Tempo compensador
1 único
Sanji e Zoro andavam juntos desde crianças, a época em que mergulhavam na pedreira, sujavam os pés de terra e caçavam insetos. Os dois quando pensavam nesse tempo, sentiam um calor no coração e um pouco de dor, porque tal tempo não voltaria. Eles entraram num consenso do futuro ser igualmente compensador, mas Zoro adoeceu.
O rapaz de cabelos verdes e três brincos na orelha esquerda cada vez mais se tornava apático. Não sentia vontade de sair com os amigos, a ponto deles nunca mais contatarem-no para beber num bar ou dançar numa pista. A banda, em que era o baterista, o expulsou depois de tantas faltas, os membros levavam o "hobby" a sério e até haviam gravado o primeiro EP do grupo, onde Zoro faltara todos os ensaios e gravações.
Havia o kendô, a atividade que mais durou por conta de sua paixão pelo esporte, mas um dia simplesmente acordou e parou de ir até o dojô.
Seu amigo Sanji foi o único que não o largou, obviamente. Era de se esperar de um amigo de infância, de uma pessoa que conhecia bem Zoro e que o compreendia. Por isso passou a ir no apartamento do esverdeado para visitá-lo mais vezes e ver se estava tudo bem. Nessas idas costumava cozinhar e limpar a casa para ele, porque se dependesse de Zoro aquilo ali virava um puteiro. E isso não era por culpa de sua apatia, o idiota já era desleixado desde criança.
Sanji subia a escada em espiral até o último andar, onde ficava o apartamento de Zoro. Carregava uma mochila nas costas e algumas sacolas nas mãos. Na mochila havia suas coisas pessoais como peças de roupas e uma escova de dente, na sacola alguns mantimentos para aquele fim de semana que pretendia passar na casa do marimo.
Marimo era o jeito que Sanji chamava Zoro desde criança, muito por conta dele lhe chamar de sobrancelha enrolada.
Ademais, Sanji buscou a cópia da chave que tinha e abriu a porta. Deu uma olhada ainda no hall, o apartamento apertado estava bastante bagunçado, ao lado da porta havia uma sacola com várias latas de cerveja. Aquele inútil deixou tudo, menos a bebida que conhecera ainda criança. Algumas peças de roupas estavam espalhadas e Sanji foi catando cada uma para jogar na máquina de lavar. Depois de dar uma ajeitada na sala e na cozinha, foi até o quarto e o encontrou dormindo profundamente na sua cama. Pensou que dormir demais era outra coisa que o marimo não largara.
Por que só resolveu abandonar os bons hábitos? Também parara com os exercícios, justo ele, o cara que tem até os neurônios musculosos.
Resolveu pegar um copo d’água e o jogou na cara de um Zoro com a boca bem aberta. O idiota levou um susto bem grande e Sanji ria alto com uma mão na barriga.
— Inferno, sobrancelhudo!
— O que eu posso fazer se só assim que acorda? Anda, vista uma roupa e me ajuda a limpar a casa. — Mentiu, ele nem ao menos tentou despertar o amigo de outra maneira.
Zoro grunhiu e foi até um canto do quarto para pegar uma calça largada no chão, a vestiu e se uniu com Sanji. Os dois limpavam o apartamento, juntando tudo o que estava fora do lugar e colocando no lugar certo. Sanji se lembrou de algo.
— Você viu o filme que te recomendei? — Gritou da área de serviço, Zoro estava na sala.
— Vi.
Sanji voltou pra sala. — Sério? Gostou?
Zoro coçou o rosto, lembrou que dormira o filme inteiro, mas não queria dizer isso. Ele sabia que Sanji pedia para ver filmes, ler livros, jogar video games e até mesmo praticar na bateria para deixá-lo menos apático. — Meio triste, né?
— Era uma comédia, marimo! Debi & Loide!
Zoro imediatamente torceu o cenho por ter passado bem longe e Sanji bufou, frustrado.
— Deixa, mas na próxima você vê, certo?
Deu um aceno e continuou a ajudar o loiro na limpeza.
Quando terminaram, Sanji preparou o almoço com a ajuda de Zoro. Estavam na pequena mesa da sala conversando.
— Amanhã de manhã vamos fazer mais uma caminhada na orla, pegar um pouco de sol e queimar algumas calorias! Depois você vai fazer o almoço que nem vez passada, eu só vou ajudar como fez hoje comigo.
— Ok.
Era um saco ficar fazendo várias atividades que pintavam na mente de Sanji, mas Zoro não conseguia deixar de pensar que era fofo vê-lo um tanto autoritário. Porém, às vezes se cansava de tudo e pensava em se mudar para outro lugar muito distante dele.
— Não se cansa?
— Do quê, marimo?
— De cuidar de um cara de 22 anos sem nem um pingo de vontade para viver.
Sanji parou de cortar um pedaço do bife e encarou os ollhos do marimo, atônito. — Do que tá falando? É assim que se vê?
— Você não? — Provocou e o rosto de Sanji ficou vermelho de raiva. — Você não precisa me ajudar só porque é meu amigo de infância, arcar com essa responsabilidade e tudo mais.
— Responsabilidade? Você acha que o que eu faço é por obrigação só porque fomos amigos na infância?
— Muitos já estiveram na sua situação, sobrancelha enrolada. Queriam me ajudar com esse “pretexto” da amizade, agir como um amigo devia agir, mas desistiram porque se cansaram dessa merda. — Rebateu Zoro com os braços abertos para se referir a ele e sua casa.
Sanji deu um tapa em seu rosto bem ali mesmo, na mesa, um horário sagrado para o loiro. Fazia gastronomia na universidade, portanto, comer lhe era algo valioso. — Não me compare a eles!! — Seus olhos estavam marejados e Zoro o observava enquanto alisava sua face quente, onde fora atingida. — Ao contrário de você, Zoro, eu gosto das coisas e... gosto de alguém. — Se levantou da mesa a fim de largar aquele lugar, mas Zoro pegou em seu pulso a tempo.
— Quem é essa pessoa? — Perguntou com os ouvidos apurados como nunca, ansiava por sua resposta.
— Você não vê? E me solta, desgraçado!!
— Responda minha pergunta!! — Apertou com mais força o pulso.
— É você!! Por incrível que pareça, alguém se importa contigo no mundo e esse alguém não é você, sou eu! Não é obrigação!!
Zoro soltou o braço do amigo e deu um passo para trás. Sanji, constrangido, parou de fitar seus olhos. Um silêncio tomou a sala.
— Então, você me ama?
Sanji se mexeu. — Eu vou nessa, marimo. — Tencionou ir pro quarto pegar sua mochila, mas Zoro bloqueou o caminho.
— Eu sinto o mesmo, Sanji. — Disse chorando. — Eu estava sofrendo achando que você ia me deixar como os demais, mas se você me deixasse, acho que nunca ia superar. Com você ao meu lado, sinto que é possível melhorar.
Nunca viu Zoro chorar além de quando era um garotinho e por, conta disso, ficou sem palavras até perceber que o marimo chorava até demais.
Zoro se sentou no sofá, ainda chorando e Sanji não teve outra opção além de abraçá-lo, como fazia quando caia no parque e se ralava todo ou quando ainda eram aquelas crianças do tempo compensador.
E por que esse não é mais?
— Pare de chorar, não vou pra lugar nenhum!
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