Tempestuoso

11 Ouça-me Cantar


Notas iniciais
Voltei, Bitchs!!! Vai que agora é um capítulo em menos de duas semanas, eu prometo. Betagem especial, Rai

“NÃO, NÃO”. Repetia incessantemente para mim mesmo desde que sairá do dormitório. Minha mente queimava em pecado, julgava-me. Não poderia ter visto aquilo e nem ter pensado naquilo. Eu tinha acabado de quase presenciar o ato de amor entre Georgina e Yerik e meu corpo não reagira instantaneamente quando reparei, ou melhor, não agiu da forma adequada como eu queria. Repassava na memória recente o toque dos dois, seus corpos, suas expressões e alguém dizendo o meu nome.

Sentia um misto de emoções, raiva, medo, vergonha e infelizmente desejo. Raiva por ter tido que ver aquilo sem ter culpa, era falta de respeito fazer tais atos quando se divide o quarto com outra pessoa e nem ao menos avisá-la antes, mesmo que continuasse desrespeitoso. Vergonha por obviamente ver duas pessoas nuas explorando uma a outra e ter sido notado por uma. Medo em tentar imaginar como seriam as suas posturas depois daquilo, mais especificamente de Yerik. Desejo, esse sentimento evitava tentar compreender, só sabia que o sentia pela reação física evidente no meu corpo.

– Fugindo de alguém? – Das sombras uma voz desconhecida falou.

– Quem? – Soei desesperado.

Eu estava no corredor principal, já estava bem escuro e as sombras proporcionada pela luz noturna prega peças. Olhei ao redor procurando o falante, ele estava camuflado na parede ao lado de uma escultura de pedra.

– Quem é você? – Ainda soava desesperado.

– Calma. – O sujeito levantou as mãos em um gesto de rendição.

– Quem é você? – Voltei a repetir.

– Sou um aluno como você.

– Então apareça, venha para luz.

Falhando, eu tentava ver sua feição.

– Isso pode demorar um pouco... – Avisou.

Só pude entender o que quis dizer quando começou a se movimentar, era lento e desajeitado. Sua perna direita parecia não querer se mover, enquanto a esquerda tentava levá-la. E realmente demorou, por fim ao chegar na luz, já ofegante pude repará-lo.

Já o conhecia por vista, era do mesmo ano que eu. O garoto manco, era como o pessoal começara a chamá-lo, eu nunca o fiz, ele também não parecia se importar com a nomeação. Tinha o cabelo ondulado parecido com o meu, só que bem loiro, um intenso dourado. As feições eram angulosas e marcadas e olhos de um azul bem limpo, como o de um oceano gelado.

– Desculpe por obrigá-lo a isso. – Falei.

Sentia me culpado por proporcioná-lo um esforço inútil.

– Parecia apressado, fugindo de alguém? – Ele perguntou. Como sempre, era mais alto do que eu.

– Não exatamente. Mas o que faz fora da cama tão tarde? – Queria mudar de assunto.

– Estava na biblioteca quando tocou o sinal de recolher, só que como pode ver sou um pouco lento.

– Não deve ser fácil.

– Não mesmo, mas cada um tem um fardo. Qual é o seu no momento?

Era insistente, poderia apostar que nem sabia o meu nome.

– Estar no lugar errado, no momento errado. – Fui subjetivo.

– Para isso se tem conserto. – Ele riu, seus dentes alinhados eram bonitos no luar.

– Nem sempre.

– Aposto que não lembra o meu nome.

– Está certo.

– Mikael.

– Blake.

– Eu já sabia.

– Como?

– Não é tão invisível como acha. – Piscou para mim se afastando.

Mais desnorteado do que antes o observei se afastar lentamente. Tentar decidir se ele tinha flertado comigo ou não. Escolhi o não, porque seria um problema a menos.

Não sabia para onde ir, ficar vagando não era uma opção, além de ser esquisito era perigoso eu ser pego por uma Irmã e acabar com uma detenção. Tudo era silencioso, somente perto das janelas era possível escutar a fauna noturna, corujas piando, o som de grilos e outras espécies desconhecidas.

– Já não é um pouco tarde? – Assustei-me novamente com uma voz, essa conhecida e ríspida. Era a Irmã Nancy. – O que faz fora da cama depois do horário?

Virei para encará-la. Usava o costumeiro hábito de freira negro, até meio macabro para o momento.

– Estou perdido. – Foi o que melhor pude inventar do que dizer a verdade.

Ela sorriu, era um sorriso frio.

– Criança, já inventaram mentiras melhores do que essa. Por favor, queira dizer a verdade, mentir para mim só vai piorar sua situação.

– Não... não, eu realmente me perdi. – Gaguejei.

– Vou tentar só mais uma vez. – Ignorando-me, falou calmamente. – Qual o motivo da peregrinação a essa hora da noite?

Não respondi de imediato, fiquei tentado entre continuar a mentir ou dizer a verdade. Em todo esse intervalo, a Irmã Nancy me olhava inexpressiva, sem se quer piscar. Optei por dizer a meia verdade.

– Tive um desentendimento com meu colega de quarto, depois me perdi nos corredores e não consegui voltar. – Não era cem por cento verdade.

Analisava-me.

– Acompanhe-me...

Seguimos por caminhos desconhecidos pela escola até sair em um corredor no último andar do prédio principal que dava acesso ao seu escritório. Uma sala não muito grande de muitos, se não, todos tons de lilás possíveis na decoração. Desde a mobília até os enfeites em cima da sua escrivaninha. Sentei-me a sua frente, à espera do sermão.

– Uma nas coisas que menos toleramos no St’Agnes é a desobediência e falta de decoro com as regras. O Sr. infelizmente cometeu uma falta muito grave, deverá ser punido e consequentemente o seu colega de quarto também.

– Desde que não seja juntos. – Sussurrei, mas não o suficientemente baixo para não ser ouvido.

– Vejo muito pelo contrário. – Sorriu. – O desentendimento com seu colega que o levou a cometer infrações. Um bom convívio entre os colegas também é essencial nesta escola. – Fiz menção de abrir minha boca e dizer algo. – Por favor, não retruque, só vai piorar sua situação. Duas semanas de detenção deve bastar.

– Duas?

– Melhor três então. Esteja aqui amanhã logo depois do seu último período escolar com o seu colega para receberem as punições. Nada de atrasos, de ambas as partes. 18h:30, aqui.

– Sim, Irmã.

– Queira se retirar e descansar, já é tarde e amanhã temos outro dia de trabalho. Boa noite e não esqueça das suas orações e de pedir perdão a Deus.

– Sim, Irmã.

Levantei-me da cadeira a sua frente e fiz menção de sair do aposento.

– Desrespeitando as regras, Sr. McCarthy. Sinto-me decepcionada com você, é um dos poucos alunos que vejo frequentando as missas dominicais acompanhado do meu sobrinho. Não cometa mais delitos, siga a influência dele. É um ótimo menino.

– Sim, ele é.

Deixei a sua sala com o pensamento de que aquela não era a minha noite de sorte.

Nas últimas semanas tinha acompanhado muito Alex, porém pouco sabia dele. Era muito fechado e reservado, nossas conversas ficavam pendendo entre uma superficialidade e um aprofundamento raso.

Rapidamente voltei para ala masculina e encontrei Yerik me esperando na sala comum.

– Tenho que falar com você. – Mal esperou eu passar pela porta. Encarei-o assustado. – Onde estava?

Pisquei várias vezes tentando processar o que ele perguntava.

– Você está bem? – Parecia sinceramente preocupado.

– Não entendeu?

– Não entendeu o quê? – Consegui vê-lo enrugar a testa.

– Se afaste, somente isso.

O afastei com o braço e subindo as escadas para o dormitório.

– Não quero. – Falou atrás de mim quando estávamos no segundo lance.

– Descomplique pelo menos uma vez. – Virei para atrás para falar e continuei caminhando.

– Não complico, só não sou...

– Muito claro? Mas eu sou. – Falei ao abrir a porta do nosso quarto e entrarmos.

– Nem sempre. – Ele fechou a porta atrás de mim.

– Não fui claro no recado que te deixei? – Perguntei, virando-me.

– Não foi claro na sua presença mais cedo. – Engoli em seco.

– O que queria que eu fizesse? – Quase sussurrei.

– Quer que eu diga, sinceramente? – Fez expressão devassa.

– Não! – Exaltei-me.

– Não quer que eu seja claro? – Sorriu.

– Quero somente que me deixe em paz, por favor, por hoje já foi o suficiente.

Caminhei até nosso armário de roupas e peguei duas das nossas mais grossas cobertas e um travesseiro, os coloquei ao lado da minha cama e comecei a fazer uma cama improvisada.

– Por que faz isso? – Se agachou ao meu lado.

Olhei-o sério.

– Ahh. Sua cama...

– Não vou dormir nunca mais lá.

– Não é pra tanto.

– Vocês quase ... na minha cama, é pra tanto sim.

– Eu parei antes...

– Não teve o mínimo de respeito por mim.

– Eu parei.

– Na minha cama.

– EU PAREI! – Ele falou mais alto. – Me desculpe.

– Não tenho que te desculpar, só quero que me ignore como estou fazendo com você.

– Não está me ignorando, está conversando comigo.

– Porque é inevitável no momento.

– Não posso ficar sem falar com quem gosto. — Todo o meu sangue se concentrou na minha cabeça. – Vou ser mais claro.

Abruptamente, virou-me, colou nossos lábios e fechamos nossos olhos. Permiti ser invadido por sua língua. Era tão quente, úmido e errado. Deixe-me levar por alguns segundos. Movi meus lábios com os dele, como parceiros de uma dança ele me conduzia, era experiente.

Senti o seu corpo pressionar o meu, fazendo-me ceder com o peso e deitando desajeitado nas grossas cobertas com ele por cima. Não sei como, mas Yerik ficou no meio das minhas pernas enquanto não nos separávamos, sabia que quando acontecesse, eu encerraria o beijo. Como sua língua que explorava minha boca, suas mãos exploravam o meu corpo.

O roçar das nossas intimidades despertas tirou-me do estupor que estava e trouxe a dura realidade da situação que me encontrava. Em um único movimento, o empurrei com as pernas e braços. Não sei como, mas ele caiu no chão a minha frente e eu me levantei rapidamente.

– Não, não, não. – Repetia mais para mim mesmo, caminhando de um lado para o outro.

– Blake... – Yerik tinha levantado e se aproximava de mim.

– Não! – Falei quase histérico levantando uma das mãos para criar uma barreira entre nós. – Não se aproxime...

Não podia ver a minha expressão, porém podia apostar que estava com os olhos esbugalhados, vermelho, principalmente a boca e deveria tremer. Yerik estava visivelmente desconfortável e bem pálido.

– Me desculpe...- Tentou falar.

– Não. Já chega, não se aproxime. Não quero o que acha que quero e não gosto do que acha que gosto.

Ele tentou pegar minha mão. Rispidamente a puxei.

– Eu sinto muito, mas não consigo me manter longe de você. Eu gosto de você...

– Não, está errado. Está tudo errado. Você e o que sente! Não é certo ou natural.

– E o que sente por mim? Também é errado?

– O que sinto por você?

– Não negue, teve uma troca aqui. Não foram só meus lábios que se movimentaram e nem minhas pernas que abriram a suas.

– Não sinto nada por você.

– Não? – Ele se aproximou.

– Não. – Dei um passo para trás.

– Não? Então por que se afasta?

– Eu- eu... — Gaguejei.

– Viu... – Continuou a se aproximar, ultrapassando o limite do espaço pessoal.

– Te odeio. – Suspirei seguro. Devo ter parecido convicto, pois a expressão dele ficou fria e um pouco triste. – Não gosto de você desde o momento que te vi naquela loja e ficou provocando-me e flertando com minha irmã. Te odeio desde o dia que jogou suco na minha cara por um motivo fútil. E te odeio ainda mais por me deixar confuso e brincar comigo.

– Não estou brincando. – Tentou tocar meu rosto, bati na sua mão impedindo-o.

– Será que pode me deixar em paz?! Por acaso, foi enviado por alguma entidade ruim para me atentar e corromper-me?

– Fala da sua fé.

– Não vai conseguir, sinto muito, mas não vou cometer mais nenhum pecado de sodomia. Meu Deus é mais forte que isso...

– Seu Deus é Amor, Blake.

– O que quer não é amor, é imoralidade. Peço-lhe pela última vez, só me deixe em paz, ou terei que falar com as Irmãs sobre suas pretensões comigo.

– Ameaça-me?

– Não, mas se tiver que tomar uma medida desesperada para que não me beije novamente, tomarei.

Sai pela tangente, deixando-o estatizado em cima das cobertas.

– Não lhe incomodarei mais.

– Obrigado. – Falei de costas. – Amanhã depois do período de aulas temos que ir na sala da Irmã Nancy cumprir detenções por hoje.

– Sim. Mais alguma coisa?

– Não.

– Posso lhe dizer uma última coisa?

– Diga.

– Olhe para mim pelo menos. – Fiz o que ele pediu. – Eu sinto muito. – Falou pausadamente.

Sinceramente, meu coração se contraiu um pouco depois de tais palavras.

–x-

– Animo! Essa não é uma cena dramática. – A Srta. Margot brigava conosco.

Com menos de um mês para a estreia da peça, a professora achava que estávamos muito atrasados e eu concordava em parte. Ensaiávamos a cena do levante da barricada dos revoltosos, uma cena que movimentava uma boa parte dos alunos da peça.

– Cadê a garra e ânsia pela mudança? O desejo e o brilho pela transformação que essa cena exige?

– Foi levado com o verão. – Escutei Peter sussurrar quase inaudível para Steve.

– Se não melhorarem até a próxima semana, iremos dobrar os ensaios. Um detalhe para os membros do coral, semana que vem são as suas Seccionais, se não conseguem demonstrar empenho nem em um simples ensaio da peça de teatro da escola, como acham que passarão para as Regionais?

A Srta. Margot possuía um dom único de fazer movimentos impossíveis e involuntários com a sobrancelha, como por exemplo, na sua última fala.

– Yerik! Você é um dos líderes dessa revolução, cadê o seu fervor de herói? Está abatido, está mais para um miserável vivente das ruas de Paris. ANIMO!

Yerik e eu não nos falávamos desde o último acerto na noite anterior, era melhor assim, pelo menos achava que sim. O quanto nossa falta de comunicação o afetava ficava nítido com sua aparência e postura hoje.

– De novo! – A mulher voltou a gritar.

Do you hear the people sing?

Singing the song of angry men?

It is the music of a people

who will not be slaves again

When the beating of your heart

echoes the beating of the drums

There is a life about to start when tomorrow comes

Will you join in our crusade?

Who will be strong and stand with me?

Beyond the barricades

is there a world you long to see?

Then join in the fight

that will give you the right to be free!

Do you hear the people sing?

Singing the song of angry men?

It is the music of a people

who will not be slaves again

When the beating of your heart

echoes the beating of the drums

There is a life about to start when tomorrow comes

Will you give all you can give

so that our banner may advance?

Some will fall and some will live

Will you stand up and take your chance?

The blood of the martyrs will water the meadows of France

Do you hear the people sing?

Singing the song of angry men?

It is the music of a people

who will not be slaves again

When the beating of your heart

echoes the beating of the drums

There is a life about to start when tomorrow comes

Empenhamo-nos ao máximo dessa vez, porém, infelizmente perdemos o ritmo na última estrofe. As vozes se perderam e cada um cantou no seu ritmo. Tivemos que escutar mais uma série de gritos antes de sermos liberados. Estava quase virando um costume, assim que saí pela porta me deparei com as gêmeas me esperando.

– Oi. – Falei para as duas.

– Já pode saber....

–... Porque estamos aqui. – Uma completou a outra, não sabia discernir quem era quem e quem falara primeiro. Particularmente hoje elas estavam muito idênticas, uniforme de torcida, tênis de exercício azul e cabelo trançado.

– Minha irmã. – Suspirei.

– Foi uma pergunta? – Uma perguntou.

– Não, ele sabe Lucy.

– Sabe o quê?

– Nada.

– Por que você nunca me explica as coisas!? – Lucy transparecia a indignação.

– Tenho preguiça. – Mirna foi sincera.

– Chateada.

– Não fique com isso na cabeça por muito tempo, sabemos que aí tem pouco espaço e tem que usá-lo com utilidade.

– Não entendi.

– Esquece, o importante é dar o recado e carregá-lo.

– Pois é, íamos nos esquecendo... Vick pediu para o levarmos ao seu quarto.

– Eu sei. – Falei sorrindo.

– Não. – Lucy se autocorrigiu. – Ela pediu para levá-lo até o quarto dela.

– Eu sei. – Repeti.

– Como? Lê mentes?

Eu ri.

– Lógica, minha cara. – Mirna respondeu no meu lugar revirando os olhos.

– Só tem um pequeno probleminha. – Falei. – Sou um garoto.

– Sabemos disso. – Lucy respondeu.

– Só que o dormitório é feminino, o da Vick.

Lucy olhava-me como se tivesse passado uma informação incompleta e estivesse no aguardo de mais.

– Então... – Falou.

– Ele tá com medo de ser pego e suspenso na ala errada. – Mirna resumiu irritada. – Não se preocupe com isso, daremos um jeito. – Dessa vez olhava para mim.

– Como seria?

A resposta veio alguns minutos depois quando andávamos na surdina pelo corredor até a porta da ala feminina. O movimento feminino era intenso naquele horário, as garotas saiam para jantar, por isso e aliado a minha altura inferior a das gêmeas, conseguimos fazer uma espécie de barreira com elas na minha frente até o quarto de Vick. Pela pressa pouco consegui observar dos ambientes proibidos para o meu sexo.

O quarto de Vick estava bem desarrumado, essa imagem reforçava-se ainda mais com ela deitada na sua cama em uma confusão de cobertores, travesseiros e ursos de pelúcia. A cortina da janela estava fechada e a sua colega de quarto ausente. Me aproximei dela e deparei-me com a sua aparência doente, estava pálida como um leite estragado, até o rosado dos lábios tinha perdido.

– Está bem? — Lhe perguntei, mesmo que obviamente já soubesse a resposta.

– Pareço bem?

Sentei-me na confusão dos seus lençóis e peguei sua mão, estava quente. Assim como esta, o quarto também começava a ficar, a falta de ventilação combinada com a presença de todos acentuava o abafado. Vick percebeu isso também e expulso suas amigas.

– Saiam. — Mandou.

Elas assim fizeram, mas não antes de lançar um último olhar preocupado.

– Preciso de você. — Voltou a me dar atenção.

Sempre foi assim, toda vez que Vick ficava consideravelmente doente ela sempre buscava-me, isso muitas vezes, só fazia com que eu também ficasse doente. Porém, eu acreditava que por seu estado debilitado buscasse um pouco de conforto e carinho no meu colo.

– Já deve supor o motivo da minha indisposição. — Soou indiferente, quase distante.

Mil ideias voaram em minha mente, porém somente uma parecia ser a mais lógica.

– O remédio que você tomou fez efeito? — Não encarava-me, balançou a cabeça positivamente. — Está passando pelos efeitos colaterais?

Desta vez, foi negativa.

– Preciso fazer uma sucção o mais rápido possível. — Falou.

– Como assim?

– Estou sangrando a mais de dez dias, preciso me livrar do que sobrou... Se sobrou algo. — Colocou a mão no ventre.

– Aonde faria isso?

Conversava aquilo com uma naturalidade que nem eu mesmo conseguia entender, como se tivesse falando de um resfriado ou gripe, ao invés de um aborto.

– Em um hospital público, não precisa ser em uma clínica especializada. Só que é urgente não posso ficar com isso no meu corpo por muito tempo.

– Como faremos isso? Estamos proibidos de sair nos finais de semana até as festa de final de ano...

– Exatamente por isso que preciso de você. Tem que arrumar alguma jeito para sairmos.

– Que motivo eu teria?

– Precisamos de alguém que interceda por nós e peça para escola liberar-nos nesse final de semana. Sendo mais clara, precisamos da Emy.

– Vai contar pra ela que tirou?

– Obvio que vou. — Revirou os olhos irônica.

– Ela vai querer saber o motivo para ficarmos o final de semana fora.

– Eu sei. Por isso, você vai pensar em algo.

– Não imagino nada. Acho que seria mais fácil contar a verdade a ela. Emy é compreensiva, poderia até te ajudar.

– Não, isso é uma coisa pessoal minha, não quero mais envolvidos ou pessoas sabendo. — Exaltou-se.

Instintivamente fui para atrás quando ela abruptamente se sentou na cama. Olhava-me séria, embaixo dos seus olhos tinham olheiras escuras. Os cabelos estavam parecendo um ninho de tão embaraçado. Ao esticar a mão, pegar meu óculos e ataca-lo contra porta, pensei que me agrediria.

Mais rápido que a minha embaçada visão acompanhando a trajetória dos óculos foi o seu som, se quebrando na porta e depois no chão.

– Qual é o seu problema? — Perguntei irritado.

Tudo não passava de cores e formas turvas, posteriormente geraria uma intensa dor de cabeça, que já se mostrava proeminente.

– Sairemos nesse final de semana para comprar óculos novos. — Disse com um ar de divertimento.

– Enquanto isso faço como? Eu tenho aulas e deveres. Como farei pra ir no banheiro?

Meu grau de miopia e astigmatismo era já de nível cirúrgico, porém meu pai me achava muito novo para realizar a cirurgia, por isso, meus óculos eram como novos olhos. Eu era muito dependente deles.

– Não tem aqueles reservas?

– Os tortos que você sentou em cima?

– Esses mesmo. Use-os enquanto isso. Aproveite e hoje mesmo já ligue para Emy.

– Se eu conseguir. — Sussurrei suspirando.

Ficamos em silêncio, supunha que me encarava.

– Só isso? — Perguntei.

– Acho que sim. — Respondeu transmitindo insegurança.

– Então preciso que alguém me leve de volta ao meu quarto. — Sorri. Escutei um lamento baixo. — Você está bem?

Foi a única pergunta que consegui pensar.

– Não. — Estava instável e contida.

– Pode chorar, estamos só nós dois, ninguém vai ficar sabendo. Já te vi chorar muitas outras vezes, não precisa ter vergonha ou se conter. — Sorria da forma que eu considerava a mais acolhedora possível.

Ela sorriu de forma meiga, seus olhos já estavam cheios de lagrimas. Me aproximei dela e a abracei. Seu abraço foi forte, pude sentir bem o peso do seu corpo e principalmente o peso de tudo aquilo que passava. Iniciou com uma fungada no nariz, mas logo que soltou a primeira lagrima, desabou. Chorou e soluçou como uma criança, conforme intensificava-se foi apertando-me cada vez mais.

Sentia falta da minha irmã, da irmã que sempre voltava das férias com mil notícias para me contar e uma saudade estampada no rosto. Poderia soar rude ou muito pior algumas vezes, mas naquela hora não se encontrava tão frágil como no dia que perdemos nossa mãe.

– Eu estou tão... – Falou quase incompreensível.

– Eu sei... – Afaguei-lhe os cabelos.

Permanecemos juntos por longos minutos até nos soltarmos e ela colocar a cabeça no meu colo enquanto lhe fazia carinhos. Vick abraçava o próprio corpo como sentisse frio ou tivesse tido contato com um corpo estranho. Havia deixado meu ombro úmido com o choro e provavelmente faria com a minha calça.

– Eu sou uma pessoa horrível. – O choro deixa a compreensão de sua fala horrível.

– Não é. – Tentava lhe acalmar.

– Sou sim. Com todos... Todos me odeiam.

– Eu te amo, seus amigos te amam, papai te ama e mamãe sempre te amara.

– Não sei como conseguem. Passo por cima de todos por aquilo que quero. Magoei-te inúmeras vezes...

– Somos irmãos, às vezes magoamos uns aos outros.

– Nunca aconteceu com você. – Vick me encarou. – Eu sinto muito.

Poderia ter derretido naquela hora. Demonstrações de carinho vindo da minha irmã eram tão raras que poderia contá-las apenas com os dedos da mão.

– Não me magoaria por tão pouco. — Tentei tranquilizá-la. — Sou mais forte do que pensa.

Afaguei-lhe os cabelos.

– Só queria que tudo passasse e eu parasse de magoar as pessoas no caminho.

– É quase impossível não fazer isso.

– Pelo menos com quem me importo. Você e Marc.

– Gosta. E me dói dizer que devo amá-lo, pois ele é um cachorro. Mas dessa vez está certo, eu ultrapassei todos os limites...

– Se refere àquilo?

– Não deveria ter abortado sem avisar ele.

Fiquei pensativo. Conversei com Sam. Logo que sabera do aborto, ela havia me mostrado uma nova perspectiva das coisas e decidi compartilhá-las com Vick. Apesar de não estar cem por cento convencido desses pensamentos.

– Não acho que isso tenha sido um erro. — Essa frase lhe chamou a atenção ao ponto de me olhar fixamente. — Você que teria a criança e teria que cuidar dela.

– Ele falou que me ajudaria, que até casaria se precisasse. – Interrompeu-me.

– Não seria ele a carregar por nove meses e nem amamentaria por mais um ano ou mais. Às vezes, ou melhor, muitas vezes, temos que tomar decisões pertinentes a nós mesmos sem a opinião dos outros.

– O envolvia, era o nosso filho.

– Sua saúde.

– Eu o magoei.

– Ele vai te perdoar, não pode ser tão egoísta. Na verdade, eu até prefiro que arrume outra pessoa. — Fui sincero

Não sei se aquelas palavras lhe ajudaram ou pioraram, porém ela voltou a chorar. Foi um longo choro, pensei por um momento o quanto precisaria chorar até desidratar.

– Quer que eu cante?

Não me respondeu, limitou-se a acenar positivamente com a cabeça. Fechei os olhos e cantei a primeira canção que veio á mente:

Drifting through the halls with the sunrise

Holding on for your call

Climbing up the walls for that flashing light

I can never let go

I'm gonna be free and I'm gonna be fine

Holding on for your call

I'm gonna be free and I'm gonna be fine

Maybe not tonight

And the sun is up and I'm going blind

Holding on for your call

Another drink just to pass the time

I can never say no

I'm gonna be free and I'm gonna be fine

Holding on for your call

I'm gonna be free and I'm gonna be fine

Maybe not tonight

It's a different kind of danger

And the bells are ringing out

And I'm calling for my mother

As I pull the pillars down

It's a different kind of danger

And my feet are spinning around

Never knew I was a dancer

'Til Delilah showed me how

Too fast for freedom

Sometimes it all falls down

These chains never leave her

I keep dragging them 'round

Now I'm dancing with Delilah

And her vision is mine

Holding on for your call

Different kind of danger in the daylight

I can never let go

Took anything to cut you I can find

Holding on for your call

Different kind of danger in the daylight

Can't you let me know?

Now it's one more boy and one more line

Holding on for your call

Taking the pills just to pass the time

I can never say no

Took anything to cut you I can find

Holding on for your call

Different kind of danger in the daylight

Can't you let me know?

Strung up, strung out for your love

Hang in, hung up, it's so rough

I'm rung and ringing out

Why can't you let me know

Strung up, strung out for your love

Hang in, hung up, it's so rough

I'm rung and ringing out

Why can't you let me know

Too fast for freedom

Sometimes it all falls down

These chains never leave her

I keep dragging them 'round

– Queria que tudo voltasse a ser como antes. – Comentou baixo achando que eu não ouvia.

Fiquei com ela por mais quase uma hora antes de ir embora, só tinha um problema. Eu estava praticamente cego sem os óculos e precisava chegar ao meu dormitório do outro lado do prédio sem ser pego.

– Vai me levar até meu quarto? – Lhe perguntei.

– Não, vou pedir pra alguém te levar. Não posso ser vista neste estado.

– Eu já não te vejo. – Ri.

– Quem vai me levar?

– Seu amorzinho. – Alguém falou na minha frente.

Por um momento, pensei ser Camille.

– Camille?

– Por acaso tenho cara de puta?

– Não vejo, mas diria que não.

– Não reconhece a voz de sua esplêndida amiga, Sam?

– Sam.

– Meu nome. – Ela riu.

Senti sua mão puxar a minha e seu braço esquerdo domar o meu direito.

– Até amanhã. – Me despedi de Vick, porém não obtive resposta.

– O que fazia no quarto da sua irmã? – Sam perguntou.

– Apoio fraternal.

– Entendi... As gêmeas Weasley chegaram no meu quarto falando que você precisava de mim e que estava no quarto da sua irmã. Fiquei preocupada.

Sorri para ela.

– Muitas coisas em pouco tempo. Ela vai ter que ir no hospital e precisa da minha ajuda pra ir.

– Que tipo de ajuda?

Sam continuava a me guiar, apesar de eu não ser um “cego” muito esperto. Abruptamente, senti forçar-me a abaixar e desviar de algo.

– O quê...

– Shiuuu!! Tem algumas Irmãs passando. – Esclareceu.

Eu estava agachado, supunha que Sam estivesse tentando me esconder com o próprio corpo quando lembrei que tinha uma tarefa por fazer exatamente depois do última aula e estava muito atrasado.

– Preciso que me leve na sala da Irmã Nancy. – Lhe sussurrei, para se no caso, as Irmãs estivessem por perto.

– Por que, já estamos na metade do caminho.

– Tenho que receber uma detenção.

– Fez o que?

– Andei pelos corredores após o horário ontem e fui pego.

– Que azar. Irmã Nancy é a mais megera, com certeza, vai te esfolar vivo.

–x-

– Decididamente inaceitável. Sr. McCarthy, o Sr. Stanilau e eu estamos lhe esperando a quase três horas, espero que tenha uma boa justificativa pelo atraso. – A boca murcha e pálida da Irmã Nancy deveria estar contraída, como ficava quando estava irritadiça, ou seja, sempre.

Sam havia me deixado na frente da sala da megera, perto o suficiente para alcançar a maçaneta sem sofrer nenhum dano.

– Desculpe, Irmã. Acabei quebrando meus óculos assim que terminei o ensaio da peça, demorei para encontrar alguém e me trazer aqui. – Descaradamente menti.

A essa altura, já tinha forçado tanto minha visão que minha cabeça parecia querer explodir. A Irmã ficou em silencio, deveria estar avaliando se eu menti.

– Ainda assim, inaceitável. Sinto que terei que aumentar sua punição.

– Como queira, Irmã. – Falei.

– Sr. Stanilau, ajude-o a se sentar.

Devo admitir que me contrai receoso com o toque do outro. Segurou firmemente meu ombro e me guiou até uma poltrona.

– Serei breve devido ao atraso, ficarão responsáveis pela lavanderia aos finais de semana por tempo indeterminado.

– Sim, Irmã. – Falamos em uníssono.

– E Sr. McCarthy, espero que não se importe em ficar uma hora a mais até o termino do castigo na lavanderia, pelo descaso que teve comigo e o Sr. Stanilau ao se atrasar.

– Não, Irmã.

– Ótimo, por favor queiram sair da minha sala.

– Preciso de ajuda. – Falei ao escutar meu colega de quarto levantar.

– Acompanhe-o. – Ela ordenou.

Sem muitas cerimonias, Yerik pegou no meu braço, forçou-me a levantar e depois a andar. Permaneceu calado durante o trajeto, apesar de possuir a respiração ligeiramente descompensada. No quarto, fiquei por mais de uma hora procurando pelo par de óculos antigo até achá-los escondidos em meio a roupa intima. Eles estavam remendados e com a armação torta.

Era quase 21hrs quando liguei para Emy. Ela me atendeu no terceiro toque.

“Emy?”

“Blake, é você?”

“Sim, sou eu, Emy. Preciso de sua ajuda...”

“Está tudo bem, meu querido? Seria para que?”

“Preciso que me busque na escola na sexta. “

“Por quê, está com algum problema?”

“Quebrei feio meus óculos e agora estou com os antigos. Não queria ligar para o papai, ele ia brigar comigo. Por isso, que levarei a Vick comigo no oftalmologista.”

“E ela concordou em ir?”

“Ela própria que se ofereceu.”

“Inacreditável, será que o convívio religioso finalmente deu resultados e amoleceu aquele coração de pedra?”

“Vick está mudando, a vida está lhe fazendo isso.”

“Aconteceu alguma coisa com ela?

Nesta hora, prendi a respiração.

“Nada especificamente.”

“Tudo bem, mas terei que falar com o seu pai.”

“Eu sei, só queria adiar mesmo. Não queria que ele pensasse que sou irresponsável e nem sirvo para cuidar dos meus óculos.”

“Compreendo, Blake. Mas no fim a verdade sempre tem que permanecer.”

“Mesmo quando ela vai nos machucar?”

“Sim, sempre sem exceções.”

“Obrigado, Emily.”

“Tem mais alguma coisa? Sinto que me esconde algo.”

“Não, absolutamente nada.”

–x-

– Ainda não consigo me acostumar com esses óculos. – Falei no refeitório.

Eu estava sentado com Beth e Sam, jantávamos. Emy chegaria em alguns e minhas coisas já estavam devidamente arrumadas para serem carregadas no meu quarto.

– Com certeza não está se harmonizando com o seu rosto. – Beth comentou.

Naquele dia ela estava uma confusão de cachos ruivos, havia deixado os cabelos soltos e por conta de algum produto cosmético tinham acentuado os cachos. Nas sextas, os alunos se livravam dos uniformes, por isso, estava vestida com uma larga blusa de tricô cor terrestre, calça de moletom e pantufa em formato de lua dourada.

– Resumidamente está horrível. – Sam sorriu, seu comentário não possuía maldade.

Aquela noite as garotas deviam ter decidido inconscientemente deixarem todas os cabelos soltos, pois Sam também estava com os seus livres, como cascata de chocolate amargo.

– Vai sair, não vai? – Sam perguntou antes de tossir.

– Vou para casa, preciso dar fim ao treco capengo na minha cara. – me referi aos óculos.

– Tem sorte, enquanto temos que ficar aqui até as festas.

– Pode ir comigo ver sua vó. – Sugeri.

– Irei, a vovó só tem olhos para você. Se eu não tomo a atitude de vê-la, ficamos meses se nos vermos. – Temi que tivesse um ressentimento escondido em suas palavras.

– Plutão. – Beth comentou aleatoriamente.

– Não é mais planeta, sabemos. – Sam respondeu.

– Não, digo que Plutão vai incidir com intensidade pelos próximos meses. Sinto mudanças drásticas para acontecer em nossas vidas. Mortes talvez.

– Devia se batizar e parar de ser bruxa wicca. – Sam debochou.

– Só se prepare. – Arqueou as sobrancelhas.

– Deve ser sobre seus óculos, Blake. – Ela ria.

– Não acredito muito em astrologia, Beth.

– Eu acredito, por isso vou ser astróloga.

– Vai passar fome e vender arte ou prever o futuro nas praças em Filadélfia.

– E você nem vai me ver fazer isso porque vai morrer com essa tosse que não sara nunca.

– Vou passar ela pra você, assim descobre uma poção para me curar.

Sam foi para cima de Beth forçando uma falsa tosse em cima dela. Ignorei-as quando vi Jesse entrar no refeitório junto de Abigail e uma aparente mal humorada Charlotte, ela sempre estava de mal humor. No caminho para suas mesas o vi tropeçar em uma cadeira e cair de cara no chão. Os poucos presentes riram da cena, com exceção de suas amigas, eu, Sam e Beth, que ainda encontravam-se entretidas em se agarrar.

Jesse se levantou desajeitado, ajustando os óculos redondos no rosto. Voltando a andar acabou tropeçando de novo, desta vez na perna de um dos amigos de Vick. Estava acompanhado habitualmente pelas mesma pessoas que eu não fazia questão de lembrar os nomes, incluindo Marc e excluindo as gêmeas e Vick. Todos riram quando o outro caiu.

– Cuidado por onde anda. – O causador daquilo falou rindo.

Jesse limitou-se a ficar vermelho e a dar passadas rápidas para longe daquele grupo.

– Patético. – Pude ler a pronuncia nos lábios de Marc, ele estava distante, porém não sabia julgar se falava de Jesse ou de outra coisa.

– Sempre foi assim? – Virei-me para minha amigas.

Elas estavam muito próximas, quase se beijando.

– O quê? – Soltei assustado.

Devo ter sido exagerado na reação, pois elas se soltaram abruptamente e quase caíram de suas respectivas cadeiras. Repensei no que vi e conclui que só deviam estar muito próximas uma da outra, não iam se beijar. Eu deveria ir mais na igreja e rezar para livrar-me desses pensamentos impuros, pois já estavam afetando até meu discernimento.

– O que perguntou? – Sam foi a primeira a se recuperar, parecia ligeiramente rubra, porém sua pele amorenada enganava bem. O que não podia se dizer da de Beth.

– Sobre aquilo que acabou de acontecer com Jesse.

– O que aconteceu?

– Um dos amigos de Marc fez Jesse cair e ele nem se manifestou.

– É.

– Não notou? – Beth me perguntou.

– O quê?

– São ao menos colegas, estão no mesmo clube e ano até.

– Não vivemos no Glee onde os populares se misturam e defende os perdedores dos seus ex-amigos. Aqui é cada um por si, não existe clubes escolares de perdedores, a não ser o de matemática. O que vai definir o seu status social é com quem anda.

– Então, se ele ajudasse o Jesse seria como uma declaração de amizade?

– Mais ou menos isso.

– E nós seriamos considerados o que?

– Nós temos uma vagabunda, uma bruxa e você. – Sam continuou falando.

– Trio de ouro. – De novo Beth falou aleatoriamente. – Acredito estarmos a margem, não somos nem perdedores ou populares, somos invisíveis. Ao meu ponto de ver, isso pode até ser bom.

– Você surge sempre assim, né. Do nada. – Sam riu.

– Só porque estou distraída, não quer dizer que eu não pense ou preste atenção.

– O que você acabou de dizer é meio contraditório, não tem como ser distraída e prestar atenção ao mesmo tempo, é impossível.

– Pois digo que é possível e sou capaz disso.

– E qual seria a sua avaliação, Sam? – Interrompi o que seria o início de um debate.

Sam e Beth tinham essa mania, debatiam por quase tudo. Muitas vezes era engraçado, porém muitas vezes também irritava ou desviava sobre o assunto principal e inicial.

– Acho que vocês dois tem uma reputação a se construir, eu já tenho a minha. Beth pode acabar levando um pouco dela, mas não acho que aconteça, somos bem diferentes. E você Blake, tem a sombra da sua irmã.

– Qual é a sua fama?

– Puta. Chegar de outro colégio interno, só que exclusivamente feminino não ajudou a ter uma malicia contra os garotos. Resumidamente, no meu primeiro ano fui um alvo fácil para os garotos mais velhos. Aprendi com o tempo e agora prefiro usá-los do que ser usada. – Esbugalhei os olhos. – Mas é claro, que nem com todos faço isso. – Completou fazendo-me uma caricia no queixo.

– Não me importo muito com tudo isso. – Falei.

– Prefiro gastar meu tempo aprendendo mitologia celta, do que me importando com reputações.

– Fazem certo. Meu conselho como veterana é se manter longe do sistema para não serem corrompidos.

– Falou como uma cubana. – Beth riu.

– Blake. – Escutei alguém me chamar.

– Oi. – Respondi sorrindo.

Era a Irmã Nancy, sentia que bruxa estava me perseguindo, cheguei a me assustar quando a vi.

– Sua presença é solicitada na sala da Diretora e Irmã Marie.

– Por quê?

– Quem quer sua presença é a Irmã Marie, como eu saberia? Não se atrase, ao contrário de mim, a Diretora não é tão tolerante a atrasos.

Assim como apareceu sorrateira, foi-se.

– Fez alguma coisa? – Perguntaram-me juntas.

Fiquei pensativo, várias coisas me ocorreram em mente, mas nenhum de importância para ser chamado na diretoria.

– Não que eu ache.

– Então você não é uma pessoa muito boa em achismo. – Beth falou.

– Acho melhor você ir. A megera Nancy está olhando para cá com cara de bunda. Ou melhor, ela só está olhando para cá, porque a cara de bunda é de praxe.

– Vou indo. – Me despedi delas.

Quando eu estava na metade do refeitório, Sam gritou por mim.

– Blake, espere. Vou com você.

– Por quê? – Fiquei curioso.

Sam correu na minha direção.

– Preciso conversar com a Diretora para conseguir uma saída especial para verificar a minha tosse. E como nunca consigo falar com ela vou aproveitar a oportunidade e falar agora.

– Ela não vai se chatear? Ordenou me chamar e você aparece junto.

Sam sorriu.

– Só vamos saber isso se eu for.

Caminhamos em direção ao prédio Principal. As salas dos funcionários dignos de ter uma sala ficam no último andar, nessa semana mesmo, já havia frequentado duas vezes aquele andar, ambas para ir à sala da Irmã Nancy. Estávamos no sexto andar, perto da biblioteca quando encontramos Vick.

Ela estava diferente da última vez que a tinha visto. Os cabelos estavam bem penteados para atrás e presos em um rabo de cavalo, vestia-se preparada para o inverno cada vez mais próximo. Possuía somente alguns traços de abatimento na face.

– Vick! – A chamei.

Assustada, fez uma expressão de espanto.

– Blake, o que faz aqui? – Parecia suspeita. – E com Samantha? – Completou com meio desgosto.

– Fui convocado pela Diretora.

– Fez alguma coisa?

– Não que eu me lembre.

– Ninguém nunca é chamado ao acaso, deve ter feito alguma coisa...

– E você o que está fazendo aqui a essa hora da noite em plena sexta-feira? – Sam interviu, senti amargor na sua fala.

– Não te interessa, White. – Chamou Sam pelo sobrenome como se fosse uma ofensa.

– Deve estar se esgueirando por ai cuidando da vida de alguém já que a sua está tão horrível.

Fiquei boquiaberto com aquele pronunciamento, a reação de Vick foi contraria, ela sorriu, um velho, perigoso e conhecido sorriso.

– Não, querida. Sege alguém menos.

– Tenho que ir. – Peguei na mão de Sam querendo evitar um atrito maior.

Já me afastava quando percebi que Vick nos acompanhava de longe.

– Por que nos segue? – Perguntei.

– Não estou seguindo vocês. Quem está seguindo você é ela, eu estou indo aonde fui chamada.

– Vai para onde?

– Diretoria.

– Então os irmãos aprontaram. – Sam se pronunciou.

Eu e Vick fizemos uma intensa troca de olhares, pensávamos na mesma coisa e esperávamos que não fosse pela mesma coisa. Ao chegarmos em fim no último andar, andar pelo corredor pareceu mais uma marcha fúnebre.

Entrei na sala da Irmã Marie acompanhado de Vick e Sam e muito receoso. Como se algum animal estivesse no outro lado e fosse me atacar assim que abrisse a porta. Temi que tivessem descoberto alguma coisa que nos complicasse. Só que a cena que nos deparamos comprovava muito pelo contrário.

Emily estava na poltrona de frente a Irmã Marie, ambas riam enquanto tomavam um liquido quente em xicaras de porcelanas branquíssimas. Pareciam duas vovós inglesas tomando chá e comendo biscoito. Senti-me aliviado

– Vovó. – Sam passou por mim e Vick.

Ela não parecia ter recebido o mesmo choque que recebemos ao ver aquela cena. Na escrivaninha da diretora havia delicados biscoitos de baunilha com minuciosos detalhes em lilás.

– Samantha. – Emy levantou-se e recebeu a neta nos braços.

Sam era poucos centímetros mais alta que a avó só que pela juventude acolhia bem a senhora nos seus braços. Emily lhe cheirou os cabelos antes de afaga-los.

Era a primeira vez que eu a via acompanhada por um parente. Inevitavelmente senti um pouco de inveja. Mesmo que eu tivesse de certa forma a roubado de Sam, ou melhor, ter roubado a sua presença na infância de Sam, ainda não teria aquele tipo de amor. Um amor puro e sanguíneo, materno.

– Pensei que lhe esperaria na entrada. – Vick foi indelicada, cortando o momento.

– Não podia perder a oportunidade de rever uma velha amiga. – Emy olhou para a Irmã Marie, tinha soltado Sam e só mantinha o contato com os dedos.

– São amigas? – Vick parecia indignar-se.

– Estudamos juntas, Srta. McCarthy. Na época em que o St’Agnes era apenas um colégio católico feminino. – A diretora respondeu. – Somos melhores amigas na realidade.

Olhando-a mais de perto, notava-se que estava um pouco mais acabada do que o normal, parecia mais pálida e os olhos mais profundos. Receei que tivesse sofrendo de algum mal.

Eu sorri abobado, minha amiga me acompanhava na expressão. Ver duas velhinhas amigas era muito fofo.

– Certo, espero que tenhamo-nos chamado aqui porque Emily estava aqui. – Vick se dirigiu a Diretora.

– Sim, foi exatamente por ...

Vi toda a cena em câmera lenta, a Irmã Marie ficou mais pálida e perdeu a resistência nas pernas. Por impulso fui para frente na intenção de ampará-la. Felizmente obtive êxito e ela era pesada.

– Marie! – Emy se exaltou.

Da mesma forma que teve o lapso, retornou a consciência. Fiz com que se sentasse na própria cabeça enquanto ainda estava meio zonza.

– Sam e Vick procure por ajuda. – Emily ordenou.

As duas obedeceram sem falar nada e saindo o mais rápido possível.

– Eu estou bem. – A Irmã falou fraca.

– Não está não. Acabou de desmaiar.

– Só deve ter sido uma queda da pressão.

– Marie, já não tem mais idade. Não pode descuidar com a saúde.

– Eu não me alimentei direito deve ter sido por isso.

Emy fez um som de desaprovação.

A porta se abriu violentamente, um homem alto entrou por ela seguido por Sam e Vick. Vestia-se todo de branco, o cabelo era negro e possuía uma barba falha por fazer. Era bonito, jovem e tinha olhos verdes.

– Irmã Marie. – Falou, possuía voz grave.

Enquanto atendia a Irmã, os outros presentes se limitavam apenas a observar o enfermeiro fazer seu trabalho. Durou quase dez minutos para dar o diagnóstico.

– Queda da pressão. – Falou.

Seus dentes eram extremamente brancos, diria até que era dentista, ao invés de enfermeiro. Ele deu um sermão leve na Diretora, porque ela era Diretora, não se pode ser muito agressivo com a pessoa que pode te demitir. Pedimos autorização a ela para sair e não obtivemos dificuldades em conseguir, somente Sam que preferiu falar outra hora com ela porque achava a sua questão menos importante, o que gerou um olhar preocupado vindo de mim.

Vó e neta ficaram juntas até Vick e eu pegarmos nossas respectivas mochilas e encontra-las na entrada, confidenciavam. Depois de uma despedida calorosa retornamos para casa.

No dia seguinte tomamos café da manhã cedo, sem meu pai como sempre. O clima era pesado. Emy parecia ter chorado, acho que devido a amiga. Vick e eu saímos ainda de manhã para ir no meu oftalmologista e depois no médico dela.

A minha consulta foi rápida, não havia ocorrido mudanças no meu grau, só que infelizmente os óculos só estariam prontos na segunda-feira, consequentemente Emy ou meu pai teria que levá-los até mim.

Tivemos que sair da cidade para evitar falatórios.

– Não vou ao médico, vou a uma clínica especializada que é melhor. – Vick falou no trajeto enquanto íamos de taxi.

– Isso faz parecer mais oficial. – Falei.

– Eu sei. Pesquisei uma em uma cidade maior que a nossa, só que próxima.

Não tinha muito o que dizer. Ao chegar na cidade passamos por alguns prédios de altura média até chegar em um bairro bem arborizado e repleto de clinicas das mais variadas especialidades. Vick mandou o motorista para em uma similar a todas as outras, o pagou e ele partiu.

A clínica era clara e simples, com uma recepção comum e uma área de espera comum, fiquei nesse lugar enquanto minha irmã resolvia a papelada. Ela retornou com alguns papeis e ficamos calados. Anunciaram o seu nome e foi-se a realizar o que devia ser feito.

O tempo nunca demorou tanto para passar quanto demorou para Vick sair daquela clínica. O que se pareceu mais de dez horas, foi pouco mais de duas horas e meia. Fiquei nesse tempo vagando pela entrada, o bairro do entorno e por fim, sentar na recepção e conversar com Mick.

Mick:

Sinto muito se lhe causei ou ofendi com alguma coisa.

A mensagem era um pouco antiga.

Blake McCarthy:

Só vi sua mensagem hoje, nem me lembro do que fez ou se fez algo que me ofendesse.

Não vi que estava online, esperava mandar aquela mensagem e só receber a resposta no dia seguinte.

Mick:

Pensei que se tratasse disso, está tão distante ultimamente. Está bem? Sei que saiu da escola nesse final de semana.

Blake McCarthy:

Tive que sair para comprar um óculos novo, o meu quebrou. Saber que você estuda comigo a mais dois meses e não sei quem você é me irrita.

Mick:

Ainda não me sinto seguro quanto a isso. O que está fazendo no momento?

Blake McCarthy:

Estou no médico com a minha irmã e você?

Mick:

Sua irmã está bem? Faço a lição de Geografia, ela poderia ter passado algo mais fácil.

Blake McCarthy:

Estamos em uma clínica resolvendo um probleminha de um outro problemão. Posso te contar uma coisa? Mas preciso que você não me julgue.

Mick:

Pode me contar qualquer coisa, sabe que sou a última pessoa a julgar qualquer coisa.

Blake McCarthy:

Meu colega de quarto me beijou.

Mick:

E você gostou?

Blake McCarthy:

Foi errado, me afastei e rezo por esse ato todos os dias.

Mick:

Não respondeu minha pergunta, procure no fundo do seu interior e responda.

Decidi que era o momento certo para encerrar nossa conversa. Ele me mandou mais mensagens, porém as ignorei por mais que doesse. Não tinha cabeça para pensar naquilo que esperava que eu refletisse.

Demorou mais meia hora para Vick sair do consultório, estava pálida e se abraçava. Não sabia se era uma ação involuntária de auto proteção ou se sentia frio. Automaticamente fui até ela e a abracei. Fomos até a recepção onde assinou alguns papeis.

– Você está bem? – Perguntei porque era o mais fácil de se perguntar.

– Não.

– Vai ficar. – Afirmei.

Um táxi nos esperava, eu o tinha chamado depois que anunciaram que Vick estava por sair.

– Acha que fiz a coisa certa? – Entravámos no taxi.

Essa pergunta tinha duas respostas obvias, uma seria sincera e a outra a certa. Optei pela certa, não era o momento para a sincera.

– Fez...

– Mas por que não sinto isso?

– Porque nem sempre o certo é o mais fácil ou agradável.

Notas finais
A estória começará a tomar um novo rumo, próximos cap. mais marcantes. Querem dizer algo: http://ask.fm/BjsInimig Comentem, isso é legal.