Tempo Perdido

1 Capitulo Único


Notas iniciais
Obrigado por lerem! :D

Alguns encontros foram feitos para se repetirem eternamente. Em fogo ou sangue.

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— Te desafio a me beijar. — Disse Ivan me encarando, sério, tal como nunca esteve.

— Se concentra cara! Nunca vai entender suas aulas de Sociologia se continuar assim. — E começo a rir, sua presença já era suficiente para me causar este tipo de comportamento.

— Pedro, onde seus pais estão mesmo?

— Já disse que estão viajando, só vão voltar mês que vem, tem sido ótimo esse tempo sozinho aqui.

— Então, deixe-me pensar… — E mudou para a posição mais filosófica/pensadora que conseguia com o pouco espeço da minha cama.

— O que está fazendo agora?

— Bem, você chamou o cara mais bonito da faculdade para sua casa estudar, enquanto estão deitados na mesma cama, em uma casa, favorávelmente vazia… Está querendo transar comigo? — E fez uma pausa dramática para aumentar o drama.

— Por incrível que pareça para você, não sinto tesão por tu, e se quisesse… Já teria te experimentado a muito tempo.

— Eu não ligaria de tirar sua virgindade.

— Sinceramente, acho que o único virgem aqui, é o senhor. Como vai a Verônica? Ainda te nega sexo, mesmo estando noivos?

— Acho que ela se sente bem tendo encontrado Jesus. — Disse enquanto juntava as mãos e fingia uma prece.

— Não parece tão ruim assim. Se ela está feliz...

— Esta cara, estou ficando maluco! Os seios dela são muito grandes para ela não me deixar tocá-los.

— E esta errada? Se fosse ela, também não transaria com um cara tão arrogante.

— Porra, Pedro, de que lado você está?

— De vez em quando é legal queimar uns sutiãs.

— Primeira dentro que você deu no dia.

— Legal, um novo recorde.

— Xeque-mate, boboca.

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— E aí, vai fazer oque depois da aula? — Disse Ivan, enquanto estava distraído, ainda sentado na carteira, mesmo depois do professor já se ter retirado, juntamente, com metade da classe.

— Não faço ideia, noite dos garotos?

— Com pizza e filmes?

— Manere, onde está a Blanca? Ainda brigada contigo?

— Hoje ela faltou, mas não faço ideia se ela me desculpou daquela brincadeirinha.

— Se você considerar cortar o cabelo dela com uma tesoura sem ponta uma brincadeirinha.

— Pô, algum dia vai me dar razão?

— Não enquanto viver. Vamos sair. — Disse me levantando.

Enquanto saímos, uma garoto passou correndo, quase me derrubando, para dentro da sala.

— Hmm, desculpa, mas a aula já acabou? — Disse ofegante.

— Há uns dez minutos.

— Puta que pariu. Cheguei muito atrasado.

— Qual seu nome mesmo? — Perguntei.

— Robert, desculpa novamente por quase te derrubar, acho que estava meio apressado…

— Meio? Amigo, você tá umas duas horas atrasados, pressa não iria mudar nada.

— É novato? Nunca te vi aqui.

— Éééh, meio que acabei de chegar na cidade.

— Sério? Podemos mostrar a faculdade pra você. — Disse sorrindo, sorriso que Ivan não tentou imitar, de um momento a outro, se tornou sério.

— Podem ir, lembrei que tinha algumas coisas para fazer em casa, e também tem os deveres, sabe. — Disse Ivan.

— De boa, cara. Boa noite.

— Boa. — Respondeu.

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A universidade poderia ser tudo, menos extensa, consegui lhe mostrar todas as salas que teria aula, a cantina, o auditório e a Direção em menos de quarenta minutos. E ainda estava cedo para voltar pra casa.

— Quer ir beber algo, Robert? Conheço um ótimo barzinho aqui perto. É lá que galera se reúne antes das aulas.

— Pode ser.— Pela primeira vez no dia, percebi que Robert era bem bonito para a sua postura. Um pouco mais baixo que Ivan, e as maçãs do rosto eram bem contrastadas com o branco excessivo da pele. Dando um charme a mais aos olhos castanhos.

— Você é do sul? — Perguntei enquanto atravessávamos a rua.

— Porque acha isso?

— Sua pele é branca demais para ter morado aqui em Minas Gerais.

— Sério?

— É. — Respondi.

— Acabei de voltar depois de dar um tempo em Nova Iorque.

— Que incrível! — Soltei o ar admirado, levando consigo, uma pequena fumaça denunciando o frio.

— Não se anima muito, não era tão legal quanto eu achava.

O bar já vazio, ecoava nossas risadas, nunca havia conhecido alguém como ele.

— Mano, já esta bem tarde, sua casa é muito longe, posso caminhar com você até lá.

— Pra falar a verdade, eu tinha que ter pegado o ônibus, e o último já passou, vai ser uma longa caminhada.

— Bem se quiser, pode passar a noite na minha casa. É a um quarteirão daqui.

— Sério? Valeu cara, muito obrigado pela ajuda de hoje. — Disse sorrindo, parecia confiar em mim agora, abandonando a postura cansada quando havia o encontrado na sala.

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Já chegando em casa, permiti que ele se sentisse o mais a vontade possível, ele parecia um cara legal.

Ele pediu para usar o chuveiro do quarto enquanto eu arrumava um colchão para ele passar a noite.

Quando saiu, somente com uma toalha branca escondendo a parte inferior do seu corpo não pude deixar de soltar um silvo. Ele era lindo, exatamente do meu tipo. Magro, alto, tão esquio quanto possível. Cada músculo do abdome, parecendo esculpido em mármore branco. Era a mais bela das obras de Deus.

— Achei que tomando um banho gelado eu acordaria um pouco, mas não. Minha cabeça está latejando.

— Te entendo muito bem. — E soltei um riso abafado, que ele não deixou de notar.

— Eu acho que gosto de você. — Disse para quebrar o gelo.

— Também adorei te conhecer. — Disse colocando a camiseta do meu pijama.

— Não foi exatamente isso que quis dizer.

— O que então?

— Acho que te amo. — Como um sussurro, mas caiu como uma bomba dentro de mim.

Estava em um sonho. Deve ser um sonho.

Segundos depois, ele começou a andar em minha direção, soltando a toalha, e tocando meus lábios. Foi o beijo mais doce que já senti.

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Um mês depois, tudo o que podia dar errado deu.

Não que eu já não desconfiasse, mas meu namoro com Robert acarretaria uma série de mudanças.

Número um: Ivan falava cada vez menos comigo.

Número dois: estava me distanciando muito do grupo.

Número três e último: eu estava apaixonado pela primeira vez.

E nenhum deles estava me mantendo em equilíbrio.

Já havia se tornado comum ter sua presença por longas noites, ouvindo sua voz chamando meu nome, mas no meio de tudo aquilo, sentia falta de me revolucionar.

E foi isto que causou minha briga com Robert, por minha culpa.

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Durante a primeira longa semana que durou nossa briga, não entrei em contato com nenhum dos dois. E me afundava como o tesouro de um navio, temendo nunca ser encontrado. Mas o que me tirou daquela condição foi testemunhar uma cena que nunca imaginaria. Ivan e Rob discutindo, eu nunca havia ao menos eles conversando, ou até mesmo, trocando olhares.

— Você não deveria ter voltado. Porque não ficou lá nos Estados Unidos? Se propôs a ir embora, deveria ter ficado lá! — Reafirmou.

— Cara, do que está falando? Me deixe sair.

— Não se lembra? Eu me lembro de você. Eu tinha doze anos quando te conheci, era meu melhor amigo, quando os outros me ignoraram, você foi o único que se manteve ao meu lado. Até que teve que ir embora, porque achava melhor assim. E então, anos depois disso, me aparece o Pedro, a única pessoa que pude confiar, e agora, você o rouba de mim.

‘Você não sabe nada sobre ele, acabou de conhecê-lo. Ele é um desconhecido para você. Ele não merece passar com você o que eu passei. Vai embora.’

Rob estava paralisado, ainda mastigava tudo o que Ivan havia dito.

— Eu… E… Eu não te abandonei porque quis. É fácil manipular suas memórias para me por como vítima.

— O que está dizendo?

— Minha mãe estava com câncer, fase terminal, até que teve que fazer um tratamento que só existia nos EUA. Quando eu disse que seria melhor assim, me referia a ela. Ela morreu dois meses atrás, por isso eu voltei. O tratamento só lhe deu alguns anos para sua breve existência.

Agora era a vez de Ivan de ficar em choque.

Todos os insidiosos males do passado foram apagados.

Era um novo começo?

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— Vamos marcar um encontro duplo?

— Como assim? — Perguntei a Ivan.

— Eu, Blanca; você — disse apontando para mim, e o Robert.

— Blanca? — Questionei-o.

— Depois que parei de falar contigo, tinha que desabafar com alguém, e como descobri que Verônica estava me traindo, fiquei sem alternativas.

— E apelou pra Blanca?

— Meio que sim.

— Porra, finalmente se tocou, ela dá em cima de tu desde o primeiro bimestre.

— Sério?

— Não tinha percebido? Você é mais lento do que havia imaginado.

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— O pôr do sol está lindo. — Disse Robert.

Concordei, colocando minha cabeça sobre seus ombros, Blanca e Ivan também estavam lá, mas este momento era nosso. Nada mais importava.

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Fomos ao bar de sempre, na mesa de sempre, no lugar de sempre.

Nunca os vi tão felizes.

Até que ouvi gritos, lá fora.

Policiais vieram.

Nos levaram.

Nunca mais nos vimos.

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A rebeldia, sobretudo a rebeldia contra conceitos pré-formados e o poder autoritário, é a melhor das rebeldias. Pois prende o corpo, mas liberta a alma.

Notas finais
Nota: isto foi escrito em memórias dos tantos Pedros que viveram durante a Ditadura, e foram cruelmente oprimidos, mas lutaram até o fim, em conjunto com o Movimento Estudantil.

~Presente! Presente! Presente!~
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!