Escorada no batente da porta, Nora observa a senhora descascar as batatas. Os movimentos são firmes e obtém sucesso em poucas investidas. O caldeirão de pedra está suspenso sob o fogão antigo. O carneiro está sendo cozido há algum tempo, e o cheiro é tão forte que Nora não suportou permanecer deitada. Como Revna advertiu, a recuperação não é imediata, e o corpo ainda está dolorido e frágil. Ela seria capaz de repousar se tivesse certeza que ambos os filhos estão bem e sob os cuidados do pai.

— Minha senhora! — A velha resmunga. — Não me assuste desta forma. — A senhora a observa. — O que faz aqui?

A reação da serva a confunde. Há dois sóis, a senhora a ungiu para a morte com considerável indiferença. Nora esforça-se para adentrar a cozinha, apoiando-se na mesa em que a senhora trabalha. Ela franze o cenho e se apressa para advertir:

— Volte para a cama!

— Estou com sede.

A movimentação da serva é ágil. Em poucos segundos o copo de água é servido.

— Posso preparar um suco. — Nora encara o copo. — Encontrei boas laranjas. E suco de laranja, com um pouco de mel, te fará muito bem.

Nora esfrega o rosto, suspira e pondera.

— Onde está Lucien?

— Não se preocupe mais com ele. — A serva arrasta uma cadeira. — Se deseja conversar, ao menos sente-se um pouco.

Nora senta-se e bebe a água. A mulher retorna a descascar os legumes para acrescentar ao cozido. A cordialidade assombra Nora. As perguntas disputam espaço na mente, e Nora engasga com todas as possibilidades. Os olhos da senhora não são escuros, como os olhos de quem está encantado por Revna. Ainda assim, nenhuma das atitudes da velha soam naturais.

— Por quê? — A senhora arqueia as sobrancelhas. — Onde está o seu Deus?

Ela inclina a cabeça e suspira.

— Preciso cuidar da senhora. É tudo o que importa. — A frase é repetida tantas vezes que as suspeitas se confirmam. De repente, a senhora acrescenta: — À noite ele virá.

Nora mordisca as pontas dos dedos e estranha a presença das unhas de novo. Ela observa como as mãos e os braços estão completamente curados, sem nenhuma marca das agressões sofridas. A serva parece entendê-la porque sozinha pondera:

— Devo preparar um banho para a senhora. — A faca é deixada na mesa. — É necessário refazer o curativo.

Nora toca o seio dilacerado com cuidado. O curativo não permite avaliar a real situação da ferida. Mesmo que o seio esteja irreconhecível, Nora não lamentará. E a ausência de sofrimento pouco tem a ver com o corpo emprestado. Se fosse o seu corpo real, Nora apenas acumularia mais cicatrizes para lembrá-la do tempo que vaga pelo mundo.

— Onde encontrou tantas coisas bonitas? — Nora refere-se aos vegetais dispostos na mesa.

A senhora sorri, e Nora tenta supor a verdadeira personalidade dela.

— A feira de hoje estava excelente.

Nora absorve a informação.

— A senhora foi à feira? — A serva assente. Nora estreita os olhos. — Não é muito longe para ir caminhando?

— É impossível ir andando. — A mulher organiza os vegetais que não serão usados. — Só se tiver extrema necessidade. A senhora precisa de algo? Já tirei a sela do cavalo, mas acredito que consigo prepará-lo e alcançar o fim da feira.

— Oh, não! De nenhuma forma darei a senhora tamanho trabalho. — A serva assente. — Mas um banho quente seria bom.

Enquanto a água é aquecida, a senhora se afasta para preparar o banho com as ervas que o Revna trouxe. Nora encontra um casaco, que provavelmente pertence a senhora, para cobrir a camisola que traja. As botinas sujas de lama são roubadas na porta dos fundos e servem bem aos pés de Madalena.

O cavalo repousa na baía, quase dormindo. Nora o aborda e rapidamente o prepara para a cavalgada. O cavalo é dócil e não a estranha. Ainda assim, ela não é capaz de montá-lo. A ave preta pousa no portão da baía e cacareja. Nora recua, estreita os olhos e tenta descobrir por onde a ave entrou.

— Saia do meu caminho. — A ave pula, bate as asas e grasna. Nora a encara e é quase como brigar com Revna. — Saia daqui!

Nora afasta a ave com o braço e alcança o cabresto do cavalo, guiando-o para fora da baía. A ave a importuna, pulando nos ombros e bicando-a. Nora resmunga e afasta o corvo com movimentos agressivos. A disputa dura mais do que deveria, e Nora está suando quando a ave pousa no portão da baía novamente.

— Eu preciso fazer isso.

Os grasnados soam como “não!”.

— Você não entende!

“Não!”

— Eles são tudo o que eu tenho.

“Não”, “Não”.

Nora se apoia no cavalo e observa o corvo, lembrando-se do sonho inquietante. Os olhos lacrimejam, e o peito arde. Os sentimentos não a pertencem, ela nota e magoa-se por isso também. Sofre por tormentos que lhe foram atribuídos em outras vidas.

— É sempre noite em algum lugar. — O comentário escapa de sua boca, e Nora não reconhece a voz e nem os pensamentos. — Por que não me levou? Todo esse castigo seria evitado se você…

Ela para de falar quando não reconhece as próprias palavras.

“Nunca mais”, o corvo grasna mais alto e mais inquieto.

Nora monta o cavalo, sem tempo para analisar a estranha conversa. O corvo a atormenta antes que escape do celeiro. Ela não tem certeza de onde está, mas sabe que precisa chegar ao palácio antes do anoitecer. Antes que Revna a alcance.

(...)

A neve completamente derretida é a maior representação do tempo transcorrido enquanto estava sob os cuidados nada gentis de Lucien, ao sul da região central de Florença. Tanto o cavalo quanto Nora estão exaustos quando aproximam-se do castelo. O sol está à oeste e já atravessou o ponto mais alto do céu. Nora supõe que faltam três ou quatro horas para a noite. Contudo, é incapaz de exaurir mais a montaria e aceita o passo lento.

Os portões que dão acesso ao castelo estão fechados e guardados por dois soldados que Nora não conhece. O cavalo para diante os portões, e os soldados exigem identificação imediata. Ela desfaz-se da capa que roubou da senhora e apresenta o corpo frágil e débil de Madalena. Ainda assim, a resistência permanece até que um soldado mais antigo se aproxime e a reconheça.

Nora adentra o pátio do castelo com o cavalo roubado. O soldado mais jovem, ainda em treinamento, atravessa o pátio correndo e adentra o castelo, provavelmente anunciando o retorno confuso e chocante de Madalena. O cavalo a leva até as primeiras das muitas escadas que dão acesso à entrada principal da construção. Ao saltar do cavalo, as pernas falham. Nora apoia-se nas balaustradas e vence os degraus devagar.

O hall de entrada está silencioso. Nora sobe mais escadas e adentra ao salão principal. A movimentação de servos e soldados é desconcertante. Todos se aquietam ao vê-la. Apesar da troca de estação e mudanças externas, o interior do castelo é familiar. Ela toca alguns móveis para convencer-se que está viva e que tudo é tão real quanto a dor e também para apoiar-se. Os murmúrios começam entre as servas, e Nora arrasta-se até o imenso espelho.

Há semanas, quando era início de janeiro, Nora despertou em um corpo que não era familiar. E o grande espelho foi o primeiro reflexo que teve desde o dia que partiu. Desta vez, a aparência a assombra. O corpo que antes era bem cuidado e alimentado está tão ressecado quanto às árvores no inverno. Os ossos da região da clavícula estão expostos, e a pele antes dourada pelo sol é tão branca e nojenta que afasta os olhares. As veias, que foram tensionadas por dias, estão sobressaltadas pelo corpo. As cicatrizes recuperadas pouco fazem para melhorar a aparência geral. Nora, de repente, entende a precaução de Revna.

O cabelo louro, antes sedoso e longo, é um emaranhado quebrado impossível de desfazer. As olheiras ao redor dos olhos são inchadas e escuras. E a camisola, a única peça que tinha, está manchada de terra, suor e sangue que escorreu do seio açoitado. Poucas lágrimas surgem e são arrancadas com raiva. Até mesmo a voz de Madalena alterou-se, antes delicada e fina:

— Saiam daqui. — Nora ordena, severa. — Todos vocês! — Ela aumenta a voz. — Saiam!

Todavia, os servos apenas se retiram quando Francisca, a governanta, os repreende. A senhora aproxima-se e cobre o corpo infeliz de Madalena com um casaco mais apropriado.

— Minha senhora… — Francisca lamenta. — Quanto mais sofrimento lhe está reservado? Pensei que finalmente estivesse descansando.

Francisca não fala para Madalena, e Nora a entende na alma. A conversa é interrompida pela aproximação violenta de Dante. Ele salta as escadas com pressa até alcançar Nora em um abraço mais apertado do que ela é capaz de suportar. O garoto choraminga, a repreende e sofre muito. Nora encolhe-se no abraço, sumindo diante do homem, que é filho, quase completo. As pernas fraquejam, e Nora chora mais do que o garoto aguenta.

— O que aconteceu? — Dante pergunta várias vezes.

Nora não o responde. Francisca certifica-se de os guiar a um cômodo mais privado. Nora senta-se na primeira poltrona que encontra. Logo, água e pão são servidos como se a deterioração do corpo fosse apenas ausência de comida. Ela engasga nas palavras e no choro. Dante mantém-se perto, abraçando-a com cuidado. Os olhos e a respiração dele estão agitados. Os ombros estão encolhidos, e as sobrancelhas franzidas. Nora não se contém para poupá-lo. Não por enquanto.

— O que aconteceu? — Dante insiste. — Onde esteve? O que aconteceu?!

Francisca serve chá. Nora observa a posição do sol e engole o chá, encerrando o choro. Ao sofrimento reservará o tempo adequado. A disputa contra a noite é mais acirrada.

— Mãe, por favor! — O garoto a agarra pelos ombros, balançando-a. — Me diga. O que aconteceu?

As semanas distantes foram poucas comparadas aos anos que esteve morta. Apesar disso, Dante transformou-se nos detalhes. O rosto infantil desfez-se completamente. Os poucos pêlos faciais apareceram de forma espaçada. Os olhos escuros estão menores e mais sérios, abandonando a doçura anterior. As sobrancelhas são grossas e pesam o olhar também. O garoto transformou-se em um reflexo assustador do pai. E Nora sofre porque entende que as mudanças não são tão recentes quanto parecem.

Roubaram tudo dela. Primeiro, o direito de existir como os seus pares; de envelhecer com a família. De morrer naturalmente. Eris lhe roubou até mesmo a capacidade de ser concisa; quando se vive tão pouco é mais fácil manter-se apegada aos ideais, às escolhas e até mesmo às promessas. O tempo destrói tudo, até as rochas.

Depois, a possibilidade de permanecer também foi arrancada. Mesmo que quisesse, mesmo se pudesse, Nora não deve viver tanto tempo em um único local. É natural que os outros seres envelheçam e se transformem conforme os anos se tornam décadas, exceto ela.

E quando encontrou algum repouso em Adrian e na família estranha e desconcertante que construíram, Nora morreu. E com a morte estúpida, as possibilidades se encerraram. Ela não viu Dante crescer. Não viu todos os dentes serem substituídos, nem a voz infantil acabar. Não viu o crescimento absurdo durante às noites, nem pode repreendê-lo quando o comportamento infantil cedeu espaço aos conflitos típicos da juventude.

Também não foi capaz de ver os primeiros passos e as primeiras palavras de Selena. Não sofreu com o período em que a bebê adorável se transformou em uma criança um pouco menos dependente. Nem mesmo sabe como a Selena cresceu. Os olhos na época eram acinzentados, e Nora torcia que pudessem ser como os da mãe eventualmente. O cabelo era castanho escuro, mas sem forma definida. Como é a voz de Selena? Ela também gosta de desenhar? Ela gosta de cavalos, como o pai? Ou tem curiosidade sobre as plantas e as estrelas como Nora quando criança?

A dor é substituída muito rápido.

— Onde está Selena? — Nora inquere. — A sua irmã voltou para casa?

Dante surpreende-se e afasta-se. Ele desvia os olhos, mordisca os lábios e testa as palavras.

— Mãe! — Dante a repreende quando levanta-se rápido. — Espere um pouco. — Ele a agarra pelos pulsos com cuidado. — Você está… — Dante a olha, desconfortável. — Está desfeita. Sente-se, por favor. — Nora escapa dele. Dante a segue: — Mãe, por favor!

— Eu estou cansada disso! — Nora resmunga, severa. A ira arde no peito e azeda o paladar. — Quanto mais tempo tenho que esperar para ver a minha filha? — A voz ecoa pelos corredores. — Quantas vezes eu tenho que morrer?

A fraqueza anterior cede espaço para a queimação no peito. A ardência espalha-se por todo corpo através das veias. Nora obriga as pernas machucadas a marcharem pelos corredores, descendo as escadas com rapidez. Dante a segue, tentando pará-la diversas vezes. A repreensão severa o interrompe. E antes que desça mais escadas, Nora avista Adrian subindo apressado.

Ele a vê e para na metade das escadas. Os olhos estão arregalados, e o rosto vermelho. Nora percebe que ele está com botas sujas de esterco e terra e presume que estava no estábulo. Adrian engole a saliva e sobe as últimas escadas pulando os degraus. O homem a agarra pelos ombros e a balança.

— Por Deus, me diga onde estava! — Adrian a pressiona. — Onde estava, Eleonora? — Ele agarra o rosto dela entre as mãos que cheiram a terra molhada. — O que aconteceu? O que aconteceu?!

Nora o afasta.

— Por quê?

Dante para a alguns metros. Adrian franze o cenho e tenta segurá-la novamente.

— Onde você estava?! Nós fomos ao centro… — Ele fala rápido e angustiado. — Fomos ao centro com Abigail. E você…? O que aconteceu?!

Nora abre a boca e gesticula. Os olhos se enchem de lágrimas novamente. Ela engole todos os sentimentos e repete:

— Por quê?

— Me responda! — Adrian a sacode. — O que aconteceu?!

Nora o empurra, raivosa.

— Por que Selena não está em casa? Você prometeu. — Ela acusa, chorosa: — Você prometeu!

Adrian arqueia as sobrancelhas.

— Selena? — Ele afunda as mãos no cabelo. — Eleonora, por todos os deuses, você desapareceu!

— Você prometeu! — Nora repete. — Prometeu que a buscaria quando voltasse!

Ele ergue a voz ao dizer:

— Você desapareceu!

— Você não a buscou! Não trouxe a nossa filha para casa.

— Eu estava procurando você! — Ele grita. — Como eu poderia pensar em qualquer outra coisa, senão em você?! Pela terceira vez! — Adrian ergue três dedos. — É a terceira vez que desaparece! Eu estava tentando descobrir se ainda estava viva! Ou se deveria cavar mais uma cova!

— Você não me preparou nenhuma cova! — Nora esbraveja. — Nem da primeira vez. — Adrian solta o ar pelo nariz e balança a cabeça. Ele esfrega o rosto, sujando-o com terra. Abre, fecha a boca e bufa por repetidas vezes. — Por quê?!

— O que aconteceu?!

— Por que não a buscou?!

— Onde esteve? Ao menos sabe quanto tempo passou?

— Por quê?!

— Semanas! — Adrian grita. — Eu pensei que estivesse morta! Você e a Madalena!

— Por que não buscou Selena como prometeu?!

— Como eu poderia sequer pensar em Selena quando temia a sua morte?! — Adrian confessa. — Acha mesmo que sequer me lembrei disso? — Ele mantém a voz alta. — Como eu poderia montar em um cavalo e passar dias viajando quando não sabia o que tinha te acontecido?! Como, Eleonora?

— Como um pai! — Nora berra também. — Como um pai faria quando ama os filhos!

— Eu amo os meus filhos!

— Não o suficiente, Adrian. Nunca o suficiente.

— Veja o que faz! — Adrian rebate. — Ausenta-se por semanas! Retorna desta forma deplorável. É incapaz de nos dizer o que aconteceu! Eu e Dante, o seu filho! — Ele dá ênfase na frase. — Estávamos desesperados, angustiados, sem saber onde estava! E agora que retorna, além de se recusar a encerrar nosso sofrimento, me causa ainda mais dor com essas acusações tolas. Como eu não poderia amá-los? Como eu não o faria? — Adrian bate no peito. — Eles são o meu coração! E parte de você também!

— Mas não buscou Selena. — Nora repete. Adrian ri, incrédulo. — E se eu tivesse padecido de fato, essa seria a sua justificativa para deixá-la novamente?!

— Chega! — Adrian esbraveja. — Não vou continuar com essa conversa ridícula. Não vou permitir que me coloque nessa situação, que me empurre uma escolha que nunca faria! Você deseja o quê? Parece que não se satisfará enquanto não me obrigar a escolher entre você e eles!

— Você deveria escolhê-os! Todas as vezes!

O rosto dele está vermelho e sujo de terra e lágrimas.

— Não!

Nora agarra Adrian pela camisa, sacudindo-o.

— Você deveria escolhê-los! — Nora o sacode com raiva, o perturbando. Adrian tenta resistir como pode. A força advém da raiva e queima as veias conforme espalha-se. — Todas as vezes! Todas as malditas vezes! Ou deseja me ver miserável?! Como eu poderia amá-lo sabendo que me escolheu ao invés dos meus filhos?! Como?! Eles são tudo o que eu tenho!

Adrian reúne força para afastá-la. O colarinho da camisa está rasgado e sujo. Adrian mostra-se completamente desarrumado e quebrado.

— Você é tudo o que eu tenho!

Nora desfaz-se. A movimentação que se segue é perturbadora. Ela agarra Adrian pelo colarinho desfeito e o arrasta escada abaixo como se faz com um cachorro. Dante grita, chora e pede para pararem. Adrian solta-se quando a camisa rasga por completo. Nora o agarra pela nuca, arrancando mechas de cabelo próximas. Ele debate, grita e tenta resistir. Ele é tão forte quanto poderia, considerando a sua natureza como licantropo. Nora, porém, é algo que o corpo de Madalena se desfaz para conter.

— Estou cansada disso! — Nora grita. — Não vou mais aceitar esse comportamento!

— Eleonora! — Adrian grita entre os puxões. — Pare com isso! Você está me machucando!

— Você vai cumprir a sua promessa! Mesmo que eu precise te amaldiçoar!

Nora o arrasta até chegarem no jardim. Ela o empurra, derrubando-o no chão. Antes que possa se recuperar, Nora senta-se em cima do tórax dele, mantendo-o no chão. Adrian agarra os ombros dela e tenta derrubá-la. Dante grita e chora, exigindo que parem. Ela agarra os pulsos dele, mantendo as mãos juntas. A força que a toma é similar ao que era quando estava em seu corpo natural. Adrian tenta mordê-la para se libertar. Nora puxa os dedos dele com força, estalando e quase quebrando. Adrian geme e rosna.

— Eu fiz você. — Nora esbraveja. — E posso desfazer!

Ela arranca o anel forjado com magia e levanta-se. Adrian rola no chão e se esforça para levantar. Quando o faz, está desfeito. O cabelo está sujo de terra e grama. A nuca sangra, sujando a camisa já rasgada. Os dedos também estão sujos de sangue devido a retirada brusca do anel. Os pulsos estão machucados, vermelhos e incharão em breve. Adrian abre os braços e esbraveja:

— Está satisfeita?!

Dante ainda chora, assustado. Nora guarda o anel dentro do bolso do casaco e observa a posição do sol. Após tantas semanas presa, a percepção exata do ciclo lunar se desfez, mas desconfia que a lua é minguante. Ela recua, deixando Adrian sozinho no centro do jardim. Ele esfrega o rosto, humilhado e choroso. Nora arrasta as pequenas pedras que compõem os arranjos com o breve movimento dos dedos. As runas são gravadas rapidamente nas pedras conforme a ordem de Nora. Antes que perceba, Adrian é preso dentro do círculo mágico.

— Eu te dei um presente. — Nora resmunga. — Eu te abençoei porque me compadeci do seu sofrimento. E olha o que você fez. — Adrian desespera-se quando as pedras se movem, estreitando o círculo. Ele bate nas paredes invisíveis que se formaram, na tentativa inútil de fugir. — Eu posso perdoar tudo, menos o que fez com eles!

— Mãe, por favor! — Dante implora, agarrando-a pelo braço. — Pare com isso! Por favor.

Nora afasta o garoto.

— E o que você faz?! — Adrian berra. — É melhor do que eu? Olha como o seu filho está!

Dante chora e treme, mas não aproxima-se novamente. Nora franze o cenho, sente o anel no bolso e quase reconsidera. Então, lembra-se que desde que retornou não conheceu a filha.

Sangue é derramado para iniciar o ritual. As palavras são ditas no idioma que Nora não reconhece. O significado, contudo, aparece em sua mente. Aos poucos, a energia do local torna-se densa. Conforme as palavras são repetidas, o sangue borbulha e acende. As chamas são alimentadas pela magia de Nora, crescendo e queimando altas como fogueiras em dia de festa. Adrian geme e cai de quatro, salivando.

— Eu não vou… — Ele tenta dizer entre os gemidos. — Não vou te perdoar.

Nora mordisca o lábio e nega. O suor frio escorre pelas costas. A cabeça gira, e o equilíbrio falha duas ou três vezes. Ela não sabe se é capaz de levar a magia até o fim. Nem mesmo sabe, por completo, o que está fazendo. A ideia está clara em sua mente. Adrian na forma humana é imprestável para cumprir o desejo dela, mas a forma lupina é forte e incansável. Determinado isso, as palavras jorram e elevam mais as chamas.

De dentro das chamas, vozes amontoadas soam. Nora escuta o choro de Dante antes que o som de tambores e flautas preencham o fim de tarde. Adrian ofega quando o corpo estala e se contorce para a outra forma surgir. Os gritos são contidos e sofridos. Ele saliva muito.

A música que ecoa das chamas aumenta e estremece o ambiente ao redor. Nora sua em excesso. Dante chora e implora para que pare. Adrian divide-se em gritos humanos de dor e rosnados de uma fera que Nora não tem certeza se será capaz de controlar.

O som dos ossos se quebrando atravessa a música. Os membros são retorcidos e repuxados. A proporção humana, isto é, as pernas maiores que os braços é desfeita. Os braços são alongados conforme os ossos e tendões se desfazem. Os pés e as mãos se transformam em patas largas e com garras fortes.

Nora limpa o sangue que escorre do nariz, misturado ao suor, e ergue a voz para que seja ouvida além da música que conduz o processo. As chamas são tão altas que alcançam as colunas que sustentam o pequeno telhado. Um tremor, que Nora não sabe se é físico ou espiritual, cresce. As palavras são repetidas com mais dificuldade e desespero, e ela percebe que não pode parar porque interromper a transmutação no meio do processo o matará.

As pedras que eram decoração e foram transformadas em runas também pegam fogo.

Os ossos da coluna também alteram o formato, se estendendo tanto que atravessa a pele humana. Os restos caem no chão, e o cheiro é tenebroso. Dante vomita, enojado. Liberto da pele, o formato do crânio se transforma, e o focinho alongado surge. Os dentes humanos caem, dando espaço para as presas lupinas. As orelhas, antes ao lado da cabeça, aparecem no topo em formato triangular.. Os membros retorcidos assumem a proporção adequada para um animal quadrúpede. A causa é formada no fim da coluna. A pele se refaz, acompanhada por pêlos pretos e espessos. Os olhos castanhos caem das órbitas e são substituídos por olhos redondos e amarelos.

O uivo alto encerra a música e conclui a transmutação. Nora cai de joelhos, tremendo e sangrando. O homem, que agora assume a forma de lobo, uma fera grande e assustadora, come a pele e os órgãos anteriores e escapa do círculo mágico quando as chamas acabam.

O animal se aproxima, traiçoeiro. Dante agarra Nora pelos ombros e tenta arrastá-la para longe da fera. Ela ordena que o filho pare, e ele é incapaz de fugir sozinho. Adrian, em sua forma lupina, cerca os dois. O animal aproxima-se tanto que a respiração pesada e rançosa cai sobre eles. Dante se encolhe e chora. Nora o mantém próximo enquanto tenta erguer-se. Porém, o animal é maior do que se lembrava e a intimida.

A cultura dos licantropos é um conhecimento denso e muito bem protegido. Ainda assim, Nora ouviu que a forma transmutada cresce conforme o ser envelhece. E essa é a pior forma para confirmar as conversas.

O lobo cheira os dois por um tempo que parece infinito. E o sol está quase ausente quando um lampejo de reconhecimento atravessa os olhos amarelos. Nora chora, arrependida. O lobo recua poucos passos, e Dante se encolhe. Nora controla o choro para ordenar:

— Em forma animal permanecerá até a próxima lua cheia. — Silêncio completo é a resposta. — Rápido e forte se moverá. Encontre a nossa filha. — Nora implora. — A sua descendência! Sangue do seu sangue! — Ela enfatiza, e o animal se agita de repente. — Traga Selena para casa.

Notas finais
A transmutação do Adrian foi inspirada por Hemlock Grove. Essa serie pecou pelo excesso de filtro amarelo e uns episodios cronologicamente confusos, MAS sempre serviu muito horror no seco. ATENÇÃO LARISSA: Favor comentar!!!!