.

— Você está me ouvindo? — Dante insiste.

Nora balança a cabeça e encara o garoto.

— Desculpe, querido. — Nora segura o rosto dele, apertando o queixo. Dante sorri ao reconhecer o carinho. — Ainda estou me adaptando. Tudo isso é novo. — Ele sorri, compreensível. — O que estava dizendo?

Dante toma um gole de suco de laranja antes de preocupar-se:

— Estava perguntando se você se sente melhor. Você parece melhor.

Nora sorri sem mostrar os dentes.

— Sim, eu estou melhor.

— O que aconteceu? — Nora franze o cenho. — Há dois dias, mamãe, você estava… — Ele procura pelas palavras. — Diferente. Doente, lembra? Bem doente. Agora está melhor. — Dante analisa o corpo de Madalena. — O que aconteceu?

Nora ainda se surpreende quando percebe que Dante não é mais um garotinho. Ele está muito próximo de tornar-se um homem completo; é inteligente, amoroso e muito astuto. Nora nunca perdoará Adrian pela forma como lidou com os filhos, por isso é desagradável reconhecer que toda a amorosidade de Dante veio do pai. A astúcia, por outro lado, nunca foi o maior ponto forte de Adrian.

— Madalena estava doente. — Nora revela meia-verdade. Ainda é melhor que uma mentira completa. — Por isso me ausentei. A doença de Madalena não era apenas física, entende? O sir. Bianchi não poderia curar esse corpo. — Dante mantém-se atento. — E eu também não podia. Madalena estava tão frágil que estava me consumindo também. Eu me ausentei porque precisei encontrar uma antiga amiga. Ela me ajudou a entender o que estava acontecendo.

Sylvia não foi necessariamente a responsável pela avaliação concisa. Ela foi uma hospedeira e quase uma oferenda. Nora, porém, não pretende contar a Dante sobre a existência de algo tão complexo quanto o corvo. E toda a distância que puder colocar entre Revna e os filhos é bem-vinda.

— Certo. E o que Madalena tinha?

Nora dá de ombros.

— Não importa mais. Está resolvido. — Dante franze o cenho e prepara-se para pressioná-la. — Não importa mais. — Nora repete. — Agora conte-me sobre você. Adrian te encontrou. — Nora lamenta. — Imagino que tenha sido outro momento infeliz entre vocês.

Dante cutuca o pão com geleia, fugindo do assunto. Nora aguarda pacientemente porque todo o momento com Dante é algo para se prolongar.

— Eu não o entendo. — Dante desabafa, enfim. — Ao mesmo tempo que me repele, porque não me suporta, não me deixa ir embora.

Nora nega com a cabeça.

— Oh, querido… Ainda estou juntando as peças, entendendo a situação geral. Mas percebo o seu sofrimento. — Nora o alcança com um carinho no ombro. — Você é um garoto ainda. Quero acreditar que Adrian te buscou por preocupação. Não acha?

Dante recusa a ideia veemente.

— As coisas são diferentes agora, mãe. Ele não me suporta. — Dante insiste. — Não me suporta mesmo.

Nora analisa melhor o garoto. Dante evita a olhar.

— Quero que me conte o que aconteceu. Tudo o que aconteceu. — Nora pede. — Porque eu não consigo entender, Dante. A situação me faz tão infeliz que eu nem quero supor. Porque isso… O que você me diz que Adrian é agora… — Ela segura o rosto com as mãos. — É muito diferente do que eu conheci. O que eu conheci… — O sorriso é breve e infeliz ao mesmo tempo. — Sacrificou muito, senão tudo, por você. E eu ainda não entendo o que aconteceu para que esse homem se tornasse isso que você descreve. — Nora nega. — Eu só… Eu me preocupo. Me preocupo se eu também não fui parte do problema. Se eu estava tão dispersa que não percebi as coisas como realmente eram, quem ele realmente era. Se eu… Eu errei? — O sorriso é inseguro. — Quando deixei que ele levasse você. Eu errei? — Nora aperta o rosto. — Você está infeliz. E Selena… Eu nem a conheço. Me lembro dela bebê. Me lembro de todos os detalhes, mas não sei o que ela é agora. Quem ela é. Nem consigo imaginar. Então, eu errei?

Dante não a responde. E Nora se convence que ele não pode fazê-lo também.

***

— Não é tão ruim assim…

Nora assusta-se, deixando a escova cair. Ela recua um passo conforme vê a imagem distorcida de Revna, ainda imitando a aparência de Adrian, dentro do espelho. Ele inclina a cabeça e encara o corpo nu de Madalena. Nora não finge nenhum tipo de decência. Desejável ou não, é apenas um corpo e todos os seres têm um.

— Maldito. — Nora resmunga baixo e afasta-se do espelho que tirou da sala. São segundos até escutar os passos dele. — Não acredito que não tem nenhum lugar mais interessante para se estar nesta noite.

Ele circula pelo quarto, tocando os objetos e avaliando a decoração.

— Mórbido. — Revna encara a cruz disposta na parede da cama. — Posso imaginar o quão difícil seja encontrar qualquer inspiração para consumar a união com esse ambiente. E, ainda assim, Madalena estava grávida. Preciso parabenizar o devoto marido.

Nora veste o corpo desagradável de Madalena com a primeira peça de roupa que encontra.

— Ainda não encontrou nenhuma outra aparência?

Revna franze as sobrancelhas grossas e olha para o corpo que ocupa.

— Não gosta? — Ele abre os braços. — Ora, Eleonora, — Revna imita o sotaque de Adrian. — A mágoa é tão severa que a impede de apreciar isso? — A entidade anda pelo quarto. Os passos tornam-se inaudíveis. Nora o assiste sentar-se na cama de Madalena. — Tenho pensado bastante nisso… Você… — O corvo usa o dedo para apontar na direção dela. — Está morta. Tanto para os homens, quanto para os deuses.

Nora ri.

— Às vezes me surpreendo com a sua suposta inocência. — Ele franze o cenho. — Seja para os homens ou para os deuses, acha que um dia eu sequer existi? Como os homens explicariam? 400 anos. Uma blasfêmia completa. — Revna ri nasalado, e Nora quase escuta Adrian. — Ainda não disse o que lhe perturba.

— Oh, sim. Com a sua morte, Adrian tornou-se um homem viúvo e livre. Diante os deuses e os homens. — Revna cruza as pernas. A presença dele ainda é um tanto quanto rígida, distante da fluidez que os seres mortais geralmente tem. Nora reconhece, ao menos, que agora ele consegue manter as sombras dentro da casca. — Livre para casar-se novamente. E foi o que ele fez. — Nora encara a aparição. — Mas agora você, a sua alma, está aqui de novo. Vagando pelo mundo dos vivos. Isso faz do Adrian adúltero? Ou o compromisso dele com você se encerrou definitivamente? Se Adrian é adúltero, eu entendo o seu sofrimento. Mas se ele encerrou o compromisso com você, e estava livre, não consigo compreender os seus sentimentos conflitantes.

Nora pisca enquanto absorve a provocação. Ela demora muito mais do que gostaria até conseguir elaborar uma resposta:

— Você veio aqui para discutir isso?

— Eu? — Ele leva o dedo para o próprio peito. — De forma alguma. Admito que você tem sido uma história interessante de se acompanhar. Vocês, mortais, são curiosos.

— E você é decepcionante enquanto um ser imortal.

— Eu sou?

— Se eu pudesse… — Ela ri, incrédula. — Se eu pudesse escorrer por aí, para qualquer lugar que esteja escuro, qualquer lugar, eu definitivamente não estaria aqui.

— E onde você estaria, Nora?

Ela balança os ombros.

— Qualquer lugar. Paris, Milão, Barcelona. Qualquer lugar menos infeliz.

— E por que não está?

— Para um acompanhante assíduo você está bem atrasado. — Eles se encaram. — Primeiro, eu não estou passeando pela terra sem destino. Eu tenho uma prioridade. — Ela levanta um dedo. — E essa é a única coisa que me importa. A única. Não vou desperdiçar esse tempo com qualquer coisa senão com os meus filhos. Não sei quanto tempo durará e preciso garantir que, desta vez, se eu me for novamente, eles terão alguém ou algo. — Nora suspira. — Preciso garantir. — Ela aproxima-se das janelas e verifica a neve cair. — Depois, acha mesmo que esse corpo me levaria tão longe?

— Não é mais um corpo incapaz.

Ela solta o riso pelo nariz. Revna inclina a cabeça.

— Tenho certeza que não é incapaz. É a única coisa que me alivia. Ainda assim, não é o tipo de corpo que convence.

Revna ri quando entende.

— Quantas formas diferentes você encontrará para ofender Madalena? — Nora balança os ombros. É consideravelmente criativa. Revna aproxima-se até parar diante dela. — Esse corpo não é um problema. Nenhum corpo, independente do quão infeliz seja, será um problema pra você. — Ela franze o cenho. — Não quando tem essa alma.

— É por isso que veio? — Nora rebate. — Por minha alma? — Ele assente. Nora sorri de canto. — Não consigo acreditar que em tantos séculos e eras de existência, a minha alma ainda seja a menos entediante. — Revna balança os ombros. — E entendo ainda menos a sua frustração. Eu estava morta há poucas semanas, e a minha alma te pertencia. Se ela te interessa tanto, por que não a manteve? — Nora encurta a distância entre eles. As sombras escorrem para fora da casca do corpo. — Vamos, corvo. Me conte porque estou aqui. Tenho certeza que sabe como eu voltei. Não me diga… — Ela ri com os próprios pensamentos. — Não me diga que me deixou escapar.

— Não, você realmente não entende. — O corvo agarra o queixo de Madalena. O toque é frio. Nora sente todo o corpo de Madalena estremecer. Os olhos dele tornam-se escuros como a noite, e a íris castanha, comum a Adrian, desfaz-se. — Esse corpo não é o mais agradável mesmo.

Revna afasta-se, e o corpo respira. Nora sente a cabeça girar por um breve momento. No instante seguinte, ela avança na figura frágil dele, agarrando-o pelo braço. Desta vez, ele não se desfaz em sombras. Os olhos estão desfeitos; são apenas duas esferas pretas.

— Do que está falando? — Nora exige, apertando o braço dele. Revna encara a mão dela com indiferença. — Você… — Ela gesticula. — Você antecede todas as coisas, e eu nunca tive a ilusão de que poderia estar um passo à sua frente. Mas agora estou passos atrás demais. — Ela movimenta-se, angustiada. — Todas essas visitas. Essas frases não ditas. Vamos, Revna, vamos. Me diga o que é. Não presumo que seja algo bom, corvo, mas quão grave pode ser ao ponto de você nem se divertir debochando de mim? — Ela o agarra de novo. — O que me trouxe de volta? O que… O que custou?

A aparência de Adrian está cada vez mais desfeita. As sombras rompem com a casca, e a voz de Revna não soa mais grave e baixa como de Adrian:

— Acha que encontro diversão nessa maldição? — A voz ecoa de todos os lugares. Nora aperta a cabeça porque a dor transcende. — Você não é uma bruxa tola mais. Eu já te ensinei demais. Não há nada que pague uma alma, senão uma alma de igual peso. — A voz distancia-se, assim como a presença sufocante. Nora demora para enxergá-lo outra vez na figura de Adrian. — Você viveu o suficiente para saber que algumas coisas não podem ser contadas. Alguns caminhos são complexos e devem ser feitos sem interferência.

Nora afasta-se, sentindo as lágrimas.

— Alguns caminhos? — Ela esbraveja. — Todos eles são miseráveis e solitários. É tudo o que eu tenho feito. Veja só o que me tornou. Eu nunca o procurei, nunca o invoquei. Você me encontrou. E me transformou nisso.

— Eu não te obriguei. Você aceitou.

— Eu era uma criança! — Nora aumenta a voz. — Era uma garota criada em uma vila pequena. Desde que eu nasci, Revna, desde que me entendo por gente, sempre me foi dito que eu estava destinada. Minha avó não me ofereceu possibilidades. Ela nunca nem me disse o que esse destino significava. Se eu soubesse, se eu soubesse o tanto que custava, acha que teria escolhido? A única coisa que eu sabia era que devia ser a melhor.

— É a sua linhagem. Você é uma bruxa! E até então, até algumas horas, se orgulhava disso! Não minta, Nora. Eu entendo a sua angústia e a sua confusão, mas não me diga que faria diferente. Você, nesses momentos, pode até achar que sim. Mas eu conheço o seu coração. — Revna avança, tocando o peito dela. — E a sua alma. Há mais tempo que você. — Nora afasta o toque dele. — Antes de oferecer a sua alma pelo seu irmão, você me procurou.

— Eu nem sabia o que você era.

— Não, você não sabia. Mas não era tola como as outras bruxinhas. Reconheço a dureza com que a sua avó moldou você. — Nora engole a seco. — Ela se excedeu em diversos momentos, mas deu a você o que falta na maioria das bruxas. Temor. Reconheço que você não podia saber quem eu era, desconfio que nem as suas antepassadas saberiam. Mas sabia que não devia rogar na floresta depois do anoitecer. O que pensou que viria ao seu encontro? — Nora pisca. — Me diga, bruxa, o que pensou que viria ao seu encontro? Você sabia, Eleonora, que não era um espírito antigo nem mesmo um dos deuses que a sua família cultuava. Sabia disso porque foi à floresta à noite. Por que não procurou um dos seus deuses?

Nora afasta-se, recusando a continuar a conversa.

— Responda-me, bruxa. — A entidade aproxima-se, a encurralando. — Não sou como os seus pares, que você está acostumada a evitar até que as rusgas desapareçam. Responda-me.

— Nenhum deles me daria o que eu queria! Nem os espíritos, nem os deuses que aceitam cacarecos em troca de favores. — Nora o afasta. — Eu queria… Eu era tola, Revna. Eu era prepotente. — Eles se encaram. — Eu queria mais. O tempo todo.

— Você pediu conhecimento. Queria ser maior que o próprio sol.

Nora nega.

— Eu era uma criança estúpida. Não sabia o que isso significava, nem o que custaria.

— Eu não te cobrei nada.

— Não, você não cobrou. — Nora reconhece. — Você disse que não me cobraria porque o conhecimento já é custoso demais. — Ela balança a cabeça. — E eu pensei no quão fácil foi e me assustei com o quão tolo você era.

Revna sorri.

— Prepotente, sim. Sempre. — Ele condena. — Mas a humildade nunca forjou os melhores. Reconheço que era jovem e excessivamente tola. A sua alma, porém, sabia muito bem o que queria. — Nora abaixa os olhos, envergonhada. — Lamente as suas dores. Elas são justas e grandiosas. Se achar necessário, chore os seus arrependimentos. Só não teça esse papel outra vez. Você não era uma criança enganada. E eu não sou o seu algoz. Você construiu outros desafetos mais severos que eu. E mesmo depois de tantas consequências, de tantas lágrimas, eu nunca senti um resquício sequer de arrependimento em sua alma. Ao menos, não sobre aquela noite.


Notas finais
Esse é o último capítulo que tenho pronto. Espero atualizar em breve rs