Tempo Perdido?
1 Capítulo 1
– Oh, Dios, eu estou numa prisão e na véspera do Natal! – disse Shura fechando ambas as mãos em torno das grades da sua cela e as sacudindo num ímpeto de frustração.
As grades tilintaram e o som delas pareceu ecoar misteriosamente em torno de si.
Eu vou ser fichado como um criminoso. Droga! O jovem espanhol apoiou a testa contra as grades e o temor contraiu sua garganta, quase impedindo-o de respirar.
Tudo bem, Shura, disse ele a si mesmo. Controle-se! Isso não passa de um contratempo... Tudo se resolve! Não estamos na Idade Média e não estou sendo trancafiado numa masmorra.
Sua cela, na verdade, era um cubículo de paredes brancas e limpas com uma pia, uma privada e uma cama estreita. Nada de lugares escuros e úmidos, como nos filmes. Ao lado da sua, outra cela igualmente clara, estava vazia e Shura chegou a pensar se, dali a pouco, outra pessoa na mesma situação que ele, a ocuparia.
O homem que o havia prendido parecia mais um mafioso que policial. Não disse uma só palavra, enquanto o empurrava para dentro do cubículo. Mesmo que soubesse não ter feito nada de grave, Shura sentira um arrepio quando o agente da alfândega tinha virado sua bagagem do avesso e dera um sorriso frio ao verificar seu passaporte. O homem olhou bem dentro de seus olhos, perguntou novamente o seu nome e franziu a testa.
Apesar de saber que não havia feito nada de errado, quer dizer nada muito errado. Sentiu-se como se fosse um contrabandista de drogas ou algo parecido e não um turista que havia extrapolado sua cota, trazendo alguns produtos a mais para presentear os amigos no Natal.
– O que está havendo? – perguntou Shura ao policial.
O agente não disse uma palavra até afastá-lo da multidão. Todos agora deveriam estar pensando que ele era um terrorista ou coisa do gênero.
– Você é Shura Javier Esteban?
– Sim.
– Espanhol, naturalizado americano?
– Sim. – respondeu erguendo o queixo e fixando o olhar no homem alto e vestido com terno escuro, cujos olhos estavam escondidos sob um par de óculos escuros, estilo ray-ban.
– O senhor trouxe mais bagagem do que é permitido e parece haver um problema com o seu passaporte. – disse ele.
– Que problema? Estava tudo em ordem quando eu parti. Que mudanças podem acontecer? Isto é ridículo!
– Eu só estou repassando o que me foi dito pela Alfândega.
– Admito que extrapolei a cota de produtos, mas isso não chega a ser um crime grave.
– Isso é o que o senhor diz... Por favor, queira me acompanhar.
O tom de voz sugeria uma ordem ao invés de um pedido e Shura resolveu não criar uma cena. Afinal, já bastava estar sendo escoltado como um criminoso.
Os minutos pareceram horas e Shura levou a mão aos fartos cabelos negros, tentando se preparar para o que estava por vir. Afinal, era um repórter e sua profissão requeria certo talento para dialogar e escapar de situações embaraçosas.
Respirou profundamente, estendeu os braços acima da cabeça e olhou na direção dos passos que ecoavam pelo corredor. Lembrou-se das leis que conhecia, principalmente, aquelas que se referiam às prisões feitas sem o amparo legal ou provas contundentes. Preparou um pequeno discurso para a sua defesa e retesou o corpo.
Porém, jamais poderia ter se preparado para ver o homem que atravessou a porta e o olhou com aqueles olhos azuis implacáveis. Ele usava uma calça preta e uma camisa branca de mangas compridas com o colarinho aberto. Seu cabelo comprido, com alguns fios prateados, caía solto, quase até a altura dos ombros. Ao vê-lo sorrir, Shura sentiu algo quente invadi-lo, algo que já não experimentava há quase dez anos...
– Você? – sussurrou Shura, mal acreditando em seus olhos. – Máscara da Morte?
– Olá, Shura. Então você me reconheceu... Tenho que dizer que estou impressionado. – disse o homem com a voz tão profunda quanto o espanhol se lembrava, embora ambos fossem muito jovens naquela época.
Shura piscou nervosamente, observando-o caminhar casualmente em direção à sua cela. Uma forte emoção o tomou, apesar da situação inusitada. Automaticamente, lembranças e imagens do passado voltaram a sua mente. Bastara tê-lo visto e tudo o que haviam compartilhado viera à tona, fazendo seu peito oprimir e, ao mesmo tempo, expandir como que desejando retornar no tempo, quando as coisas eram mais simples ou... não!
“Ei, espanhol! Sim, você mesmo otário!” A voz do garoto robusto pareceu ecoar novamente. A cena voltou-lhe a mente tão clara como em um filme: estava voltando da escola e sendo abordado por uma gangue de garotos que cobravam pedágio na calçada.
Com a cabeça erguida, ele se recusara a pagar e os cinco começaram a empurrá-lo e chutá-lo com uma fúria avassaladora. Embora estivesse sendo massacrado, ele continuava firme e irredutível no seu propósito de manter sua honra. Não gritou, nem chorou. Apenas protegeu o rosto com as mãos e cerrou os dentes. E, quando tudo começava a ficar escuro e o sangue quente escorria abundante do corte em seu rosto, uma voz profunda se fizera ouvir:
– Cinco idiotas prá bater num nerd? Bando de farabutto!
– Do quê você nos chamou seu veado italiano?- gritou o líder.
– Farabutto.
– E o que quer dizer isso?
– Quer dizer que a tua mãe faz plantão na rua das putas, idiota!
– Seu... Seu italiano de merda! Como ousa ofender a minha mãe, seu corno, veado e...
O garoto cuspiu as palavras com o rosto vermelho e uma corrente na mão esquerda, avançando com fúria, porém, não conseguiu terminar a frase. Um soco direto no nariz o fez cair de costas espirrando sangue como um chafariz. Numa sequência digna de um filme de ação, os outros vieram para cima do garoto que o salvara e todos foram caindo como moscas, levando as mãos às partes do corpo que iam sendo atingidas por socos e chutes.
Quando tudo acabou, a visão de uma mão grande e quadrada sendo estendida em sua direção o fez encarar seu “salvador”, apesar do sangue que ainda vertia do supercílio aberto.
Era um garoto também, embora seu físico fosse forte e bem desenvolvido. Tinha uma cicatriz acima do olho esquerdo e o nariz tinha um pequeno calombo indicando que havia sido quebrado. Mas, o que lhe chamara atenção tinham sido os olhos. Eram de um azul escuro e intenso que parecia não temer coisa alguma. E, quando ele sorria, os lábios carnudos completavam o conjunto dando a ele um ar perigoso e, ao mesmo tempo, seguro e excitante.
– Mandou bem, nerd... apesar de ter apanhado prá caralho! – disse o garoto italiano sorrindo em sua direção.
– Não sou nerd! – respondi ainda sentindo uma mistura de dor e raiva.
– Você é filho do professor Bernardo, não é?– perguntou ele com um leve sotaque.
– Sou. Como você sabe? – perguntei levando a manga do casaco ao nariz que também sangrava.
– Ele é o único professor que topou dar aula prá nossa turma e... nos contou que tinha um filho que estudava prá caralho. Vocês são os únicos espanhóis que se mudaram há pouco, o que justifica a sua insanidade de sair sozinho e tentar ultrapassar o território dos Warriors. Se bem que, esses idiotas covardes estão mais para Palhaços do que para guerreiros. Não sou um bom aluno, mas ainda sei somar dois mais dois... Então, você só deve ser o nerd, filho do mais novo professor de história da San Martin! Olha, tirei o chapéu para o teu pai... Foi o único que botou ordem na classe. O velho é irado...
– Já disse que não sou nerd. E você, quem é?
– Eu? Pode me chamar de... Máscara da Morte.
Máscara da Morte... o nome que o fez rir naquele dia e que, mais tarde, tornou-se frequente em seus lábios.
Tornaram-se amigos, andavam sempre juntos. Mesmo vivendo realidades tão diferentes, o tempo se incumbiu de fazê-los descobrir algo mais forte que a amizade...
Ter sido criado em um ambiente que o fazia conviver com prostitutas e cafetões, fez Máscara adquirir a experiência e as necessidades de um adulto, enquanto ele, Shura, vivia protegido no ambiente familiar onde as regras tinham de ser cumpridas e havia pouco espaço para as transgressões...
Então, quando ambos fizeram dezessete anos, o desejo aflorou e o espanhol se deixou levar pelo fogo do italiano. Com o chamado esmagador da sexualidade, tudo o mais pareceu ser secundário: família, estudos, regras, comportamento...
Uma festa no bairro, o som aliciante dos jamaicanos, algumas cervejas, a proximidade com Máscara da Morte... Dizem que o Universo conspira e lá estava ele, com a sensualidade à flor da pele, vendo o italiano dançar, remexendo o quadril, revelando o volume entre as pernas...
Quando a festa findou, viu-se no quarto da pensão onde Máscara morava. Não era sonho, estava ali, na cama com outro homem, sentindo coisas que nunca experimentara. Desejava e era desejado. Os beijos curtos se transformando em fome, a língua ávida invadindo a boca carnuda do italiano e sendo sugada com a mesma vontade...
– Tem certeza que quer? – sussurrou Máscara, enquanto mordiscava seus lábios fazendo-o sentir tanto tesão que chegava a doer.
Enquanto sua boca o provocava, as suas mãos o exploravam, mergulhando na musculatura rija, tocando-o com intimidade até seu membro enrijecer ainda mais e pulsar até deixá-lo sem respiração.
– Eu quero...
Quero te sentir em mim. Dentro... bem dentro de mim. Pensou Shura, enquanto era beijado com volúpia.
Ele desejava Máscara, desesperadamente, mas em seu íntimo, a sensação de ser passivo, de querer ser penetrado trazia uma espécie de culpa e medo...
Medo que se esvaiu quando Máscara o virou de costas e beijou sua nuca roçando os dentes contra a sua pele. Um gemido baixo escapou de seus lábios e ele enterrou o rosto no edredom agarrando o tecido como se precisasse sentir algo da realidade, algo que o preparasse para o que havia de vir.
Afastando-se do corpo desejado, Máscara começou a arrancar a roupa, arremessando-a ao chão. O espanhol passou a língua sobre os lábios, cheio de expectativa.
A luz tênue do abajur iluminava o corpo jovem e musculoso do italiano, seu abdome firme e seu... Dios, ele era grande e, obviamente, mais do que pronto para tomá-lo.
Shura sentiu o seu sexo latejar de expectativa. Todo o seu corpo tremeu de desejo e um pouco de medo. Máscara sorriu e tocou-lhe o rosto com delicadeza. A mão áspera desenhando o contorno de sua boca, enquanto puxava o zíper de seu jeans e tocava a sua ereção...
– Está com medo... Eu sinto... Mas, não tenha. Vai sentir prazer, eu prometo. Feche os olhos e sinta... – sussurrou o italiano com um meio sorriso nos lábios.
Totalmente entregue, Shura fechou os olhos e abandonou-se ao toque das mãos e da boca de Máscara da Morte. O italiano despiu-o e afagou as suas nádegas, estimulando-o com seus dedos enquanto beijava suas costas e mordiscava a sua pele.
Shura suspirou e começou a ofegar quando sentiu dedos grossos e longos sendo inseridos dentro de si, explorando-o, levando-o a um prazer estonteante, ao mesmo tempo em que também trazia um pouco de dor.
Seus quadris começaram a se agitar no ritmo dos toques profundos do italiano. Sua respiração foi acelerando cada vez mais, enquanto era penetrado com os dedos e, ao mesmo tempo, sentia a mão forte deslizar pelo seu membro rijo numa masturbação lenta, enquanto a língua quente de Máscara da Morte adentrava a sua boca possuindo-o de todas as formas possíveis...
Shura agarrou-se ao corpo forte de Máscara gemendo e ofegando, imerso no prazer que pedia algo mais... E, quando o ardor tornou-se quase insuportável, Máscara tocou sua entrada com o falo rijo e o penetrou. Um ofego de dor escapou dos lábios de Shura no mesmo instante em que Máscara gemeu de prazer. Ambos ficaram imóveis, acostumando-se à união dos corpos, sentindo o pulsar do coração na pele suada...
As mãos de Máscara da Morte deslizaram pelo corpo de Shura, queimando-o com o seu calor. Ele gemeu e se moveu contra o corpo de Máscara fazendo com que ele o penetrasse ainda mais fundo. O italiano gemeu e começou a mover-se dentro de Shura, apoderando-se do interior quente, chocando seu quadril nas nádegas firmes, sentindo seu membro ser apertado e acolhido num prazer indescritível...
Shura mordeu o seu lábio inferior para não gritar de prazer, mas não adiantou. O som saiu do fundo de sua garganta quando o falo de Máscara tocou-o nas profundezas de seu corpo e o fez sentir-se preenchido, inteiro, pertencente...
Máscara grunhiu ao sentir a proximidade do clímax e, num esforço hercúleo parou com os movimentos. Shura gemeu um protesto, porém, Máscara saiu de dentro dele virando-o de costas sobre o colchão.
– Quero olhar nos seus olhos quando eu gozar bem dentro de você... – disse Máscara da Morte e então o invadiu novamente, penetrando-o ainda mais fundo, enquanto Shura erguia os quadris e enroscava as pernas em torno da sua cintura, urrando de prazer.
O falo rijo de Máscara apoderou-se, novamente, do corpo voluptuoso de Shura e ambos moveram-se com sincronia e desespero. O espanhol passava as mãos pelas costas de Máscara, repetidas vezes, marcando a pele dele com os dedos, inalando o cheiro da pele ardente, buscando a boca carnuda para beijar...
A língua de Máscara avançou dentro da boca de Shura, entrelaçando-se nela enquanto continuava investindo feroz e impetuosamente, se enterrando por completo e cada vez mais rápido dentro de seu corpo.
Shura começou a se contorcer, os tremores do orgasmo irrompendo, a boca se abrindo num grito alto e rouco. Seus quadris se ergueram na direção do corpo do italiano e seus músculos internos se contraíram, prendendo-o com força dentro de si.
E então aconteceu. O gozo, a explosão, o sêmen quente e abundante derramando-se no abdome de Máscara, enquanto ele jogava a cabeça para trás e gritava, gozando também...
Shura sentiu o falo de Máscara enterrar-se numa última estocada e preenchê-lo com seu prazer, enquanto segurava-o com força e tomava a sua boca com uma paixão feroz...
Nenhum dos dois estava preparado para o que viria a seguir. Era uma sensação de paz e, ao mesmo tempo, uma inquietude que permanecia em seus corpos sinalizando que algo forte e profundo acontecera e nada mais seria como antes...
– Isso foi... — A voz de Shura foi desaparecendo aos poucos como se ele não pudesse encontrar as palavras certas.
– Sim. Foi... – respondeu o italiano.
Máscara sabia como ele estava se sentindo, mas também não era capaz de encontrar uma palavra que expressasse o que havia acontecido entre eles. Pensou consigo que nunca vivenciara uma foda tão incrível, mas dizer aquilo para Shura, o garoto estudioso e certinho, seria vulgar e não expressaria a verdade mais profunda...
Estava apaixonado e isso não era bom. Decidiu então, guardar aquilo para si e se forçou a dizer num tom casual:
– Quer uma bebida? Eu preciso beber alguma coisa.
Shura balançou a cabeça numa negativa e sorriu jogando os braços para trás, acima da cabeça. Em segundos, estava dormindo.
Quando Máscara voltou, trazendo uma cerveja do frigobar, ficou observando Shura dormir. Ele tinha feições fortes, mas assim, relaxado, parecia um garoto inocente e feliz... Alguém que, definitivamente, não era para si.
Droga! Nem a cerveja gelada abrandava o fogo que ainda ardia em seu interior. Sabia que não devia, mas desejava mais uma vez possuí-lo, sentir-lhe o corpo apertado e quente em seus braços, os lábios entreabertos, ofegando de prazer...
Já transara com um considerável número de putas e homens e, no entanto, nunca sentira aquele calor no peito na hora do orgasmo, nem aquela sensação que podia morrer feliz nos braços do espanhol...
Olhou-o, mais uma vez, e entornou a cerveja que ainda restava. Antes de tê-lo, jamais tinha sentido a própria inadequação. Shura possuía uma pureza de caráter e ele, Máscara, era o contrário. Fora criado nas ruas, diplomado em todas as sujeiras possíveis. Por algum tempo, o sentimento que nutria pelo espanhol o fizera esquecer as suas origens. Entretanto, depois de possuí-lo, sabia que se continuasse com ele, iria contaminá-lo, levá-lo para um mundo que não era o seu.
Suspirou, sentindo um aperto na garganta. Voltou para a cama e abraçou Shura com força, fazendo-o abrir os olhos, sonolento, e sorrir.
– Você nunca me disse o seu nome verdadeiro... — disse o espanhol.
– Ângelo. Nada a ver comigo. Prefiro Máscara da Morte.
Shura esfregou os olhos e tocou-lhe o rosto.
– Pois eu acho bonito. Máscara da Morte é codinome de líder de gangue e, pelo que me consta, você não tem uma.
– Sempre agi sozinho. Não preciso de nenhum farabutto prá me atrapalhar.
O riso franco de Shura preencheu o ar.
– Você disse essa palavra quando bateu naquele cara... no dia em que a gente se conheceu. O que quer dizer?
– Filho da puta.
– Ah, agora entendo... Ei... porque está me olhando desse jeito?
– Por nada. Algum problema com isso?
– Eu não fui o que esperava, não é?- perguntou Shura ficando sério.
– Do que está falando?
– Se arrependeu de ter transado comigo...
– Tonto! Jamais tive tanto prazer fodendo alguém, como foi contigo.
O semblante sério se desfez e, mais uma vez, Shura riu, sendo seguido por Máscara da Morte que gargalhou alto.
– Então prove... – sussurrou o espanhol, puxando Máscara de encontro ao seu corpo.
Com o olhar fixo no de Shura, Máscara entrou dentro dele num único e longo movimento. O espanhol sentiu-se desfalecer quando, uma vez mais, foi invadido daquela forma.
Arqueando e pressionando todo o seu corpo contra o de Máscara, Shura fez com que ele entrasse cada vez mais fundo dentro de si. Os movimentos ficando mais rápidos e intensos, enquanto os gemidos e ofegos somavam-se ao som do choque entre os corpos.
A cada estocada, os dois se olhavam nos olhos e o negro profundo dos olhos de Shura se conectava com o azul intenso dos olhos de Máscara da Morte. Neste momento sentiram como se fossem um só, respirando juntos, sentindo um prazer inédito que deixava pele, nervos, músculos e até os ossos, sensíveis ao extremo.
As bocas se uniram num beijo lento, dominante e tudo foi feito devagar, até que descargas elétricas percorreram ambos os corpos, fazendo-os estremecer...
Gozaram, novamente. O sêmen e o suor reencontrando seu caminho entre as peles e os lençóis...
E, desta vez, quando um grunhido de prazer irrompeu da garganta dos dois, abraçaram-se com força e permaneceram assim, até o sono embalá-los, presos um no outro, apaixonados e sem palavras...
Um momento de felicidade que jamais foi esquecido ou... superado.
Os olhos de Shura piscaram, novamente, e ele obrigou-se a retornar ao presente.
– Parece que você tem um problema, Shura.
A voz de Máscara da Morte soou ainda mais grave, fazendo-o sentir-se desconfortável.
– Parece que sim. Estranho encontrá-lo aqui. Tornou-se policial, então. – disse Shura colocando as mãos nos bolsos a fim de conter o nervosismo e esconder o tremor nas mãos.
– A vida nos reserva muitas surpresas, não é mesmo? Mas, algumas cenas se repetem... como ter de livrá-lo das encrencas em que se mete.
Máscara da Morte se apoiou nas grades e olhou para Shura com certo divertimento.
– Não sou mais um garoto, Ângelo.– O nome pronunciado com ênfase proposital. — Não precisa mais me proteger. Só me diga por que estou aqui como se tivesse feito algo grave e qual o seu papel, nessa história.
– Digamos que... sou sempre chamado quando há um problema a solucionar.
– Ah! E que problema nós temos, policial?
– Agente de segurança.
– Que seja. Qual é o problema, agente?
– Um alerta nos foi dado pela CIA. Parece que um ladrão de joias espanhol, naturalizado americano, está tentando entrar nos Estados Unidos, vindo diretamente de Barcelona. E... o mais estranho é que a descrição confere com a sua: altura de 1,86m, entre 80 e 83 kg, cabelos negros, olhos escuros e... um corpo delicioso.
– Você está tirando sarro com a minha cara!
Com um sorriso malicioso, Máscara destrancou a cela e se aproximou devagar. Shura olhou-o. A imagem do garoto agressivo e desenvolvido para a idade uniu-se à imagem atual de um homem viril e de beleza rude. Ambos o tinham atraído ao ponto de tudo o mais perder a importância.
Mesmo agora, apenas a presença de Máscara da Morte, desestabilizava anos de terapia e negação. Merda! A voz dele inda reverberava em seus terminais nervosos, fazendo a emoção prevalecer na batalha pelo autocontrole!
– Infelizmente, Shura, eu não estou brincando... Digamos que a parte do... corpo delicioso, foi por minha conta. O restante é a mais pura verdade. Não que eu acredite nisso. Você não mudaria tanto...
– Droga! Isso só pode ser uma... Uma brincadeira de mau gosto! Não acredito que vou passar a véspera de Natal preso neste cubículo.
– Alguém o espera? – perguntou Máscara dando de ombros e olhando no fundo dos olhos arregalados de espanto do espanhol.
Shura levou a mão aos cantos internos dos olhos e os apertou. Estava cansado da viagem e emocionalmente abalado. Constatou que, apesar de toda aquela confusão, o que mais o tinha tocado fora reencontrar Máscara da Morte. Seu coração ainda estava aos pulos e sua respiração, curta e difícil. Porém, mesmo assim, fitou os olhos azuis com firmeza antes de devolver a pergunta:
– O que quer saber? Se eu tenho uma mulher ou um amante esperando por mim? Creio que nada disso é da sua conta.
Após sua fala, Shura viu algo brilhar nos olhos azuis de Máscara e teve certeza que era um lampejo de surpresa.
– Perguntei por qualquer pessoa que o esteja esperando. Não fui específico.
– Pois eu faço questão de ser específico! Quero um advogado! É meu direito.
– Não respondeu a minha pergunta...
– Tenho amigos que estão organizando uma ceia e para os quais eu trouxe presentes que me colocaram nesta confusão. Satisfeito?
– Bem, vou ver o que posso fazer.
– Como assim? Vou ficar preso aqui?
– Não. Vou levá-lo sob minha custódia. Não deixarei que passe a véspera de Natal aprisionado neste cubículo.
Shura fitou-o mais uma vez, lentamente. Não estava conseguindo acreditar que aquilo estava acontecendo. Máscara da Morte ressurgia em sua vida dez anos depois como um homem feito que nada tinha a ver com o garoto desajustado que conhecera e amara, enlouquecidamente.
Todo o passado retornara nas profundezas daquele olhar que o devassava e fazia ressurgir o desejo. Estranhamente, sentiu a boca secar e seu corpo reagir, excitado. Inspirou fundo, tentando se acalmar.
Então, Máscara pousou a mão em seu ombro e toda a chance de autocontrole se esvaiu... Shura sentiu seu corpo vibrar da mesma forma que anos atrás. Os olhares se encontraram, novamente, e as bocas se uniram em um beijo que continha uma mistura de afeto, sofreguidão, desejo e saudade.
Máscara tomou o rosto de Shura em suas mãos enquanto o beijava e aquele simples toque fez seu coração acelerar e doer como há muito não acontecia.
Aquela sensação fez com que ele se afastasse do espanhol imediatamente. Não podia envolver seu coração. Não sem antes saber como Shura se sentia e se poderia perdoá-lo.
– Bem, vamos parar por aqui. – disse Máscara com a respiração entrecortada.
– Perdoe-me. Eu não devia... – disse Shura mordendo o lábio inferior.
Máscara fixou o olhar naquela ação nervosa do espanhol e, ainda assim, seu sangue pareceu correr mais rápido nas veias. Passou a mão nos cabelos, gesto que demonstrava seu nervosismo também.
– Não importa. Vamos, eu tenho um apartamento aqui mesmo. Facilita o meu trabalho e você pode ficar lá até tudo ficar esclarecido. Creio que isto acontecerá em, no máximo, 24 horas.
– Tudo bem, eu aceito. Mas, ainda gostaria de ligar para o meu advogado.
– Pode fazer isso quando chegarmos. Agora vamos antes que eu mude de ideia.
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O apartamento de Máscara da Morte era espaçoso, com uma decoração austera e muito simples. A sala possuía duas poltronas em couro escuro, uma mesa de centro e uma lareira numa das paredes. Portas duplas que davam para um pequeno terraço, onde se tinha uma visão da pista de pouso do aeroporto. Uma porta aberta conduzia para uma espécie de suíte e a luz do luar vinda do terraço iluminava convidativamente uma cama tão grande que dava para dormir três pessoas e ainda sobrava espaço.
Shura mal conseguia prestar atenção nos detalhes. Sentia-se desconfortável e asfixiado. Olhou para Máscara da Morte que dirigia-se para uma cristaleira antiga e pegava uma garrafa de uísque.
– Beba, vai sentir-se melhor. O banheiro é ali. Pode tomar um banho, se quiser, enquanto eu uso o da a suíte.
– Obrigado.
A água quente escorria pelo seu corpo e Shura tentava relaxar, sabendo que seria uma missão quase impossível. Fechou os olhos e a mesma imagem ressurgia com uma nitidez impressionante. Nela, Máscara da Morte olhava dentro dos seus olhos e dizia com todas as letras:
– Estou caindo fora. Foi bom, enquanto durou, mas... esse tipo de relação não é prá mim. Vá prá casa e fique com a sua família. Família é importante para um homem. Agradeça que tem uma e me esqueça.
Me esqueça. Quantas vezes, na terapia, repetira essa frase como se fosse um mantra. A Dra. Shoulder lhe dissera que o adolescente Shura estava preso no passado, mas que o homem devia se libertar e, realmente, esquecer. Amores vêm e vão, dissera ela. Era preciso deixar o passado para trás e viver uma vida mais plena e verdadeira...
Fácil, falar! Difícil era descobrir-se comparando, desejando reencontrar as mesmas emoções que haviam marcado a sua vida. O beijo ardente, as carícias que o haviam despertado, o sexo intenso acompanhado de um sentimento que jamais voltara a sentir por outra pessoa. Todo o pacote resistindo dentro de si como um estigma doloroso.
E então, a decisão adulta que fez adormecer a dor: Transar, sim. Amar, nunca mais! Pronto, tudo estava resolvido! Sua vida prosseguiu com amigos, sucesso profissional, amantes eventuais, contato esporádico com a família e muita paz! Até agora! Merda!
Shura fechou o registro e enrolou-se na toalha. A dose de uísque mais o banho quente não surtiram o efeito desejado. Ainda estava tenso. Não devia ter aceitado ficar no apartamento do homem que ainda significava muito, em seu coração.
Droga! Era melhor ter ficado naquele cubículo! Pensou Shura ao olhar para o seu estado... só em lembrar-se do beijo trocado com Máscara da Morte fez despontar uma ereção dolorida e indesejada. Voltou para o chuveiro e deixou-se banhar pela água fria. Depois, vestiu, novamente, a calça jeans, uma camiseta limpa e deixou o banheiro.
Na sala, Máscara da Morte tinha os pés descalços, exibia os cabelos molhados e vestia, apenas a parte de baixo de um pijama de seda preto, cujo cós ficava um pouco abaixo dos seus quadris. Quando Shura entrou ele olhou-o de cima a baixo e então sorriu.
– Tome. Não costumo jantar em casa, mas sempre tenho vinho e cerveja. – disse Máscara estendendo uma garrafa de cerveja na direção do espanhol. – Mas, sei que deve estar com fome, então chamei uma tele-entrega de comida tailandesa.
– Prefiro não misturar destilado com fermentado. Gostaria de mais uma dose de uísque, por favor. E... Agradeço a gentileza, mas estou sem fome e muito cansado.
Máscara suspirou e serviu um copo de uísque para Shura. Depois, recostou-se na parede próxima ao bar e cruzou os braços sobre o peito.
– Foi um dia longo e cansativo. Mas, deve comer um pouco. Prometo não falar e deixá-lo em paz. – disse o agente.
Já fez isso por dez anos, seu filho da puta! Não venha dar uma de bom moço prá cima de mim!
– É muito gentil da sua parte, mas meu estômago está revirado. Deve ter sido algo indigesto que me passou despercebido! Onde posso me recostar? Naquele sofá? – indagou Shura tentando não transparecer seus verdadeiros pensamentos.
– Fique na suíte, eu durmo no sofá.
Shura olhou, rapidamente, para o cômodo e franziu o cenho. A cama larga, o cheiro do dono da casa, a intimidade...
– N-Não. Prefiro ficar naquele sofá ali. – respondeu Shura, como se estivesse vendo um fantasma.
– Porca miséria! Porque tem de ser tão teimoso?! Estou tentando ser um bom anfitrião, não vou seduzi-lo, se é o que teme! – gritou Máscara da Morte.
– Eu não temo nada! Simplesmente, porque não espero nada de você. Me esqueça! Não foi o que me disse? Pois, eu esqueci! Totalmente! Satisfeito ou eu preciso desenhar prá você entender melhor? – rebateu Shura.
Máscara ficou sério, depois bebeu mais um gole de cerveja e tornou a olhar para Shura. Colocou a garrafa vazia no lixo e deu as costas, indo em direção à suíte.
– Seja feita a vossa vontade. – disse Máscara sem olhar para trás.
Shura deitou-se no sofá, após Máscara atirar-lhe dois lençóis, um travesseiro e um edredom. Tudo feito no mais absoluto silêncio. Após a chegada da tele-entrega, Máscara trancou-se em sua suíte e deixou Shura sozinho. Por alguns minutos, o espanhol revirou-se no sofá estreito com o estômago roncando. Depois, pegando a garrafa de uísque que Máscara da Morte deixara, entornou o que ainda restava e caiu duro, dormindo como uma pedra.
O sono de Shura estava longe de ser tranquilo. No início, uma tela preta baixara em frente aos seus olhos e ele sentiu-se afundar num longo e silencioso túnel sem fim. Porém, passados alguns buracos negros, outras paisagens se fizeram presentes. Viu-se aos dezessete anos, novamente. Seu pai, um homem magro e alto com olhos de águia fitava-o como se fosse engoli-lo.
“Não acredito no que estou vendo, Shura! Meu filho... Meu filho um... um maricón! E, se não bastasse, apaixonado por um desajustado!”
A voz do homem penetrava em sua carne, fazendo-a vibrar como se estivesse sendo arrancada dos ossos. Shura enfrentou seu olhar acusador e aguentou as bofetadas em sua face, até que ficasse dormente e com o lábio cortado.
Sentindo a própria angústia transformar-se numa serpente multicor, gritou quando ela cravou-lhe as presas e tirou-lhe o ar. Então, os olhos azuis de Máscara da Morte surgiram em meio ao caos, resgatando-o para, logo em seguida, empurrá-lo em direção ao abismo que se abria sob os seus pés...
“Eu te amo... Não me deixe! Por favor, não!”
A queda vertiginosa era infinita e longa, permeada pela escuridão e pela dor...
“Me esqueça”!
Shura abriu os olhos com o coração batendo na garganta. A sala estava envolta na penumbra e as cortinas estavam abertas, permitindo que a luz da lua e até o brilho das estrelas inundasse o ambiente com sua luz transparente e fugaz. Mesmo com os olhos doloridos, ele viu a silhueta que movia-se devagar...
O peito amplo, parecendo ter sido esculpido em mármore. As pernas musculosas exibindo cada feixe de carne e nervo. Os cabelos despenteados e os fuzilantes olhos azuis... Era ele, Máscara da Morte, completamente nu e olhando-o preocupado como se estivesse atendendo um pedido de socorro...
– Você está bem?
– D-Deus! Foi somente um pesadelo. Desculpe-me por acordá-lo por uma... bobagem. – disse Shura com a testa molhada de suor.
– Bobagem? – falou Máscara tocando o rosto do espanhol.
– É... bobagem! – disse Shura afastando-se do toque.
– Eu ouvi você gritar, então acho que não é uma bobagem. Acho, inclusive, que... diz respeito a mim, também.
– Eu já disse que...
– Por favor, Shura! Não tente negar que algo ficou inacabado entre nós. Éramos jovens, mas eu...
– Você foi embora. Me deixou mesmo depois que eu decidi contar tudo ao meu pai. Eu arrisquei tudo sem me importar com as consequências e no fim... No fim, eu fui apenas uma boa foda, como você costumava dizer!
– Eu não tinha futuro, não era ninguém... Se tivéssemos ficados juntos você seria medíocre como eu era! Eu acabaria arrastando você para um mundo promíscuo, porque era o único que eu conhecia. Seu pai me perguntou se eu o amava e eu disse que sim. Pela primeira vez eu sentia algo verdadeiro e duradouro por alguém. Então ele me perguntou se eu tinha família e eu disse que não. Ele... ele então se ajoelhou e implorou para que eu deixasse você ser alguém. Que deixasse você continuar em uma família decente. Que... me afastasse se, realmente, o amava. Você não sabe a dor que eu senti ao dizer aquelas palavras! O seu rosto... ainda vermelho das bofetadas. Eu sabia... sabia que estava sofrendo, mas sofreria mais comigo, entende?.
Uma única lágrima rolou pela face de Shura, brilhando à luz prateada do luar. Máscara voltou a tocá-lo no rosto, enquanto o espanhol tentava, em vão, esconder a enxurrada de emoções que se descortinavam em seu íntimo.
– Você sempre foi a minha âncora e foi por você que eu... lutei contra todos os indicadores que me apontavam como um caso perdido e venci. Eu me transformei em um homem melhor para um dia, merecê-lo. Eu sempre te amei, Shura. Sempre.
Shura fitou o rosto tenso de Máscara da Morte e o que viu, deixou-o sem ar. O brilho predatório e feroz fora substituído por algo profundo e terno. Era como da primeira vez em que tinham ficado juntos... O desejo misturado à paixão. O cuidado e o riso tornando a experiência erótica em algo mais que apenas sexo...
O rosto, extremamente, masculino inclinou-se para beijá-lo e Shura não conseguiu esboçar nenhuma outra reação que não fosse a entrega. O beijo começou lento e suave, mas logo se inflamou, ficando tão ávido e primitivo que lhes tirou o fôlego.
– N-Nós... não devíamos fazer isso... – disse Shura afastando a sua boca da dele e tentando resistir ao desejo atroz que atingia o seu corpo.
– Não, mas nós vamos. – respondeu Máscara puxando-o de encontro a si.
Shura olhou para Máscara e deixou de raciocinar. Máscara tirou-lhe a camiseta e a arremessou longe. Com sofreguidão, mordiscou e lambeu o pescoço do espanhol, descendo até capturar um mamilo entre os dentes e fazê-lo arfar enquanto seus dentes arranhavam e atiçavam aquele bico inchado.
O espanhol gemeu, tentando voltar ao controle quando Máscara empurrou-o de encontro ao sofá e enterrou a cabeça entre as suas pernas, tomando seu falo túrgido na boca, fazendo-o gemer alto e arquear o corpo.
– M-Máscara... – gritou Shura quando a língua quente do italiano espiralou por toda a extensão de seu membro, antes de levá-lo até as profundezas da garganta.
Com um sorriso malicioso, Máscara intensificou os movimentos. Sua língua, seus lábios e sua boca uniram-se às mãos fortes, crucificando Shura num altar de êxtase, fazendo-o estremecer convulso e arfar na mais doce agonia...
Os gemidos de Shura o deixavam ainda mais excitado, seu falo doía de tão duro, mas ele queria dar-lhe prazer, tirar-lhe as mágoas profundas com seu corpo e com seu amor...
Beijou, lambeu e chupou o falo de Shura até senti-lo estremecer num espasmo violento e gozar em sua boca. Sorriu quando engoliu o prazer dele e, em seguida, tomou-lhe a boca com uma paixão feroz envolvendo-o numa rede de êxtase, fazendo-o desnudar-se de toda a dor...
Com os olhos semicerrados, Shura sorriu ao sentir o sabor agridoce na língua do amante e aprofundou mais o beijo, entregando-se por completo nas mãos daquele que fora o seu mestre, o únicoa quem se entregara por completo...
Máscara segurou Shura pelos quadris, se pôs entre as coxas torneadas e se encaixou na entrada, fazendo seu falo adentrar de uma só vez. O espanhol arfou e viu-se contendo a respiração, em choque pelo volume da penetração. Máscara controlou-se para ficar imóvel, seu corpo tremendo pela firmeza apertada do corpo de Shura, um delicioso tormento que sempre lhe dera o maior dos prazeres...
Os dedos de Shura seguraram-no pela nuca e o último fio de controle se rompeu. Máscara sentiu seus quadris agirem por conta própria e mergulhou no corpo do espanhol, várias e várias vezes, os movimentos cada vez mais fortes e mais profundos, a sede pela posse levando-o a beber dos gemidos e ofegos em seus lábios com sofreguidão...
Estimulado pela pulsação do corpo que o acolhia e pelos gemidos que se misturavam aos seus, Máscara da Morte sentia-se estremecer, a intensidade do gozo cavalgando-o com uma fúria incontrolável. Em êxtase, puxou Shura de encontro a si apertando as suas nádegas enquanto se enterrava numa última investida dentro dele. Um grito rouco escapou de sua garganta e um gemido alto uniu-se ao seu quando Shura também gozou numa explosão de fluídos, sentimentos e puro deleite.
Esgotados e trêmulos, ambos permaneceram abraçados, parecendo que suas almas lhes tinham sido roubadas. Foi então que suados, olharam-se nos olhos e Máscara pronunciou as palavras primeiro:
– Grazie, mi amore... Grazie, por me fazer sentir tanto!
O espanhol sorriu.
– Também te amo, seu... Farabutto!– disse abraçando-o com força.
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“Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo...”
Shura suspirou em meio ao seu sono, virou de lado e se aconchegou ao corpo firme e quente ao seu lado. Estavam nus e acomodados na ampla cama cujo colchão macio se amoldava aos corpos.
Já havia amanhecido e sua mente vagava, focava, novamente, e vagava... Ele estava tão confortável e feliz, mas alguma coisa estava errada. Seus olhos estavam pesados e o seu corpo, dolorido. Mas, era uma dor gostosa, daquelas que não há do que reclamar...
Sentiu a respiração quente em sua nuca e, em seguida, ouviu a voz rouca sussurrar-lhe próximo ao ouvido:
– Feliz Natal...
Ele conhecia aquela voz e, sim, era Natal! Mas, algo tinha acontecido, ele fora preso e depois... Depois, fizera amor com Máscara da Morte e...agora...
– Madre de Dios! Eu ainda sou suspeito de um crime. – disse Shura abrindo os olhos e praticamente pulando da cama ampla.
– Deite-se e não se preocupe com mais nada. – respondeu Máscara sorrindo e puxando-o pelo braço.
Havia um tom de divertimento em sua expressão e também algo mais profundo reluzindo em seus olhos azuis.
– Esqueceu que me mantém sob custódia? Quando vamos esclarecer isso tudo? – perguntou Shura passando a mão nos cabelos.
– Não, não esqueci. – disse Máscara se apoiando sobre um cotovelo enquanto o edredom escorregava pelo seu corpo até a altura dos seus quadris.
Ele sorriu para Shura de um jeito muito estranho e o espanhol sentiu que havia algo no ar.
– Você não parece nem um pouco preocupado com o fato de eu...
– É Natal, Shura.
Vagarosamente, tudo começou a se encaixar na cabeça do espanhol: a prisão no aeroporto, a acusação, o homem vestido como mafioso, a aparição de Máscara da Morte, a proposta de custódia fora da prisão...
– Não havia acusação nenhuma, não é mesmo? De alguma forma, você ficou sabendo que eu vinha e armou tudo isso, não foi? – perguntou Shura.
– Em parte, sim. Digamos que eu me aproveitei de um fato para construir outro. Eu esperei dez anos para explicar aquele dia maldito. Precisava de tempo, então quando a CIA apareceu com o retrato falado de um criminoso espanhol eu senti a oportunidade surgir. Eu sabia da sua viagem, assim como sabia de todos os seus passos durante todos estes anos. Só precisava do momento certo.
– Passou dez anos me vigiando? Sem nunca me procurar?
– Sim.
– Você é...
– Um farabutto! Eu sei. Mas é melhor ser um filho da puta que ser idiota e perder o único amor da sua vida.
Shura hesitou, mas depois sorriu. Vagarosamente, Máscara da Morte ia deixando o edredom escorregar, revelando partes de seu corpo.
Era um filho da puta gostoso prá caramba e mexia com ele como ninguém fora capaz. Pensou Shura enquanto olhava para Máscara da Morte.
O italiano sorriu como se soubesse exatamente o que ele estava pensando.
– Se você estiver interessado numa pequena exibição de ereção matutina, é só dizer... Afinal, é Natal, mas nada aqui... é de brinquedo! – disse Máscara com um sorriso safado.
– Obrigado pela oferta generosa, mas...
– Mas...? – disse Máscara afastando ainda mais o edredom até revelar uma barriga firme e seu membro rígido já pronto para...
Não olhe! Shura ordenou a si mesmo, mas já era tarde demais. Máscara saltou sobre ele e puxou-o para cima da cama fazendo-o gargalhar alto. A seguir, o italiano beijou-o até senti-lo totalmente entregue e excitado.
Não foi preciso dizer mais nada. Passaram o resto do dia fazendo amor, porque afinal, dez anos tinham se passado... Era preciso reconstruir o tempo, confiar que tudo possui significado e entregar-se ao amor que a tudo transforma e a tudo resgata...
“Então me abraça forte
E diz mais uma vez
Que já estamos
Distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo...”
FIM
Notas finais
***Os dois trechos colocados no final da fic são da música Tempo perdido do legião Urbana.
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