Tempestuoso
27 Sem Lágrimas para Chorar
Notas iniciais
As palavras da diretora e do treinador da equipe de natação ainda ressoavam na minha cabeça, como uma espécie de hall de entrada para a grande tortura que seriam meus dias dali para frente. Meus pés guiaram-me para o meu quarto, eu não merecia jantar, justamente comer demais havia me levado a aquilo. Por sorte, não encontrei ninguém no caminho, que virou um borrão na minha memória e nem no quarto, sentei na minha cama de modo rígido e afundei-me nas minhas angústias.
Perdi completa noção de tempo e espaço, meu cérebro rodava em círculos não querendo acreditar que eu teria que participar da equipe de natação, a pessoa com hidrofobia, como eu sairia daquela situação? Até fugir passou pela minha cabeça, porém parecia ser um preço muito alto para todas consequências posteriores, recorrer ao meu pai era idiotice, pois ele era cúmplice daquilo, como que autorizara EU a participar de uma equipe de esporte aquático?
— Você está bem? Bleika? — Alguém chamou por mim.
Só após mais algumas tentativas de contato que consegui voltar a terra.
— Oi? — Encarei Yerik atordoado, ele não estava me evitando?
— Você está bem? — Voltou a perguntar, sua expressão parecia indiferente, o que era completamente contraditório a sua pergunta.
— Não. — Comecei a rir, estava entrando em estado de choque.
Gargalhei como se o dia não tivesse fim e a barriga doesse, tomei na cama e aos poucos o riso se transformou em choro. Se antes, Yerik me observava atônito ao meu riso, ao me ver chorar, deitou-se ao meu lado e me abraçou. Algo na minha cabeça mandou afastá-lo de mim, porém estava completamente descontrolado para seguir sua ordem. Eu queria parar de chorar, estava cansado de chorar tinha passado um verão inteiro fazendo isso, não queria mais, porém, querer não era poder.
Aos poucos o controle voltava a tomar conta do meu corpo, porém o choro não cessava, assim como a pressão do abraço de Yerik sobre mim. Ele estava sendo tão legal, abraçando-me, eu realmente não merecia aquilo, aos poucos uma leve culpa tomava-me conta.
— Me desculpe. – Sussurrei.
— O quê? – Ele diminui a pressão em volta de mim e levantou a cabeça para me observar.
— Me desculpe pelo o dia do enterro. – Levantei o tronco, permanecendo sentado na cama. – Eu te devo alguma resposta.
Minha fala lhe pegou desprevenido, ficou claro na sua expressão de surpresa.
— Não preciso mais da sua resposta. – Foi a minha vez de ser surpreendido. – Não importa mais. – Seu tom era calmo.
O que ele queria dizer com aquilo? Que não me amava mais ou que não desejava mais o meu amor? Ambas as hipóteses, me revirava o estomago, eu me sentia horrível por desejar que ele me amasse, mesmo sabendo que isso era errado. Na minha cabeça, meus dilemas religiosos sempre confrontavam meus mais sinceros instintos emocionais, não era justo com ele lidar com isso.
— Ah, entendi. – Fiquei constrangido.
Ficamos nos encarando por um tempo, na realidade, ele ficou me encarando enquanto eu o espreitava com o olhar.
— Você pode me falar o que foi isso? Por que começou a chorar? Saudades de Sam?
Acho que uma coisa nunca sumiria ou demoraria um longo tempo para sumir, era o aperto do coração que sentia toda vez que alguém pronunciava o nome de Sam para mim. Mas naquele momento, essa angustia não chegava nem perto ao que sentia por fazer parte da equipe de natação.
— Eu estou na sua equipe de natação. – Minha voz saiu quase robótica, de tanto que tive que contê-la para não chorar.
— Você? – Ele contraiu a testa. – Mas você...
— Exato! – O interrompi. Qualquer um minimamente próximo de mim saberia da minha repulsa a água.
— Não tem como você se negar? Mas por que você está na equipe, para início de conversa. – Ele parecia curioso, permanecia com a maior parte do corpo deitado na cama, apoiava a cabeça em uma das mãos.
—Meu pai solicitou um programa de emagrecimento e me colocaram justamente na natação. – Senti meu corpo tremer, só de me imaginar em uma piscina. – Eu tenho alguns problemas com compulsão e ficaram um pouco mais nítidos nos últimos meses.
— Não tem como você explicar sua situação e mudar o esporte, sei lá?
Suspirei.
— Eu acabei de voltar de uma reunião com a Irmã Nancy e o seu treinador, eles foram bem claros sobre o posicionamento deles e minha ausência de opções. – A cada palavra que eu dizia, era um suspiro, uma forma de não chorar.
Lembrei da discussão que tive com ambos e da forma que eu ficara sem opções, completamente desnorteado e desesperado.
— Você já sabe o que irá fazer? – Seu tom era sério.
Não lhe respondi, meus olhos encheram de lágrimas novamente, apenas arqueei os ombros, na clara expressão: “não faço a menor ideia”. Dessa vez, apenas as lágrimas escorreram.
— Eu estou cansado de chorar. – Falei limpando os olhos.
Yerik olhava-me com pena.
— Sinto muito.
Balancei a cabeça positivamente, levantei-me da cama e comecei a andar de um lado para o outro.
— Sempre há uma alternativa. – Ele falou, agarrando meu braço, puxando-me de volta para cama. – Se acalma! – Seu tom era quase imperativo. – Vamos arrumar um jeito nisso.
— Eu não consigo, eu estou surtando em pensar só de entrar na piscina, até imagino o que o Sr. Rooselvet irá fazer para me colocar dentro d’agua.
— Nós vamos arrumar um jeito. – Ele foi incisivo.
— Vamos? Desde quando isso envolve você?
Yerik ficou calado, minha fala pareceu lhe dar o efeito de um balde de água fria.
— Desde que... – Ele falou sério me encarando, seus olhos eram tão belos. – Você sabe...
Ele não tinha coragem de dizer novamente, eu compreendia, não podia culpá-lo, apenas a mim.
— Eu não tenho ideia do que fazer. – Lhe falei com sinceridade.
— Pelo o que você me contou, você só está na equipe basicamente para emagrecer, eu posso te ajudar a emagrecer sem ter que entrar em uma piscina. – Sugeriu.
— Mas o treinador já está incumbido de fazer isso, como vai convencê-lo a não me deixar entrar na piscina na próxima segunda?
Meus treinos de natação seriam de segunda, quarta e sexta.
— Essa é uma boa questão, deixe-me pensar nisso. Mas aceita eu ser seu personal trainer? — A ideia parecia uma loucura, algo completamente aleatório e jogado. A uma hora atrás Yerik nem olhava na minha cara e agora queria me ajudar a emagrecer e procurava uma solução para eu não entrar na piscina, não parecia ser real e nem ao menos confiável. – Você não tem nada a perder, no máximo passar mais tempo comigo antes do jantar... –Ele completou ao observar meu olhar pensativo.
— Mesmo que eu aceite sua ajuda, ainda temos segunda...
— Eu pensei em uma coisa. – Ele voltou a ficar sério. – Uma coisa que vai doer muito e nenhum pouco ortodoxia, mas que pode nos dar tempo para você emagrecer e ser dispensado.
— O que está pensando? – Perguntei receoso.
—x-
— Eu acho uma péssima ideia você quebrar o seu braço. – Foi a primeira coisa que Maggie e Beth disseram no café-da-manhã, após eu lhes dizer tudo o que tinha acontecido.
— Eu também não acho uma boa ideia, mas eu não tenho muitas opções. Se para eu não entrar numa piscina, precise pular de uma janela e quebrar alguns ossos, eu faço. – Lhe respondi com sinceridade.
Estávamos sentados em mesas separadas, as meninas, incluindo Aisha, a nova integrante do grupo a pedido de Beth, estavam na mesa ao lado da minha, eu estava sentado sozinho. Por coincidência nenhum de nós tínhamos voltado para casa, naquela manhã de sábado.
— Radical. – Aisha falou. – Sua dieta já começou. – Apontou para meu prato.
Ela estava certa, minha dieta teve início um dia após o comunicado da direção, era a coisa mais sem graça que eu já comera na minha vida.
— Não acha que está sendo um pouco dramático? – Maggie perguntou.
— Nenhum pouco, eu sou completamente hidrofóbico, mal consigo tomar banho. – Confessei.
— Mas você nunca fede.
— Tenho meus truques.
— Você devia voltar a tratar isso com um psicólogo ou psiquiatra. – Beth falou.
— Eu já fiz tratamento. – Argumentei.
— Quando você tinha cinco anos, a dez anos atrás.
Fiquei calado, ela estava certa, porém não queria buscar esse tipo de ajuda, não guardava boas memórias do meu tratamento e teria que voltar a enfrentar os fantasmas do meu passado junto com meus demônios presentes.
— Bom dia, veteranos do Coral. – Uma pessoa falou atrás de mim. – Posso me sentar com vocês?
Virei-me e vi que era Louis com Danielle, a menina segurava a sua mão. Existiam poucas pessoas que eu não me dava bem logo de cara, sem razão, Louis era uma delas, mas eu não podia ser mal-educado, porque isso não era certo e ele nunca tinha feito nada para mim.
— Claro. – Balancei a cabeça positivamente.
— A regra de segregação de gênero parece não afetar vocês. – Maggie comentou desconfiada.
— Não, nós temos o direito de exceção por sermos parentes e eu ser cega. – Danielle falou sorrindo quanto era guiada pelo primo a sentar-se na minha frente.
— Pelo menos até você se adaptar a escola. – Louis comentou.
Mais próximo, pude reparar melhor nele, seus cabelos eram castanhos e os olhos no mesmo tom, não era tão branco quanto eu, mas possuía muitas sardas no rosto, percebi também covinhas.
— Como foi a semana de vocês? Gostaram do Coral? Danielle e Louis, certo? – Beth perguntou curiosa.
— Ainda não formei uma opinião ainda, um saldo positivo, acredito. E pode me chamar de Dani, até prefiro. – Danielle soou um pouco indiferente.
— Eu digo que com certeza positiva, St. Agnes tem muitos gatinhos, mas a maioria é tudo dentro do armário, isso é péssimo. – Ele gesticulava enquanto falava.
— Infelizmente aqui não é um lugar muito empoderador, mas o que esperar de uma instituição católica. – Beth sorriu. – Acho que você é o primeiro gay, assumido aqui. – Ela não conseguiu evitar de olhar rapidamente para mim.
O rumo da conversa deixava-me levemente desconfortável, sabia que seu teor atingia diretamente a mim. Engoli em seco para não aparentar nervosismo.
— Sério, eu pensei que você também era. – Louis olhou diretamente.
Sabe aquele momento que você vai do céu ao inferno em menos de 1 segundo e para na terra, então, foi exatamente isso que eu senti. Meu queixo caiu, o sangue subiu para o meu rosto e as palavras desapareceram da minha boca, não sabia o que dizer, olhei para Beth e Maggie como se pedisse socorro, ambas pareciam tão em choque quanto eu.
— Ele não é gay. – Maggie foi a primeira a reagir.
— Não, não... mesmo. – Beth falou gaguejando.
— Eu não sou gay. – Minha voz saiu rouca e baixa.
Para qualquer pessoa, seria obvio o contrário só pelo modo com que reagimos, pedi para Deus fazê-lo acreditar no que a gente dizia.
— Ahh... mas parece. – Louis encarou-me desconfiado. – Enfim, reencontrei um casinho que tive nesse verão, aqui.
Dani começou a rir.
Eu estava pronto para agradece-lo, só por ter tido a delicadeza de não me perguntar mais nada.
— Como? – Maggie como uma boa atriz, agiu como a pessoa mais interessada do mundo em saber do casinho.
— Não foi um caso, Louis, vocês transaram no banheiro de uma festa. – Dani continuava.
— Tanto faz. – Louis revirou os olhos. – Mas eu sei que foi especial e que ele nunca vai esquecer, porque eu tirei a virgindade gay dele.
— Nos conta quem foi. – Dessa vez, Maggie não fingia.
— Ele não vai contar, eu também estava na festa, mas por motivos óbvios não sei nada do menino, só a voz. – Dani que respondeu.
— Não posso contar meninas e Blake, prometo para o boy que seria o nosso eterno segredinho e como ele foi muito bem para uma primeira vez, guardo esse segredo na esperança de uma próxima. – Falou rindo.
Todos riram, forcei-me a sorrir, achava a história um tanto quanto estranha e não tinha um bom pressentimento para o caminho que ela seguiria.
— Não pode nem dar uma dica? – Beth também parecia curiosa, de todas as pessoas eu não imaginaria esse tipo de curiosidade vindo dela.
— Ele é do coral, não conto mais nada.
Louis parecia gostar da atenção que recebia das garotas e como soltava pequenas dicas sobre sua paquera de verão. Eles passaram o resto do café-da-manhã confabulando sobre os possíveis candidatos, me permitia apenas a observar a conversa, mas algo no peito gritava por um nome, deseja nunca saber ou estar redondamente enganado.
— Desde quando vocês se tornaram tão fofoqueiras. – Comentei já irritado depois de uma hora falando sobre isso.
— Não somos fofoqueiras. – Beth se defendeu.
— Mentira, somos sim, mas é que você nunca percebeu porque não. – Maggie respondeu rindo.
Revirei os olhos, levantando-me da mesa, não aguentava mais aquele tipo de conversa, me sentia quase que exposto.
— Aonde você vai? – Beth perguntou-me.
— Quebrar um braço.
Dito isso, levei minha bandeja para o local adequado e sai do refeitório, estava voltando para o quarto, pronto para dizer ao Yerik que toparia o plano dele quando encontrei com Vick.
— Oi, nervosinho. – Ela segurou meu braço.
— O quê? Ahh, oi Vick.
— Você está bem? – Ela me analisa, fazia um tempo que não conversávamos, estávamos distantes um do outro, não brigados, acho que apenas seguindo as suas vidas após tanto drama.
— Estou. – Balancei a cabeça incisivamente. – E você, está bem?
— Estou também.
Nos encaramos por alguns segundos, fiquei tentado a lhe contar o que me acontecera nos últimos dias, mas não me sentia confortável para isso, ela parecia querer me dizer também alguma coisa e assim como eu, optou por não dizer nada.
— Eu estava voltando para o meu dormitório. – Falei quando o silencio tornou-se constrangedor.
— Claro. – Ela soltou-me. – Nos vemos por aí.
— Nos vemos por aí.
Sem muitas delongas cada um seguiu para o seu caminho, minha cabeça pensava somente em duas coisas, no que Vick tinha para me dizer e o quão louco era a ideia de quebrar meu braço e o quanto isso doeria. Esperava que Deus entendesse minha autoagressão como uma medida desesperada contra minha maior fobia e não como uma punição ao meu corpo feio. Eu odiava ter engordado, era graças a isso que tudo voltava a dar errado, era a nova chacota na escola e fazia-me entrar na equipe de natação, o único ponto positivo era ter quebrado o ressentimento de Yerik.
Assim que entrei no quarto, percebi que ele estava vazio, Yerik deveria ter saído para treinar pois tinha me garantido que não voltaria para a casa naquele final de semana, poderia lhe mandar mensagem, mas a ideia de quebrar meu braço não me deixava ansioso para acontecer, por isso, esperaria ele retornar para comunica-lo. Nesse tempo, tentaria um contato com alguém que sentia muita falta, Mick.
Blake McCarthy:
Oi, sinto muito pelas palavras ditas, eu fui meio idiota.
Por favor, volta a falar comigo, sinto sua falta.
Preciso de você!
Confesso que fui um pouco dramático, mas em épocas dramáticas pedia pedidos desesperados de desculpas. Eu nem lembrava mais sobre o real motivo de nossa briga, tinha apagado a conversa e escolhido permanecer sozinho no meu luto, mas agora precisa dos seus conselhos e dele. O céu estava caindo sobre minha cabeça, ou melhor, o inferno estava me sugando.
Mick:
Se o Sr. McCarthy estive disposto a ser uma pessoa mais calma.
Com certeza podemos voltar a conversar.
ps: também senti MUITA a sua falta.
Eu quase rezei naquele momento por tamanha felicidade, só não fiz, pois minha vontade de conversar com ele era maior.
Blake McCarthy:
Você não sabe o quão feliz eu estou agora por me perdoar.
Mas, você está bem?
Mick:
Hahahahaha
Estou ótimo e você?
Droga, mandei a mensagem antes de raciocinar. Obvio que você não está bem, luto pela sua amiga.
Estranhei o fato dele responder que está ótimo, por conta do seu estado permanente delicado de saúde.
Blake McCarthy:
Eu ainda estou de luto para ser sincero, mas não é minha maior sombra nesse momento...
Mick:
O que está acontecendo?
Blake McCarthy:
Decidiram me colocar na equipe de natação, porque engordei muito nas férias.
Culpa do meu pai, ele solicitou e autorizou: NATAÇÃO!!!!!!!
Eu estou desesperado, justamente um esporte com água!? A morte seria mais gentil, acredito.
Mick:
Mas que grande MERDA!!!!
Eu não sei nem o que te dizer...
Já tentou faze-los lhe transferir para outra coisa. Mas é por que você engordou?
Observei Yerik entrar no quarto entretido no celular, nos encaramos por alguns instantes, ele ficou extremamente vermelho, olhando para o aparelho e para mim.
— Oi. – Falei.
— Olá, Bleika.
Eu deveria lhe avisar sobre a minha decisão, mas sentia que deveria conversar com o Mick e ter sua opinião antes.
Blake McCarthy:
Nem eu sei o que dizer para mim.
Pensei eu fugir, em tudo, menos em suicídio. Yerik, meu colega de quarto complicado, que é da equipe de natação, se ofereceu para ser meu personal trainer para emagrecer fora das piscinas e a me ajudar evitar os treinos.
Sim, tudo é basicamente porque eu engordei. A escola tenha uma regra de saúde escola, eu não entendi direito... Mas enfim, meu pai concordou, não tem muito o que fazer. Eles se negaram a me trocar, mesmo após eu expor minha fobia.
Mick:
MERDA!
Achei seu amigo bem gentil, nem parece aquela pessoa que você me descrevia no ano passado. Mas como você evitaria os treinos?
Blake McCarthy:
É porque ele realmente não parece ser a mesma pessoa do ano passado, completamente mudado gentil e bondoso. Eu que agora sou um vilão, eu fui muito cretino com ele, lhe devo um milhão de desculpas.
Bom, sabe o clipe Hold Up da Beyonce que ela quebra um carro com um taco de beisebol, apenas troque o carro pelo meu braço ou pulso.
Escutei Yerik rir, ele tinha se deitado na sua cama e olhava para o celular.
Mick:
Por que essa ideia soa completamente estupida, mas genial. Porém, acho o taco um tanto muito agressivo, pode ser que se machuque muito, será que não tem outra forma de se machucar?
Isso soou completamente errado.
O que o senhor Voldemort aprontou?
Blake McCarthy:
Eu ainda não estou pronto para te falar, mas de qualquer forma eu sou o errado.
A forma que eu falei foi só um exemplo, Yerik que cuidará dos detalhes do braço quebrado.
Entrou um gay no clube do Coral.
Mick:
Um outro gay?
Blake McCarthy:
Enfim...
Ele falou que transou com um dos caras do coral, no último verão. As meninas ficaram que nem umas bobas querendo descobrir. Eu não fui com a cara dele, seu nome é Louis.
Ele perguntou se eu era gay, acredita? Eu fiquei travado.
Tenho medo que ele tenha transado com o Yerik, estou sentindo que foi com ele.
Ouvi meu colega de quarto tossir, parecia ter se engasgado.
Mick:
Mas o Louis fez alguma coisa para você?
Você ficou travado, por que é?
Se o tal do Yerik transou com ele, você não pode fazer nada, porque, primeiro, vocês não namoraram e segundo, porque já foi.
Você está apaixonado por ele?
Blake McCarthy:
Eu não sei se eu sou gay ou se eu gosto dele, só estou totalmente desconfortável com toda essa situação.
Yerik
Luto
Natação
Falando nisso, preciso falar com ele para quebrarmos meu braço.
Decidi por encerrar a conversa pois Mick começara a questionar coisas que eu não queria pensar e que levariam a respostas que eu não queria.
Mick:
Mas, já?
Okay.
Só não quebre muito feio o braço.
Bjos.
Blake McCarthy:
Pode deixar, beijos.
— Então, já decidiu como quer quebrar o seu braço? – Yerik me perguntou assim que me despedi de Mick, quase como se estivesse esperando uma deixa.
— Eu não faço ideia. – Lhe respondi com sinceridade. – Você acha que consegue desloca-lo?
— Acho que pode ter um tutorial no youtube sobre isso, mas você tem certeza? – Ele pareceu inseguro.
— Ficar incapacitado para não entrar nas piscinas, com certeza.
Passamos o resto do dia pesquisando no youtube o melhor método para se deslocar um braço, se nada desse certo, eu poderia me jogar da janela do dormitório que era no terceiro andar ou usar o taco de beisebol, em todo o caso, todas as ideias eram completamente estupidas. Estava quase no horário do jantar quando decidimos tentar.
— Eu não sei se eu terei força o suficiente para conseguir deslocar. – Estávamos nessa ladainha a pelo menos uma hora. – Acho que eu não consigo ir até o fim.
Yerik estava atrás de mim puxando o meu braço direito para trás, não sei se ele percebia, mas toda vez que me tocava, arrepiava-me.
— Consegue sim, só precisa canalizar alguma raiva ou ir no impulso. – Sugeri.
— Você sabe que não seria difícil ter raiva de você, Bleika. – Ele me alfinetou.
— Só vai logo. – Falei vermelho.
— Okay.
Ele começou a puxar meu braço lentamente ele começou a dor, quando a dor se tornou insuportável puxei meu braço de volta a mim.
— Por que puxou, acho que eu estava quase conseguindo!
— Desculpa, estava doendo muito, você não consegue puxar de uma vez? – Virei-me para encará-lo.
— Só dessa forma, mesmo com toda minha raiva, não consigo descontá-la dessa forma em você. – Piscou para mim, sorrindo.
— Isso não é engraçado. – Falei ironicamente rindo.
— Está rindo. – Apontou para mim. – Será que se você se distrair não aguenta mais?
— O que me distrairia o suficiente para não pensar em um menino atrás de mim quebrando o meu braço? – Arquei uma sobrancelha.
— Talvez, se eu cantasse? – Sugeriu.
— Você vai cantar enquanto quebra o meu braço? – Anotação, mais uma ideia ridícula para a caixas de ideias ridículas do dia.
— É, eu acho que consigo e aposto que isso lhe distrairia, sei que você ama a minha voz. – Sorriu presunçoso.
Pensei em lhe dar uma boa resposta, mas me limitei a tentar.
— Está bem. – Virei-me novamente e estendi o braço para trás.
— Incrível como o mundo dá voltas, ontem você partiu o meu coração e agora eu parto o seu braço. – Ele soou irônico, mas consegui identificar sua magoa também na fala, ao pegar meu braço.
— Yerik... – Comecei a falar sério.
— Fica quieto aí, enquanto eu canto e presta atenção na letra. – Interrompeu-me.
Fiz o que ele mandou.
It doesn't hurt me
Isso não me machuca
Do you want to feel how it feels?
Quer sentir como é?
Do you want to know that it doesn't hurt me?
Quer saber se isso não me machuca?
Do you want to hear about the deal that I'm making?
Quer ouvir sobre o acordo que estou fazendo?
You
Você
It's you and me
Somos você e eu
And if I only could
Se eu apenas pudesse
I'd make a deal with God
Eu faria um acordo com Deus
And I'd get him to swap our places
Faria com que ele nos trocasse de lugar
Be running up that road
Estaria subindo aquela estrada
Be running up that hill
Estaria subindo aquela estrada
Be running up that building
Estaria subindo aquele prédio
If I only could, oh
Se eu apenas pudesse, oh
You don't want to hurt me
Você não quer me machucar
But see how deep the bullet lies
Mas veja o quão fundo as balas vão
Unaware I'm tearing you asunder
Sem perceber eu estou te despedaçando
Ooh, there is thunder in our hearts
Ooh, há um trovão em nossos corações
Is there so much hate for the ones we love?
Existe tanto ódio por aqueles que amamos?
Tell me, we both matter, don't we?
Me diga, nós dois importamos, não é?
You
Você
It's you and me
Somos você e eu
It's you and me won't be unhappy
Somos você e eu, nós não seremos infelizes
And if I only could
Se eu apenas pudesse
I'd make a deal with God
Eu faria um acordo com Deus
Conforma a música crescia a pressão das suas mãos no meu braço, até o ponto que: “CRACK”.
Dor.
—x-
— Toda vez que eu olho para o céu braço é uma confirmação do quão idiota você é. – Vick falou para mim, enquanto se alongava na frente da piscina olímpica.
Fazia pouco mais de três semanas que Yerik e eu tínhamos quebrado o meu braço, ele estava em uma tala desde então, com previsão de melhora para daqui três meses, a lesão tinha sido pior do que pensávamos que causaríamos, mas me garantira pelo menos três meses fora das piscinas, por isso, tinha valido a pena. A dor havia sido horrível, assim que ele deslocou eu comecei a gritar e chorar, acabei desmaiando pela dor, eu não sou muito tolerante a ela. Quando acordei, estava dentro da enfermaria com o braço imobilizado. Obviamente todos pensaram que fora uma armação, porém ninguém tinha como prova que eu me acidentara de proposito, mas mesmo incapacitado, eu era obrigado a assistir a todos os treinos e fazer relatórios semanais do desempenho da equipe e tive a dieta piorada.
— Eu não vou dizer nada que possa me comprometer. – Falei sorrindo, eu estava muito bem e confortável a uma distância segura da piscina, nas arquibancadas.
Ela revirou os olhos, com o tempo eu tinha descoberto um outro lado dela, um lado muito bom, como capitã da equipe.
— Mas você sabe que uma hora você tirará a tala e terá que entrar na água, né.
— Não se eu estiver magro o suficiente para não precisar mais do programa.
Devido as minhas condições, além da dieta, Yerik me ajudava a praticar exercícios mais leves como corrida e alongamentos, ás vezes nos arriscávamos com alguma dança no quarto, mas ambos não éramos bons nisso então não praticávamos com frequência. Com pouco mais de duas semanas treinando e três de dieta, eu tinha emagrecido substancias quatro quilos, não era muita coisa, mas já era algo.
Eu não era mais o único na fiscalização de corpo da escola, a Irmã Nancy tinha implantado um programa de saúde escolar, com a autorização massiva do conselho escolar e dos pais, em que basicamente obrigava a todos pessoas acima do peso a mudar sua rotina alimentar e a praticar exercícios, poderia parecer uma coisa legal, se não fosse obrigatório.
— Não vai entrar, capitã? – Yerik falou de dentro da piscina, estava na borda próximos de nós, sorrindo.
— Claro! – Respondeu sorrindo. – Ainda te acho idiota. – Falou apontando para mim, antes de pular na piscina.
— Oi. – Sorri acenando para Yerik, estávamos desenvolvendo uma bela amizade, além de me ajudar a emagrecer, ele também estava me ajudando com minha hidrofobia.
Ele acenou com a cabeça, sorriu e foi para a sua posição.
— Não acredito que você vem aqui todos os dias secar os boys? – Louis falou ao meu lado, ele estava acompanhado de Beth, Maggie e Aisha, eu só tinha contado para as elas sobre meus relatórios obrigatório, esperava que elas fossem mais discretas com o caso, mas pelo visto estava enganado. Ele fazia parte das líderes de torcida e era amigo de Camille.
— Eu não venho secar ninguém, só faço os relatórios. – Tentei não soar rude, eu não gostava dele, mas não tinha motivos para isso.
— Tanto faz. – Ele riu, sentando-se ao meu lado. – Porque eu aproveitei a oportunidade para sacar algumas malas.
Não lhe respondi, apenas fiquei vermelho.
— Está aqui para te comunicar que eu consegui o papel da Sally, no musical. – Maggie estufou o peito orgulhosa. – A perfeita Georgina vai ter que se contentar em ser uma dançarina de fundo, dias de luta, dias de glória.
— Parabéns! – Quase a abracei, mas lembrei em tempo das regras de não contato.
— Obrigada. – Ela sorriu. – O pessoal também conseguiu algo de figuração. – Disse pomposa.
— Eu não sou figuração, eu sou o mestre de cerimonias, um dos que mais canta também. – Ele revirou os olhos para ela.
— Uma pena você não poder participar esse ano. – Beth falou para mim.
— Sim... – Suspirei, o braço imobilizado havia me impedido de participar das audições, eu queria justamente o papel que Louis conseguira.
— Aposto que você conseguirá o papel que deseja, no próximo. – Louis foi incisivo ao falar próximo, ele devia saber que eu queria o seu papel a princípio.
— Não sei como eles deixaram esse musical acontecer, a escola está cada vez mais conservadora. – Beth comentou. – Quem diria que cabaré, aborto e bissexualidade seriam abordadas nos dias de hoje.
— Eles reeditaram o texto, só por isso foi aprovada. – Maggie esclareceu.
— Obvio. – Beth suspirou.
— Falando em bissexualidade, alguém pode me dizer se o bonitinho ali faz parte desse time? – Louis falou apontando para o Yerik que conversava com o treinador do lado de fora da piscina, ele estava usando uma sunga pequena e apertada, de modo que dava para ver parte da sua bunda.
Beth olhou para cima como se estivesse buscando alguma coisa para evitar contato visual com Louis, eu fiquei vermelho como um pimentão, Aisha apenas observou tudo calada.
— Eu creio que não. – Maggie era muito boa atriz.
— Você, Yerik, que é amigo dele e divide o quarto com ele, sabe se ele é bi ou se o pinto dele é grande? – Louis estava rindo da minha cara.
Meu primeiro instinto era ficar vermelho, mas eu fiquei foi com raiva.
— Por que você me faz esse tipo de pergunta? Eu não tenho como saber dessas coisas, não é como se eu visse ele pelado no quarto. – Apesar de ter acontecido algumas poucas vezes no começo.
— Tudo bem, senhor tipoia nervosa, não pergunto mais. – Falou desconfiado, eu tinha certeza que ele mentira sobre nunca mais me fazer aquele tipo de pergunta.
Todos ficaram em silencio, gerando um climão.
— Aonde está Dani? – Aisha perguntou baixo.
— Acho que ela está na aula de cerâmica, é meio que uma matéria obrigatória para deficiente visuais, não acha? – Louis respondeu.
Mais tarde naquele dia, eu estava de calção no banheiro me olhando no espelho, longe o suficiente para observar todo o meu corpo. Com a sombra do luto cada vez mais distante de mim, novas coisas ressurgiam na minha mente para perturbar-me, eu não era uma pessoa tão insegura, mas o sobrepeso estava incomodando-me profundamente. Essa seria a primeira vez que Yerik me veria sem camiseta, todas as outras tentativas de aumentar minha tolerância com a água, eu estava completamente coberto, mas ele insistira para aumentar a quantidade de pele exposta, o que não fazia muito sentido já que a sensação da agua seria a mesma com a roupa, porém, preferi por obedece-lo. Eu estava abraçando o meu corpo, tendo esconde-lo quando Yerik entrou no banheiro.
— Desculpa o atraso, eu tive um pequeno imprevisto no final do treino.
Eu não tinha ficado até o final, a presença de Louis me incomodar muito, por isso tinha decidido ir embora mais cedo, teria os outros treinos para embasar meu relatório.
— Sem problemas. – Falei tentando não ficar constrangido com a sua presença.
Yerik tirou o uniforme, ficando apenas com a camisa e as calças.
— Vamos lá. – Ele sempre tentava soar animador, mas ele sabia exatamente o que eu achava dessa terapia dele. – Fico feliz, que optou por fazer sem a camiseta, dessa vez.
— Acho que não pode ficar pior. – Sussurrei.
As gotas da torneira soavam com as badaladas de um sino anunciando o enforcamento de uma bruxa no século XIII, nesse caso eu era a bruxa prestes a ser executada. Yerik acabara de encher dez por cento de nossa banheira para ajudar na sua tentativa de terapia para minha hidrofobia, ao menos alcançar uma evolução. Eu não sabia como havia entrado nessa árdua batalha de várias frentes, tinha que emagrecer para perder a atenção da direção, consequentemente ser dispensado do time de natação e ao mesmo tempo, precisava estar preparado para o pior dos casos, ter que entrar em uma piscina, se necessário.
— A temperatura está boa. — Yerik falou ao passar os dedos nas águas rasas.
— Obrigado. — Lhe agradeci, essa era a nossa quarta tentativa, só nos últimos dois dias, de me fazer ficar mais de dez minutos em contato com a água antes de surtar e ficar ansioso.
Eu ainda me sentia extremamente desconfortável em ficar sem camiseta na sua frente, ainda mais com o corpo que eu estava e o que ele tinha, estava no auge da forma da sua idade e eu era roliço. Percebi que sua presença seria pior para mim, conforme entrei na banheira, a aguas nos meus pés já era uma péssima sensação.
— Pode sair. — Lhe pedi, como de costume, eu iria tentar sozinho aguentar a água, já era muita pressão sem ter ele me encarando.
— Acho que deveríamos tentar comigo aqui dentro dessa vez, até porque se for entrar na piscina terá pelo menos umas vinte pessoas te observando, no mínimo.
A ideia não era nenhum pouco atrativa.
— Não sei se isso seria uma boa ideia…
— Não custa tentar.
Eu poderia negar veementemente, mas preferi seguir em frente. Sentei-me na banheira, deixando a água molhar minhas pernas, abri os braços e os deixo também encostar na água. Yerik sentou ao meu lado da banheira e começou a cronometrar o tempo ao meu lado, mas de modo, que eu não visse.
Eu aguentei firme por completos oito minutos antes de começar a perder o controle da situação, era a mesma sequência de acontecimentos. Primeiro, a respiração começava a ficar descompensada, depois era a perda dos meu movimentos, tremedeiras, choro e gritaria. A sensação do contato com água seria meu castigo perfeito para quando eu fosse para o inferno, pagar pelos meus pecados. Estava no estágio das tremedeiras, momento que Yerik geralmente me ouvia falhar e me puxava da banheira, no entanto, dessa vez ele agiu de maneira totalmente inesperada.
Ele entrou na banheira e me abraçou por trás, colocando-me entre as suas pernas, molhando-se todo. Via-me no meu estado mais deplorável e vulnerável.
— Hey, hey, hey. – Falou no meu ouvindo, tentando-me fazer focar na sua voz. – Foca em mim, Bleika, eu estou aqui, calma. Foca na minha voz. – Soava calma, meu desespero não o assustava mais como antes.
Por alguns segundos, consegui me concentrar na sua voz e neutralizar a agonia da água no meu corpo, o seu corpo junto ao meu tranquilizou-me, não tinha um teor sensual, era uma sensação semelhante a que eu sentia nas noites em que eu pedia abrigo na sua cama. Mas como eu disse, por apenas alguns segundos, até eu me levantar-me com brusquidão e procurar a toalha mais próxima.
— EU NÃO ACHO QUE ISSO ESTÁ DANDO CERTO! – Me secava em uma velocidade impressionando, para poder colocar um roupão e tirar a roupa molhada.
— Calma. – Ele se levantou molhado da banheira.
— Eu odeio quando você diz para eu ficar calmo. – Falei ao fechar o roupão.
— Olha. – Aproximou-se de mim e me mostrou a tela do celular
Tinha se passado doze minutos, não oito como eu pensara.
— Doze? – Eu olhei para o número sem acreditar.
— ДА*! – Ele falou alguma coisa em búlgaro animado.
Yerik correu para bem abraçar, levantando-me no ar, como ele conseguiu eu não sei, e me rodou no ar. Quando parou de rodar, puxou meu rosto e me deu um beijo molhado na bochecha.
— Você conseguiu! – Seus olhos azuis encaravam os meus, muito próximo, de modo constrangedor o suficiente para sentir sua respiração bater na minha boca.
— Nós conseguimos. – Falei ficando vermelho e sorrindo.
— Agora podemos só aumentar a quantidade de água. – Falou afastando-se.
Devo confessar que quando ele se afastou de mim, não foi uma sensação boa.
—x-
— Seu folego não está no seu braço, faço o favor de ir mais rápido, Bleika! – Yerik me estimulava a correr mais rápido, ao lado da área esportiva em pleno entardecer, no meio de outubro, ele referia-se ao fato da fratura não interferir nos meus pés ou pulmões.
Fazia frio, que fica pior com o vento e a garoa fraca, as folhas secas amarronzadas deixavam claro a chegada do outono e a proximidade da minha liberação as piscinas.
— Podemos fazer uma pausa? – Sugeri, estávamos caminhando/correndo a pelo menos meia hora, eu já estava morto de cansaço e cansado da garoa e frio. Yerik, ao contrário de mim, estava animado e corria sempre uma passada na minha frente, quando não ia de costas, como naquele momento para rir da minha cara e procrastinação.
— Quer ou não quer emagrecer? Você deu uma estacionada no seu peso na última semana e pelo cálculo de mmc ainda não está no recomendável.
— Eu sei! – Falei ofegante, mal conseguia continuar correndo, quanto mais, falar.
— Então, acelere! – Deu ênfase na última palavra. – E sem pausas! – Ele virou para frente e continuou no seu ritmo mais acelerado que o meu, ao mesmo tempo, acompanhando-me.
Eu sei que eu deveria me esforçar ao máximo para emagrecer e assim sair do programa de emagrecimento, antes de ter que entrar em uma piscina, mas a rotina de exercícios estava exaurindo-me, aliada a dieta, eu ficava cada vez mais irritado e desanimado. As sessões de terapia de tolerância também não ajudavam a melhorar meu humor, apesar de surtir lentos efeitos progressivos na hidrofobia.
Yerik dizia que eu não emagreci mais expressivamente por causa do meu braço fraturado, se não, ele teria feito uma rotina de exercícios mais agressiva, já que basicamente apenas corríamos nos últimos dias.
— Certo, só mais quinze minutos de treino e está liberado. – Yerik virou para trás sorrindo.
Devo ter feito uma careta na tentativa de retribuir o sorriso, porque realmente estava sem fôlego. Eu amava o seu sorriso, sempre que sorria algo dentro de mim parecia se aquecer, ele em nada lembrava a pessoa que tinha jogado um copo de suco na minha cabeça no ano passado. Gostava de estar com ele e percebia que ele não tinha vergonha em estar comigo, também como no passado que me evitava em público. Fazer exercícios ou entrar na água, quase tornava-se tolerável com a sua presença.
Aqueles quinze minutos demoraram uma eternidade, mas enfim eles passaram o que significava que faríamos outra coisa que eu detestava: terapia na banheira. Fazíamos sessões a cada dois dias e como eu havia dito, estava progredindo mesmo que lentamente. O episódio dele ter que entrar comigo na banheira havia repetido algumas outras vezes e sempre era constrangedor depois que eu me acalmava.
— Aqui, você está progredindo bem melhor que na corrida. – Yerik tentou quebrar o clima de tensão que toda aquela ação criava.
Naquele momento já estávamos no quarto, ele sempre era muito delicado comigo quando fazíamos isso, acreditava que ele ser cuidadoso era um fator determinante no meu progresso. Porém, naquela sessão em especifico, nem com sua presença comigo na banheira foi suficiente para salvar um completo desastre que foi, não consegui tolerar nem cinco minutos em contato com água, daquela vez não fiz escândalo, apenas sair correndo atrás da toalha me secando.
— Hoje você não está em um bom dia. – Yerik comentou ao me observar me secar apressadamente e levantar-se da banheira.
Ele estava certo, eu tinha passado o dia completamente ansioso e em alerta, como se pressentisse que alguma coisa iria dar errado o tempo todo, mas por enquanto, além do insucesso na banheira, nada tinha sido atípico.
— Bleika, isso é um longo processo e você tem melhorado cada dia mais, eu não podia ter esperado coisa melhor. Posso não ser habilitado ou a melhor pessoa para te ajudar nas sessões e ainda acho que você deveria procurar uma ajuda profissional, mas acredito que hoje só foi um passo para trás para você poder dar cinco para frente, entende? – Novamente ele tentava me tranquilizar. Balancei a cabeça positivamente ao enrolar a toalha sobre o meu corpo; – Só não fique neurótico com a sessão de hoje, está bem? – Ele fez carinho no meu rosto, antes de sair do quarto para buscar uma roupa seca.
Eu devia estar enlouquecendo com o meu desastre, mas eu estava esperando por ele desde o segundo dia, porém dia após dia, não tinha retrocedido. Creio que esperar pelo fracasso tenha me preparado para ele.
Não demoramos muito e longo nos aprontamos para o jantar, eu não sei por qual motivo, mas naquela ocasião optamos por descer pelo elevador, do que pelas escadas, e justamente no andar inferior ao nosso, Louis entrou.
— Olá, colegas do coral. – Louis falava quase que sempre de maneira teatral. – Imagino que estejam indo jantar, espero que não se importe com mais uma companhia na mesa de vocês. – Sorriu, se auto convidando.
Olhei de lado para Yerik, ele não falou nada, eu não seria a pessoa mal-educada que expulsaria o menino da mesa que nem estávamos.
— Claro. – Forcei o sorriso.
— Vi vocês correndo hoje de tarde... – Louis comentou aleatoriamente quando a porta do elevador abriu no andar que sairíamos.
— Nos praticamos, todas as tardes. – Yerik respondeu, percebi que sua voz tinha um pouco de tensão.
— Não sabia que você corria, nunca me contou.
— Ele tem me ajudado a correr, eu não sou uma pessoa muito ativa. – Falei enquanto caminhávamos para o refeitório.
— Dá para perceber.
Suas palavras pegaram-me desprevenido, tentei não me mostrar afetado ao fato da sua insinuação sobre o meu corpo. Fiquei vermelho, sem saber o que responder.
— Nos viu como? – Yerik perguntou.
— Eu faço parte da equipe de torcida, pensei que sabia. – Louis respondeu sorrindo, ele sempre sorria, eu nunca acreditava nos seus sorrisos, sempre desconfiava de sua falsidade e sua cutucada no meu peso, fazia-me acreditar ainda mais nisso, porém ainda lhe dava a sorte da dúvida. – Você achou que toda a elasticidade que eu te demonstrei, eu iria para equipe de ginastica, nem aqui isso tem e outra, líderes de torcida são mais legais.
Ele ficou conversando com o Yerik o resto do caminho, a conversa flui com naturalidade, invejei a forma que conversavam, nenhum dos dois parecia fazer muita questão de me incluir na conversa, sentia-me levemente desconfortável, só não totalmente porque o búlgaro, as vezes sorria para mim enquanto o outro falava. Fiquei imaginando que ele não puxar assunto comigo, seria uma forma de preservar o meu espaço depois da sessão ruim na banheira, deveria achar que eu preveria ficar em silencio, mas estava engando queria que ele conversasse comigo da mesma forma que conversavam com Louis.
Ao chegarmos no refeitório, seguimos para filas diferentes, eles foram para os normais e eu para os que estavam de dieta, os poucos alunos acima do peso na St. Agnes tinham um cardápio exclusivo, insosso e sem graça.
— Eu fico completamente comovido toda vez que eu vejo o seu prato. – Yerik falou assim que eu sentei ao seu lado, Louis estava na nossa frente.
— Aceito suas condolências. – Brinquei rindo, era quase um costume nosso reclamar da minha comida.
— Pensa que é um mal necessário. – Louis falou, atraindo minha atenção. – Assim que você estiver com um corpo bonito como o meu ou o do Yerik poderá se livrar disso, mas isso vai demorar ainda um pouco.
Novamente fiquei sem palavras e vermelho, novamente ele soava passivo agressivo comigo, eu não sabia o que dizer, por isso balancei a cabeça. Suas frases sobre o meu peso magoavam-me cada vez mais, quase como se fizesse de propósito para me ver mal, por isso, não lhe dava esse prazer, agia como se nada tivesse me afetado.
— Ele vai conseguir. – Yerik me deu dois tapinhas nas costas, doeu-me, soou como se estivesse concordando com as palavras de Louis.
— Mudando de assunto, você nunca mais falou comigo...
Novamente, voltaram a conversar ignorando a minha existência, optei por comer minha comida sem graça e ser invisível. Eles riam alto com as coisas que diziam, eu não prestava atenção, só escutava uma coisa o outra. Louis parecia estar flertando com Yerik, que parecia estar retribuindo o flerte, eu queria correr para o meu quarto para não ter que ver aquilo.
— A gente devia fazer aquilo de novo, o que fizemos no verão. – Prestei demasiada atenção nessa frase de Louis.
— Vocês se conheciam antes de começarem as aulas? – Não consegui segurar a língua e acabei perguntando e entrando na conversa deles.
Eles pareceram ficar tenso com a pergunta, na realidade, Yerik pareceu nervoso e Louis surpreso.
— Me desculpe falar isso, tinha esquecido que ele estava na mesa. – Ele falou para Yerik, sua expressão não era de arrependimento.
Respirei fundo.
— Tanto faz, não precisa me contar, se não quiserem.
Eles não precisavam dizer nada, Louis passaram dias falando sobre o seu caso de verão com minhas amigas nas últimas semanas, dará inúmeras dicas e a pessoa a quem ele se referia estava obviamente bem na minha cara. Eu sabia quem era a única pessoa que poderia ser, mas tinha preferido ignorar. Percebi Yerik me encarar, ele tinha percebido que eu havia entendido tudo, mas não teve coragem de dizer nada, inclusive, cortou a ligação e olhou para o seu prato.
— Como eu acho que vocês são amigos, espero que você guarde o nosso segredo, porque agora você vai ser o nosso cumplice e eu preciso contar para alguém, porque isso está me matando. – Louis falou afiado e animado. – Lembra que eu falei que tinha transado com alguém do coral, então... – Olhou para Yerik e indicou com a cabeça.
Minha boca caiu, chocado com a informação, Yerik havia transado com Louis nas férias. O meu coração apertou, minhas estranhas se contorceram de modo que me dava ânsia para vomitar a comida sem graça que enjerira. Eu não conseguia acreditar que eles tinham feito aquilo, não conseguia acreditar que Yerik tinha feito aquilo comigo e não conseguia acreditar que havia escutado aquilo. Meu coração acelerou, ao mesmo tempo que ficava ansioso também ficava triste. Não conseguia dizer nada, por isso um silêncio constrangedor se instalou.
— Você está bem? – Louis me perguntou malicioso, parecia que seu objetivo tinha se cumprido e agora verificava o seu impacto. Seus olhos franziam, quase de modo desafiador, provocando-me.
Balancei a cabeça positivamente, parando de lhe encarar, admitindo derrota. Yerik olhava para o seu prato de comida, sem coragem para me encarar e tão vermelho quanto o tomate em seu prato.
— Que silêncio constrangedor. – Louis falou sorrindo. – Sexo acontece, aposto que o Blake não vai espalhar, Yerik pode ficar tranquilo. – Voltou a comer olhando para o búlgaro estático.
Eu só sabia olhar para Yerik, implorando para que ele reagisse e dissesse que o Louis inventara tudo e que eles nunca tinham transado, mas a sua reação provava exatamente o contrário. Ele finalmente reagiu, levantou o rosto e retribui o meu olhar, seus olhos transpareciam culpa e sua boca estava trêmula, como se quisesse dizer alguma coisa.
— Desculpa, acho que vou ir vomitar. – Não fui muito delicado com as palavras ao chegar ao meu limite e precisar fugir.
— Acho que esses legumes todos não lhe caíram bem. – Louis comentou, percebi sua ironia, ele tinha percebido que era por causa do caso.
Levantei-me da mesa com pressa, queria correr para o meu quarto o mais rápido possível, ficar encolhido na minha cama, porém, se corresse ficaria obvio que eu estava fugindo e afetado com a situação, por isso fui com uma passada normal. Eu queria chorar, mas não iria, não deveria mais e não por isso.
— Bleika. — Yerik chamou-me baixo, não lhe dei atenção e segui em direção a porta do refeitório.
Minha cabeça estava quase tão caótica quanto minha barriga, não era uma completa mentira ao falar da ânsia, conforme andava reparei nos risos que me acompanhavam, pensei que poderia ser sobre qualquer outra coisa, mas não sobre mim, porém eu estava redondamente enganado. Eu descobri o real motivo dos risos ao deitar na minha cama e escutar um barulho de papel amaçando, tirei meu casaco desconfiado e vi o papel grudado nas minhas costas, era uma caricatura minha com feições e patas suínas, inclusive uma delas estava com gesso, uma clara ilusão a minha fratura e para no caso se houvessem dúvidas, embaixo do desenho estava escrito: McCarthy Pig.
Me recusei a chorar, fiquei encarando aquele papel por alguns minutos tentando pensar em quem e quando tinham colado aquilo em mim, não conseguia chegar em nenhuma resposta para nenhuma das duas perguntas. Eu sentia que aquele seria um dia ruim, mas não imaginei o quão ruim seria. Yerik ter transado com o Louis ou o McCarthy Pig, não sabia qual daquelas duas coisas tinha sido a cereja do bolo daquela noite. Ouvi o barulho do tranco da porta do dormitório se abrir, corri para o banheiro, me tranquei, não querendo encarar meu companheiro de quarto, não estava pronto e nem queria ouvir nenhuma das suas justificativas ou palavras sobre o seu caso.
Ele não chamou por mim, mas ele sabia que estava ali, talvez estivesse respeitando o meu espaço ou não se importe com meu estado, na realidade, ele não deveria mesmo, até transar com um cara ele tinha depois de ter dito que me amava.
Fiquei pensando nisso por alguns minutos até voltar a atenção ao papel que segurava em mãos, era o desenho. Aos poucos, minha fixa ia caindo sobre o modo que as pessoas me tratavam como uma verdadeira chacota, eu deveria estar mesmo parecendo um porco com todo aquele excesso de peso, merecia aquilo, tudo de errado após a morte de Sam era relacionado ao meu peso. Caminhei até o espelho, tirei minha roupa, ficando só com a parte inferior e encarei-me no espelho.
Eu detestava cada pedaço de pele exposta do meu corpo, desde do rosto redondo até a barriga saliente. Encarei-me fundo nos olhos no reflexo do espelho, eram olhos de um porco, estava ficando com raiva da minha vontade de chorar, eu queria, mas não devia. Amassei o papel com o desenho, não foi o suficiente para passar então arranhei meus braços e barriga com violência, o suficiente para marcá-los e sangrá-los, também não foi suficiente, porém me fez sentir melhor. Novamente, encarei-me fundo pelo reflexo do espelho, com a mão direita arranhei uma das minhas bochechas, segurei o grito da dor.
Meu corpo ardia e sangrava, gotas de sangue proeminentes do meu rosto pingaram na pia. Não tinha sido o suficiente para passar todo o sentimento ruim, de relance olhei para privado. Não foi difícil vomitar, dado o nojo que sentia de mim mesmo naquele momento.u
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