Tempo ao tempo
1 Capítulo 1
1
Seu olhar estava completamente perdido, como quem busca algo no seu mais profundo ser sem saber direito o que; como alguém que tenta encontrar uma razão para o inexplicável; como alguém que mentiu por tanto tempo que tenta se lembrar da realidade. Thomas brincava com um lápis enquanto mantinha os olhos fixos em Edgar.
Era uma sala de dimensão considerável, decorada com móveis de madeira aparentemente antigos e estampas vintage, como a poltrona pé palito em que Edgar estava sentado. Via-se na parede um quadro de uma famosa obra de Van Gogh com uma moldura ornamental. Na mesa de centro laqueada, um livro grosso e preto de capa dura ganhava destaque. Ele provavelmente nem fazia parte da decoração, sendo apenas alguma coisa que Thomas estava lendo.
— Edgar, você precisa falar comigo. — disse Thomas.
Edgar olhou para Thomas lentamente.
— Então me pergunte o que quer saber — retrucou.
Thomas colocou o lápis na mesa. Queria falar seriamente e precisava agir da mesma maneira.
— Me fale da sua irmã — disse Thomas com cautela — O que aconteceu com ela.
— Você sabe muito bem o que aconteceu com ela.
— Sei? — perguntou provocante.
— Se não souber acho que devo procurar outro advogado.
— Boa sorte com isso — riu Thomas.
Ambos sabiam que isso não seria possível. Ninguém queria defender Edgar Bis, por que iriam? O homem não tinha dinheiro e aparentemente nem mesmo escrúpulos. E ainda assim não aceitaria um advogado dativo enquanto tivesse condições de possuir um voluntário, apesar de tudo. Mas apenas um havia se voluntariado.
Por quê?, se perguntava. O que este homem pretende comigo? Não me conhece, não possui qualquer motivo aparente para desejar me defender. Não tenho dinheiro, não nada ao meu favor...
Só tenho ele. Concluiu, imaginando que talvez fizesse algum sentido.
— Você precisa me contar as coisas como realmente aconteceram se quiser ter uma chance — Thomas se expressou com uma voz que soou compreensiva.
— Não sei ao certo se quero — disse com os olhos azuis totalmente vazios. Thomas o encarou curioso. — Não sei se quero uma chance.
2
— Por favor, Eddy! — Alice puxava a manga de sua camisa — Você só vai acreditar vendo!
— Eu não preciso ver, Alice — disse enquanto livrava-se da mão da irmã com um puxão. — Se você diz deve ser verdade.
— Ora, Eddy, pare de ser tão idiota! Eu disse que o lago está cheio de sangue. Sangue. Alguém pode ter morrido, Eddy!
— Claro, um cachorro, um boi, talvez mesmo uma pessoa. Vez ou outra aparece um jacaré no lago, por isso você não deve ficar indo até lá sozinha, ainda mais o tempo todo.
— Ou pode ser um psicopata.
— E por que não? — disse de forma um tanto sinistra, tentando assusta-la.
— Como você consegue ser tão...Yoda em uma situação como essa?
— Tem sangue no lago, Alice — disse indiferente — pode ser por um milhão de motivos. Supondo que seja um psicopata, se você voltar lá, por que ele não pegaria você também?
— Então não venha ver! — disse nervosa, batendo no ombro do irmão — fique aí fazendo o-que-quer-que-seja. Eu vou voltar lá.
— Leve uma arma.
— Nós não temos armas — concluiu a frase em um murmuro — idiota.
3
— Eu não matei a minha irmã, Tom — disse Edgar — mas isso não me torna menos culpado.
— Você sabia o que ia acontecer?
— Não — respondeu após uma breve hesitação.
— Você a levou até aquele lugar?
— Não. E é exatamente o que eu deveria ter feito. Eu deixei que fosse sozinha, Tom.
— Você não tinha como saber e, até onde sei, ela saberia se cuidar.
— Mas não soube, soube?
— Ela está morta, Edgar. Você não. Não seria melhor começar a pensar um pouco nisso?
— Pensar em que? Em mim? Já não dizem que não tenho escrúpulos? Talvez eu tenha, afinal.
— Se jogar na cadeia por algo que não fez é ter escrúpulos?
— Se for para evitar que algo ruim aconteça, talvez seja.
— Diga-me, Edgar, o que exatamente de ruim poderia acontecer?
Edgar olhou para o chão. Aparentemente refletia sobre a pergunta, o que fazia total sentido, na verdade. O que ele esperava que fosse acontecer de ruim por ele ser inocentado de algo que era inocente?
— Você não prevê as coisas ruins, elas simplesmente acontecem, normalmente sem deixar qualquer aviso — respondeu por fim, umedecendo os lábios.
Thomas começou a ficar inquieto. Odiava quando isso acontecia. Pegou o lápis que abandonara na mesa e começou a sacudi-lo.
— O que está fazendo com esse lápis? — perguntou Edgar com uma careta.
— Nada — respondeu Thomas meio envergonhado — me deixa mais calmo.
Olhou ao redor em busca de algo para poder mudar o foco para bem longe de seu habito com o lápis. Ah!
— Você sabe como ela morreu? — perguntou Tom.
— Perda de sangue.
— Claro, mas — se perguntou se realmente devia prosseguir com isso, mas sabia que teria que falar disso cedo ou tarde. Tentou perguntar da forma mais tranquila possível, não sabendo direito se daria realmente certo — o que aconteceu para que ela perdesse tanto sangue?
Edgar ficou em silêncio por um momento, para por fim responder que não sabia.
Ótimo, então não temos nada, pensou. Digitais dele na cena, nenhum álibi, uma testemunha o viu com o cadáver poucos instantes após a hora determinada da morte. As únicas pegadas nas margens do lago eram dele e da irmã...e ele nem mesmo soube se defender no depoimento! A única coisa que não conseguiram para prendê-lo de uma vez foi um motivo — e uma confissão.
E uma arma, concluiu. Não acharam uma arma e muito menos sabiam qual havia sido usada. Havia sangue, muito sangue. Mas de onde ele começara? Quando, ou melhor, por que começara?
O telefone começou a tocar. Thomas levantou para atendê-lo enquanto Edgar afundava-se na poltrona.
— Alô? — disse ao atender.
— Tom? — respondeu a voz do outro lado da linha — é a Mônica.
Mônica. Boa e velha Mônica. Certo, não tão velha assim, mal começara a aproveitar as poucas primaveras após a vigésima. Amigos de infância, cresceram muito próximos e, na hora de escolher a profissão, não se distanciaram tanto assim. Analista forense. Muito útil, sem dúvidas, para ambos.
— O que tem pra mim, Mônica?
— Soube que está advogando para Edgar Bis. — o caso ganhara repercussão na mídia, quem no momento não saberia? — Me enviaram algo que encontraram na cena da morte de Alice. Não parecia ser importante, mesmo havendo sangue nele.
— O que era?
— Um relógio de bolso. Mas não é isso o que importa. O que importa é o sangue. Não era da Alice.
Ótimo pensou. Mais uma coisa para incriminar o irmão.
— Mas também não é do Edgar Bis — concluiu, espantando o pensamento de Thomas.
— E de quem é?
— De ninguém cujo DNA tenhamos acesso. Contei primeiro para você porque...bom, porque é você.
— Então se eu conseguir descobrir de quem é esse sangue eu talvez consiga empurrar a culpa para ele?
— Talvez. Ótima escolha de palavra. É possível também que seja apenas um relógio com uma mancha de sangue.
— De quanto tempo?
— A mancha? Difícil dizer.
— Uma mancha de sangue em uma cena de assassinato e que não pertence a vítima? Minhas chances são consideráveis.
— Boa sorte com isso.
— E o relógio?
— O que tem ele?
— Vai precisar dele para mais alguma coisa?
— Pra que você quer esse relógio?
—Pode ser útil.
— E sei exatamente pra que — a voz de Mônica soou zombeteira — você deve estar muito feliz por ser um relógio.
—Cala a boca — disse encabulado — Posso pega-lo ou não?
— Passe aqui. Ele está esperando por você.
— Obrigado, Mônica — disse sorrindo e deixando qualquer profissionalismo de lado — por tudo.
Pôde ouvir Mônica tentando satirizar com ele, mas optou por desligar o telefone antes que ela conseguisse.
Caminhou de volta para a sala e sentou-se em uma cadeira rústica — que não tinha certeza do porque deixava lá, embora até que ficasse bonitinha.
— Edgar, o que tem a me dizer sobre um relógio de bolso?
Edgar ficou perplexo, como se Thomas tivesse tocado em um assunto proibido. Isso era algo ruim? Por que reagira assim e principalmente, por que não comentara dele antes?
— Edgar? — tentou novamente. Edgar pareceu acordar de um sonho.
— Que relógio? — perguntou tentando parecer que era algo novo para ele.
— Aquele sobre o qual você não quer falar — respondeu a altura.
— Ah — disse mordendo o lábio inferior — esse relógio.
— Sabe de quem é?
— Não — respondeu — não sei mesmo! — disse após Thomas lançar-lhe um olhar semicerrado.
— E o que pode me dizer do relógio então?
Edgar olhou intensamente nos olhos de Thomas. O azul de seus olhos possuíam um brilho peculiar, que Tom não sabia o que significava.
— Ele marca o tempo — disse.
— Não diga!
— Não aquele que as pessoas acreditam que o relógio é capaz de marcar. Mas o tempo que nunca é o mesmo, Tom. Que às vezes acelera, às vezes até mesmo para. O que é o tempo pra você? — Edgar concluiu praticamente ditando a frase — O tempo é o que foi, o que é e o que será, além de tudo o que poderia ter sido.
— Certo... — disse enquanto se levantava — então vamos vê-lo.
— Ver quem? — perguntou acompanhando Thomas com o olhar.
Tom foi até uma mesa e tocou em um casaco preto que estava sobre ela. Parou um instante e observou através da janela. A rua tomada por uma chuva fina e torrencial, que espantou a maioria dos carros que sempre passavam por lá. Aproximou-se. Uma brisa gelada soprou em seu rosto e pôde sentir o cheiro da terra molhada. Os ipês de flores rosadas enfrentavam docemente a chuva, enquanto o topo dos prédios que em dias ensolarados pareciam tão próximos, agora se distanciavam pela névoa. Fechou o vidro da janela, que não estava totalmente aberta por causa da chuva.
Voltou para a mesa e pegou o casaco. Logo depois apanhou um guarda-chuva que estava encostado perto da porta. Voltou-se então Edgar, sorrindo.
— Vamos ver o meu relógio de bolso.
Fale com o autor