Tempo
1 Recomeço
A noite estava de forma totalmente diferente dos dias anteriores onde o céu era estrelado e o clima agradavelmente inspirador. Hoje, no entanto, o lugar ganhava aspectos sombrios com variadas nuvens que pareciam ter sido manchadas de tinta, pois estavam nos tons de preto e cinza fazendo a lua ficar impossível de se encontrar. O clima ao invés de inspirar, congelava todas as ações de qualquer individuo demonstrando o quão difícil seria a noite. Mesmo assim, apesar de todos os fatores, uma movimentação em todo aquele reboliço natural chamava a atenção para aquele momento e lugar.
Era quase quatro da manhã e a casa de número dezenove recebia novos moradores. O preto que se sobressaia em todo canto, logo tomou forma e vida com fortes e vigorosas luzes. O carro que se propusera ali estacionou de forma suave, quase imperceptível – se não fosse o barulho do motor — de acordo com o silêncio que se fazia, mostrando alguém muito experiente ao volante. Com o fim da bela manobra, o carro já não dava mais sinal de que seria retirado dali novamente, fazendo o local voltar ao seu estado inicial, um silêncio frio e discreto capaz de constranger qualquer um que tentasse fazer algo. Apesar do término da movimentação do automóvel, os faróis ainda continuavam em pleno trabalho e acessos forneciam a fonte de luz mais forte do local, apesar dos vários postes anêmicos da rua.
O frio que se fazia era intenso e os ocupantes do veículo demoraram alguns minutos para mostrar alguma reação, pelo visto estava muito mais quente e confortável do lado de dentro. Mesmo com o tempo não ajudando e o vento congelando até a alma, os ocupantes dianteiros desembarcaram primeiro. Apesar da pouca luz, as silhuetas revelavam duas pessoas distintas, a primeira que saiu era alta, se comparada à altura do carro ultrapassando-o com facilidade, eram dez centímetros que com certeza faziam toda diferença. Era encorpada, aparentando boa forma física, mesmo assim era pouco ereta, deduzindo-se alguém afetado pelos árduos anos de esforços pesados. Apesar da densidade do momento, pela forma rudimentar que se movia e agia a figura envolta pela escuridão era um homem. A segunda pessoa que sairia pela porta esquerda, quase no mesmo instante era o oposto, revelava também alguém alto, mas era esbelta e curvilínea com longos cabelos que esvoaçavam ao vento, deduzindo-se assim o traçado de uma mulher.As duas sombras – até o momento — pela rapidez com que saíram, estavam bem mais motivadas do que uma terceira que ainda se encontrava no interior do automóvel. Os dois logo foram as suas devidas funções, a mulher conduziu-se rapidamente a porta de entrada da casa acendendo instantaneamente a luz ajudando no breu, o homem foi para a parte traseira do carro e com apenas um estampido o porta-malas logo se abriu, várias caixas amontoadas se revelaram. Eram no mínimo umas dez caixas e não pareciam pesadas porque a senhora carregava-as com facilidade, era pouca coisa deduzindo-se as três pessoas que ali estavam — talvez o resto da mudança viesse no dia seguinte. Apesar de alguns minutos já terem se passados a agitação que a aparente mudança dispusera a fazer, de tal maneira movimentou aquela rua que em sua maioria era pacata.
Embora o céu parecesse enfurecido e com o noticiário relatando uma fria e longa tempestade não havia nenhum sinal de chuva, porém a única maneira de ver os novos moradores era de relance, pois apresados, eram iluminados vagamente pelos fracos postes ou às vezes quando passavam na frente dos faróis do carro — ainda ligados — mostrando instantaneamente alguém.
Já haviam se passado exatamente quarenta e dois minutos dês da esplêndida manobra e do barulho cortante do motor do carro estacionando na vaga principal da casa de número dezenove. A movimentação ainda era intensa, mesmo com o fim de todas as caixas, o que se via agora eram várias sacolas atiradas de qualquer maneira pela porta da frente para dentro da casa. A pessoa que ainda estava no carro não mostrava qualquer reação ou simplesmente compaixão em ajudar os dois adultos que freneticamente trabalhavam para saírem logo daquele frio cortante, contribuindo com a demora no término da mudança.
A cada instante as duas pessoas olhavam para dentro do automóvel esperando alguma reação da terceira sombra que ainda estava dentro do veículo, mesmo com os pedidos de ajuda, ela ainda não os correspondia. Por fim a terceira pessoa saíra do carro, não demonstrava ânimo algum por estar ali, por isso tentava se aconchegar no asfalto frio e maciço em frente a casa. No lugar onde se sentou estava disposto um poste, iluminando-o e revelando quem estava tão leviano naquele lugar. A pessoa sentada e tremendo de frio não parecia com as outras sombras era alta, pois teve dificuldade em arquear as pernas, magra, porém atlética, revelava-se fisicamente comum sem nenhuma beleza avassaladora, estava com os cabelos exasperados com o vento soprando-os, mesmo assim demonstrava delicadeza em seus traços dando força ao ar pensativo que demonstrava. O menino que avermelhado com o frio aparentava ter por volta dos seus quinze anos, surpreendia por que sua estatura lhe daria no mínimo uns dezenove anos. Ficou ali brevemente, porque logo foi chamada a ajudar a dupla incansável. Levantou-se de forma exasperada, talvez por querer sair logo daquele vento, e assim prontificou-se a ajudar. Passado algum tempo, exatamente uma hora percebia-se cada vez mais a lentidão de ambas as pessoas que muitas vezes agora paravam para descansar. O rapaz agora aparecia constantemente, tendo em vista o cansaço das outras duas pessoas que muito antes começaram a trabalhar. Restando apenas três bolsas, só o rapaz aparecia, pois com a facilidade da tarefa uma pessoa apenas bastava.
De acordo com que o dia ia clareando todo o espaço ia tomando forma e cor, revelando tudo o que estava naquele lugar há poucos instantes. Com poucos raios de sol e neblina saturada a nítida visão ainda era impossível mesmo assim as cores dos objetos eram inigualáveis. A grama em frente da casa era de um verde-esmeralda tão intenso que machucava se ficássemos observando por muitos instantes, a casa em si possui dois andares era de um bege bem sofisticado com detalhes em madeira, o carro que ali estava há poucos minutos em seu barulhento movimento era de um azul marinho refinado com partes em prata, tudo parecia disposto milimetricamente e assustadoramente organizado em seu lugar. Já eram seis horas da manhã e a mudança enfim havia terminado, os faróis foram desligados e mesmo com a intensa movimentação da noite poucos vestígios foram deixados. Ninguém aparecia mais, quando a mudança terminou o menino foi chamado, fechando atrás de si a porta e garantindo com que nenhuma pessoa bisbilhotasse o interior do imóvel.
A imensidão desta manhã reluzia um esplendoroso céu azul-turquesa que deixava a quem olhasse entretido por alguns minutos, não existiam nuvens naquele dia e o sol embora tímido, iluminava a face de quem passava como se fosse um belo toque de compaixão. A rua por sua vez recebia novamente movimentação, os cães já postos para o lado de fora começavam a latir para o carteiro que de tão acostumado com aquilo nem se importava, os regadores logo começaram a esguichar e as luzes frontais das casas e dos postes logo se apagaram depois de uma longa noite.
Após uma longa e cansativa madrugada com idas e vindas da mudança,Mark mal conseguiu dormir devido a toda aquela agitação. Eram onze horas da manhã quando ouviu um pequeno alarme, mas não se preocupou era sábado e já estava acostumado a acordar, mas tarde neste dia. Todavia não fazia diferença alguma, pois como era novo na cidade não conhecia ninguém, então sair não estava nos seus planos. Mesmo sem querer sair da cama a movimentação que vinha da parte térrea da casa o despertou fazendo o seu tranquilo quarto um lugar chato e monótono. Sendo assim saltou num piscar de olhos, direcionando-se ao banheiro e fazendo o seu ritual matinal. Depois de escovar os dentes e trocar o pijama, começou a descender as escadas em passos curtos, tão curtos que pareciam propositais. Na parte inferior da casa se deparou com varias caixas e malas espalhadas pelos cômodos, percebendo rapidamente que a o resto da mudança havia chegado. Eram quatro homens que descarregavam os pertences de um grande caminhão alaranjado e com grandes disseres: “Mudanças a jato, o melhor e mais rápido da região”. Porém o que mas surpreendia era o tempo, que de um céu tempestuoso na noite anterior se transformou num céu azul vivido e esplendoroso, com tons amarelos e alaranjados, fazendo o caminhão estacionado parecer camuflado, pois as cores eram idênticas. Mesmo assim quando se deparou com todo aquele reboliço, rapidamente foi à procura dos outros moradores da casa, que pelo cheiro de pão e café estavam na cozinha. Chegando ao recinto se deparou com o homem alto e a com a mulher de cabelos esvoaçantes sentados em uma grande mesa de mármore e cadeiras acolchoadas de um vinho vivido, adentrando pela porta foi encarado e de imediato chamado para o café da manhã:
– Bom dia rapaz, dormiu bem? Perguntou o homem barbudo e pouco grisalho.
– Se considerar “bem” esta barulheira, eu diria que não.
Respondeu o garoto.
– Você deveria agradecer por ter aonde dormir! Disse a mulher com a xícara estrategicamente posta em sua mão.
– É talvez eu agradeça, mas sei que não será para você!
Falou rapidamente o rapaz.
Ao ouvir estas palavras a Srtª com o ar de superioridade apresentava agora um tom de pele desconhecido da medicina, onde os tons esverdeados e avermelhados de seu rosto lhe causavam uma aura monstruosa. Os dois olharam-se por alguns minutos e mesmo quem não os conhecessem diriam que eles não se suportavam.
Percebendo que os ânimos estavam exaltados, o senhor que até então não dissera nada abaixou seu jornal e se dispôs entre os dois encerrando a conversa:
– Vocês dois logo cedo, pelo menos hoje poderia haver uma trégua!
Os dois se entreolharam sabendo que aquilo não havia de fato terminado.
– Venha logo tomar seu café, já está esfriando.
Falou o homem energicamente.
Sentando em uma das extremidades da mesa Mark logo se serviu, apressando-se para sair o mais rápido possível dali.
– Coma devagar! Parece um animal faminto.
Comentava Eleonor com brilhos nos olhos.
– Ela está certa.
Disse Chris em concordância a sua esposa.
– Eu já não aguento mais isso! Será que você tem que concordar com tudo o que ela diz. Você não podia ficar do meu lado de vez em quando!
Perdia-se Mark em seus pensamentos.
Torcendo para que aquele momento termina-se, uma ajuda veio bem a calhar, a campainha tocou e a mulher de longos cabelos levantou-se e foi de encontro à porta frontal, o murmurinho era distante e após alguns minutos ela retornou:
– Eram os vizinhos da frente, os Walthers, eu acho, deram essa cesta de compotas de mel como presente de boas-vindas. Simpático por parte deles.
– E você disse o quê?
– Agradeci, obviamente, e os convidei para um jantar, qualquer dia desses.
– Só espero que sejam pessoas de alto nível!
– Estava demorando! Pensou Mark, que diminuiu o ritmo da refeição para prestar mais atenção a conversa.
Sua madrasta, Eleonor, era o tipo de pessoa que não conversava ou relacionava-se com qualquer pessoa facilmente, primeiramente ela se referenciava sobre o tal “ser”, após isto vinha à descoberta dos bens e a influência da família na sociedade local e por fim a decisão de selar uma amizade, para que assim ela pudesse desfrutar não só da “companhia” desta pessoa como também de seus pertences.
Para Mark ela era um ser mesquinho e deplorável, não sabia como seu pai pode se casar com alguém assim, tendo em vista como era sua mãe.
– Aff! Isso me embrulha o estômago.
Recolhia-se novamente em pensamentos.
Levantou-se quase que num pulo ao perceber que já havia terminado seu desjejum, mas para sua surpresa a tarde não seria como ele havia planejado.
– Você pensa que vai aonde? Perguntou Eleonor
– Vou andar por ai, conhecer a vizinhança. Algum problema?
– Tem sim! Disse num tom sarcástico.
– Creio que você deveria primeiro arrumar as suas coisas.
Falava ela com um sorriso estridente e com um olhar venenoso, esses sempre imperceptíveis a seu pai.
– Bom isso é a sua opinião e eu posso arrumar tudo quando voltar.
Tentou argumentar.
– Não discuta rapaz, vá arrumar suas coisas e depois você decide o que fazer.
Concordava com veemência Chris.
Sabendo que já havia perdido essa batalha, Mark logo se dirigiu ao nível superior da casa, com pensamentos nada agradáveis sobre sua madrasta. Chegando ao quarto tomou rapidamente a decisão de fechar a porta e, portanto não ter visitas indesejáveis. Mesmo odiando a ideia de ficar em casa com o sol que se fazia, tinha que concordar com Eleonor, o quarto era inabitável, porque estava todo revirado com caixas e malas dispostas em lugares aleatórios sem qualquer organização. Sentou na cama para pensar por onde começar e por fim, sem qualquer ânimo, esvaziou as malas, as caixas, colocou as roupas no armário, os livros nas prateleiras e o seu computador na mesa disposta na frente da cama. Com o término da arrumação, podia-se ver novamente um mediano cômodo habitável. O sol já não estava tão forte, comparando com quando ele começou a cuidar do quarto, mesmo assim não havia desistido de sair. Queria verificar em quem lugar se meterá dessa vez.
Por mais que não quisesse, as mudanças de cidades eram frequentes, sendo esta mais uma de varias. Chris era militar e a permanecia nos lugares rondavam em exato um ano, por isso cada período escolar de Mark era em uma escola diferente e com estranhos diferentes, assim dizia ele. Portanto fazer amizades duradouras não estava em seus planos. Desmanchou as caixas de papelão e saiu do seu quarto, desceu as escadas e as colocou na lixeira que estava no quintal traseiro da casa. Ao passar pela cozinha e empurrando a porta para fora se deparou com um belo e bem cuidado jardim, uma piscina e com cadeiras direcionadas para o sol. As flores exalavam incríveis aromas, explicando a diversidade de beija-flores, borboletas e abelhas ao redor delas.
Voltava para sua realidade quando duas vozes se sincronizavam ao chamar seu nome.
– Mark? Ouvia-se no interior do imóvel.
– Estou indo! Respondia rapidamente.
Adentrando a casa percebeu que os sons das vozes vinham da sala de estar e assim as seguiu. Chegando até o cômodo, encontrou o pai e a madrasta sentados em distintas poltronas. A sala era muito bem decorada com tapeçarias em tons de vinho que contrastavam com as paredes em branco. As longas cortinas possuíam um azul aveludado e com a lareira o lugar ganhava um toque acolhedor.
– Você já terminou de desempacotar suas coisas? Perguntava o homem por cima do livro.
– Terminei e já joguei as caixas no lixo. Por quê? Questionava o rapaz com interesse do seu pai.
– Apenas pelo motivo de lhe avisar que sairei com Eleonor para jantar, você quer ir?
Não sei se seria uma boa ideia, percebi o olhar de minha madrasta quando meu pai vez a oferta de sairmos em família, coisa que raramente acontecia, porém a conheço muito bem mais do que gostaria e se esse olhar tivesse poder me esfolaria vivo.
– Não, obrigado! Pretendo andar por ai, conhecer a vizinhança.
Percebi o sorriso de canto de boca dela ao dizer isso.
– Tudo bem então, cuidado!
– Divirtam-se! Disse meio a contra gosto.
Subi rapidamente as escadas, troquei de blusa e peguei meu celular. Queria logo sair dali e respirar ar puro pra variar. Despedir-me ao chegar à porta da frente, talvez ninguém tenha escutado, pois não obtive retorno algum, mesmo assim sai de casa. Já eram três da tarde quando finalmente tive liberdade. Atravessei o belo e bem cuidado jardim e comecei a caminhar até o fim da rua, deixando meus instintos me guiar. Deparei-me com duas direções ao final da rua, uma placa de sinalização mostrava que a da direita levava ao centro da cidade e a da esquerda para fora dela, foi então que percebi que estava defronte a uma placa verde e apagada, esta qual com grandes disseres:
– Albert Stone? — Que nome diferente para se colocar em uma rua, pensei comigo mesmo.
Mesmo não sabendo ao certo para onde iria, decidi seguir a rua da direita e fui até o centro da cidade. Após exatos dez minutos andando e desfrutando de uma linda e verdejante paisagem, avistei um grande arco e um letreiro proporcional ao mesmo, com os disseres:
BEM-VINDO A STONE GARDEN
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