Tempo

1 Capítulo Único


Não me lembro de onde nasci. Já fui chamado de Thomas, Sebastian, Jason, Antônio, Orion e Makio. Já estive em todos os cantos do mundo, mesmo que a Terra não tenha cantos. Sei que nasci no século XVI. Me lembro de certos momentos da minha infância, lembro de correr atrás de uma vaca malhada e tecer com meu pai, que morreu poucos anos depois que cheguei a esse mundo. E também me lembro do dia em que minha mãe me disse que não poderíamos mais nos esconder.

Ela era uma bruxa, meu pai era um mortal comum. Ela dizia que era quase impossível que tivesse herdado seus dons, mas, de fato, eu os herdei. Era a época da famosa Caça às Bruxas, muitos de nosso povo foram mortos, mas muitos do seu povo também. Não foi justo, a maioria de nós só tentava viver em paz.

O feitiço que nos tirou daquele tempo terrível matou minha mãe, mas me deu a habilidade de viajar no tempo. Como feiticeiro, eu sou imortal a tudo que venha do seu mundo, o mundo humano. Atualmente, uso o nome Gabriel. Mudo de tempos em tempos, para que não me reconheçam. O tempo, a história, é uma coisa engraçada, não se pode alterá-lo sem causar estragos.

Eu estive nas duas guerras mundiais, estava lá quando a bomba atingiu Hiroshima e quando a revolução russa explodiu.

Essa habilidade me tirou muitas pessoas que eu amava mas me deu outras para amar igualmente. Queria eu poder levá-los comigo para a época que eu quisesse. Já tentei e acabou de forma trágica. Vivi belos momentos em Veneza, Amsterdam, Nova Deli, Durban e Santiago e desses não esqueceria nem em mil vidas.

A humanidade é fascinante, vocês sempre se julgam superiores aos seus antepassados, os egípcios eram assim, os gregos e romanos eram assim e os americanos do século XXI são exatamente iguais. Acredite em mim, convivi com todos eles. Mas no fundo sabem que estão fazendo a mesma coisa. Guerras, doenças e morte. E em tudo vocês têm uma parcela de culpa, mas nunca admitem.

Quantos anos eu tenho? Não sei. Gastei vários dias da minha existência tentando calcular, mas ainda assim... Creio que tenha vivido mais de quinhentos anos e menos de mil, é difícil saber. Diferentes épocas, diferentes costumes, diferentes pessoas, diferentes línguas, diferentes nomes mas uma só vida. Sempre o mesmo corpo, o de um jovem de vinte anos cujos olhos esverdeados já conquistaram muitos homens e mulheres ao redor do globo.

Eternamente jovem, eternamente belo, eternamente preso.

Notas finais
Me diga o que achou ;)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!